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sábado, 1 de fevereiro de 2014

O País dos Cegos e outras histórias

Trata-se de uma coletânea de contos de H. G. Wels em pré venda a Livraria Cultura..

Mais conhecido por seus romances como a Máquina do Tempo e A Guerra dos Mundos, Wells é um excelente contista.

Esta coletânea traz dezoito histórias, mas, infelizmente, as resenhas que li não traziam a lista de contos. Temos que confiar na habilidade de Wells em escrever e na de Bráulio Tavares (excelente tradutor e escritor) em selecionar e traduzir os textos.

Eu conheço vários contos de Wells e todos que li eram muito bons. O que dá o título à coletânea é O país dos Cegos, uma fábula em torno o dito popular Em terra de cegos quem tem um olho é rei. 

Um explorador descobre uma civilização formada por seres humanos que há várias gerações perderam a visão. Este explorador julga ter uma vantagem e age no sentido de querer se tornar rei deste povo. Spoiler: descobre então que ver num lugar onde ninguém vê não é vantagem nenhuma e ele passa a ser o diferente, o anormal.

A maioria das histórias que conheço especulam com a ciência da época, a sociedade e o comportamento humano. Normalmente seu texto é leve, ás vezes pontuado por humor, outras com críticas severas tanto à sociedade de sua época como com os seres humanos de um modo geral.

Nerd Shop

Trad. Barulio Tavares.
Editora Alfaguara Barsil

Em pré venda da Livraria Cultura.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Erótica Steampunk

Erótica Steampunk
Autores: Tatiana Ruiz (organizadora), Goergette Silen, Alexandre Lucchese, Gian Danton, Davi M. Gonzales, João Norberto, Carlos Relva, Marcus Siani, Verônica Freitas, Coral, Alvaro Domingues, Gutemberg Fernandes, Bruno Eleres Soares, Daniel Dutra
Editora: Ornitorrinco
Ano: 2013
210 páginas

Sinopse: o livro reúne 14 contos que combinam erotismo e ficção científica retrofuturista.

Espelho, Engano Meu... – Tatiana Ruiz

O primeiro conto, de Tatiana Ruiz tem como pano de fundo hipocrisia e preconceito em relação ao que é diferente e a tentativa daquele que é diferente tentar alcançar o “normal”. Seria possível? Tatiana, narrando em primeira pessoa, coloca o leitor em contato direto com o pensamento da personagem principal, mostrando suas angustias e frustrações. Um texto de mestre.

Sob as Névoas de Merci Town – Gerogette Silen

É difícil comentar este conto sem dar spoiler, porque o grande mérito dele é ir revelando aos poucos o caráter dos personagens e a situação em que eles se encontram. Vale a pena a leitura, com um bom número de surpresas e sustos ao longo do conto, (spoiler) evolvendo padres, prostitutas, demônios e a mão esquerda da morte.

A Pequena Marechal – Alexandre Lucchese

Uma espiã tem a missão de seduzir Cruz e Sousa e roubar os planos de uma máquina que, por meio de inteligência artificial, faz versos. Mas seriam só versos que a máquina poderia fazer? Uma boa aventura e um bom uso de um personagem histórico na trama.

A Beleza Roubada – Gian Danton

Uma airship argentina abriga o prostíbulo de Madame Rosa. Suspeita-se de que ela é fachada pra atividades de espionagem. Pedro tem a missão de investigar o assassinato de um diplomata e o o roubo de algo muito valioso. Pedro descobrirá o quão belo e perigoso é encontrar o fruto deste roubo.

A Esquadra Fantasma – David M. Gonzales

Ferdinand é o inventor de uma poderosa arma de guerra, um dirigível que viajava silenciosamente sem poder ser detectado pelos sistemas de auscutulação aérea (o avô do radar) dos inimigos do Reich. Londres fora destruída e o próximo alvo seria Paris. Numa das festas Ferdinand se sentiu atraído por Ingrid, uma das jovens que procuravam se aproximar de militares em busca de um bom partido ou de uma diversão garantida. Quais seriam as intenções de Ingrid?

Investigação Profunda – João Norberto

João Norberto faz uma inversão nas tradicionais histórias de detetives noir: em vez de um homem com um (não tão) rígido código de ética, é uma mulher que é o detetive. Numa tarde, a detetive recebe a visita de Alisha, uma cafetina de luxo, queixando-se do desparecimento de Jade, uma de suas pupilas. Isso levará a heroína a situações de extremo perigo, mas também de prazer. Além da inversão de papéis, há a presença de escravos negros, servindo de garçons ou de michês. Se estamos numa sociedade escravagista (Brasil no Segundo Reinado), por que eles não podiam aparecer? Uma boa dose de aventura e erotismo na medida certa.

Franksteam e Eletrônia – Carlos Relva

Situada aparentemente no século XVI, Fransteam é um agente espanhol ciborgue e foi sequestrado pelos portugueses para auxiliá-los numa missão, a recuperação de um artefato, no novo continente. Portugal e Espanha estão numa guerra fria. Eletrônia é uma mulher ciborque da aliança portuguesa, que tem forte atração pelo seu congênere espanhol. A trama girará entre a busca do artefato, a paixão entre os dois e o conflito de interesses entre a lealdade ao seu país e o amor pelo espião do outro lado. Uma boa e bem humorada aventura.

O Automato de Mr Wilde – Marcus Siani

Oscar Wilde decide se isolar dos prazeres do mundo para se concentrar na escrita de sue romance O Retrato de Dorian Gray. Porém a solidão começa a pesar e ele busca preenchê-la comum autômato. Uma boa sacada e um final bem feito (spoiler: se bem que eu fiquei com uma puta raiva do autor).

Ero-X – Verônica Freitas

Um homem tem fixação por uma stripper que tem a fama de ser intocável: permite aos homens apenas ver seu corpo, mas não deixa que eles se aproximem. Mas que relação guarda ela com a estudante que ele viu adormecida numa mesa de bar, com a cabeça repousando sobre um monte de papéis com anotações com fórmulas químicas?

O Balanço das Águas – Coral

Este é o mais lírico dos contos deste livro. Uma moça vive reclusa em casa e imagina encontrar-se com um homem que lhe aparece nos sonhos. Real ou imaginário ela a conduzirá à descoberta do amor e do sexo.

Máquina de Guerra – Alvaro Domingues

Este é o conto de minha autoria. Uma trapezista de um circo aéreo composto só por mulheres tem seu camarim invadido por um soldado das tropas brasileiras. Qual seria a intenção do rapaz ousado e ao mesmo tempo tímido? Que segredo ele desejava contar a ela?

A Palavra Feita Carne – Gutemberg Fernandes

Uma prostituta sujeita-se as taras de um oficial alemão que se gaba dos planos e máquinas de guerra para sufocar uma insurreição.

Sobre Dunas Mares e Amores – Bruno Eleres Soares

Maria dos Ouros dirige a Pensão do Viajante. George Mattos é um oficial da força aeronaval brasileira e envolve-se com ela. Um jogo erótico entre os dois acontece porém é mais que um jogo. Qual seria intenção real de Maria dos Ouros?

Reanimatrix – Daniel Dutra

Um homem faz jogos sexuais de sadomasoquismo com uma mulher. Isso cresce envolvendo uma brincadeira com a morte e o soro de reanimação do Dr Frankstein. Um bom conto de horror e sexo.

Comentários Gerais

Contém spoiler

Os contos tiveram uma boa diversidade de temas e estilos.

Temos a espionagem como tema dominante. Alguns contos com a temática policial ou espionagem fogem do padrão “mulheres conseguindo informações, seduzindo inimigos”, com bastante criatividade. É o caso de Investigação Profunda, de João Norberto e Franksteam e Eletrônia, de Carlos Relva.

Vale destaque também para ao conto de Tatiana Ruiz que aborda um personagem bem difícil de lidar, sem cair em esterótipos ou preconceito: o transgênero. A autora consegue de forma magistral.

O lirismo aparece no conto de Coral, que capta com rara sensibilidade as fantasias de uma adolescente, contrastando com o horror cru de Daniel Dutra.

Deixo o meu conto (Máquina de Guerra) para os leitores julgarem. Eu gostei bastante de escrevê-lo.

NerdShop 

Erótica Steampunk. Vários Autores. Editora Ornitirrinco. 

domingo, 14 de abril de 2013

Steampunk: Histórias de um passado extraordinário


Steampunk: Histórias de um passado extraordinário
Autores: Gianpaolo Celli (org.), Fábio Fernandes, Antonio Luiz M. C. Costa, Alexandre Lancaster, Roberto de Souza Causo, Cláudio Villa, Jacques Barcia, Romeu Martins e Flávio Medeiros
Editora: Tarja Editorial
Ano: 2009

Sinopse: Esta coletânea foi a primeira coletânea do gênero no Brasil. Com uma seleção de textos cuidadosa de Gianpaolo Celli, reúne textos de diversos matizes sobre o gênero.

Este gênero da Ficção Científica, explora um momento extremamente rico da história: o século XIX, acrescentando alguns desenvolvimentos tecnológicos dos séculos XX e XXI, construídos a partir da tecnologia da época (à vapor, principalmente, daí o steam). O exemplo mais famoso é o computador, descrito em A MáquinaDiferencial, de William Gibson e Bruce Sterling. Ao lado da tecnologia, o desenvolvimento social também é explorado, com os impactos à sociedade, tendo como pano de fundo a Era Vitoriana, com seu moralismo rígido, as distorções provocadas pela exploração dos trabalhadores e as guerras (o século XIX se rivaliza com século XX em número de conflitos). Daí o termo punk. O steampunk em sua essência seria um gênero nostálgico, (retro)futurista e distópico.

O Assalto ao Trem Pagador – Gianpaolo Celli

O conto centra-se na ação de três agentes, uma mulher e dois homens no assalto a um trem com um carregamento de ouro. A missão tem uma relação com a Guerra Franco-Prussiana, que ocorreria em pouco tempo.

Há uma preocupação do autor em dar verossimilhança aos engenhos que coloca no conto, como pistola de “dardos” elétricos, com uma breve descrição e algumas notas de rodapé. Esta preocupação com detalhes tecnológicos o aproxima da FC Hard. Mas isso não compromete o desenvolvimento da narrativa e do clima de aventura. O leitor mais entusiasmado com o desenrolar da trama, pode simplesmente ignorar as notas de rodapé, sem prejuízo para o entendimento.

Uma breve história da Maquinidade – Fábio Fernandes

Este conto mereceu uma inserção na coletânea de Bráulio Tavares, Páginas do Futuro, acredito que pela originalidade de seu ponto de vista. A História é contatada do ponto de vista das máquinas.Parodiando um compêndio didático mostra a evolução da Maquinidade desde a segunda criatura do Dr. Victor Frankstein, que abandonara os cadáveres para usar engrenagens e vapor. Há algumas passagens dignas de nota: como a adesão de Marx à luta pelos direitos das máquinas e a guerra entre duas empresas fabricantes de Cérebros Mecânicos.

A Flor do Estrume – Antônio Luiz M. C. Costa

Recheados de referências a Machado de Assis e a mitos indígenas, Costa imagina índios num grau de evolução tecnológica que permite a Brás Cubas realizar sua sonhada panaceia universal. O conto é muito engraçado, principalmente para quem leu Machado de Assis.

E, ao vencedor, as batatas.

A Música das Esferas – Alexandre Lancaster

Um cientista desenvolve um aparelho para captar a música da “harmonia das esferas”, acreditando que com isso aumentaria a inteligência das pessoas. Porém morre ao experimentar o aparelho em si mesmo. Apesar disso, uma apresentação pública do invento esta programada, o que provocaria morte de todos os presentes. Um jovem cientista e seu amigo tentam impedir que isto aconteça.

O humor está presente de várias formas e a aventura também, fazendo a leitura ser bastante divertida.

O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire – Roberto de Souza Causo

Num Brasil onde não aconteceu a Proclamação da República, o país enfrente a ameaça de uma invasão vinda dos ares. Quem comanda a invasão é Robida, um pirata dos ares, que quer dominar o planeta. Sua tecnologia é bastante superior ao que set em disponível no mundo naquele momento e naquela realidade.

A tentativa do Brasil combatê-lo reside na habilidade e criatividade de um homem: Alberto Santos Dummont.

Uma bem movimentada aventura, centrado em questões militares, onde normalmente Causo brilha.

O Dobrão de Prata – Claudio Villa

O conto foge um pouco ao gênero. É mais uma história de horror do que propriamente FC e peca num coisa fundamental para uma história de horror: a partir de um terço da história, já sabemos qual será seu final. Um conto apenas competente.

Uma Vida Possível atrás das Barricadas – Jacques Barcia

O ambiente é uma guerra civil, uma luta de classes onde trabalhadores oprimidos e seres artificiais lutam por igualdade. Neste clima, um autômato mecânico e uma golem buscam refúgio num cidade controlada pelos rebeldes onde podem dar vazão a seu sonho: terem um filho.

Como os dois são seres artificiais de espécies diferentes, necessitam da ajuda de um cientista humano.

O autômato torna-se um miliciano e luta no front, resitindo ao cerco. A situação vai se agravando a media que o tempo passa e o cerco à cidade vai aumentando.

Há boas cenas de batalha.

O final é surpreendente e poético. Gostei bastante deste conto.

Cidade Phantástica – Romeu Martins

Este conto reúne personagens de Conan Doyle e Júlio Verne, figuras históricas brasileiras e personagens do romance a Escrava Isaura numa aventura policial e de ficção científica de tirar o folego. Este conto é o que mais caracteriza o Steampunk e lhe dá um ar bem brasileiro.

O sequestro da noiva de um industrial inglês e o desparecimento de uma enorme quantidade de tubos de aço põe em ação o policial ferroviário João Fumaça.

Uma boa quantidade de aventura e suspense garante a diversão.

Por um fio – Flávio Medeiros

Um submarino da marinha de guerra francesa e uma fortaleza voadora do império inglês travam uma batalha estilo gato-e-rato. Na realidade é uma batalha entre os dois comandantes, extremamente habilidosos, que se respeitam enquanto inimigos, através de uma admiração mútua. Lembra muito um episódio de Star Trek clássico, onde Kirk enfrenta um comandante romulano (O Equilíbiro do Terror).

Fecha com chave de ouro a coletânea.

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Steampunk: Histórias de um passado extraordinário. Tarja Editorial. 
Steampunk. Livraria Cultura

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Viagem no tempo – dois dias em mergulhado no Universo Steampunk

SteamCon 2013 - Steamers caracterizados para o evento 
(tirado do perfil do Capitão Escarlate no facebook)


Nos dias 26 e 27 de Janeiro aconteceu o SteamCon 2013 em Paranapiacaba, São Paulo. Durante estes dois dias, forma realizadas várias atividades relativas ao universo Steampunk, num cenário extremamente apropriado, com direito a fog, uma neblina tão espessa que penetrava nos aposentos pelas janelas e portas, casas do século XIX, de arquitetura inglesa da época, preservadas como testemunho deste período histórico.

Embora eu tenha crescido lendo Julio Verne, Sherlock Holmes e H. G. Wells , vendo o seriado James West e seja fã e escritor de ficção científica, meu envolvimento com o gênero é recente, me aproximando mais para ampliar meu leque de opções de temas. No início nem pensava em criar caracterizações ou usar qualquer adereço do gênero. O envolver com as pessoas me fez encantar de vez pelo Steampunk.

São as pessoas, na pele ou não de um personagem, que me levaram para dentro deste universo. Diversidade, respeito ao outro, postura não elitista e ausência de preconceitos foi o que encontrei entre os steamers.

Começando pelos organizadores do evento, Candido, Adriana e Fernão, que foram eficientes e conduziram o evento maravilhosamente, dentro do possível e só não foram melhores por ser este o primeiro evento deste porte que conduziram. E eles não teriam conseguido sem ajuda dos “foguistas”, Bruna, Ariadne, Absonos e Fiori, Jesse e seu tímido namorado; dos palestrantes Gian e Capitão Escarlate; dos oficineiros, Robson (desenho) e Dimas (esgrima histórica); do Mago Steam e do Tarólogo Steam.

Havia ainda a turma simpática de Campinas, Mái, Nina, Mordida (que me adotou como pai), Dimas e Fox. 

E a tripulação do A. S. Príncipe Negro.

Por fim a turma do Pic Nic Vitoriano, que fechou o evento.

Todas estas pessoas (e mais algumas, não consegui lembrar o nome de todo mundo) compuseram um panorama humano excelente. Um grande abraço a todos eles!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

SteamCon em Paranapiacaba




O Conselho Steampunk – Loja São Paulo – anuncia a realização da SteamConBrasil 2013. Serão mais de 24 horas de imersão em um dos lugares mais fantásticos para eventos Steampunk no Brasil: a Vila de Paranapiacaba.

A Convenção ocorrerá nos dias 26 e 27 de janeiro de 2013, sábado e domingo, na vila histórica de Paranapiacaba, uma vila ferroviária que parou no século XIX. Com a proposta de imersão espaço-temporal, a programação propiciará aos participantes atividades interativas, como workshops de customização, passeios a museus, passeio de maria fumaça, Live Action Role Playing (jogo vivenciado pelos participantes) pelas ruas da Vila, além de palestras sobre o gênero, confraternização e muita diversão.

O que:   SteamCon Brasil 2013
Onde:     Vila Histórica de Paranapiacaba / São Paulo
Quando: Dias 26 e 27 de janeiro de 2013, sábado e domingo.

domingo, 13 de maio de 2012

A Máquina Diferencial


Título Original (inglês): The Difference Engine
Autores: William Gibson, Bruce Sterling
Tradução:  Ludmila Hashimoto
Editora:  Aleph
Ano:  2012
454 páginas

Sinopse: Corre ano de 1855. A Inglaterra, graças ao desenvolvimento da máquina a vapor tem um progresso estupendo, culminando com a construção de um grande computador mecânico, inventado por Charles Babbage. Também vive as consequências deste progresso: a revoltada dos trabalhadores e de parte da classe média contra as máquinas (os chamados luditas).

Neste cenário, a dupla de escritores desenvolve uma trama que tem como fulcro Ada Byron, Lady Lovelace, filha de Lord Byron (no romance, o primeiro ministro) e suas duas paixões, a matemática e o jogo.

A maneira como trama é construída tem relação com a construção de um algoritmo computacional. A relação é tão forte que os autores chamam cada capítulo de iteração (cada vez que um loop de um algoritmo é executado). Se o algoritmo é convergente o resultado das iterações tende a um valor finito, ou no caso do romance, o quebra cabeça de encaixa. Se não, ocorre overflow. E, de maneira brilhante, a solução de toda a trama tem uma relação bem forte com este conceito.


Ada Byron, Lady Lovalace

Assim, cada personagem, cada objeto tem um papel determinado para que o resultado “feche”. Personagens entram e saem de cena e reaparecem quando contribuem de alguma forma para o resultado esperado, como se fossem as variáveis do programa em execução. Spock diria: “é fascinante!”.


A Máquina Diferencial

Outra coisa fascinante é a contextualização histórica e o rumo alternativo que ela toma coma presença da Máquina e outras dela derivadas e do vapor como uma constante (os gurneys, espécie de carros movidos a vapor, são onipresentes em Londres). Há rivalidades com os franceses que também desenvolveram uma máquina similar e japoneses que desenvolvem autômatos: bonecas de bambu, movidas a corda, que insistem em se aculturarem em favor do ocidente, em busca do progresso.



Gurney - espécie de automóvel movido a vapor

Também merece nota a presença de personalidades históricas, como próprio Lord Byron, com seu contexto político ampliado (chega a primeiro ministro), Disraeli, o biólogo evolucionista Huxley e personagens tomados da ficção da época, ao lado de caracteres desenhados pela dupla de autores. Há também referencias às teorias científicas da época, sobretudo a polêmica catastrofismo versus uniformitarismo nas ciência biológicas, no momento em que se organizava o estudo da paleontologia, guiados  pelo darwinismo e sua influencia no pensamento político, sobretudo no marxismo e no anarquismo.

Embora estas referências sejam importantes para uma completa apreciação do romance, não são necessárias para quem está interessado apenas na trama e na sua resolução. Momentos de ação e suspense garantem uma leitura bem prazerosa.

Os editores facilitam um pouco colocando um glossário e uma lista de personagens importantes, ajudando a quem quer se aprofundar mais no contexto do romance.

Para os fãs de steampunk esta é uma obra muito importante, pois se não deu origem ao gênero, ela deu-lhe forma e impulso.

Imperdível.

domingo, 30 de outubro de 2011

Auxiliares para escritores


Todos que um dia tentaram escrever sentiram falta em algum momento de algo mais formal e organizado para auxiliá-lo na sua escrita que não fossem as velhas aulas de redação da escola.

Alguns escritores costumam dar dicas, de forma organizada ou não, sobre o seu jeito de escrever. E alguns escreveram livros.

Começarei com os livros de Silvia Adela Kohan, recentemente lançados pela editora Gutemberg. Comentarei dois deles, Como Narrar uma História e Como Escrever Diálogos. Ambos são bem didáticos e bastante aconselháveis para quem quer por a mão na massa, tem uma boa ideia, mas não sabe por onde começar. Isso não invalida sua leitura por quem já escreve há algum tempo e quer melhorar sua escrita. Às vezes é muito bom ver dentro de uma estrutura mais organizado aquilo que a gente já sabe empiricamente. Isso é proveitoso até para quem escreve muito bem.


Um outro livro que eu li com bastante interesse foi A Arte da Ficção, de David Lodge, da LP&M pocket (título original The Art of Fiction, tradução de Guilherme da Silva Braga). O livro é uma coletânea de artigos que saíram semanalmente em dois jornais americanos, o Washington Post e o Independent on Sunday. Ele se propõe a mostra vários elementos que compõe o romance, literalmente do começo ao fim: o primeiro artigo é O Começo e o último, obviamente, O Fim.

Em cada capítulo é feito com base em algumas citações de autores ingleses e americanos, e a partir delas, constrói seu texto. A maioria dos livros é bem conhecida do público em geral, mas não é fundamental conhecer a obra citada, pois David Lodge quase sempre contextualiza o texto para o leitor.

São 50 capítulos, abrangendo a estrutura do romance, alguns de seus elementos, como a ambientação, o diálogo, a construção dos nomes de personagens, o título; recursos narrativos, como o suspense, o mistério, o estranhamento; estilos literários como o surrealismo, o realismo mágico, o simbolismo; tipos de romance, como o experimental, o cômico, a metaficção; e a linguagem, como o uso da gíria, a diferenças de linguagens de acordo com o personagem.

Vale ressaltar que o autor dá a devida importância a Ficção Cientítica, dedicando-lhe o capítulo O Futuro Imaginado (usou 1984 como exemplo) e à Literatura Fantástica (usou Edgar Allan Poe como exemplo), dedicando-lhe o capitulo O estranho. Ele usou também como exemplo A LaranjaMecânica, quando falou sobre romances de ideias. Uma observação interessante: quando ele falou sobre 1984, mostrou um detalhe que lança o leitor da época em que foi escrito quase que imediatamente ao futuro, na primeira frase do romance: “Era um dia claro e frio em abril, e os relógios soavam 13 horas.”

Em 1948 (ano da publicação do livro) não existiam relógios digitais. Marcar 13 horas em todos os relógios só poderia estar acontecendo em algum momento do futuro. Uma sutileza de mestre!

Para o pessoal do Steampunk

Quem escreve gêneros onde a história ganha relevância, sabe da importância de uma boa pesquisa. E que nem só de Wikipédia vive o escritor. Existem bons livros de história que abrangem o período onde normalmente os escritores steampunks situam suas narrativas.

O primeiro deles que eu recomendo é História da Vida Privada, volume 4, Da Revolução Francesa à PrimeiraGuerra. Editado pela Companhia das Letras, tem duas versões, uma em capa dura e outra, de bolso. As informações são bastante interessantes e ajudam muito para termos uma ideia bem precisa do período retratado, centradas não nos episódios grandiosos, mas no dia a dia das diversas camadas da sociedade.

Com o mesmo teor há Históriada Vida Privada no Brasil, volume 2, a corte e a modernidade nacional, também da Companhia das Letras, e História da Vida Privada em Portugal à épocaContemporânea, da editora Temas e Debates, ambos somente em capa dura.

Pegando o teor mais político, temos as obras de EricHobsbawn: A Era das Revoluções 1789-1848, A Era do Capital 1848-1875, A Era dos Impérios  1875-1914, todos da Editora Paz e Terra e, abrangendo um período mais longo, Bandidos, onde analisa o chamado “banditismo social”.

Epílogo

Além da leitura formal, é bom ter uma gama variada de leituras, começando pelos seus “colegas de classe”: outros escritores brasileiros e estrangeiros que estão produzindo o mesmo gênero que você.

Além deles é bom ter uma leitura bem variada, abrangendo diversos gêneros, diversas nacionalidades e diversas épocas, não só os de sua preferência. E não se esqueça dos Clássicos!

domingo, 23 de outubro de 2011

Os Três Mosqueteiros


Os Três Mosqueteiros
Título original: The Three Musketeers
Direção: Paul W.S. Anderson
Roteiro: Andrew Davies, Alex Litvak
Elenco: Logan Lerman, Matthew Macfadyen, Ray Stevenson, Christoph Waltz,Orlando Bloom, Milla Jovovich, Mads Mikkelsen
Direção de arte: Glen MacPherson
Produzido em:  Estados Unidos /  Reino Unido /  França /  Alemanha
Ano: 2011   

Sinopse:  No inicio do reinado de Luiz XIV, o jovem D’Artagnan deseja tornar-se um mosqueteiro do rei. Desconhece que os mosqueteiros estão decadentes. Sua chegada e um acontecimento que pode levar a França a uma guerra, os motivará a retomar sua antiga disposição.

Eu suspeito que Os Três Mosqueteiros é a obra de literatura mais filmada da história do cinema. Não se pode dizer nem que seja um ”remake” de tantas versões que existem.

Normalmente as versões dão muita ênfase às lutas de espadas coreografadas, às intrigas palacianas com o Cardeal Richelieu e belas mulheres, como Milady de Winter, Constance e a rainha Ana.

Será que havia algo a inovar? Paul Anderson apostou que sim. Mantendo a estrutura do romance original com poucas alterações, introduziu alguns elementos retrofuturistas e de filmes de espionagem: navios alçados ao ar por meio de balões de ar quente,  trajes de mergulho, armas especiais, mecanismos e uma inexplicável armadilha diante do cofre de jóias da rainha.

Estes elementos dão mais cor e sabor ao filme e estão bem colocados na trama, com exceção da armadilha do cofre, que apenas está lá para mostrar os dotes físicos e acrobáticos de Mila Jovovich.

Quem conhece Os três Mosquetiros já sabe o que vai acontecer e uma parte do público até espera encontrar o que vai ver: a trama do colar, as lutas entre os guardas do Cardeal e os mosqueteiros, a impulsividade de d’Artagnan e a volta por cima no final.

Um filme divertido.

Dica: economize seu dinheiro, o efeito 3D não acrescenta muito.



trailler

Curiosidades Nerd

Alexandre Dumas escreveu vários romances históricos e tinha um bom conhecimento dos fatos que narrava, mas não tinha preocupações com a exatidão, misturando fatos de épocas distintas, como neste livro.  Por exemplo, os três moqueteiros realmente existiram,  mas apenas Athos e Aramis serviram juntos e num período posterior ao retratado no romance. A intriga do colar, retratada no romance, ocorreu com Maria Antonieta, uma tentativa dos revolucionários de legitimar a sua condenação à morte.

De certa forma, podemos dizer que Alexandre Dumas inventou a História Alternativa e provavelmente não reclamaria se colocassem balões no seu romance.

domingo, 9 de outubro de 2011

Deus ex machina – Anjos e Demônios na era do vapor


Deus ex machina – Anjos e Demônios na era do vapor.
Organizadores: Candido Ruiz, Tatiana Ruiz, M. D. Amado
Autores: Alex Nery, Alliah, Carlos Machado, Daniel I. Dutra, Davi M. Gonzales, Georgette Silen, Leonilson Lopes, Norberto Silva, O. S. Berquó, Paulo Fodra, Rebeca Bacin, Yuri W. Cortez 
Editora: Estronho
Ano: 2011
208 páginas


Sinopse: A expressão latina Deus ex machina pode ser interpretada como Deus é a causa e é usada em literatura quando uma situação insolúvel é resolvida com um elemento inesperado e fora do contexto, uma “forçada” de mão do autor que é o Deus da história. No caso aqui os organizadores resolveram dar o sentido que o senso comum dá à expressão: Deus é a  máquina, já que reúne Deus e máquina na mesma frase e é justamente isto que a coletânea se propõe. Uma mistura de gêneros terror com anjos e demônios e steampunk.

Um dos riscos quando se mistura gêneros é a falta de equilíbrio entre eles, acabando por um deles prevalecer e outro ficar forçado, apenas para cumprir tabela. Neste quesito, os organizadores conseguiram harmonizar o conjunto, com um bom resultado.

A capa esta boa, como tem sido as capas da Estronho, e as ilustrações do interior também, onde a editora continua buscando originalidade. Cada conto é precedido por uma ilustração em uma apresentação do autor e está numa “caldeira”, numerada com o número da página de início e o autor identificado como seu operador.

Há um senão: a combinação do papel sem tratamento (atualmente sendo chamado de “ecologicamente correto”) e desenhos e letras escuras acabou prejudicando a leitura da apresentação dos autores e, em alguns casos, até do nome do conto.

A Diabólica Comédia  - A Conquista dos Mares
Operador: Romeu Martins

O título é uma paráfrase de a Divina Comédia. Um submarino, comandado por um demônio enfrenta hordas de anjos em máquinas voadoras. Emocionante. Em alguns momentos chegamos a torcer pelo demônio.

Alerta de Spoiler!
O que está em jogo? O domínio dos mares, já que o inferno é de Lúcifer e o céu de Deus. Uma boa sacada.

A Seita do Ferrabraz
Operador: Paulo Fodra

Um bom conto de horror com anjos e demônios.  Tem como positivo de abordar um fato pouco explorado da história brasileira a revolta dos muckers, ocorrida no sul do país. O autor merece elogios por ter feito uma pesquisa e colocar os fatos principais em seu enredo de maneira consistente com o elemento sobrenatural.  O elemento steam está apenas en passant. E poderia muito bem ser substituído por qualquer outro elemento mágico ou tecnológico, que não faria diferença para o enredo. Porém isso é uma questão para os puristas do gênero, pois o que importa é que o conto é bom.


Anhanguera
Operador: Norberto Silva

Um padre perde seu rebanho, porém aos poucos os fieis retornam por que tudo o que pedem em suas orações é atendido. Nesta cidade onde todos estão felizes, surge um investigador que acha isso estranho. Outro bom conto onde o elemento steam está en passant. O final é bastante interessante (dizer mais é da spoiler).

O dia do grande Uirá
Operador:  Davi M. Gonzales

O conto divide-se em duas partes, uma contada por um indígena, que tenta encaixar o que aconteceu dentro de seus mitos e outro, de um militar português, num relato oficial. Os dois trechos estão muito bem escritos, com elementos de cada linguagem e cada visão de mundo muito bem colocados.

Neflin
Operador: Carlos Machado

Escavações de uma empresa mineradora topam com esqueletos do que pode ter siso restos de uma grande batalha. Junto às ossadas encontram estruturas metálicas que lembram asas. O autor vai buscar num passado remoto o desenvolvimento de uma tecnologia steam, que poderia ter dado origem àqueles mecanismos. A idéia é boa, mas o vai e vem no tempo dificulta um pouco acompanhar o enredo. Um pequeno spoiler:  A sacada maior do autor é usar um personagem histórico real que fez pequenas máquinas a vapor na antiguidade clássica.

Zeitgeist – Brigada anti incêndio
Operador: Yuri Wittlich Cortez

Patrocinado por um bispo, um inventor tenta construir uma máquina voadora que, segundo ele, subiria até os portões do céu. Contudo ele é perturbado constantemente por um brigadista anti-incêndio que volta e meia faz nova exigências de segurança. Um conto onde predomina o humor, com uma cena emocionante no final e uma piada que fecha a história com chave de ouro.

O Sheol de Abaddon
Operador: Alliah

Outro conto com traços de humor. Uma união aparentemente impossível de um anjo e um demônio é estabelecida para derrotar um inimigo comum. Boa descrição de batalhas.

Avatar de anjo
Operador: Georgete Silen

Um anjo desce ao inferno para enfrentar um inimigo. O começo do conto é muito bem elaborado,aguçando a curiosidade do leitor. Um enredo bem conduzido e um final bem pensado.  

A Obscura história da Sterling Railways
Operador: O. S. Berquó

Um estudante encontra dentro de um  livro uma carta que o conduz a uma investigação sobre o abandono da construção de uma ferrovia  após o desparecimento de alguns trabalhadores e de um engenheiro. 

O pai da mentira
Operador: Lenilson Lopes

Uma bem descrita batalha entre anjos e demônios.

A máquina dos sonhos
Operador: Daniel  I. Dutra

Um pintor frustrado, mas um engenheiro brilhante, resolve seu problema de falta de talento criando uma máquina que lê os as mentes das pessoas, captando suas imagens. Porém a máquina capta mais do que isto. Um bom conto, com um bom ponto de partida.

Os relógios pensantes de sua Majestade
Operador: Alex Nery

Na Índia, um inglês luta ao lado dos revoltosos hindus. Ele tem uma forte motivação para isto. Um conto que tem como pano de fundo a ética da ciência e da tecnologia. Excelente.

Cálico: entre o céu e o inferno
Operador: Rebeca Bacin

Uma mulher é procurada por um anjo para desarmar uma bomba. O plot simples conduz a uma boa e emocionante aventura.

No geral a coletânea é boa, com alguns contos excelentes. Mesmo os contos que tem poucos elementos do steampunk têm algo a acrescentar e principalmente, divertem o leitor.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Cursed City - Horror e mistério numa cidade do Velho Oeste

Cursed City
Onde as almas não têm valor
Autores: M. D. Amado (org.), Alfer Medeiros, Ghad Arddhu, Carolina Mancini, Cirilo S. Lemos, André Bozzetto Jr., Alliah, Georgette Silen, Verônica Freitas, Tânia Souza, Romeu Martins, Valentina Silva Ferreira, Jota Marques, Ana Cristina Rodrigues, Chico Pascoal, Davi M. Gonzales, Yvis Tomazini, Lucas Rocha,  Zenon. Prefácio: Adriano Siqueira.  
Editora: Estronho
Ano: 2011
236 páginas

Sinopse: A partir de um cenário previamente escolhido e de uma temática que mistura western com terror e horror, vários autores atenderam ao desafio proposto por M. D. Amado. Cursed City, a outrora próspera Golden Valley, é uma cidade onde até o mais valente dos pistoleiros teme sair a noite, pois enfrentará a morte certa e cruel. São sugeridos alguns personagens, como Billy Monstrengo, o dono do Saloon e o apache Hodoken e fixado um período: entre 1845 e 1870.

Impressão geral:

Por reunir autores em vários momentos de suas carreiras, alguns iniciantes outros bem experientes, o resultado é um pouco irregular. Todavia alguns autores iniciantes tiveram boas sacadas e souberam desenvolver bem suas ideias.

Merece destaque a capa (furada “à bala”) e os cartazes de “procura-se” que identificam os autores.

Vamos dar uma olhada em cada um dos contos, procurando ser sincero sem desestimular os autores novatos, já que todos têm o mérito de aceitar um desafio desta monta e se posicionaram na rua principal ao entardecer para um duelo com a crítica.

O gigante, a curandeira e a lutadora de Kung-Fu - Alfer Medeiros

O pensamento que parece ter norteado Alfer Medeiros foi: “já que é pra misturar, então que se misture!” E até que a salada mista fluiu bem!

Oricvolver - Ghad Arddhu

Por outro lado, este conto tem alguns problemas de fluidez. O texto parece truncado e fragmentado. Alguns trechos podem melhorar se for dada a devida atenção à pontuação. Outros precisam de uma revisão mais refinada. Sugiro a Ghad Arddu uma releitura tentando se por no lugar do leitor. Ou talvez pedir a um leitor beta, com sinceridade suficiente para apontar falhas de forma objetiva.

Número 37 - Carolina Mancini

Uma mulher caçadora de recompensas chega à cidade. Enfrentará mais do que algum fora da lei.  Uma personagem feminina num universo masculino que chama a atenção dos homens de Cursed City, habituados a vê-las como prostitutas ou vítimas. Uma supresa os aguardará... e também aos leitores

Por um punhado de almas - Cirilo S. Lemos

Este conto retrata muito bem o espírito que norteou a coletânea. Uma boa mistura dos gêneros, desde o título. Excelente!

A balada do coyote - André Bozzetto Jr.

Um pistoleiro famoso é contratado para enfrentar um bando. Quando ele chega mais parece um músico covarde que alguém capaz de fazer mal a uma mosca. O que destaca o conto são suas referencias anacrônicas a músicas dos anos 70, cantadas pelo pretenso pistoleiro.

Just like Jesse James – Alliah

Outra mulher enfrentando um mundo masculino. Final digno de uma boa história de terror.

A mão esquerda da morte - Georgette Silen

Este conto parte de uma boa ideia, porém não totalmente aproveitada. A autora optou por trazer elementos do steampunk, entre eles uma arma poderosa, que acaba ofuscando justamente a mão esquerda da morte, que, no fundo, revela ter um poder pífio. A mão esquerda da morte deveria ser a estrela e não coadjuvante. Apesar deste defeito, o conto tem um bom desenvolvimento e diverte.

Deixe-me entrar - Verônica Freitas

Uma moça abandonada à própria sorte busca sua vingança. Uma boa história de terror.

Demônios da escuridão - Tânia Souza

Outra bem construída história de vingança.

Domingo, sangrento domingo - Romeu Martins

Uma criatura aprisionada busca seu caçador.  O autor busca contar isto de forma original, revertendo algumas expectativas.

Nem sempre a fé te salvará - M. D. Amado

“Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece”. Um bom enredo.

Sally - Valentina Silva Ferreira

A autora é portuguesa e seu texto ás vezes causa a impressão de que é formal demais, sobretudo nos diálogos. O conto tem uma boa premissa e se desenvolve bem.

As desventuras do pequeno Roy - Jota Marques

Roy é um menino que sonha ser um pistoleiro, com o intuito de minimizar o trabalho de sua mãe no saloon. Mas algo está prestes a acontecer. A história tem um bom desenvolvimento e, principalmente um bom final.

Aquele que vendia vidas - Ana Cristina Rodrigues

Um mercador de escravos chega a Cursed City e é passado para trás por um rancheiro. Buscará vingança. Um texto bem escrito.

Duas lendas - Chico Pascoal

Um juiz enforcador chega a Cursed City. É preciso arrumar um “culpado” para que haja pelo menos um enforcamento. A história está bem escrita, mas com um pequeno deslize do autor. Ele nomeia um dos personagens como “o homem mais rico da cidade” e repete este epíteto toda vez que este personagem aparece, sublinhando em itálico. Seria mais interessante dar um nome, ou um cargo ou ambos e ir alternando. Temos um estereótipo (um dos vilões é o homem mais rico da cidade) e não precisamos sublinhar isso. O texto merecia um revisão para contornar este deslize, caso o conto venha a ser publicado novamente.

Ainda dói? - Davi M. Gonzales

Um homem com dor de dentes encontra alguém que se dispõe a arrancá-lo. O dentista improvisado conta histórias macabras para distrair o “cliente” enquanto prossegue com o “tratamento” dentário.

Spoiler:
A história é boa, mas convém levantar um ponto. O enredo está baseado em alienígenas. Tudo bem, porém os envolvidos, supostamente cowboys iletrados, usam o termo alienígena e tratam do tema como se isso fosse parte pelo menos do seu contexto imaginário, o que quebra verossimilhança (H. G. Wells colocará os alienígenas na imaginação popular apenas em 1898). E o autor perde a chance de tornar a história mais interessante: os cowboys não sabem o que são alienígenas, mas o leitor sabe. Em vez de usar a palavra alienígenas, por que não usar descrições toscas que levem o leitor a deduzir isto?

Só o dinheiro dos mortos - Yvis Tomazini

Um roubo a um banco. Normal, não fosse em Cursed City. Bom texto com algumas ideias interessantes. O final é um pouco atropelado. Poderia ser um pouquinho mais fluido.

O fantasma de Fraklin Stuart - Lucas Rocha

Um fantasma atormenta seu algoz. Bem escrita.

Descanse em paz - Zenon

Um homem desmemoriado chega a Cursed City. Coisas extraordinárias estão em seu passado. Uma bem conduzida história de mistério. O final surpresa valoriza o texto.

Sombras - Marcel Breton

Encerrando a coletânea, este conto se propõe a, justamente, dar um final para o livro, se bem que aberto. O apache Hodoken, em sua velhice, conta um episódio que dá uma explicação para pelo menos alguns dos fenômenos que ocorreram na cidade amaldiçoada.

Um bom texto para fechar a coletânea. Serviu também para dar mais profundidade a  Hodoken, arredondando o personagem.

O conto está em primeira pessoa, e dito de forma a denunciar a pouca familiaridade do índio com o idioma, porém está bem escrito demais para alguém nestas condições. Esta é a única falha, que poderia ser contornada com o índio falando com alguém que reproduz suas palavras de forma mais organizada ou o índio se revelando como alguém mais letrado do que fazia as pessoas suporem.