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domingo, 12 de maio de 2013

Mulheres que Correm com os Lobos


Mulheres que correm com os Lobos – Mitos e Histórias do arquétipo da mulher selvagem
Título Original: Women who runs with de Wolves
Autor: Clarissa Pinkola Estés
Tradução: Waldéa Barcelos
Editora: Rocco
Ano : 1994
628 páginas

Sinopse: Onde está o espírito da mulher, sufocado por séculos de negação de sua origem, por uma suposta civilização que cerceia muitas manifestações do feminino? A busca por esta origem nas histórias transmitidas oralmente através de mitos de vários povos e contos de fadas norteou o trabalho de Clarissa Pinkola Estés.

Psicanalista de contornos junguianos (embora os transcenda neste trabalho), a autora coleta e ordena contos que vão revelando esta mulher selvagem, sufocada por séculos de uma civilização que privilegia o patriarcado. Além desta pesquisa sistemática, Clarissa se apoia em uma vasa experiência enquanto psicoterapeuta, sobretudo no tratamento de mulheres.

Sua função não é levantar bandeiras, mas simplesmente fazer uma abordagem que valoriza o feminino e traz uma luz extremamente clara e brilhante sobre quem é a mulher e mostrar sua estrutura psíquica.

O livro provoca, sobretudo nos homens com alguma consciência em relação ao feminino, uma reflexão sobre o que a humanidade tem perdido ao sufocar a livre manifestação do que ela chama “mulher selvagem”. A lenta transformação social, onde passamos do campo para a cidade, do matriarcado para o patriarcado e do paganismo para o cristianismo, mutilou ou tentou esconder os registros do seu passado, mas as tradições antigas, ainda que deturpadas em versões censuradas de contos de fadas e lendas antigas, conseguem falar em voz alta, amplificadas pelo magnífico texto de Clarissa.

Aconselho a meus colegas escritores que se dignem a ler este livro para que seus personagens femininos tenham uma dimensão maior, reconhecendo a riqueza da estrutura psíquica das mulheres.

Para quem é do sexo masculino e lê este livro com a mente aberta, talvez fique a impressão de que não foi só a psique da mulher que foi mutilada neste processo “civilizatório”. Será que o homem selvagem seria realmente a imagem da caricatura do troglodita com um porrete na mão, arrastando uma mulher pelos cabelos? Será que nós homens nunca respeitamos o feminino em nossa história sobre este planeta? Ou fomos igualmente sufocados por uma sociedade (na realidade uma elite ou de reis ou de sacerdotes) que nos impôs um papel que não queríamos realmente assumir?

É bom começar a olhar por este ângulo.

Nerd Shop

Mulheres que correm com os Lobos. Clarissa Pinkola Estés. Editora Rocco. Livraria Cultura


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A Morte é uma serial killer


A Morte é uma serial killer
Autora: Valentina Silva Ferreira
Editora: Estronho, coleção Histórias de Bolso
Ano: 2012
176 páginas

Sinopse: Num futuro próximo, os assassinos em série de todos o mundo, por força de lei, devem ser tratados e cumprir pena na Unidade de Segurança e Reinserção de Assassinos em Série, situada em Lisboa. Pelo nome da instituição percebe-se que é uma tentativa de curar o possível transtorno psicológico que leva estes assassinos a matarem.

O programa prevê isolamento da sociedade (como qualquer presídio), convívio forçado entre os “pacientes”, sessões de psicoterapia individual e em grupo.

Na realidade este é apenas um meio que autora encontrou de colocar todos juntos, e uma vez juntos, Valentina começa em flash back traçar o perfil de cada um deles (três homens e duas mulheres). É aí que reside a maior habilidade da autora. Primeiro os coloca como pessoas comuns e pouco a pouco nos introduz a seu drama pessoal e finalmente a seus crimes. Com um texto belíssimo, mesmo nas passagens mais chocantes, ela nos conduz a uma relação de amor e ódio a seus personagens. Destaque para Luke, o assassino pedófilo e Suzana, que odeia homens separados e com filhos com quem se relaciona. Temos a sensação de que podemos encontrá-los a qualquer momento entre as pessoas que nos são próximas.

Uma vez traçado o perfil ela nos mostra o relacionamento tenso entre os pacientes e a equipe médica e por fim aparece a Morte. Inicialmente como se fosse a culpa de cada um se manifestando e depois como alguém palpável, capaz de matar.

Aqui ela se aproxima do “enigma de quarto fechado”, onde pessoas estão isoladas e sabe-se que é alguém de dentro que está causando o problema. O exemplo mais clássico é O caso dos dez negrinhos, de Agatha Christie (há uma tradução recente: E não sobrou nenhum, da Editora Globo, “politicamente correta” – não tem “negrinhos”).

A autora parece conhecer muito bem dois aspectos essenciais para conduzir a trama: o transtorno de personalidade antissocial (psicopatia ou sociopatia), e a parte jurídica (que é usada para estruturar o romance).

Atenção! Spoiler

Há algumas falhas, que todavia não comprometem o livro como um todo.

A mansão que serve de hospital, o estereótipo de várias histórias similares, me pareceu inadequada para reunir criminosos capazes de matar por causa de um palito de sorvete. A segurança é muito baixa.

O personagem que encarna a Morte não surge no início da trama, embora seja corretamente contextualizado mais ou menos no meio do romance. Isso frustra leitores habituais de livros de mistério, em especial fãs de “enigma de quarto fechado”, onde o “culpado” é um dos personagens já foi apresentado logo no começo.

Mas, a meu ver, a intenção da autora não é construir um bom thriller de mistério, mas um bom terror psicológico, onde ela se sai muito bem.

Destaque para a capa, projeto gráfico e diagramação. A Estronho, como sempre, tem muito bom gosto nestes quesitos.

Conclusão

Um bom terror psicológico, com dose certa de suspense e muito bem escrito, com uma linguagem poética mesmo nos trechos mais crus. 

Nerd Shop:

A Morte é uma seria killer. Valentina Silva Ferreira. Editora Estronho.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O Cisne Negro — o encontro com a Sombra no outro

Cine Negro
Título Original: Black Swan
Ano: 2010
Duração:  108 min
Diretor: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis e Vincent Cassel

Sinopse: Nina (Natalie Portman) ganha o papel principal no balé O Lago dos Cisnes. Meiga e delicada e extremamente técnica pode interpretar com perfeição o Cisne Branco. Porém o diretor, Leroy (Vincent Cassel), deseja que ela represente também a vilã, o Cisne Negro, que é sedutora e perversa.

Por ter a sexualidade reprimida por uma mãe castradora e uma busca obsessiva pela perfeição, não consegue se soltar para representar o papel do Cisne Negro, apesar das apostas em contrário do diretor.

Lily (Mila Kunts) é a segunda bailarina e deseja o lugar de Nina (pelo menos é o que Nina pensa) e tem as características que o diretor espera para interpretação do Cisne Negro. Começa um jogo de aproximação e afastamento entre as duas onde a imaginação doentia de Nina não consegue separar o sonho da realidade.

A atuação de Natalie Portman está soberba bem como a direção segura de Darren Aronofsky. O diretor consegue criar suspense no drama e gera no espectador a mesma tensão e dúvidas que se passam na cabeça da protagonista.

Para os que buscam uma interpretação psicanalítica da trama, o filme trata do problema do encontro com a Sombra, que a protagonista vive de forma doentia, a ponto de se sentir transformando-se no próprio cisne negro. Aliás esta transformação é feita com auxílio bem dosado de efeitos especiais e maquiagem, gerando uma cena de balé fantástica.

Também na linha psicológica, está o uso constante de espelhos, alguns partidos em cenas dramáticas, representado a parte de nós mesmo que não queremos ver e acabamos projetando no outro (Nina em Lily).

Para os fãs de balé, o filme não decepciona, sobretudo pela interpretação de Natalie Portman, que treinou exaustivamente para poder representar a bailarina. E, pra os que não são fãs, o balé aparece na medida correta, sem aborrecer e bem aderido à trama.

A trilha sonora está muito bem colocada sublinhado bem pontos de tensão e ajudando a compor o clima obsessivo. Por exemplo, os acordes mais conhecidos do Lago dos Cines aparecem numa caixa de música e no toque do celular da personagem principal, como se ela só vivesse para aquilo.

Trailler


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A Sombra ou mergulhando no lado negro da Força

Na esteira do livro O Efeito Sombra, estão começando a aparecer nas estantes das livrarias vários livros sobre o tema, mostrando o interese do público por este tipo de informação. Isso ocorre porque a auto-ajuda tradicional já deu mostras de cansaço, como bem ilustra a reportagem,  Salvem a auto ajuda, publicada na Página da Cultura.

 O Efeito Sombra deu origem ao ciclo das Sombras na literatura de psicologia e psicanálise destinada a não especialistas.

A causa da ressaca da auto-ajuda nos EUA está na crise econômica gerada justamente pelo excesso de otimismo no mercado. Não que auto-ajuda em si tenha provocado isto, mas a crise gerou uma onda de desilusão e frustração e um dos dedos acusadores aponta para este tipo de literatura. Sem contar o desgaste natural já que todos os autores tentam falar basicamente a mesma coisa.


Então nos voltamos para aquilo que esquecemos na ânsia de pensar positivo: o nosso lado negro. Ou no dizer dos analistas junguianos: a nossa Sombra.

O que seria esta Sombra? Aquilo que negamos em nós mesmos, ainda que seja parte da natureza humana. O exemplo mais claro é da sexualidade. Nossa sociedade  impõe padrões de conduta que negam no todo ou parcialmente a manifestação livre e espontânea desta sexualidade (pode-se  argumentar contudo que hoje já não “tanto assim”, mas o exemplo ainda vale). Um bem sucedido médico, bem casado, com uma vida tranquila, de repente se envolve numa orgia sexual com prostitutas. É a Sombra reprimida que explode. Anakin Skywalker virou Darth Vader. 

Não pretendo aqui adentrar neste tema, mas apenas comentar alguns livros desta nova safra, que prometem mostrar, explicar e ensiná-lo a lidar com seu Darth Sidious interior antes que você vire Darth Vader.


Darth Sidious seduz Anakin para o lado negro da Força
 
O primeiro deles é Alimente seus Deuses e Demônios interiores de Tsultrim Allione, publicado pela editora Vida e Consciência. Este livro traz para o ocidente uma técnica tibetana de lidar com qualquer tipo de problemas, em especial os emocionais. O técnica propõe em vez de combater o demônio (uma emoção negativa, por exemplo, a raiva) o alimentemos até que ele, saciado, vá embora ou se transforme num aliado. A técnica tem uma grande similaridade com a ressignificação de seis passos da programação neurolinguística, com a diferença básica de que a tibetana tem um nível de atuação mais simbólico e ritualístico e parece atuar com mais profundidade.

 
Para o budismo tibetano não devemos dar combate aos demônios, mas alimentá-los

O segundo deles é A Sombra Interior, de James Hollis, publicado pela editora Novo Século. O livro tem o subtítulo Por que as pessoas boas fazem coisas ruins? Este é o mais junguiano dos três títulos e procura discutir em profundidade este aspecto da personalidade humana, sem dourar a pílula. O subtítulo é uma pergunta que muitos fazem, inclusive em relação a si próprios, sem entender o que realmente está acontecendo. Segundo o autor, não entender é óbvio: a Sombra simplesmente está no inconsciente e por definição não temos consciência dela!  Por isso precisamos descobrir sua natureza e trazê-la o máximo possível à tona para poder aceitá-la e transcendê-la.

O último é Noites escuras da alma, de Thomas Moore, editada pela editora Verus. Este autor, baseado num texto do século XVI de São João da Cruz, concentra-se nos momentos em que estamos em sofrimento (“as escuridões emocionais”)  onde hoje a medicina, a psicologia e a psicanálise tradicional buscam dar uma resposta a mais rápida possível para tirar a pessoa deste estado. Uma das maneiras é receitando antidepressivos, que teriam o condão de gerar “um paraíso artificial”, tomando emprestado um termo de Baudelaire. A proposta do autor é viver a noite escura, pois ela seria necessária à nossa própria evolução.

Os três livros dentro de suas propostas são bons, no sentido de que não ficam em torno de receita fáceis e, no fundo, vazias, mas procuram dar um conhecimento mais amplo ao leitor interessado em conhecer o lado negro da Força. 

Uma coisa que notamos com a auto-ajuda e que pode acontecer com a questão da Sombra. Logo virá a segunda geração deste tipo de livros, onde pessoas com um pequeno conhecimento do assunto e editores ávidos por lucro fácil entupirão as estantes da livrarias com livros de capa preta propondo tirá-lo da escuridão. A pílula, em vez de cor-de-rosa, agora será cinza.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Breve Romance do Sonho

Breve Romance do Sonho
Autor: Arthur Schnitzler
Título original alemão: Traumnovelle
Tradução: Sérgio Tellaroli
Editora: Folha de São Paulo
Ano: 2003
96 páginas.


Sinopse: Fridolin é um médico bem sucedido, casado com uma linda mulher, Albertine, pai de uma adorável menina. Tudo indica a perfeição de um lar classe média da Viena do início do século XX. Essa perfeição contudo é perturbada quando Albertine conta a seu marido uma fantasia sexual onde ela flerta com outro homem. Fridolin é chamado às pressas para atender um morimbundo e no caminho, uma série de incidentes o leva a uma aventura onde o sexo e a morte estão perigosamente presentes e unidos.


O livro serviu de base ao filme póstumo de Kubrick: De olhos bem fechados, que transpõe a narração para os dias de hoje, mas mantém o clima onírico do romance.



Schnitzler, contemporâneo de Freud, conduz a narrativa de forma e reforçar o caráter onírico tanto das fantasias e sonhos de Albertine como a realidade vivida por Fridolin. O centro da narrativa está no médico que se tortura o tempo todo pelo ciúme do amante imaginário da esposa em busca de uma pseudo-vingança envolvendo-se numa aventura inicialmente apenas misteriosa, mas que se revela perigosa.

A sensação que se tem é de irrealidade. Mascaras de carnaval, um culto hedonista que sacraliza o sexo, uma orgia com mulheres nuas, mas com o rosto envolto em véus e um músico que toca com os olhos vendados e advertência “fuja enquanto é tempo”, que tem o efeito de seduzir mais do que afastar.



O que está em jogo são os valores e sentimentos impostos socialmente, questionados pelo médico que tem uma vida bem sucedida, dentro dos padrões pequeno burgueses, mas que desmorona diante de uma simples fantasia sexual. Não há ligação necessária entre nossos desejos e o que acreditamos poder ou não fazer, entre amor e sexo, entre casamento e felicidade e entre o que se declara certo e o que se faz efetivamente.

Ao ler o romance temos a clara sensação de que uma vez que tudo termine, da forma que for, Fridolin e Albertine jamais serão os mesmos.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A Dança da Realidade

A Dança da Realidade
Autor: Alejandro Jodorowisky
Editora: Devir Livraria
Ano: 2010
368 páginas

Sinopse: “Autobiografia imaginária” de Jodorowisky, cobrindo dede sua infância até a consolidação do que ele chama de “psicoxamanismo”.

Por que autobiografia imaginária? Segundo o próprio Jodorowisky, ainda que tudo que ele tenha relatado sejam fatos de sua vida, ainda assim a imaginação tem que estar presente na concepção do texto, visto que só percebemos da realidade aquilo que é filtrado por nossos conceitos limitantes e que para transcendê-los, devemos usar a imaginação ativa, buscando outros pontos de vista.

"Este livro é um exercício de autobiografia imaginária, se bem que não no sentido de “fictícia”, pois todos os personagens, lugares e acontecimentos são verdadeiros, a não ser pelo fato de que a história inteira de minha vida é um esforço constante para expandir a imaginação e ampliar seus limites, para apreende-la em seu potencial terapêutico e transformador." - Jodorowisky


El Topo (Trailler) - Filme de Alejandro Jodorowisky

O livro, com muitos detalhes de sua vida tumultuada, nos permite ver como todos estes acontecimentos ajudaram a moldar o poeta, teatrólogo, cineasta e roteirista de HQs.

A narrativa começa com sua infância pobre no Chile e sua relação conflituosa como pai, um comerciante de origem russa, que renegava tanto sua condição de judeu como a de estrangeiro. Por temer que seu filho se tornasse homossexual, tratava filho sem demonstra afeto e até com brutalidade. Essa busca de afeto paterno marcará profundamente o jovem Jodorwisky. Real ou imaginário? Tanto um como outro. Seu pai realmente o agrediu fisicamente apenas para que ele provasse resistir a dor? Estas são as reinterpretações de acontecimentos muito antigos segundo a lógica de um adulto que revê seu passado e procura dar-lhe uma interpretação consistente.




Jodorowisky na TV Mexicana

Jodorowisky é conhecido por suas atitudes polêmicas, algumas já descritas no seu livro anterior, Psicomagia, e mostradas em detalhes nesta sua autobiografia. Um artista ousado e inquieto, que foi um poeta chileno de projeção internacional, trabalhou com Marcel Marceau e Morrice Chevalier, foi palhaço em um circo, montou uma companhia de teatro de marionetes, destruiu um piano a marretadas diante das câmeras da TV Mexicana, criou o teatro pânico – onde pessoas comuns improvisavam livre de amarras, o que acabava gerando espetáculos altamente bizarros, que fariam Lady Gagá parecer uma senhora muito comportada – cineasta surrealista, assistente de uma curandeira mexicana, praticante de Zen, leitor de Tarot e finalmente um psicomago e psicoxamã (não necessariamente nesta ordem).



Movimento Panico, criado por Alejandro Jodorowisky, Fernando Arrabal e Roland Topor. O nome inspira-se no do deus Pan, o qual se manifesta através de três elementos básicos: terror, humor e simultaneidade.  

Tudo isto é nos mostrado num texto fluído e envolvente, em que pese alguns paragrafo extremamente longos. Ao lê-lo, percebe-se a sua preocupação em romper limites, inicialmente pessoais, depois sociais, tendo como parâmetro apenas a imaginação.

O texto é fundamental para se conhecer o artista e entender seu processo criativo. Porém este processo não pode ser reproduzido, por isso creio que não haverá outro psicoxamã. A ruptura já foi estabelecida. Não há como romper o que já foi rompido. Quem quiser que crie seu próprio caminho.


domingo, 24 de outubro de 2010

Hoje eu sou Alice


Hoje eu Sou Alice
Título original:  Today, I´m Alice
Tradução: Andréa Gottlieb de Castro Neves
Autores: Alice Jamieson & Clifford Thurlow
Editora: Larousse
336 página

Sinopse: Alice Jamieson narra de forma emocionante a partir de suas lembranças fragmentadas, sua infância atormentada e o resultado disso: um Transtorno de Personalidade Dissociada, ou em termos não médicos, um caso de múltiplas personalidades.

Desde que Robert Louis Stevenson escreveu o Médico e o Monstro
e o mangá MPD Pysicho levou às últimas consequencias, a literatura tem registrado um sem número de histórias com esta temática, mas com o livro As Três Faces de Eva, de 1954, e Sybil, de 1973, de casos reais dramáticos foram levados à literatura e ao cinema.

 
O protótipo das personalidades 
multiplas: O Médico e o Monstro

Tal é o caso de Hoje eu sou Alice. A diferença em relação às outras duas obras é que esta foi feita pela própria vítima do transtorno, o que redobra o interesse, tanto para o leigo, como para o profissional da área.

Outra diferença, é que o livro não é centrado no transtorno em si, mas nas suas causas e na evolução, tanto que as manifestações de personalidades de múltiplas só surgem mais ou menos na metade do romance. Antes, surgem alucinações auditivas e outros comportamentos, que também são sintomas de outros transtornos, como a esquizofrenia.


As três faces de Eva
Um dos primeiros casos reais levados ao Cinema

Narrado em primeira pessoa, o livro comove e choca principalmente com a narrativa em detalhes dos abusos sexuais violentos sofridos por Alice na sua infância, cometidos pelo seu próprio pai e por estranhos, com o consentimento dele. Também é dramática a descrição da violência perpetrada a si mesma em suas múltiplas tentativas de suicídio e do processo de hospitalização, que muitas vezes parece cruel, mesmo num sistema de saúde considerado um dos melhores do mundo (Inglaterra). Além destes problemas, Alice sofre com anorexia, abuso de álcool e drogas lícitas e ilícitas, incapacidade de se relacionar e outros problemas.

O livro coloca como um dado a ser verificado, mas plausível, que o Transtorno de Personalidade Dissociada é causado por um mecanismo de defesa criado por uma criança muito nova, face à violência perpetrada contra ela de maneira continuada. Ou seja, “quem está sofrendo a violência é outro, não eu.” Outro fator a alarmante, é que o livro aponta que possivelmente em quase 100% dos casos, a violência é de natureza sexual, perpetrada por alguém muito próximo da criança. Isso vai ao encontro da narrativa de Sibil, mas está apenas implícita em As três faces de Eva (talvez seus autores não estivessem propensos a levantar esta polêmica na época).


 Sybil, um dos casos mais complexos de multiplas personalidades

Em suma, um excelente livro, que trata de um problema complexo e raro, sem se perder em detalhes técnicos, nem deixar de lado a dramaticidade dos acontecimentos ali narrados.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Sonhos, cinema e ficção científica

O filme A Origem me fez recordar outros filmes e livros cujo tema é sonho ou discutir a realidade.

O Cinema em si vive de criar ilusões, similares a sonhos e é natural que o tema surja de forma mais explícita de vez em quando.

Há até uma estética, surgida oficialmente em 1924, chamada Surrealismo, que se ocupa justamente do inconsciente, então recém descoberto por Freud. Neste movimento, está um cineasta, Luiz Buñuel , que em 1929 filmou "Um Cão Andaluz", com clima totalmente onírico. O filme foi baseado em três sonhos de Salvador Dali, pintor considerado ícone do movimento.


Bunñel seguiu carreira, com o tema sonhos implícita ou explicitamente presente em suas obras. O movimento do Surrealismo “encerrou oficialmente” em 1966, com a morte de seu mentor, André Breton.


Um quadro de Salvador Dali

Todavia esta estética ainda tem seus ecos no cinema, sobretudo na obra de David Linch. Dela vale destacar "Cidade dos Sonhos" (Mulholland Drive, 2001). Nota zero para a tradução do título, que explicita o que deveria ficar implícito. Neste filme, uma mulher é salva de ser assassinada ao ocorrer um acidente com o carro onde está sendo transportada. Acorda desmemoriada é ajudada por outra moça, que começa e investigar o que poderia ter-lhe acontecido. Há referencias ao teatro e ao cinema, tratadas de forma onírica.


É marcante a cena onde as duas vão a um teatro mambembe onde são representados vários números. Em um deles, o apresentador diz “Silencio. No hai banda”. Os instrumentos param e música continua tocando. Altamente onírico, como tudo que acontece naquele teatro e em várias partes do filme, sobretudo o final, bastante freudiano.


Silencio! No hai banda!


David Linch também usa os sonhos na série Twin Peaks. Os sonhos no enredo são usados como um meio de comunicação entre entidades espirituais e o agente Cooper. Aliás, é muito comum usar tratamento onírico para mostrar o mundo espiritual, talvez pela não necessidade do respeito às leis de física que o suposto mundo espiritual teria. Fantasmas atravessam paredes e anjos voam. Em Twin Peaks os dois universos estão intrinsecamente ligados.


Em Twin Peaks o universo onírico
se mistura ao espiritual


Estes dois universos também estão presentes em Giulietta dos Espíritos, de Frederico Fellini, onde uma mulher, após uma sessão espírita, passa a ver espíritos, misturados a lembranças de sua infância, fantasias e sonhos. Final também bastante freudiano.


Giulietta dos Espíritos

Sonho, realidade e cinema se misturam em Paprika, animê de Satyoshi Kon de 2006, que eu considero uma obra prima. 

Nesta animação, uma psicanalista utiliza-se de uma máquina para analisar os sonhos de seus pacientes, aparecendo neles como uma moça chamada Paprika. As coisas se complicam quando o aparelho é roubado por um suposto terrorista, que invade os sonhos das pessoas, impondo o seu. 




O enredo é extremamente criativo e está recheado de referências ao cinema, ao circo, bares, desfiles festivos e à internet, dentro do contexto de que tudo isto é similar a sonhos. Varias histórias, sonhos e realidades se misturam, com destaque para os dois mistérios principais: quem é o responsável pelo roubo e pela invasão do inconsciente e qual é o trauma do detetive que sonha repetidamente o mesmo sonho. Aqui a interpretação não é freudiana, mas muito ligada ao cinema.


Uma excelente fantasia steampunk francesa, "O Ladrão dos Sonhos" (La Cité des Enfants Perdues) trata dos sonhos como uma necessidade humana imperiosa. Nesta história, um homem não consegue sonhar e para isto sequestra crianças das quais tenta roubar os sonhos, através de uma máquina que os transfere para sua mente. O circo aqui também é uma forte referência. O clima sombrio e densamente noturno faz-nos sentir em um pesadelo.



domingo, 8 de agosto de 2010

A Origem

A Origem
Título Original: Inception
Roterio e Direção: Christopher Nolan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Ellen Page, Cillian Murphy, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe, Michael Caine, Tom Berenger
País: EUA/ Reino Unido
Duração: 148 min.
Ano: 2010

Sinopse: Espião industrial, Cobb, rouba segredos invadindo os sonhos das pessoas. Ele usa uma técnica chamada de “sonho compartilhado”, onde ele e sua equipe adormecem e “sonham o sonho”, da vítima, intervindo no seu desenrolar até chegar à informação desejada. Cobb é procurado para, em vez de extrair a informação, implantar uma idéia no inconsciente do herdeiro de um império industrial.

Discussões sobre sonho e realidade são comuns no cinema (David Linch que o diga), por um motivo bastante simples: o cinema é uma fábrica de ilusões, tanto quanto o inconsciente humano. Ver um filme, mesmo que seja um documentário, é desligar-se da realidade e penetrar no sonho de outra pessoa.

Filmar sonhos também permite ultrapassar os limites impostos pela realidade, como ocorre em A Origem, quando Ariadne, a arquiteta encarregada de construir o cenário dos sonhos, afirma que se é um sonho, não é necessário respeitar a física.


Um sonho precisa respeitar as leis da física?

Daí pra frente tudo é possível. Um trem andar no asfalto, ou a gravidade de um hotel ser anulada, ou andar-se num cenário construído por Escher.


Um dos cenários construídos por Escher

Isso gera a incerteza: se tudo é possível, qualquer coisa pode acontecer. Cobb e sua equipe, apesar de terem planejado cuidadosamente, na realidade não sabem o que vão encontrar. Isso garante o suspense de algumas cenas.

Outro fator, bem conhecido dos psicanalistas, é a resistência. Se alguém tenta mexer no meu inconsciente, vou reagir. Em A Origem, as “defesas” são bem violentas, permitindo assim boas cenas de ação e até algum humor.


Cobb e um auxiliar, enfrentando as defesas da vítima

Por fim, algo também conhecido pelos psicanalistas: se mergulhamos no inconsciente de alguém, também mergulhamos no nosso. Cobb traz para dentro do sonho da vítima seus próprios fantasmas interiores, tendo também que enfrentá-los para ter sucesso na missão.

O resultado é um filme movimentado, divertido e inteligente.

P.S.: (um pequeno spolier) Hoje é dia dos pais. Pode parecer que esta postagem não tem muito a ver com este dia, porém, a motivação maior de Cobb para fazer tudo o que fez foi simplesmente para poder rever seus filhos. E o cerne do problema da vítima que teve seu sonho invadido, era a relação com seu pai. Um bom motivo para ir ao cinema com seu filho, se ele tiver mais de 14 anos (classificação etária do filme).

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O Efeito Sombra

O Efeito Sombra

Título Original: The Shadow Effect
Autores: Deepak Chopra, Debbie Ford e Marianne Williamson
Editora: Lua de Papel
Ano: 2010
254 páginas

Sinopse: Baseado no conceito de Sombra de Jung, os autores buscam uma forma de simplificá-lo e torná-lo entendível e conduzem o leitor a um processo de auto-ajuda.

Textos de auto-ajuda existem desde que apareceu a linguagem escrita e tem sido uma grande fonte de produção de livros que normalmente ocupam muito tempo a listas dos mais vendidos. Mais ou menos embasados, às vezes com conotações pseudo científicas, como O Segredo, este tipo de literatura está aí e não seria interessante simplesmente ignorá-lo.

Fui atraído pelo Efeito Sombra pela sua base na psicologia de Jung, e um cheiro de Guerra nas Estrelas. Isso não é por acaso, já que George Lucas foi bastante influenciado por Jung ao compor as duas trilogias. A Sombra seria “grosso modo” o lado negro da Força e este seria um dos primeiros motivos para ler o livro. Outro atrativo é o nome de Deepak Chopra, conhecido psicanalista indiano, que tenta aproximar as duas visões de mundo, oriental e ocidental.



A Sombra seria o lado do homem que queremos negar, e por ser negado, reage. Isso ocorre tanto a nível individual como coletivo, segundo o Jung. Os autores abraçam esta ideia e exemplificam com figuras públicas, por exemplo, Mel Gibson faz um filme sobre a Paixão de Cristo e faz declarações anti-semitas, após ter se embriagado (nível individual). Igrejas pregam a moralidade e ocultam, em seu interior, religiosos pedófilos (nível coletivo).


A proposta do livro seria nos ajudar a encontrar este nosso lado sombrio (a pessoa que não queremos ser) e integrá-lo à nossa personalidade, do contrário ele nos dominará e se mostrará nos momentos mais inoportunos.

Os textos dos três autores são bons e não prometem milagres, o que em si mesmo é um mérito na literatura deste tipo. A profundidade é mediana, ou seja, não vai ao nível do especialista, mas não trata do leitor como um completo ignorante.

Sobre o processo em si

Jung propõe um processo maior, que ele chama de “individuação”, do qual o encontro com A Sombra seria uma das fases. O que seus autores fizeram foi recortar deste contexto esta fase. Isso é bom ou ruim? Um psicólogo tradicional torceria o nariz, pois seria como dar uma aspirina a alguém que tem fortes dores de cabeça, sem saber as causas. Pode ser que funcione, mas, se a dor for originada pelo fígado, o remédio não servirá nem como paliativo.

Por que o livro faz sucesso, então? As pessoas normalmente buscam remédios simples para suas dores físicas e emocionais e comprar um livro é bem mais simples que procurar um especialista. Isso porque o livro de auto-ajuda, por melhor que seja, não vai tirá-lo de sua zona de conforto. Você sempre pode pô-lo na estante e esquecer dele.

Há o também o efeito “O Segredo”. Este livro prometia mundos e fundos só de você pensar naquilo que desejava. Muitos acreditaram e, com a crise, tomaram um tombo de seus pedestais de vidro. Estas pessoas que caíram buscam agora um ombro pra chorar.


O mérito deste livro é não oferecer um ombro, mas dizer: “a culpa foi sua”. Pois, ao pensar apenas positivo, varremos para baixo do tapete a nossa Sombra. Descobrimos que obtivemos o que não tinha preço, mas temos que pagar agora a fatura do cartão de crédito.

E esta verdade que não se quer ouvir. E lá vai mais um livro pra estante.

A Sombra e a Ficção Científica

A Sombra sempre é uma boa fonte de inspiração para autores de FC. Guerra nas Estrela levou isto às últimas consequencias. Anakin Skywalter é o retrato de uma pessoa que se deixa dominar pela sua Sombra (Darth Vader) e toda a saga é baseada neste conceito.

Há também o episódio 23 da primeira temporada de Star Trek Next Generation, Skin of Evil, onde a tripulação da Enterprise encontra com um ser amorfo escuro que só tem ódio dentro de si. Este ser revela que é o lado sombrio de uma raça que o abandonou. Uma metáfora perfeita para o que resulta na negação da Sombra.

Livros de horror e terror normalmente nos fazem ficar cara a cara com a Sombra. Lovecraft e Edgar Allan Poe são dois bons exemplos.

Há outros filmes e livros que podem ser lembrados que tratam deste assunto, porém considero a saga do Incal, de Jodorowski, uma das melhores abordagens deste assunto. Nela há uma guerra entre luz e trevas sendo travada e o herói, John Difol, é o único que pode transcender as trevas e fazer o universo retornar á luz. Nesta saga, todo o processo de Individuação junguiano até a superação das trevas é mostrado.

Nerd Shop:
O Efeito Sombra - Deepak Chopra, Debbie Ford e Marianne Williamson (Editora Lua de Papel)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Os paradoxos do horror




O menino assustado não desgruda os olhos da TV. A mãe sabe que ele terá pesadelos e o chama para ir deitar, mas ele se recusa. Quer ver até o final.

Esta cena parece comum. Lembramos que nós mesmos poderíamos ser aquele menino e mesmo hoje ainda nos assustamos com um ataque do Alien, ou sentimos calafrios a ver A Hora do Pesadelo ou sentimos a sensação de suspense ao ver um episódio de Além da Imaginação, ainda que tenha efeitos especiais extremamente toscos.

Diante desta constatação, surgem duas perguntas básicas:

Por que sentimos medo, suspense ou angustia diante de uma história que sabemos ser falsa?

Por que procuramos este tipo de literatura ou cinema, se sabemos que ela nos causará algum tipo de desprazer?

O fato de se existir histórias de terror e horror desde quando um homem de Cromagnon assustou seus companheiros de caverna aumentando um pouco o tamanho do tigre de dentes de sabre que o perseguiu, nos mostra a solidez deste gênero de histórias.

Tenho lido ou visto ao longo de minha vida vários livros e filmes que de uma forma ou outra se enquadram nestes gêneros. Também tive contato com várias teorias que tentam explicar este tipo de fenômeno, desde obras de filosofia e psicologia a prefácios de livros deste gênero de literatura. O que não me torna uma autoridade no assunto, mas pelo menos um leitor bem informado. E nesta categoria é que pretendo discorrer.

Uma das respostas possíveis à primeira pergunta é "a suspensão temporária da realidade", que ocorre em qualquer obra de ficção. Se assim não fosse, não poderíamos lidar com nenhum tipo de ficção, pois sequer riríamos de uma boa piada...

Esta suspensão não é plena, pois sabemos que se fecharmos o livro ou mudarmos de canal o monstro não estará mais ali (do contrário, seríamos sérios candidatos a uma consulta ao psiquiatra).

Como parte ou complemento desta suspensão, temos a identificação com os personagens (o herói, a vítima, o narrador ou até o monstro). Muitas vezes nos surpreendemos nos dizendo "isso poderia estar acontecendo comigo".

Apesar desta identificação, o nosso sentir muitas vezes não é o que o personagem pode estar sentindo. O detetive, no encalço de um assassino, passa por várias emoções, mas nunca o suspense (esta é uma emoção típica de um espectador, que às vezes sabe mais que o personagem). Mas outras, como o medo, a repulsa, alguns tipos de susto e o desejo sexual podem estar ligados diretamente ao personagem ao qual nos identificamos.

Isso parece ter respondido à primeira questão.

Entretanto, a literatura que explora o suspense, o terror ou o horror lida com emoções profundamente negativas. Será que nós, leitores de Drácula, somos todos masoquistas?

Claro que não!

Podemos elencar alguns motivos pelos quais nos aproximamos de uma obra deste estilo.

Fuga da vida moderna. Nosso corpo e nossas emoções estão preparadas para uma vida nas selvas, onde podemos ser vítimas ou predadores durante nossa busca pelo alimento. Porém estes problemas foram resolvidos e em vez de correr atrás do antílope ou fugir do leão, vamos ao mercado e compramos um bife e o único leão que enfrentamos é o do imposto de renda. Todavia sentimos falta desta vida pela qual fomos preparados ao longo de milhões de anos e buscamos isso nos livros e filmes de suspense e terror.

Experiência de transcendência. Esta é a tese de Lovecraft. Um bom enredo de horror nos coloca frente a frente com nosso medos primais, a ponto de termos a mesma experiência de um homem primitivo diante dos fenômenos da natureza. O racionalismo nos tira o medo do trovão que um homem das cavernas teria, mas ao empregarmos "a suspensão temporária da realidade", podemos atingir este mesmo estágio e termos o medo primal diante de Cthulhu ou outro monstro similar.

Rito de passagem. Uma boa parte dos filmes de terror e horror é voltada para o público adolescente, que quer provar para o seu grupo que tem coragem e demonstra isso comentando detalhes mais sanguinolentos de Sexta Feira Treze. Há um episódio de Doug onde isso é mostrado. Ele se sente inferiorizado frente a seus amigos por ter fechado os olhos no momento em que o monstro aparece na tela. Um outro bom exemplo são os "testes" do Zé do Caixão, onde ele fazia os candidatos a ator passar por experiências do tipo "comer minhoca" e só "os mais fortes" eram aprovados...

Catarse de emoções reprimidas. Nossa sociedade, além de resolver nossos problemas de sobrevivência, em contrapartida nos coloca uma série de restrições de ordem moral, a maioria das vezes arbitrária. Então, alegoricamente, nos recorremos a uma boa história de terror pra por pra fora esta repressão. Dentre estas restrições, a mais evidente é o sexo. O ato de penetração passa a ser os dentes do vampiro no pescoço da mocinha. Ou então a violência. Em vez de dar uma surra no meu vizinho inconveniente, torço pro herói matar o monstro na tela do cinema.

Trama complexa de mistério e descoberta. A maior parte dos enredos deste tipo (mesmo Sexta Feira Treze) envolve um problema que precisa ser resolvido, atingindo não mais nosso troglodita, mas o homem civilizado, que se encanta em resolver um bom mistério. Um bom exemplo é O Médico e o Monstro, onde só sabemos que o Médico e o Monstro são o mesmo ser nos últimos parágrafos da trama.

O suspense em si mesmo. Gostamos de torcer pelos personagens que estão passando por apuros e que não estão vendo que o assassino com a faca na mão está atrás da cortina. Isso está ligado á nossa capacidade de empatia, que nos permite ser solidário diante da dor do outro.

Identificação com o herói. A maioria de nós tem uma série de limitações de ordem física (somos fracos, feios ou carecas) ou externas (moro num "apertamento" minúsculo) que o herói não tem. É lógico que ele tem um monstro por dia pra matar, mas, e daí? Ele vai ficar com a mocinha no final... Então, por umas duas horas posso ser ele.

Identificação negativa. Às vezes nos identificamos não com o herói, mas com a vítima (que sofre alegoricamente o mesmo que sofremos no dia a dia) ou com o monstro, que após alguns maus bocados percebemos que ele é uma vítima da sociedade repressora como nós somos. É caso de King Kong (vítima da ganância) e do monstro de Frankstein (rejeitado pelo seu criador).

Efeito montanha russa. A montanha russa nos leva a uma situação de perigo aparente e depois de concluída, dá a sensação de alívio. Ao vermos um filme ou lermos um livro de terror ou horror ficamos aliviados ao saber que aquilo era apenas uma história. É o mesmo que calçar um sapato apertado pra depois ter o prazer de tirá-lo.

Alegoria sociológica ou política. Podemos usar o ambiente de um filme de horror para criticar ou exaltar a sociedade em que vivemos (o já citado King Kong, Jurassic Park, algumas histórias de zumbis, como Fido).

Estes foram os motivos que eu elenquei. Com certeza não são todos, mas são bem representativos. E quais são os seus motivos? Mas não racionalize muito, do contrário talvez o próximo livro ou filme de terror que você for ler ou ver não pareça tão interessante...