Mostrando postagens com marcador Literatura Fantástica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura Fantástica. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? – Blade Runner para ler com prazer


Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? 
Título original: Do androids dream of eletric sheep?
Autor: Philip K. Dick
Tradução: Ronaldo Bressane

Sinopse: Rick Deckard vive numa Terra decadente, onde após uma guerra nuclear, boa parte dos humanos emigraram para colônias espaciais e a maioria dos animais morreu, transformando-se em produtos de luxo. Seu sonho é possuir um animal verdadeiro. Sua profissão é “caçador de recompensas” e ele persegue e “aposenta” androides. Recebe como missão perseguir e aposentar seis androides fugitivos de Marte e vê nesta caçada a possibilidade de realizar seu sonho de ter um animal verdadeiro. Mas, as coisas não saem exatamente do modo que deseja.

Durante muito tempo tive receio de ler o livro pois tinha medo de ver destruída a minha excelente impressão do filme Blade Runner, baseado neste livro ou que a minha visão do filme fizesse desgostar do livro.

Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Como o próprio Philip K. Dick disse, após ver um trecho do filme ainda em produção, os dois trabalhos se complementam.

O filme dá uma dimensão maior aos personagens Deckard (o caçador de androides), Rachel (a androide quase – ou mais que – humana) e Roy Bat, o líder dos androides fugitivos.


Rachel, mais humana que androide

O Deckard do livro é uma pessoa comum, com uma vida medíocre e a única coisa extraordinária (que ele trata como algo muito burocrático) é sua profissão. Roy Bat apesar de sua inteligência e de certa forma sensibilidade, seria incapaz de proferir aquele discurso do final filme e Rachel do livro não consegue passar sua humanidade como no filme.

Deckard, frieza burocrática ao aposentar androides.

Por outro lado, no filme a preocupação metafísica – que é bastante intensa no livro – está quase ausente e mostrada de um jeito diferente (concentra-se na busca do “criador” por parte dos androides). No livro, há uma espécie de religião chama mercerismo, onde todos se conectam através de um caixa de empatia a Mercer, um messias que sofre para  que todos sofram juntos e compartilhem emoções.

Mercer é um velho que sobe uma colina e é apedrejado por inimigos invisíveis e as pessoas quando a ele conectadas sentem seu sofrimento e as emoções de cada pessoa envolvida. Aliás, a empatia é o sentimento que distingue um ser humano de um androide e a busca por empatia é o que move os androides liderados por Roy.


Tanto no filme como no livro os androides buscam a transcendência

Está ausente no filme o programador de emoções de Penfield. É um aparelho em que você escolhe num menu o tipo de emoção que quer sentir no momento. Em geral, as pessoas “vestem” emoções convenientes, como alegria se estão em casa ou senso de responsabilidade profissional se estão indo trabalhar. Entretanto Iran, esposa de Deckard  (personagem ausente no filme) um dia, ao tomar consciência de sua condição de morar num mundo decadente, em vez de “felicidade” escolhe “depressão”, que segundo ela, era o que deveria estar sentindo realmente.

Há também a questão do “bagulho”. Na visão de Isidore (no livro um simples motorista que recolhe animais artificias com defeito) o bagulho seriam objetos inanimados que se multiplicam e destroem o mundo a sua volta, uma explicação ingênua para a deterioração entrópica do mundo em que está vivendo.

O mundo de Dick é um mundo onde o artificial expele o natural e hipocritamente destrói os androides, que paradoxalmente anseiam por humanidade. Isso também está no filme, mostrado de outra forma.


Um mundo onde o natural é expulso pelo artificial

Atenção Spoiler!

O ponto alto do filme é a perseguição dos androides no prédio onde mora Isidore. No livro há perseguição, mas sem a emotividade das cenas do filme e a morte de Roy é patética, como se fosse mais uma “aposentadoria” feita por Deckard.

O termo em inglês é “retire”, que significa também “retirar”. Em português não há esta ambiguidade. O segundo significado da palavra aposentar (colocar em um aposento) há muito não é utilizado. Nas versões do filme traduzidas (tanto dubladas como legendadas) a que assisti, o termo empregado é “remover”. O uso deste termo em vez de ser um eufemismo para “matar” coisifica o androide e acaba sendo mais forte que o inglês “retire”.

Na tradução do livro preferiu-se o termo “aposentar”, para manter a ironia original do texto em inglês, embora a ambiguidade seja intraduzível.

O livro se prolonga um pouco mais como um encontro em um deserto de Deckard com Mercer onde o caçador se descobre humano. Uma cena bem feita onde praticamente o imaginário e o real se reconciliam. 

O final também é “sem sal”. Decarkd volta para a casa e para sua esposa e apenas quer “uma longa e merecida paz”, que, em muitos idiomas, soaria como uma metáfora para morte.

Extras

O livro possui três adendos: uma carta de Philip K. Dick elogiando a adaptação e prevendo o caráter revolucionário do filme, sua ultima entrevista e uma analise do livro muito bem elaborada feita por Ronaldo Bressane.

Conclusão 

Realmente o livro e o filme se complementam e Blade Runner é uma das melhores adaptações para o cinema de um bom livro. 

Com certeza vale o conselho que normalmente aparece em publicidade de filmes: veja o filme, leia o livro e ouça a trilha sonora.

Nerd Shop

Livro: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? Philip K. Dick,. Editora Aleph.
Filme: Blade Runner - O caçadore de Androides. Versão definitiva. 
Trilha sonora: Blade Runner. Vangelis. 

terça-feira, 20 de maio de 2014

Mary Shelley e Guy de Maupassant em e-books

O Mortal Imortal
Título Original: The Mortal Immortal
Autor: Mary Shelley
Tradução: Guilherme Kroll
Editora: Balão Editorial
Ano: 2014
Edição eletrônica


Sinopse: Um homem de mais de 300 anos conta sua história, de como ele chegou à condição de uma provável imortalidade.

De autoria de Mary Shelley – famosa por Frankstein, este conto se insere na tradição de histórias de humanos que se tornaram imortais e a benção duvidosa que logo se torna uma maldição. Isso é deixado claro logo no primeiro parágrafo da história e o conto se concentra no como o personagem adquiriu o malfadado dom, seu sofrimento e seu desejo maior de alcançar a morte.

Vale a leitura pelo texto quase poético de Mary Shelley, o personagem muito bem caracterizado e como uma introdução ao terror gótico. 

Enriquecem o texto notas de rodapé dos editores, que buscam contextualizar alguns pontos do conto.


No Mar 
Titulo Original (francês): En Mer
Autor: Guy de Maupassant
Tradução: Flávia Yacubian
Editora: Balão Editorial
Ano: 2013
Edição Eletrônica


Sinopse: Obra de Guy de Maupassant, que deu origem à HQ O Pobre Marinheiro, é a história da desventura de um rapaz que perde o braço a serviço de seu irmão em um navio pesqueiro. A atitude do irmão e a determinação mórbida do jovem marinheiro dão o tom da história.

O que está em jogo aqui são as motivações dos dois irmãos, em especial do mais novo. Um conto típico de Guy de Maupassant, que sabe captar o lado mais sombrio do ser humano.

Nerd Shop

Ambos os livros estão sendo vendidos por cerca de um real na Amazon, no formato Kindle e na Cultura e em outras livrarias que vendem e-books, no formato epub (compatível com o Kobo)

O Mortal Imortal, Balão Editorial, formato epub
O Mortal Imortal, Balão Editorial, formato kindle

No Mar, Balão Editoria, formato epub
No Mar, Balão Editoria, formato kindle

Uma boa oportunidade para conhecer estes dois autores clássicos em duas excelentes traduções.

sábado, 5 de abril de 2014

Neblina e a Ninja


Neblina e a Ninja
Autor: Miguel Carqueija 
Editora: auto publicação no Recanto das Letras
Ano: 2013
70 páginas.


Sinopse: Num futuro longínquo, a humanidade, após ter destruído a biosfera, vive em subterrâneos. Neste mundo a produção de energia é vital. Ela é obtida a partir de cristais que, instalados em torres altas, retiram energia solar a partir da superfície contaminada. 

Neste ambiente, o poder está ligado ao controle destes cristais e roubá-los é o objetivo do crime organizado.

Para combatê-los o governo tem um programa que treina jovens superdotados para desenvolverem suas habilidades especiais e tem também um treinamento intenso em artes marciais. Para se protegerem, estes jovens usam disfarces. Entre eles está Neblina, uma moça esperta, inteligente e hábil. Ela é convocada para ajudar nas investigações de um assassinato de um diplomata romeno, para desespero da polícia local – eficiciente pra lidar com o dia dia a dia, mas incapaz de lidar com algo muito maior. Este crime é a ponta do iceberg, pois quem está por trás das operações é uma vilã extremamente inteligente e cruel, a Ninja.

Carqueija, como sempre compõe duas grandes personagens femininas, Neblina e sua sombra, a Ninja, que vão se enfrentado num ritmo cada vez mais intenso até o desfecho final, onde o autor mostra seu maior talento: uma precisa descrição de cenas de ação, com direito a uma luta corpo a corpo digna de filmes de artes marciais.

Os personagens secundários também merecem uma atenção especial do autor, sobretudo os policiais  que inicialmente fazem oposição a Neblina, vendo-a como intrometida, depois pouco a pouco vão aceitando-a como parceira. Aliás, Carqueija faz com que a entrada em cena dela seja realmente uma intromissão, fazendo com que o leitor num primeiro momento até dê razão aos policiais. Junto a isso está a forma de agir da heroína, que em vários momentos resolve agir sozinha, correndo vários riscos, para desespero de Madeira, o chefe das operações.

Além de enfrentar a oposição de Madeira e seus homens, Neblina tem como outro obstáculo a incompetência do Primeiro-Ministro Darci, apelidado de Jujuba, que administrou mal a construção das torres de energia e a sua segurança, usando medidas paliativas estúpidas que acabaram favorecendo os vilões e meteu os pés pelas mãos na solução do problema.

Dizer mais é dar spoiler. A noveleta é muito boa. Só senti falta de algo que levasse o leitor sentir um pouco da claustrofobia de um ambiente subterrâneo. Certamente se houvesse mais disso, o nível de urgência em combater os vilões ficaria um pouco maior. Mas isso não tira o brilho da narrativa.

Uma leitura bem divertida, cheia de emoções e reviravoltas. 

Nerd Shop

Gratuito para baixar, no Recanto das Letras

terça-feira, 25 de março de 2014

Lobisomem sem barba

Lobisomem sem Barba - Balão Editorial
Lobisomem sem barba
Texto e Arte: Wagner Willian
Editora: Balão Editorial
Ano: 2014
352 páginas

Sinopse: formado por pequenos textos como se tirados aleatoriamente de postagens e comentários em blogs e redes sociais, este mosaico, formado por caquinhos aparentemente díspares, compõe uma história maior.

A primeira sensação que tive ao começar a ler Lobisomem sem barba é que alguém num acesso de fúria tivesse rasgado uma centena livros de HQs e pegado um punhado de papéis rasgados e me dado pra ler. Neste conjunto aparentemente caótico foi formando uma história na minha cabeça.

A leitura também pode ser comparada à leitura fragmenta que fazemos nas redes sociais, correemos os posts dos nossos amigos, às vezes sem relação entre si, observando o feed de notícias com o rabo dos olhos e de vez em quando respondendo alguma coisa no chat.

Sentimos que há algo estranho ocorrendo, pode ser um lobisomem, mas não vemos seu rosto para saber se tem ou não barba. E terminar a leitura não nos dá certeza alguma.

Recheado de citações à cultura popular, que vão do mangá Akira à Waldick Soriano (cantor brega dos anos 80, cujo maior sucesso era Eu não sou cachorro não), passando pelo Coelho Pernalonga e sua turma, ou a cultura mainstream, como Jung e van Gogh, Lobisomem sem barba é uma leitura intrigante e que nos faz combinar lógica, intuição e imaginação para tentar alcançar um sentido maior do conjunto de fragmentos que temos à mão, não muito diferente de quanto tentamos entender a realidade em que vivemos.

Uma boa parte dos fragmentos é acompanhada por citação a uma música pop, MPB ou clássica, por exemplo Bang Bang, na voz de Nancy Sinatra, Essa moça tá diferente, de Chico Buarque e  Clair de Lune, de Debussy. Algumas podem ser ouvidas na lista de reprodução feita pelo autor no Youtube.



E há as ilustrações, do próprio autor, tão desconcertantes quanto o texto. Eu classificaria o Lobisomem sem barba como um desafio semelhante ao da Esfinge, decifra-me ou devoro-te.



Leia amostra do texto aqui.

Nerd Shop

Lobisomem sem barba. Wagner Willian. Balão Editorial. Livraria Cultura

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Kaori e Samurai sem Braço

Kaori e o Samurai sem braço
Autor: Giulia Moon
Ilustrações: Giulia Moon
Editora: Giz Editorial
Ano: 2012
200 páginas

Sinopse: O grande terremoto seguido por um tsunami no Japão em 2011 traz a Kaori lembranças de outro grande terremoto, ocorrido lá em 1782. Nesta época, ela encontra-se com um samurai e uma kitsume, espécie de mulher raposa. Ambos estão em busca de um terrível monstro sobrenatural que se alimenta de almas e apossa-se dos seus corpos. Kaori se reúne a eles.

O livro conta esta história em tom de conto de fadas, onde uma miríade de criaturas da mitologia nipônica e personagens do Japão medieval desfilam para deleite do leitor. Há um destaque especial para a kitsume, de nome Omitsu, uma raposa que adota a forma de uma mulher. Seu comportamento é bem travesso, trazendo humor e alegria ao desenrolar da história. Mas que não se engane o leitor: se necessário for, sobretudo para defender seu mestre, a alegre kitsume é capaz de coisas terríveis. O esmero na criação deste personagem fez com que sentisse vontade de encontrá-la mais vezes em outras histórias deste universo.



Ilustração interna do livro
Kaori e o Samurai sem braço

O samurai, Kitarô, também é um personagem que me deixou saudade ao término da aventura. Amargurado com a morte de sua família (esposa, o irmão e os pais), sai em perseguição ao monstro responsável por isso, o Shinkû, tornando-se matador de bakemonos (demônios). É nesta senda que Kaori se introduz, ao ser salva por Kitarô, que vê nela alguém que pode ajudá-lo nesta busca, apesar dela ser também uma bakemono.

O convívio forçado pela necessidade e o compromisso de “um ano e nem mais um minuto” entre Kaori e Kitarô aos poucos vai se transformando em um relacionamento de tolerância primeiro, depois, de amizade.

Spoiler:
Assim, de monstro em monstro vão seguindo a pista do terrível Shinkû, uma senda formada por aventuras cada vez mais perigosas, até o confronto final entre dois grandes adversários: o monstro com séculos de experiência e o samurai com vontade férrea motivada pelo desejo de vingança. 

O clímax do livro é muito bem conduzido, sendo o maior inimigo de Kitarô a verdade que ele não quer ver.

Um detalhe de estilo 

Giulia Moon abre a história com um prólogo onde Kitarô, à beira do inferno, ouve o chamado de Kaori. Pouco depois muda para o século XXI onde Kaori conversa com Takezo (outro samurai, personagem que aparece nos livros anteriores) discutindo sobre o terremoto e isso leva a lembrar-se de Kitarô. Parenteses abertos que serão fechados no devido tempo. Isso cria na cabeça do leitor um gancho forte para ele continuar a leitura. 

Ao terminar o livro, Kaori opta por um fechamento típico de conto de fadas, um outro gancho, este gerando expectativas:

"Bem, mas isso é uma outra história que será contada em uma outra ocasião."

Excelente leitura!

Nerd Shop

Kaori e o Samurai sem braço. Giulia Moon. Giz Editorial. Na Livraria Cultura.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Realidades Adaptadas – Phillip K. Dick

Autor: Philip K. Dick
Tradução: Ludimila Hashimoto
Editora: Aleph


Sinopse: Reunião de sete contos de Philip K. Dick que deram origem a filmes, entre eles o Vingador do Futuro, refilmado em 2013.

Dick é o autor de Ficção Científica mais filmado por Hollywood, com várias de suas obras adaptadas, como, por exemplo, Blade Runner, a partir do romance Do the androids dreams with electric sheep?

O sucesso do filme e maneira de Dick escrever chamaram a atenção dos produtores e tivemos uma boa safra de filmes, nem sempre muito fiéis ao texto do autor, porém com ótimos resultados.

Lembramos a você a preço de atacado

Este conto, publicado em 1966 deu origem ao Filme O Vingador doFuturo (Total Recall) em 1990 e refilmada em 2013. Quem viu o filme e lê o conto tem a sensação que falta algo, pois o conto abrange até mais ou menos a metade do filme e o desfecho é bem diferente. Os roteiristas conseguiram dar uma dimensão ainda maior para ambiguidade do personagem e das múltiplas realidades em que ele vive.

Segunda variedade

Este conto, escrito em 1953, deu origem ao filme Screamers –Assassinos Cibernéticos, de 1995. Não vi o filme. O conto, fruto da Guerra Fria, tem como pano de fundo uma longa guerra entre russos e americanos. Os americanos desenvolveram uma arma cruel, um robô chamado “garra”, uma pequena esfera de metal cuja única função era matar qualquer ser vivo, desde que não tivesse uma identificação especial (detalhe aproveitado num dos episódios da série Doctor Who). Spoiler: o problema é que estas armas começaram a evoluir e a modificar a si mesmas tornando-se uma ameça para ambos os lados. Suspense bem construído e final surpreendente (talvez não tanto para os fãs de Dick).


Conto de 1953, deu origem ao filme de mesmo nome de 2001. Outro filme que não vi. A Terra está numa situação de equilíbrio instável (metáfora pra a Guerra Fria) com uma força alienígena que pretende invadi-la. Spoiler: Um engenheiro pode ter sido substituído por um robô-bomba que poderá explodir assim que for dita por qualquer pessoa uma frase chave. O problema maior é que o robô pode desconhecer sua própria natureza, acreditando piamente ser quem está substituindo.

Relatório minoritário

Escrito em 1956 e filmado em 2002 com o nome Minority Report, o conto trata de um sistema policial onde através do uso dos precogs, seres humanos com retardo mental, mas dotados de vidência. Isso permite prender uma pessoa antes que ela cometa um assassinato. São três videntes e a pessoa é detida se pelo menos dois deles têm a mesma previsão. O relatório divergente é o relatório minoritário. No conto, o comissário Anderson, responsável pela divisão pré-crime, é acusado pela própria seção que dirige, de assassinar uma pessoa que não conhece. Tudo é parte de uma trama para desmoralizar o sistema. O conto se concentra na tentativa de Anderson de encontrar o relatório minoritário.

No filme, há alguns acréscimos importantes, que alteram a motivação da trama, e um final diferente. Todavia o resultado é muito bom.


Conto de 1953 e filmado em 2003. Um homem trabalhou dois anos para uma empresa, teve sua memória apagada e recebe em vez de pagamento um saquinho com bugigangas. Segundo seus empregadores, o adendo no contrato foi feio por ele mesmo, antes de ter sua memória apagada. Ele se sente engando, porém cada um daqueles objetos terá uma utilidade crucial no futuro, como se ele, ao pedir aquelas coisas, já soubesse o que iria lhe acontecer. O conto se concentra em desvendar pouco a pouco a função dos objetos e o que realmente ele fez durante aqueles dois anos. O protagonista está prensado entre o governo e uma empresa gigantesca e se sente uma engrenagem nesse jogo. De todos os contos, foi este o que mais me prendeu a atenção.

O homem dourado

Escrito em 1954, deu origem ao filme O Vidente (Next) em 2007. Uma família esconde um mutante, um rapaz de pele dourada, pois a política do governo é capturar para estudo e exterminar os mutantes “inapropriados” (quase todos). A capacidade deste mutante é prever tudo o que vai lhe acontecer com uma precisão incrível. O conto tem o mérito de apresentar, contrariando o padrão da época, um mutante belo, aparentemente inofensivo, como uma real ameaça ao futuro da espécie humana. Esta visão e a postura do governo no conto certamente influenciou X-Men.

Quem elu este conto deve ter tido um leve deja-vù: “tem algo que eu já vi em outro lugar”. Viu mesmo. Na primeira versão de O Vingador do Futuro: os mutantes de Marte.

Equipe de Ajuste

Também escrito em 1954, o filme deu origem a Os Agentes do Destino. Um homem chega atrasado ao trabalho e vê seu mundo literalmente desmoronar. Ele inadvertidamente foi colocado no meio de uma intervenção de uma espécie de administradores da realidade. Este conto tem um tom mais leve, com traços de humor. Alguns dos personagens são caricatos, como o cão que deve evocar um evento ou o vendedor de seguros que faz o protagonista perder seu tempo. E a organização que cuida do processo é uma caricatura de uma organização burocrática. Foge um pouco ao tom normal de Dick, que raramente usa o humor, e quando usa é de maneira cínica.

Conclusão

Destes filmes, só via as duas versões de O Vingador do Futuro e Minority Report. Mais do que adaptações, estes dois filmes foram recriações muito bem realizadas.

Dick tem algumas coisas que lhe são próprias, que aparecem nestes contos:
  • Questionamento da realidade (nada é o que parece ser);
  • Questionamento do destino da humanidade;
  • Paranoia frente a julgamento de terceiros, sem possibilidade de defesa (sobretudo em Minority Report).

No todo, os contos são bastante interessantes e a ideia de reuni-los num único volume chega a ser didática, tanto para os apreciadores destas obras no cinema como para os fãs de Philip K. Dick.

Os textos são precedidos de um comentário que contextualiza as obras tanto na literatura como no cinema e o livro apresenta o final alguns comentários do autor sobre cada um dos contos. Está no final por que Dick deu vários spoilers, mas é interessnate para ver como o autor vê sua própria obra.


Um bom trabalho da editora Aleph.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O Brasil Fantástico – Lendas de um país sobrenatural

O Brasil Fantástico – Lendas de um país sobrenatural
Autores: Clinton Davidson (org), Grazielle de Marco (org), Maria Georgina de Souza (org), André Vianco (apresentação), Christopher Kastenmidt, Andreia Kennen, João Rogaciano, A. Z. Cordononsi, Allan Cutrim, Mickael Menegheti, Maria Helena Bandeira, Marcelo Jacinto Ribeiro, Vivian Cristina Ferreira, Renan Duarte, Antonio Luiz M. C. Costa.
Editora: Draco
Ano: 2013
248 páginas

Sinopse: Por inciativa da gestão 2012/2013 do Clube de Leitores de FicçãoCientífica, a antologia O Brasil Fantástico reúne contos que tem por base a mitologia brasileira, recontada das mais variadas formas e dentro dos mais variados enredos passando pela aventura, pela ficção científica, pelo terror e até pelo humor.

A Copa dos Mitos – Christopher Kastenmidt
Um menino apaixonado pela mitologia brasileira e discriminado por causa disso é convidado por um estranho, conhecido apenas por Ruivo, a ver uma copa do mundo de um esporte diferente. Lá chegando vê uma batalha entre mitos de várias regiões do mundo, e cada região tem uma torcida organizada. Ele é o único torcedor do Brasil.
O conto faz referências aos card games, no estilo de Yuggi-Oh, onde a estratégia consiste em combinar atributos de uma equipe para derrotar outra. A crítica está voltada à absorção de uma cultura estrangeira em detrimento da nossa (detalhe, este conto foi escrito por um americano).
Um enredo para público juvenil, que fala a linguagem desta faixa etária, leva a crítica de forma positiva, pois não condena o uso de cultura exterior e procura introduzir a nossa mitologia no contexto dos card games, com suas referências às culturas orientais e europeias.
O Filho da Mata – Andreia Kennen
Um adolescente, Vinícius, com uma visão de mundo romântica não consegue se adaptar aos desejos do pai de torná-lo parte do processo de administrar a fazenda da família. Menosprezado pelo irmão, que debocha dele chamando-o de “florzinha” busca refugio ouvindo as histórias do velho Tenório, envolvendo mitos locais. Mas ele descobrirá que as histórias são mais que histórias.
Aqui o fantástico se introduz no real trazendo o leitor aos poucos para o mundo Tenório que depois passará a ser o mundo de Vinícius.
Muito bem escrito, tanto no envolvimento com o mito, como no drama pessoal de Vinícius.
Entre conspirações e monstros mitológicos – João Rogaciano
Uma história que mistura muito bem três ingredientes: um mistério policial, Um mito lusitano, o Cavalum (um cavalo com asas de morcego que solta fogo pelas ventas) e um mito brasileiro, o boitatá. Leopoldo Cid, um detive incrédulo, mas que enxerga uma possibilidade de lucro, aceita investigar as aparições do Cavalum num castelo, proposta por uma linda mulher. O enredo segue de forma bem humorada o estilo de policial noir.
A Mula do Cavaleiro Neerlandês - A. Z. Cordononsi
Aqui o mito brasileiro se mescla a um mito holandês de forma bastante criativa. As duas lendas vão pouco a pouco sendo mostradas e quem tem algum conhecimento vão perceber como elas caminham juntas. O medo não tem nacionalidade. Não dá para estender os comentários sem causar spoiller.
Amaldiçoado – Allan Cutrim
O filho de um alcóotra sofre muito nas mãos do pai e percebe que em conversa s veladas de seu pai e sua mãe é tratado com se fosse um amaldiçoado. Sua vida muda quando sua irmã é atacada por uma entidade chamada A Pisadeira.
O conto combina muito bem algumas entidades do folclore brasileiro de forma a construir uma boa história.
Terra Amaldiçoada – Mickael Menegheti
No início do ano 1500 um grupo de espanhóis sobe o Rio Amazonas, em busca da lendária cidade de Eldorado. São seguidos de perto por criaturas da floresta, que atemorizam até os índios da região. Um conto com bastante suspense e boa ambientação na mata.
Um pequeno reparo, que não compromete a qualidade da narrativa: o conto é narrado em primeira pessoa por um frade e de quando em quando a palavra foco no sentido figurado. Só que a palavra foco só aparece após a invenção do telescópio, que ocorreu cem anos depois e o sentido figurado é de uso muito recente, vindo da literatura de administração. Isso causa um tropeço na leitura tirando o leitor do clima criado.
No seu todo, o conto lida bem com as lendas, os personagens e o clima de suspense.
A Sacola da Escolha – Maria Helena Bandeira
O conto é narrado como se fosse uma lenda indígena, e trata da evolução de um personagem que, para resgatar seu passado, tem que aprender a lidar com suas escolhas.
O conto tem uma cosmogonia indígena da qual parte a narrativa que se mistura uma "contação de causo" de um caçador que se encontra com Boiúna, a cobra grande. Uma excelente narrativa recria com muita habilidade, tanto numa forma de narrar quanto na outra, o clima de fantasia.
A voz de Nhanderuvuçu – Marcelo Jacinto Ribeiro
Numa realidade alternativa, retrofuturista, dois agentes ingleses têm a missão de iniciar a exploração de uma jazida imensa de platina no centro do Amazonas.
Chegam a seu destino com um dirigível e uma tripulação treinada e são confundidos com uma ajuda enviada para salvar a população de terríveis acontecimentos: estão sendo assombrados por entidades da floresta.
Um mestiço resolve ajudá-los a encontrar o destino e a lidar com as entidades, que conhece muito bem.
Uma história bem construída e com um final surpreendente.
A Bruxa e o Boitatá – Vivian Cristina Ferreira
Bruna é uma bióloga marinha e deve ir à Florianópolis ajudar a descobrir o que está dizimando as tartarugas no projeto Tamar. Suspeita-se tratar-se de uma serpente, especialidade de Bruna.
Porém, sua mãe, sem nunca lhe dizer o motivo, a alertara para nunca voltar à ilha. Cedo descobrirá o porquê do temor da mãe.
Aqui há forte referência aos mitos de Florianópolis, considerada a Ilha da Magia, com mitos herdados da Ilha da Madeira, que acabaram se misturando a lendas indígenas.
Um bom conto.
O Rapaz Misterioso – Renan Duarte
Como Brás Cubas, esta história é contada por um morto, um latifundiário do Amazonas.
Sua rotina de homem poderoso é modificada com a chegada de um rapaz belo e cativante que enfeitiça todos com seu jeito de falar, seduzindo as mulheres e cativando os homens com histórias fantásticas.
Aqui a lenda do Boto toma forma neste bom conto.
O Padre, o Doutor e os diabos que os carregaram – Antonio Luiz M. C. Costa
O título traduz com muito bom humor o que acontece no conto.
Narrado por um padre Ortodoxo como se fosse um relado quinhentista, conta a história de como ele e um cientista judeu foram capturados pelo que ele julgou serem demônios, mas na realidade eram uma tribo de caaporas.
O primeiro parágrafo nos coloca numa realidade alternativa, onde Dom Sebastião é um Imperador, luta contra o Papa, que invadiu militarmente Portugal. Entretanto, isso pouco importa para o enredo. Provavelmente o autor colocou este conto dentro de um universo maior.
A narrativa está centrada na mudança de filosofia do padre ortodoxo (podia ser um católico, sem perda de coerência), que confronta seus valores com os do judeu e do povo que o capturou.
Um texto muito bem conduzido.
Conclusão

A proposta de O Brasil Fantástico foi plenamente atingida. Os contos estão num bom nível, não fugiram da temática proposta e alguns deram um tratamento original aos mitos.
Nerd Shop:
O Brasil Fantástico. Editora Draco. Livraria Cultura.

domingo, 3 de novembro de 2013

Once Upon a Time...



Um dia depois do Dia das Bruxas recebi a notícia de que a Tarja Editorial, que investira pesadamente na Literatura Fantástica, fechara as portas. As mesmas portas que abrira anos antes para autores iniciantes e para um gênero marginalizado pelo mainstream.

Muitos autores inciantes começaram por lá e alguns tive o prazer de conhecer nos lançamentos e que depois se tornaram meus amigos, em companhia dos diretores da Tarja, Richard Diegues e Giampaolo Celli, pessoas que tinham um real entusiasmo por aquilo que faziam, desde a escolha de autores, de títulos, da arte da capa, tradução de obras estrangeiras e de tudo que faz um bom livro.

De todos os lançamentos, merece destaque a coleção Fantástica Literatura Queer que, mais do que levantar uma bandeira, trouxe textos de real qualidade de um tema duplamente marginalizado.

Não sabemos qual o motivo que gerou esta decisão, mas supomos ser pelas agruras deste mercado editorial, onde todos nós, autores, editores, críticos e leitores, somos pressionados pelos desprezo do chamado mainstream, da presença maciça de multinacionais que entopem as livrarias com livros com vários tons de cinza ou códigos de pintores renascentistas de um lado e de editoras caça niqueis de outro, que aviltam o trabalho de bons editores.


Espero sinceramente que o trabalho de Richard Diegues e de Giampaolo Celli continue em outras paragens. O mundo da Literatura Fantástica precisa de gente assim.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cordel dos sonhos - Últimos dias

Este é um projeto para distribuição do livro Cordel dos Sonhos, um romance de literatura infanto-juvenil de Richard Diegues,  com arrecadação de fundos por apoios no Catarse.me. Através dele serão doados livros para crianças de baixa renda com difícil acesso à literatura, entre 9 e 12 anos (idade crucial para formação do hábito de leitura). A meta é que os livros alcancem quem mais precisa e tem dificuldades para obtê-los. Os livros serão entregues diretamente pelo próprio autor a cada criança, durante eventos especiais com os futuros leitores e seus pais, no qual o autor vai autografar cada um dos livros e entregará olho no olho para cada uma das crianças. Parte dos livros irá para a rede de bibliotecas públicas, para acesso de outras crianças que não sejam diretamente alcançadas pelo projeto.

Faltam apenas dois dias para o término da arrecadação. Estamos apoiando e torcendo pra que dê certo. 

Para apoiar e saber mais sobre o projeto, CLIQUE AQUI





Cordel dos Sonhos from Richard Diegues on Vimeo.

Faltam apenas dois dias  CLIQUE AQUI

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Confraria dos Aventureiros

Confraria dos Aventureiros
Autor: Jussara Gonzo
Editora: Oráculo
Ano: 2012
284 páginas

Sinopse: A Confraria dos Aventureiros é um grupo de aventureiros do reino Graso. Este grupo e também o reino, tiveram seus dias de glória e aventura, mas agora tudo estava estagnado. Shamir, o Mago do grupo se estabelecera como vendedor de itens mágicos e Hurrah, outro veterano do grupo só abria a sede da Confraria para tirar o pó. Mas esta monotonia é quebrada por uma voz do passado.
Aos dois veteranos se reúnem cinco novatos, mais por acaso do que intencionalmente: Aramil, filho de Shamir, Ulfgar, um anão fanfarrão e inexperiente, Jebbo, um gnomo mal humorado, Lia, uma ladra arremessadora de facas, John Paul, um aprendiz de feiticeiro.
O texto já no Preâmbulo nos mostra a que veio: contar uma boa aventura no estilo D&D com muitos lances de humor e um bom mistério para ser resolvido.
A estrutura guarda muita semelhança a uma aventura clássica de RPG no estilo D&D de onde vieram também os personagens. O enredo é bem divertido, com destaque para Ulfgar, o anão adolescente que fugiu de casa para ser aventureiro, a revelia dos pais (aventureiros profissionais, que não queriam ver o filho metido em enrascadas).
O mistério está centrado no Castelete de Garzard. Um local assombrado que causou a morte de inúmeros aventureiros que lá entraram para destruir o mal ali presente, inclusive a Companhia do Perigo, grupo outrora rival da Confraria dos Aventureiros.
Há algumas citações a elementos da cultura nerd e até mainstream, sobretudo na invocação de magias. Por exemplo, eis alguns feitiços:
“A Barca do Inferno de Vicente” – referência ao Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente“
A Balada do Mar Salgado de Pratt” – referência a uma HQ de Corto Maltese
“As Moscas de Sartre” – referência a uma peça de Sartre
Tudo isto compõe uma leitura leve, agradável e divertida.

Nerd Shop
O livro pode ser conseguido diretamente com a autora através do e-mail hq.experimental@gmail.com .

Ou pelo site da autora: Punhado de Contos


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Lançamento: Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica




O lançamento do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2012, de Marcello Simão Branco & Cesar Silva, ocorrerá  dia 13 de setembro, sexta-feira, a partir das 18h30, na livraria Martins Fontes (Avenida Paulista, 509, São Paulo).

Este ano, o Anuário traz um artigo especial sobre a ficção científica nos quadrinhos brasileiros, além de escolher a escritora Simone Saueressig como Personalidade do Ano de 2012, apresentando uma longa entrevista com ela. O blogueiro e escritor Álvaro Domingues (O Pai Nerd) foi o resenhador convidado desta edição, trabalhando ao lado de Cesar & Marcello. A capa é do ótimo artista digital Silvio Ribeiro.