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sábado, 1 de março de 2014

Literatura no Berço – para pais e mães nerds


roteiro_literatura_de_berço (Foto: Débora Nazari)

Literatura de Berço é  destinado às mães e pais de bebês com idades entre 3 e 18 meses. Neste encontro serão lidos os poemas de Carlos Drummond de Andrade e os pais e mães compartilharem suas experiências, enquanto os poemas do autor mineiro são lidos e os bebês brincam.
O  evento  que ocorrerá no  dia 12 de março, das 14 às 16 horas, na Casa das Rosas.
Quando: dia 12 de março, das 14h às 16h
Onde: na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37)
Inscrições: pelo telefone (11) 3285-6986
Quantidade de vagas: 13

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

As armas de brinquedo e os ladrões de verdade

Clint Estwood foto promocional


Dia 12 de Janeiro foi publicada a Lei15301/2014 do Estado de São Paulo proibindo a fabricação e vendas de armas de brinquedo no Estado de São Paulo.

Isso me remeteu a minha infância quando havia uma campanha pelo desarmamento infantil (que foi ressuscitada recentemente) e meu pai decidiu não mais comprar armas de brinquedo para mim. Porém as brincadeiras de rua eram todas baseadas em tiros, exércitos e similares. A solução foi eu fabricar minhas próprias armas pra poder participar, construindo-as com monte-pinos, um brinquedo da época com pinos que podiam ser encaixados uns nos outros. Cheguei a fazer um revolver com tambor.

O curioso é que meu pai tinha uma arma em casa, uma pistola 45. A arma nunca chegou a ser usada e eu cresci me tornando pacifista.

O que esperam os legisladores? Evitar que as crianças se tornem bandidos do futuro (como o slogan da campanha de desarmamento infantil da minha infância “Hoje mocinho, amanhã bandido”)?

Parte das brincadeiras de criança produzem o que se chama de catarse, uma liberação de tensões a partir do drama que se desenrola na brincadeira. Na vida real as crianças não são nem policiais nem bandidos, mas fingem ser. Aliás o difícil na brincadeira é encontrar vilões, por que todos querem ser heróis. Normalmente isso é resolvido por um rodízio ou por um sorteio, ou se luta contra vilões imaginários. Após a brincadeira todos vão pra casa mais leves, pois as frustrações foram descarregadas pelos tiros imaginários contra os vilões imaginários. O professor que me deu uma nota baixa não precisara morrer de verdade, pois ele se transformara no comandante das tropas inimigas, vergonhosamente derrotadas.

Ao impedir a catarse, os nossos governantes podem estar atingindo o efeito oposto. É como suprimir o pino da panela de pressão. Uma metáfora interessante é o do filme Gremlin. O bonzinho carregava dentro de si todas as distorções sociais.

Aliás estão perto de ver algo acontecer ao reprimirem com violência os “rolezinhos” das pessoas “diferenciadas”.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Modelo do Ano



Dois nerds, interessados em viagens no tempo, tem suas vidas modificadas por quando um deles se apaixona por um garota misteriosa. O outro segue em frente com suas pesquisas. Tempos depois se reencontram. Quem era a garota misteriosa que sumiu na poeira do tempo?

Conto meu, originariamente publicado na coletânea Time Out, em ebook na Amazon.


Esta configurado para o Kindle, porém é possível converte-lo para outros formatos ou usar um aplicativo gratuito para PC ou Tablets, disponibilizado pela própria Amazon.

Para obter o ebook, clique aqui.



quarta-feira, 25 de maio de 2011

Dia da Toalha – Dia do Orgulho Nerd

Hoje é um dia especial para os nerds de um modo geral e para os fãs de Mochileiros das Galáxias em especial.

É porque, em todo o mundo ocorre uma dupla comemoração:  o Dia do Orgulho Nerd e o Dia da Toalha. 

O Dia do Orgulho Nerd marca a estréia mundial do filme Guerra nas Estrelas, que ocorreu em 25 de maio de 1977. Este filme inaugurou não só uma nova fase nos filmes de fantasia como exacerbou um comportamento que antes só algumas pessoas “desajustadas” tinham: o do fã que quer saber tudo sobre sua série preferida, custe o que custar. 


Embora os fãs de Jornada nas Estrelas já fizessem isso, até de forma organizada, o comportamento nerd ganhou força a partir de então.  Aliás, o primeiro filme para o cinema de Jornada nas Estrelas foi às telas apenas em 1978, aproveitando a porta aberta pelo seu rival. 


 


E daí ela ficou escancarada. Veio Battlestar Galática também em 78 (que virou uma série e ganhou uma remake em 2003), Senhor dos Anéis, os RPGs ganharam força e assim por diante. 



Battestar Galática 1978


A porta aberta pelo cinema também deu passagem para que outros nerds mostrassem a face: leitores de Ficção Científica, Fantasia e Terror (em especial Vampiros) e os nerds clássicos puderam respirar em paz, ganhando até uma série televisiva, Big Bang Teory.

Os fãs de Douglas Adams  também nerds e, por coincidência (ou não) escolheram em 25 de maio de 2001 para homenagear seu autor preferido, que falecera 14 dias antes. A toalha é um objeto que todo nerd deve ter, segundo Douglas Adams, porque se um mochileiro tem uma toalha, quem lhe der carona pressupõe que ele tem todo o resto necessário. Como este útil pedaço de pano tem uma relevância fundamental, os nerds-mochileiros a escolheram para simbolizar sua homenagem. Neste dia o mínimo que um fã desta série deve fazer é ostentar uma toalha.

Assim, o Pai Nerd deseja a todos um feliz Dia do Orgulho Nerd ou um Feliz dia da Toalha. Ou ambos!

terça-feira, 8 de março de 2011

Meninas, o que a mídia tem lhes ensinado?

No dia internacional da mulher, um alerta do Pai Nerd às meninas que estão em busca de uma beleza que não existe.


Leia mais no blog Terapia em dia

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Luke, eu sou seu pai

Será que a revolta de Luke contra o Darth Vader não é um simples choque entre gerações?

Veja este vídeo da banda Os Seminovos e tire suas conclusões:


terça-feira, 20 de julho de 2010

Pousar na Lua valeu a pena?

Hoje fez 41 anos que homem pousou na Lua. Eu acompanhei o fato com olhos de menino e fã de Ficção Científica. Como todos na época, vi desde os primeiros passeios extra-nave, os ensaios das Apolos 8, 9 e 10, o lançamento e finalmente, o pouso na Lua.



Para os fãs de Ficção Científica este seria o primeiro passo para o conquista do espaço. A corrida espacial já tinha colocado tanto a ficção científica russa quanto a americana no imaginário dos leitores de todo o mundo.

Vivíamos tempos difíceis. No mundo, a Guerra Fria, com destaque para a Guerra do Vietnã; em Paris, Maio de 1968 ainda estava ecoando. No Brasil, a ditadura militar sufocando o futuro. 
A conquista do espaço parecia algo possível, que traçava um possível amanhã otimista. Construir modelos de futuro onde ela aparecia foi o palco de vários romances e filmes de FC. O Universo parecia estar ao nosso alcance.

Hoje, temos uma realidade diferente. A tecnologia não nos colocou no espaço. Nem se tornou uma fonte de felicidade, só de objetos de consumo. Não estamos mais no Brasil sob a égide de uma ditadura, mas há a sombra de uma crise econômica mundial. No mundo, não temos mais a Guerra Fria, mas uma guerra sem quartéis de terroristas e invasões de um império decadente e o movimento estudantil é um arremedo do que foi em 1968. 



Contudo, há o que se comemorar. Um dia fomos capazes de "navegar por mares nunca dantes navegados" e "ir aonde nenhum homem jamais esteve" e, em 20 de julho de 1969, pousamos na Lua com uma nave precária e trouxemos mais do que rochas e poeira de lá. Toda a Humanidade passou a saber que é possível. E ainda é.

Valeu a pena? "Tudo vale a pena se a alma não é pequena..."

terça-feira, 25 de maio de 2010

Guerra nas Estrelas e o Orgulho Nerd

25 de maio de 1977 começava a saga de Guerra nas Estrelas.


Cartaz da Estréia de Guerra nas Estrelas


Em 1977 a ficção científica estava dominada por filmes cabeça, ainda no rastro de 2001, Uma Odisseia no Espaço e aparentemente nada de novo ameaçava surgir nas telas do cinema. Um diretor desconhecido do grande público, George Lucas ousou inovar. Ele já havia feito o elogiado THX 1138, que quase ninguém vira, um distopia aos moldes de 1984. Essa experiência fez com que ele pensasse de outra forma: a maioria as pessoas não querem ir ao cinema para terem dores de cabeça ao serem confrontadas com visões funestas de futuro. Elas querem principalmente se divertir. 


THX 1138 - Excelente distopia

Entretanto não era uma simples diversão que ele buscou em Guerra nas Estrelas. Seu projeto foi longamente construído, até se transformar na saga de seis episódios que conhecemos hoje. Sua preensão era ser, como ele confessou em uma entrevista incluída na série The Power of the Mith, um forjador de uma nova mitologia. 

Fã da psicologia Junguiana e do trabalho de Joseph Campbell, Lucas buscou em mitos que vão desde mitos gregos e romanos, passando pela a saga arturiana, histgórias de samurais, batalhas da segunda guerra mundial e temperou com a ascensão e queda de vários impérios, começando pelo romano. E convidou Campbell para ser seu consultor. Aliás, Campbell é o entrevistado em The Power of The Mith, e o programa foi feito no rancho Skywalker.


 I am your father

Guerra nas estrelas segue passo a passo a construção do Mito do Herói, descrito em por Campbell em O Herói de Mil Faces. Luke é o herói típico, que tem um destino maior que ele mesmo, que às vezes o aceita às vezes nega. Obi-wan representa o velho ancião (o "mestre palpiteiro"); a Força, o eterno devir, ou Yn Yang, o Tao, "o bafo do Dragão"; Darth Vader, o Sombra - a outra face do Herói que ele tem que derrotar para superar o grande mal (o Imperador ou o lado negro da Força). Lea é o Ânima, o lado feminino do herói, Hans Solo o companheiro "ladrão" do herói que pode "fazer o trabalho sujo", que o herói, por ter que ser perfeito, não pode fazer (roubar, ter contatos com o submundo, seduzir, enganar, etc..) e Chewbacca, o instinto animal. 


Quem foi ao cinema estranhou que a saga começava pelo episódio IV. Consta que a ideia foi de Campbell, para que houvesse um forte impacto quando Luke descobrisse que seu pai era Darth Vader. Quando um jornal da época (acho que foi a Folha de São Paulo) fez uma matéria sobre a pré estreia do filme, o colunista quase deu o maior spolier da História. Conhecedor da psicologia junguiana, o articulista fez uma analise detalhada sob este aspecto do filme e disse (segundo me lembro) algo como "não será surpresa quando se descobrir quem é Darth Vader". Um detalhe: Darth Vader significa "pai negro". Fico pensado hoje se algum nerd da época descobriu isso. Se existisse a internet... 


O fato de não ser uma ficção científica "cabeça" rendeu algumas críticas à saga, como sendo feita de filmes "rasos", "apenas diversão". Se for apenas diversão, que seja! Fazer algo divertido é que buscava Shakespeare ao escrever suas peças. Ser divertido não significa que o filme é vazio de conteúdo. Eu pergunto: um filme que mexe com um inconsciente coletivo pode ser um filme "raso"?


Jornada nas Estrela - Indo aonde nenhum homem jamais esteve 
Outro motivo de orgulho nerd


Raso, largo ou profundo, George Lucas conseguiu seu intento. Com o suporte de Campbell até O Retorno do Jedai (Campbell morreu pouco antes do término das filmagens), Lucas conseguiu construir um Universo próprio e pos no ar uma nova mitologia, colocando-se ao lado de Homero, Hesíodo, Virgílio e Camões. Sua atitude contribui para que se consolidasse também outras mitologias, como Star Trek (que já tinha uma legião de fãs, mas nenhum filme no cinema) e O Senhor dos Anéis. 


 
O Senhor dos Anéis 


Nada mais justo que considerar 25 de maio o dia do orgulho nerd! 

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Os paradoxos do horror




O menino assustado não desgruda os olhos da TV. A mãe sabe que ele terá pesadelos e o chama para ir deitar, mas ele se recusa. Quer ver até o final.

Esta cena parece comum. Lembramos que nós mesmos poderíamos ser aquele menino e mesmo hoje ainda nos assustamos com um ataque do Alien, ou sentimos calafrios a ver A Hora do Pesadelo ou sentimos a sensação de suspense ao ver um episódio de Além da Imaginação, ainda que tenha efeitos especiais extremamente toscos.

Diante desta constatação, surgem duas perguntas básicas:

Por que sentimos medo, suspense ou angustia diante de uma história que sabemos ser falsa?

Por que procuramos este tipo de literatura ou cinema, se sabemos que ela nos causará algum tipo de desprazer?

O fato de se existir histórias de terror e horror desde quando um homem de Cromagnon assustou seus companheiros de caverna aumentando um pouco o tamanho do tigre de dentes de sabre que o perseguiu, nos mostra a solidez deste gênero de histórias.

Tenho lido ou visto ao longo de minha vida vários livros e filmes que de uma forma ou outra se enquadram nestes gêneros. Também tive contato com várias teorias que tentam explicar este tipo de fenômeno, desde obras de filosofia e psicologia a prefácios de livros deste gênero de literatura. O que não me torna uma autoridade no assunto, mas pelo menos um leitor bem informado. E nesta categoria é que pretendo discorrer.

Uma das respostas possíveis à primeira pergunta é "a suspensão temporária da realidade", que ocorre em qualquer obra de ficção. Se assim não fosse, não poderíamos lidar com nenhum tipo de ficção, pois sequer riríamos de uma boa piada...

Esta suspensão não é plena, pois sabemos que se fecharmos o livro ou mudarmos de canal o monstro não estará mais ali (do contrário, seríamos sérios candidatos a uma consulta ao psiquiatra).

Como parte ou complemento desta suspensão, temos a identificação com os personagens (o herói, a vítima, o narrador ou até o monstro). Muitas vezes nos surpreendemos nos dizendo "isso poderia estar acontecendo comigo".

Apesar desta identificação, o nosso sentir muitas vezes não é o que o personagem pode estar sentindo. O detetive, no encalço de um assassino, passa por várias emoções, mas nunca o suspense (esta é uma emoção típica de um espectador, que às vezes sabe mais que o personagem). Mas outras, como o medo, a repulsa, alguns tipos de susto e o desejo sexual podem estar ligados diretamente ao personagem ao qual nos identificamos.

Isso parece ter respondido à primeira questão.

Entretanto, a literatura que explora o suspense, o terror ou o horror lida com emoções profundamente negativas. Será que nós, leitores de Drácula, somos todos masoquistas?

Claro que não!

Podemos elencar alguns motivos pelos quais nos aproximamos de uma obra deste estilo.

Fuga da vida moderna. Nosso corpo e nossas emoções estão preparadas para uma vida nas selvas, onde podemos ser vítimas ou predadores durante nossa busca pelo alimento. Porém estes problemas foram resolvidos e em vez de correr atrás do antílope ou fugir do leão, vamos ao mercado e compramos um bife e o único leão que enfrentamos é o do imposto de renda. Todavia sentimos falta desta vida pela qual fomos preparados ao longo de milhões de anos e buscamos isso nos livros e filmes de suspense e terror.

Experiência de transcendência. Esta é a tese de Lovecraft. Um bom enredo de horror nos coloca frente a frente com nosso medos primais, a ponto de termos a mesma experiência de um homem primitivo diante dos fenômenos da natureza. O racionalismo nos tira o medo do trovão que um homem das cavernas teria, mas ao empregarmos "a suspensão temporária da realidade", podemos atingir este mesmo estágio e termos o medo primal diante de Cthulhu ou outro monstro similar.

Rito de passagem. Uma boa parte dos filmes de terror e horror é voltada para o público adolescente, que quer provar para o seu grupo que tem coragem e demonstra isso comentando detalhes mais sanguinolentos de Sexta Feira Treze. Há um episódio de Doug onde isso é mostrado. Ele se sente inferiorizado frente a seus amigos por ter fechado os olhos no momento em que o monstro aparece na tela. Um outro bom exemplo são os "testes" do Zé do Caixão, onde ele fazia os candidatos a ator passar por experiências do tipo "comer minhoca" e só "os mais fortes" eram aprovados...

Catarse de emoções reprimidas. Nossa sociedade, além de resolver nossos problemas de sobrevivência, em contrapartida nos coloca uma série de restrições de ordem moral, a maioria das vezes arbitrária. Então, alegoricamente, nos recorremos a uma boa história de terror pra por pra fora esta repressão. Dentre estas restrições, a mais evidente é o sexo. O ato de penetração passa a ser os dentes do vampiro no pescoço da mocinha. Ou então a violência. Em vez de dar uma surra no meu vizinho inconveniente, torço pro herói matar o monstro na tela do cinema.

Trama complexa de mistério e descoberta. A maior parte dos enredos deste tipo (mesmo Sexta Feira Treze) envolve um problema que precisa ser resolvido, atingindo não mais nosso troglodita, mas o homem civilizado, que se encanta em resolver um bom mistério. Um bom exemplo é O Médico e o Monstro, onde só sabemos que o Médico e o Monstro são o mesmo ser nos últimos parágrafos da trama.

O suspense em si mesmo. Gostamos de torcer pelos personagens que estão passando por apuros e que não estão vendo que o assassino com a faca na mão está atrás da cortina. Isso está ligado á nossa capacidade de empatia, que nos permite ser solidário diante da dor do outro.

Identificação com o herói. A maioria de nós tem uma série de limitações de ordem física (somos fracos, feios ou carecas) ou externas (moro num "apertamento" minúsculo) que o herói não tem. É lógico que ele tem um monstro por dia pra matar, mas, e daí? Ele vai ficar com a mocinha no final... Então, por umas duas horas posso ser ele.

Identificação negativa. Às vezes nos identificamos não com o herói, mas com a vítima (que sofre alegoricamente o mesmo que sofremos no dia a dia) ou com o monstro, que após alguns maus bocados percebemos que ele é uma vítima da sociedade repressora como nós somos. É caso de King Kong (vítima da ganância) e do monstro de Frankstein (rejeitado pelo seu criador).

Efeito montanha russa. A montanha russa nos leva a uma situação de perigo aparente e depois de concluída, dá a sensação de alívio. Ao vermos um filme ou lermos um livro de terror ou horror ficamos aliviados ao saber que aquilo era apenas uma história. É o mesmo que calçar um sapato apertado pra depois ter o prazer de tirá-lo.

Alegoria sociológica ou política. Podemos usar o ambiente de um filme de horror para criticar ou exaltar a sociedade em que vivemos (o já citado King Kong, Jurassic Park, algumas histórias de zumbis, como Fido).

Estes foram os motivos que eu elenquei. Com certeza não são todos, mas são bem representativos. E quais são os seus motivos? Mas não racionalize muito, do contrário talvez o próximo livro ou filme de terror que você for ler ou ver não pareça tão interessante...


quarta-feira, 17 de março de 2010

A Ciencia desvairada dos Nazistas

George Orwell, em seu 1984, coloca uma forma de pensar dos membros de O Partido, da qual o duplipensar era parte integrante. A estrutura filosófica imaginada por Orwell, apesar da criatividade de seu autor, não veio do nada. O autor de 1984 inspirou-se na filosofia e na ciência nazistas. 




Quem leu o livro pode simplesmente ter pensado que seria altamente improvável alguém ser tão louco a ponto de achar que aquela filosofia pudesse ser verdadeira. Afinal, era apenas ficção. Entretanto, na Alemanha nazista, os ideólogos do partido criaram um corpo de ideias que parece ter saído do diário de um lunático. E essa ideologia foi adotada por um grande grupo de pessoas, inclusive cientistas de renome. 


Não estou falando aqui das teorias racistas nem das cobaias humanas. Estou falando da física, em especial da cosmologia.


Segundo Jaques Bergier, no seu livro O Despertar do Mágicos, um dia Hitler convocou sua equipe para que se encontrasse uma teoria de base científica sobre a qual se pudesse construir uma nova ciência, livre dos paradigmas da ciência ocidental. 



Isso seria possível, pois se levarmos em conta o pensamento de Thomas Khunn, só podemos construir um conhecimento através de modelos aproximados da realidade. Construímos uma teoria que poderá ser valida até que um fato ou um experimento crucial a desminta. Somos também baseados numa tradição. Uma nova teoria deve explicar tão bem o mundo quanto a teoria que ela derrubou. Por exemplo, a Teoria da Relatividade explica também o movimento de um trem, tal qual a Teoria de Newton. O paradigma de Newton continua sendo válido para um mundo mais restrito. 


O que Hitler desejava era desprezar esta tradição, criando uma do zero.
Bergier nos conta que Hitler teria dito:


– A Nova Ciência não precisa ser verdadeira, basta ser convincente. 



A primeira candidata foi a Teoria da Terra Oca. Segundo esta teoria, nos não vivemos no lado de fora da crosta terrestre, mas sim no seu lado de dentro. A gravidade seria a força centrifuga que nos manteria afastado do centro. O que víamos como céu seria uma ilusão. 




Os nazistas chegaram a fazer um experimento para provar isso. Um navio colocado em uma posição da calota poderia receber um sinal de luz de um colocado no extremo oposto.
É claro que a experiência fracassou e o pobre do criador da teoria foi parar num campo de concentração.


Chegou a vez de Hans Horbiger, que criou uma cosmogonia baseada no seguinte princípio: o universo é formado por dois princípios, fogo e gelo, que estão em eterna luta (como nas tradições Vikings, outra coisa que Hitler queria ressucitar). Essa luta determina a vida e a morte do universo, num eterno renascimento. 


 Hans Horbiger


Outro ponto de sua teoria é que nossa lua representaria o gelo, e um dia cairia sobre a Terra. Esta seria a quarta lua. Outras três já teriam caído sobre a Terra, causando a conformação da Terra como a conhecemos hoje.


A órbita do nosso satélite na realidade seria um espiral, que a cada volta da lua a aproximaria mais e mais até que um dia haveria o colapso fazendo-a cair sobre nós. Antes, contudo, haveria diversas catástrofes causadas pelas marés. Por outro lado a presença da lua alteraria o DNA dos animais e plantas, fazendo surgirem novas espécies. O ser humano também sofreria uma mutação, tornando-se mais forte, para resistir aos cataclismas. A término no processo, haveria uma raça forte pronta para herdar a Terra. Finalmente, o satélite iria se fragmentar em pedaços deixando a Terra circundada por um anel.


A raça humana que vive na Terra seria formada por herdeiros de vários estágios pelos quais a Terra passou. A civilização judaico-cristã, que hoje habita a maior parte, teria perdido contato com seu passado glorioso. Caberia à chamada raça ariana o resgate deste passado. Eles são portadores do fogo, e apenas eles poderão derrotar o gelo.



Esse é um resumo bem simples da teoria de Horbirger. O povo alemão tinha aulas desta filosofia pelo rádio. Isso era ensinado nas escolas e era cobrado dos cientistas um compromisso de aceitarem como verdade os seus dogmas. Horbirger era aclamado como um novo Copérnico.

Como um povo inteiro pôde acreditar numa teoria destas? Em primeiro lugar, todo este discurso, como toda a filosofia nazista era propagada de forma emocional, com ênfase no "povo alemão que venceria o gelo". Outro fator, é que ela é centrada na cosmogonia, algo bem distante na vida prática do cidadão comum, ou mesmo de um cientista de outro ramo do conhecimento. Não é muito diferente do big-bang, por exemplo. Ou seja, tanto faz se ocorreu ou não o big-bang, que o sol brilhará amanhã e a equação da fotossíntese continuará igual. Bem diferente da Terra Oca, da forma como foi proposta, onde uma simples viagem de navio a tornaria difícil de engolir.


A teoria funcionou muito bem para dar consistência e coerência a outros pontos do discurso nazista, porém foi uma das responsáveis pela derrota dos alemães na Segunda Guerra Mundial.


Boa parte dos analistas aponta a invasão da Rússia no inverno como uma das principais causas da derrota nazista. No entanto, mais do que seu exército foi derrotado: toda uma população que acreditava na vitória do fogo sobre o gelo perdeu qualquer esperança. Qualquer discurso, a partir de então, não faria o mesmo efeito. Sem contar o fato de que há uma forte probabilidade de Hitler ter tomado esta decisão para simplesmente reforçar as teorias de Horbiger! Não que ele realmente acreditasse em tamanha bobagem, mas ele acreditava realmente na superioridade de seu exército em qualquer circunstância.


George Orwell pegou ainda um outro aspecto da filosofia de Horbiger. Os cientistas comprometidos com o nazismo tinham que lidar com um conflito de ideias difícil de conciliar. A maneira era separar no cérebro, em compartimentos estanques, as duas formas de pensar, usando ora uma, ora outra, conforme a necessidade. Não se trata de simples hipocrisia, pois ao assumir cada um dos lados, o cientista realmente acreditava naquilo, como em 1984.


Mas e você? Realmente acredita em tudo isso ou está duplipensando?

terça-feira, 16 de março de 2010

Sempre Trapalhões




Comecei a ver Os Trapalhões quando criança, em sua formação original, que, segundo me lembro, era: Didi, Dedé, Wanderley Cardoso, Ivon Curi e Ted Boy Marino e passava primeiro na extinta Excelsior, depois na Record, muito antes dela ser de Edir Macedo. 

O humor era típico da época, ou seja, "espetáculo filmado": uma peça relativamente longa (cerca de uma hora) exibida num teatro e transmitida ao vivo ou em vídeo tape, sem edição. 

A peça pouco importava, pois era penas uma forma de costurar gags ou permitir o improviso. O cenário era precário o que permitia principalmente a Renato Aragão improvisar em cima das falhas, como na vez em que esconde a arma sob um tapete que fazia o papel de "gramado". E o texto "mal" escrito permitia que Didi fizesse a plateia rir ao propositadamente embaralhar as falas, como no dia em que, numa "dramática" cena de assalto, disse:

-- Quem se chumbar levará mexe!

Não me lembro quando exatamente vieram Mussum e Zacarias, mas lembro deles na extinta TV Tupi (hoje SBT). Eles eram humoristas, não apenas escadas e, lentamente, o programa passou a ser formado por quadros, tanto com todos os quatro como com um solista, normalmente Didi ou Mussum.

A crise da Tupi levou o quarteto à Globo. A Globo tentou enquadrá-los no seu "padrão de qualidade", com redatores profissionais, efeitos especiais e tomadas externas, mas não deu resultado. A emissora teve que se render ao humor mais simples e que funcionava. E ainda funciona.


Eu cresci e me tornei pai e como parte do meu papel estava em levar meus filhos ao cinema. Os Trapalhões então entravam no cardápio. No cinema se tornaram mestres primeiro em avacalhar clássicos da literatura infanto-juvenil, como a Ilha do Tesouro e, depois, de block busters como Planeta dos Macacos e Guerra nas Estrelas.


Alguns filmes eram verdadeiros trash, como Os Trapalhões na Terra dos Monstros, que teve a participação de Gugu Liberato, outros tinha uma qualidade mediana e alguns ultrapassavam as expectativas, um enredo mais elaborado e mais qualidade na direção e na fotografia. 



Eu tenho na memória como o melhor filme deles O Casamento dos Trapalhões, onde o quarteto faz uma adaptação cheia de humor do filme Sete Noivas para Sete Irmãos. 



Esta nunca foi "uma obrigação de pai", já que eu gostava do grupo e ria junto com meus filhos das piadas ingênuas e às vezes recicladas inúmeras vezes.

De qualquer forma, era muito divertido, e havia sensação de cumplicidade, onde meus filhos viam o que queriam e eu fingia estar apenas acompanhando e me dava ao luxo de ter de novo apenas dez anos.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Kaori - Perfume de Vampira

Ficha Técnica
Kaori – Perfume de Vampira
Autor:
Giulia Moon
Editora:
Giz Editorial
Páginas:
370
Ano:
2009

Sinopse:
No Japão do período Tokugawa, Missora, proprietária de um Kinjurô (estabelecimento de prostituição), tenta comprar a bela jovem Kaori, apesar da resistência sistemática do pai da moça. Em São Paulo, de 2008, Samuel, um vampwatcher, observa e cataloga "espécimes" de vampiros para um obscuro instituto de pesquisas (Instituto Brasileiro de Estudo de Fenômenos Fantásticos, que mais parece um órgão de um serviço público). Logo as histórias de Kaori e Samuel se cruzarão transformando a então pacata vida do mero observador numa verdadeira aventura infernal. Mas terá sido a primeira vez?

Giulia Moon, contando ora uma ora outra história, desvenda pouco a pouco tanto a história de Kaori como a de Samuel e o que liga a vida de um ao outro, descortinado criaturas da noite da mitologia japonesa, como os Tengus (seres meio passáro, meio homem), o Nekomata (um aterrorizante gato gigante com duas caudas, que pode se apoderar de cadáveres como marionetes), e principalmente o Kiuketsuki, vampiro japonês, ao lado de criaturas da tradição ocidental vampirica, e de seres provavelmente imaginados por ela, como os famélicos, uma espécie de cães que vivem dos restos dos vampiros e podem assumir a forma humana (um lobisomem às avessas).

O livro tem muitos méritos: a cuidadosa pesquisa de tradições japonesas e do período Tokugawa, de meados do século XVII e a meados do século XIX; a ambientação perfeita dos locais e personagens em São Paulo, trazendo para uma realidade palpável ao leitor o conflito entre humanos e vampiros; a criação de personagens densos e verossímeis; e uma trama emocionante, conduzida com maestria.

Seus personagens merecem destaque, sobretudo Kaori, cuja face doce e angelical tem como contraponto sua sede de vingança e sangue, que às vezes a transforma numa assassina fria e cruel. Há ainda sua inimiga, Missora, um retrato da crueldade levada a extremos. O pintor Antonio Calixto, que soube retratar esta crueldade (aliás o nome Calixto é bem escolhido, pois é sobrenome de um pintor brasileiro do século XIX, Benedito Calixto, fazendo o leitor tentar estabelecer uma possível relação de parentesco entre eles); o samurai Kodo, um guerreiro cheio de lealdade, coragem e compaixão; as vampiras sádicas Yuki e Fuyu. Do lado brasileiro, temos Samuel, o vampwatcher, que quer no início apenas fazer seu trabalho e ser pago por ele, sem querer se envolver muito, embora esteja envolvido até o pescoço; os vampiros Karl e Felipe, gananciosos e poderosos, inimigos à altura de Kaori; Mimi o vampiro afeminado, mas que sabe se virar muito bem no meio de um conflito; Sidney, o executivo burocrata que apenas segue regras bem fixadas e raramente age por impulso ou compaixão e com uma habilidade zero fora da escrivaninha, Beatriz, a bióloga que estuda os famélicos com uma paixão que transcende o interesse científico.

Vale destacar também as cenas de ação, tanto na história nipônica, como na brasileira, com um final realmente cheio de ação.

Nerdshop:
• Kaori - Perfume de Vampira, de Giulia Moon (Giz Editorial)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Watchmen e a 5a Dimensão

Alerta: contém spoiler importante de Watchmen.

Nos anos 80, eu já era um pai nerd e pensava num legado para meus filhos. Este legado foi formado, por Akira, Cavaleiro das Trevas, Crise das Infinitas Terras e Watchmen. Watchmen, de Alan Moore, sempre teve um lugar de destaque para mim. Quando eu li pela primeira vez, fiquei impressionado com a trama perfeita e o desfecho surpreendente.


Eu o reli muitas vezes desde então e fiquei bastante entusiasmado com a notícia de que ele estaria sendo filmado, com estréia marcada para março de 2009, há exatamente um ano, com um trailler que me fez vislumbrar um trabalho de transposição muito bom. O filme decepcionou-me um pouco, porém os quadrinhos continuam valendo a pena.


 
A notícia do lançamento do filme me levou a uma nova releitura. Foi quando ao ler o seu final, tive uma sensação de "já vi isso em outro lugar". E não foi pelas constantes releituras. A lembrança vinha de muito tempo atrás, mais particularmente de minha infância, de uma série que me tirou o sono muitas noites: 5ª Dimensão (Outer of Limits) .

Com pobreza de recursos, mesmo para os padrões da época, compensados com uma boa música e uma narração de arrepiar os cabelos do fim da espinha, os filmes de 5ª Dimensão tinham forte apelo da ficção científica e foram um marco, juntamente com seu concorrente, Além da Imaginação.

Uma postagem num grupo de discussões me reavivou a memória: havia um episódio que realmente tinha a ver com Watchmen. Tratava-se (veja bem o título!) de: Arquitetos do medo. (Archtects of fear).

Neste episódio, um grupo de cientistas, diante da ameaça nuclear, deduz que a única forma de acabar com a intenção do ser humano se autodestruir é todas as nações terem um inimigo comum, um alienígena com sede de destruição. 

O filme tem uma outra abordagem, já que a idéia de causar ao mundo um medo extremo é anunciada nos primeiros cinco minutos de filme, indo por água abaixo qualquer idéia de mistério.


A maneira que os cientistas encontram de fazer a farsa e transformar um deles, escolhido por um sorteio macabro, num monstro. A idéia era alterar toda a sua fisiologia pois, caso ele fosse capturado e morto, uma analise revelaria ser ele diferente de um ser humano.

A história se concentra no drama da transformação do cientista, causando um sofrimento físico e psicológico, já que, além de tudo, está prestes a ser pai. Para que o segredo não vazasse, é simulada a sua morte, quando os primeiros sinais da transformação se tornaram visíveis. O "alienígena" faz sua aparição e é ferido de morte por uma das testemunhas. 

O final é aberto, mas insinua-se que tudo foi por água abaixo (do mesmo modo que Watchmen), pois a esposa do cientista descobre a trama e ela tinha todos os motivos para odiá-los e revelar o segredo. 

 Arquitetos do medo ou Watchmen?

Coincidência? Pode ser. Porém o filme Arquitetos do medo foi ao ar em 1963, quando Alan Moore tinha dez anos e certamente deve ter ficado sem dormir naquela noite...

segunda-feira, 8 de março de 2010

E se fosse possível dividir por zero?

Quando estudava na FEI, fui presidente do Centro de Estudos de Eletricidade (CEE). Apesar do nome pomposo, era apenas uma sala de cerca de 12 metros quadrados, mal ventilada, onde nos reuníamos para discutir filosofia, política, futebol, dormir, jogar truco e (raramente) estudar.

Numa das longas tardes, numa "janela" entre duas aulas, encontrei meu colega Estéfano e começamos a conversar uma típica conversa "de jogar fora".

 


Entre um comentário e outro pulamos de futebol para a comida horrível do restaurante, pelas finanças do CEE, sobre o movimento estudantil e finalmente fomos parar na matemática. Talvez porque dali alguns diasteríamos prova de Cálculo Diferencial e entre os assuntos estavam os números complexos.

Para quem não se lembra, um número complexo é composto pela soma de um número real com um número imaginário. O número imaginário é a raiz quadrada de um número negativo.

Os números complexos são um dos terrores dos estudantes, em especial do curso secundário, justamente por não estar associado ao mundo real (ele tem um componente "imaginário").

Num determinado momento de nossa conversa, Estéfano contou-me: 

— Você sabia que há mais ou menos um ano, eu, por brincadeira inventei o número kapsilon?

— Kapi o que?

— Kapisilon. O resultado de uma divisão de um número real por zero.

Todos tínhamos aprendido que dividir um número por zero era impossível. Mas como Estéfano lembrou, a raiz de um número negativo também. Ele então continuou:

 
casa invertida (divisão por zero)

— Não só isso, criei a teoria completa...

— E o que você fez com ela?

— Levei para o Departamento de Matemática.

— E o que eles disseram?

— Ficaram com meu trabalho uma semana e me devolveram dizendo "tentamos encontrar alguma inconsistência no que você fez e não achamos!"

— E então?

— Eles falaram: "Leve isso daqui e enterre! Se os alunos descobrirem que terão que estudar mais um conjunto, vão querer matar você!" 

Nesse instante, meus olhos brilharam: era uma chance de nós, ou pelo menos meu amigo, ficarmos famosos!

— Você ainda tem essa teoria?

— Tenho!

Pronto, estava iniciada a nossa saga, pensei. Contei pra ele o meu desejo e de minha disposição em ajudá-lo a elaborar toda a demonstração. Ele aceitou prontamente, pois apesar de ser criativo, não estava muito disposto a suar em cima.

Ao chegar em casa, juntei todo o material que tinha e com alguma grana economizada, comprei alguns livros. O trabalho nos consumiu algumas de nossas poucas horas de folga, durante alguns meses.

Ampliei a teoria para considerar não só um número real como um número complexo divididos por zero. Tentamos colocar este mundo dentro do universo que conhecíamos da matemática e da lógica.

Num determinado momento empacamos numa questão: o que fazer quando um número kapsilon fosse dividido por zero?

Começamos a elaborar hipóteses, mas não conseguíamos fechar com coerência e não queríamos simplesmente interditar a divisão por zero para um número kapsilon.

Iniciamos então nova pesquisa, desta vez em bibliotecas  universitárias. Pesquisa daqui, pesquisa dali e topamos com os quaterniões.

Sir William Rowan Hamilton

Esses números foram inventados em 1843 por um matemático chamado Hamilton. Sua teoria era bastante similar à nossa proposta e serviu de base para a Mecânica Quântica.

Estávamos mais de um século atrasados...

PS.: Hamilton se tornou alcoólatra após a morte da esposa. A lenda conta que ele criou a teoria dos quaterniões após um pileque, escrevendo-a num banco de jardim.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Zork - um clássico


Um dia, lá pelo meio ano de 1977, um grupo de nerds do MIT -- Bruce Daniels , Dave Lebling, Mark Blank e Tim Anderson -- em suas horas de folga desenvolveram o que pode ser considerado o primeiro jogo interativo para computadores.

O nome "Zork" foi tirado de uma gíria interna do MIT para programas inacabados e de, certa forma, um programa interativo que não tem fim.

Fãs do RPG Dungeons & Dragons e do clássico da literatura fantástica Senhor dos Anéis, os nerds do MIT desenharam um labirinto que deveria ser percorrido num reino fantástico subterrâneo. O herói da história andava às escuras percorrendo corredores, entrando em salas, enfrentado armadilhas, vilões e monstros, achando tesouros etc. Nada muito diferente de milhares de jogos que você já deve ter jogado. Há uma diferença contudo.

O programa foi desenvolvido para um mini computador PDP-10 da DEC, numa linguagem derivada do Lisp e ocupava quase toda memória da máquina de fantásticos 1 MB (eu disse isso mesmo: hum MB) e não tinha NENHUMA imagem!

Os comandos eram dados em texto em uma linha de prompt (representado por >) e o computador dava respostas por escrito ao aventureiro, contando o que tinha acontecido.

Algo como:

Você está em uma caverna. Nesta caverna há duas saídas, uma ao norte e outra a leste.
> EXAMINE

Não há nada aqui.
> VÁ PARA O NORTE 

Você chegou em uma sala. Há duas saídas uma ao norte e outra a leste.

> EXAMINE


Há uma lança, um saco de moedas e uma poção de saúde.

> PEGUE A LANÇA, O SACO DE MOEDAS E A POÇÃO


Você agora tem uma lança e um saco de moedas e um pote de poção.

> VÁ PARA O LESTE

Em 1980 os nerds do MIT fundaram a Infocom e adaptaram o programa pra os recém lançados computadores pessoais: Apple II, TRS-80 e posteriormente para o PC. O produto foi um sucesso, tendo posteriormente várias versões, Zork II, Zork III, Zork Quest, Zork Quest II, Zork, The Return e Zork Zero.

Por que Zork é importante?

Apesar de ter sido superado tecnologicamente por inúmero games, o algoritmos destes jogos, no que diz respeito às decisões tomadas e o que o jogador encontra são os mesmos, bem como a forma de programar os objetos de cena. Por exemplo, o que faz uma lança ou uma tocha? Ou o que vou encontrar se for para a direita? Pois é, a turma de nerds criou todos estes conceitos.

Além disso, Zork é divertido, mesmo para quem já acostumou com imagens em profusão e inteligência artificial controlando os personagens. A forma de pensar sem a geração de imagens pelo computador estimula tanto o hemisfério esquerdo (todos os comandos são lingüísticos) e o direito (muitas vezes você terá que criar uma imagem mental do que está acontecendo). Ficará ausente contudo a rapidez de reflexos, muito necessária nos jogos atuais (aliás, isso pode ser visto como vantagem por alguns jogadores que gostam de pensar mais e tem menos habilidades "digitais").

Dicas Nerd: Para quem ficou curioso, o Zork em suas principais versões está disponível para download no site da Intercom.


Álvaro A. L. Domingues
Publicado originalmente no Homem Nerd em 21/02/2008