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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Hoje é dia da Maria -- A fabula Musical


Maria acompanhada pelos elementais encontra o Homem Ferido
Sinopse: Maria é uma moça ingênua que vive com o pai viúvo em um sítio decadente. A vida com o pai não é tranquila, pois ele, em alguns momentos, é violento (há uma insinuação de alcoolismo provocado pelo desespero), mas como ela ama o pai o convence casar-se com uma viúva. A Viúva e sua filha, em vez de representarem a salvação passam a ser um tormento muito maior. Maria, num momento de profunda tristeza decide abandonar tudo e embrenhar-se na floresta em busca das franjas do mar. Tem início sua jornada, acompanhada pelos elementais da natureza e pelo Pássaro Incomum, que a protege. Nesta jornada, ela recebe presentes simbólicos, entre eles um par de sapatinhos encarnados (numa alusão a Cinderela), que serão importantes para estabelecer seu retorno triunfante.
Hoje é dia de Maria - A fabula Musical é um musical baseada no texto de Carlos Aberto Soffredini, com Lígia Paula de Andrade (que também co-dirige e produz o musical) no papel de Maria, estreou dia 30 de Setembro no Teatro Cetip, em São Paulo, onde fica em cartaz até o fim de novembro.
O texto de junta diversas lendas e contos da tradição oral brasileira através da jornada de Maria, uma heroína, que, fugindo do ambiente opressivo onde vive, segue seu sonho de ir ver as franjas do mar e evolui de uma ingenuidade primária até a sua libertação de todas amarras: opressão e abuso pai (interpretado por Luiz Araújo), opressão da madrasta (interpretada por Kleber Montanheiro) e de um casamento escravizante, ainda que com um príncipe.
Trio de Direção: Dan Rosseto, Lígia Paula Machado e Kleber Montanhiero
O fio narrativo segue a história da Cinderela, ambientada no Sertão Paulista. Não há Fada Madrinha e as bençãos que Maria recebe vem do fato de ajudar as pessoas, de forma desinteressada. O texto vai alinhavando a História da Menina e a Figueira, a Busca das Franjas do Mar, a Terra Onde não Existe Noite, entre outras. Em cada cena importante, há uma música muito bem escolhida, arrematando o tecido narrativo e dando-lhe força. Um dos pontos altos é quando um menino, Felipe Machado, canta Rosa de Hiroshima, numa cena bonita e emocionante, sublinhada por um excelente jogo de luzes. A escolha das músicas está tão bem feita que às vezes tem-se a impressão que a peça foi escrita para acolher as músicas.
Felipe Machado
Maria tem como companheiro de jornada o Pássaro Incomum (interpretado por Cleto Baccic), que a protege e aponta os caminhos e também é ajudada elementais da natureza.
Maria e o Pássaro Incomum
Apesar de a peça ser estruturada no conto de fadas Cinderela, Maria não é simplesmente uma princesa frágil que vê no casamento com o príncipe encantado como o final de seus problemas, mas tem uma atitude crítica diante desta solução, preferindo a sua liberdade ao lado do Pássaro Incomum e seguir seu caminho. E como Maria diz, ela não é só Maria, mas todas as Marias e, por extensão, todas as mulheres.
As interpretações estão ótimas. Merece destaque a interpretação que Kleber Monteiro faz da Madrasta, valendo-se de sua voz plástica, consegue enfatizar o cinismo da personagem, variando seu tom voz no momento certo.
O espetáculo como um todo é completo, com uma trilha sonora formada por canções populares e grandes compositores (Caetano Veloso, Catulo da Paixão Cearense, Gonzaguinha, Renato Teixeira, Marisa Monte, Vinicius de Moraes, Herivelto Martins e Victor e Léo), magistralmente interpretada – tanto no canto como no instrumental, números de dança (incluindo um sapateado muito bem executado). O cenário é bem simples, dando espaço para que os atores se movimentem em cena com ampla liberdade.
Recomendo fortemente!
Ficha Técnica:

Texto: Carlos Alberto Soffredini
Adaptação do roteiro original: Francisca Braga
Direção Geral: Dan Rosseto, Ligia Paula Machado
Direção de Arte: Kleber Montanheiro
Direção Musical: Dyonisio Moreno
Elenco: Ligia Paula Machado, Cleto Baccic, Kleber Montanheiro, Luiz Araújo, Camila Brandão e Felipe Machado.
Encantados: Alberto Goya, Guilherme Pivetti, João Canedo, Roger Ciel, Vittor Fernando e Hicaro Nicolai.
Músicos: João Paulo Pardal (guitarra), Murilo Emerenciano (piano), Renan Cacossi (flauta), Guto Brambilla (baixo), Felipe Machado (violão), Jonatan Motta(violino), Mathilde Fillat (violino), Rafael Lourenço (Percussão).
Cenografia e Figurinos: Kleber Montanheiro
Coreografias: Ligia Paula Machado
Designer de Som: André Breda
Designer de Luz: Wagner Pinto
Supervisão Circense: Circo Garcia

Serviço:

O que: Hoje é Dia de Maria – Uma fábula Musical
Onde: Teatro CETIP, Rua Coropés, 88 – Pinheiros.
Quando: 30/09 até 27/11 (Sexta, Sábado às 21h e Domingo 18h)
Maiores informações: 4152-9370 e www.musicalhojeediademaria.com.br

Texto: Alvaro Domingues

Imagens: promocionais ou colhidas na internet.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Guerra nas Estrelas e o Orgulho Nerd

25 de maio de 1977 começava a saga de Guerra nas Estrelas.


Cartaz da Estréia de Guerra nas Estrelas


Em 1977 a ficção científica estava dominada por filmes cabeça, ainda no rastro de 2001, Uma Odisseia no Espaço e aparentemente nada de novo ameaçava surgir nas telas do cinema. Um diretor desconhecido do grande público, George Lucas ousou inovar. Ele já havia feito o elogiado THX 1138, que quase ninguém vira, um distopia aos moldes de 1984. Essa experiência fez com que ele pensasse de outra forma: a maioria as pessoas não querem ir ao cinema para terem dores de cabeça ao serem confrontadas com visões funestas de futuro. Elas querem principalmente se divertir. 


THX 1138 - Excelente distopia

Entretanto não era uma simples diversão que ele buscou em Guerra nas Estrelas. Seu projeto foi longamente construído, até se transformar na saga de seis episódios que conhecemos hoje. Sua preensão era ser, como ele confessou em uma entrevista incluída na série The Power of the Mith, um forjador de uma nova mitologia. 

Fã da psicologia Junguiana e do trabalho de Joseph Campbell, Lucas buscou em mitos que vão desde mitos gregos e romanos, passando pela a saga arturiana, histgórias de samurais, batalhas da segunda guerra mundial e temperou com a ascensão e queda de vários impérios, começando pelo romano. E convidou Campbell para ser seu consultor. Aliás, Campbell é o entrevistado em The Power of The Mith, e o programa foi feito no rancho Skywalker.


 I am your father

Guerra nas estrelas segue passo a passo a construção do Mito do Herói, descrito em por Campbell em O Herói de Mil Faces. Luke é o herói típico, que tem um destino maior que ele mesmo, que às vezes o aceita às vezes nega. Obi-wan representa o velho ancião (o "mestre palpiteiro"); a Força, o eterno devir, ou Yn Yang, o Tao, "o bafo do Dragão"; Darth Vader, o Sombra - a outra face do Herói que ele tem que derrotar para superar o grande mal (o Imperador ou o lado negro da Força). Lea é o Ânima, o lado feminino do herói, Hans Solo o companheiro "ladrão" do herói que pode "fazer o trabalho sujo", que o herói, por ter que ser perfeito, não pode fazer (roubar, ter contatos com o submundo, seduzir, enganar, etc..) e Chewbacca, o instinto animal. 


Quem foi ao cinema estranhou que a saga começava pelo episódio IV. Consta que a ideia foi de Campbell, para que houvesse um forte impacto quando Luke descobrisse que seu pai era Darth Vader. Quando um jornal da época (acho que foi a Folha de São Paulo) fez uma matéria sobre a pré estreia do filme, o colunista quase deu o maior spolier da História. Conhecedor da psicologia junguiana, o articulista fez uma analise detalhada sob este aspecto do filme e disse (segundo me lembro) algo como "não será surpresa quando se descobrir quem é Darth Vader". Um detalhe: Darth Vader significa "pai negro". Fico pensado hoje se algum nerd da época descobriu isso. Se existisse a internet... 


O fato de não ser uma ficção científica "cabeça" rendeu algumas críticas à saga, como sendo feita de filmes "rasos", "apenas diversão". Se for apenas diversão, que seja! Fazer algo divertido é que buscava Shakespeare ao escrever suas peças. Ser divertido não significa que o filme é vazio de conteúdo. Eu pergunto: um filme que mexe com um inconsciente coletivo pode ser um filme "raso"?


Jornada nas Estrela - Indo aonde nenhum homem jamais esteve 
Outro motivo de orgulho nerd


Raso, largo ou profundo, George Lucas conseguiu seu intento. Com o suporte de Campbell até O Retorno do Jedai (Campbell morreu pouco antes do término das filmagens), Lucas conseguiu construir um Universo próprio e pos no ar uma nova mitologia, colocando-se ao lado de Homero, Hesíodo, Virgílio e Camões. Sua atitude contribui para que se consolidasse também outras mitologias, como Star Trek (que já tinha uma legião de fãs, mas nenhum filme no cinema) e O Senhor dos Anéis. 


 
O Senhor dos Anéis 


Nada mais justo que considerar 25 de maio o dia do orgulho nerd! 

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Os paradoxos do horror




O menino assustado não desgruda os olhos da TV. A mãe sabe que ele terá pesadelos e o chama para ir deitar, mas ele se recusa. Quer ver até o final.

Esta cena parece comum. Lembramos que nós mesmos poderíamos ser aquele menino e mesmo hoje ainda nos assustamos com um ataque do Alien, ou sentimos calafrios a ver A Hora do Pesadelo ou sentimos a sensação de suspense ao ver um episódio de Além da Imaginação, ainda que tenha efeitos especiais extremamente toscos.

Diante desta constatação, surgem duas perguntas básicas:

Por que sentimos medo, suspense ou angustia diante de uma história que sabemos ser falsa?

Por que procuramos este tipo de literatura ou cinema, se sabemos que ela nos causará algum tipo de desprazer?

O fato de se existir histórias de terror e horror desde quando um homem de Cromagnon assustou seus companheiros de caverna aumentando um pouco o tamanho do tigre de dentes de sabre que o perseguiu, nos mostra a solidez deste gênero de histórias.

Tenho lido ou visto ao longo de minha vida vários livros e filmes que de uma forma ou outra se enquadram nestes gêneros. Também tive contato com várias teorias que tentam explicar este tipo de fenômeno, desde obras de filosofia e psicologia a prefácios de livros deste gênero de literatura. O que não me torna uma autoridade no assunto, mas pelo menos um leitor bem informado. E nesta categoria é que pretendo discorrer.

Uma das respostas possíveis à primeira pergunta é "a suspensão temporária da realidade", que ocorre em qualquer obra de ficção. Se assim não fosse, não poderíamos lidar com nenhum tipo de ficção, pois sequer riríamos de uma boa piada...

Esta suspensão não é plena, pois sabemos que se fecharmos o livro ou mudarmos de canal o monstro não estará mais ali (do contrário, seríamos sérios candidatos a uma consulta ao psiquiatra).

Como parte ou complemento desta suspensão, temos a identificação com os personagens (o herói, a vítima, o narrador ou até o monstro). Muitas vezes nos surpreendemos nos dizendo "isso poderia estar acontecendo comigo".

Apesar desta identificação, o nosso sentir muitas vezes não é o que o personagem pode estar sentindo. O detetive, no encalço de um assassino, passa por várias emoções, mas nunca o suspense (esta é uma emoção típica de um espectador, que às vezes sabe mais que o personagem). Mas outras, como o medo, a repulsa, alguns tipos de susto e o desejo sexual podem estar ligados diretamente ao personagem ao qual nos identificamos.

Isso parece ter respondido à primeira questão.

Entretanto, a literatura que explora o suspense, o terror ou o horror lida com emoções profundamente negativas. Será que nós, leitores de Drácula, somos todos masoquistas?

Claro que não!

Podemos elencar alguns motivos pelos quais nos aproximamos de uma obra deste estilo.

Fuga da vida moderna. Nosso corpo e nossas emoções estão preparadas para uma vida nas selvas, onde podemos ser vítimas ou predadores durante nossa busca pelo alimento. Porém estes problemas foram resolvidos e em vez de correr atrás do antílope ou fugir do leão, vamos ao mercado e compramos um bife e o único leão que enfrentamos é o do imposto de renda. Todavia sentimos falta desta vida pela qual fomos preparados ao longo de milhões de anos e buscamos isso nos livros e filmes de suspense e terror.

Experiência de transcendência. Esta é a tese de Lovecraft. Um bom enredo de horror nos coloca frente a frente com nosso medos primais, a ponto de termos a mesma experiência de um homem primitivo diante dos fenômenos da natureza. O racionalismo nos tira o medo do trovão que um homem das cavernas teria, mas ao empregarmos "a suspensão temporária da realidade", podemos atingir este mesmo estágio e termos o medo primal diante de Cthulhu ou outro monstro similar.

Rito de passagem. Uma boa parte dos filmes de terror e horror é voltada para o público adolescente, que quer provar para o seu grupo que tem coragem e demonstra isso comentando detalhes mais sanguinolentos de Sexta Feira Treze. Há um episódio de Doug onde isso é mostrado. Ele se sente inferiorizado frente a seus amigos por ter fechado os olhos no momento em que o monstro aparece na tela. Um outro bom exemplo são os "testes" do Zé do Caixão, onde ele fazia os candidatos a ator passar por experiências do tipo "comer minhoca" e só "os mais fortes" eram aprovados...

Catarse de emoções reprimidas. Nossa sociedade, além de resolver nossos problemas de sobrevivência, em contrapartida nos coloca uma série de restrições de ordem moral, a maioria das vezes arbitrária. Então, alegoricamente, nos recorremos a uma boa história de terror pra por pra fora esta repressão. Dentre estas restrições, a mais evidente é o sexo. O ato de penetração passa a ser os dentes do vampiro no pescoço da mocinha. Ou então a violência. Em vez de dar uma surra no meu vizinho inconveniente, torço pro herói matar o monstro na tela do cinema.

Trama complexa de mistério e descoberta. A maior parte dos enredos deste tipo (mesmo Sexta Feira Treze) envolve um problema que precisa ser resolvido, atingindo não mais nosso troglodita, mas o homem civilizado, que se encanta em resolver um bom mistério. Um bom exemplo é O Médico e o Monstro, onde só sabemos que o Médico e o Monstro são o mesmo ser nos últimos parágrafos da trama.

O suspense em si mesmo. Gostamos de torcer pelos personagens que estão passando por apuros e que não estão vendo que o assassino com a faca na mão está atrás da cortina. Isso está ligado á nossa capacidade de empatia, que nos permite ser solidário diante da dor do outro.

Identificação com o herói. A maioria de nós tem uma série de limitações de ordem física (somos fracos, feios ou carecas) ou externas (moro num "apertamento" minúsculo) que o herói não tem. É lógico que ele tem um monstro por dia pra matar, mas, e daí? Ele vai ficar com a mocinha no final... Então, por umas duas horas posso ser ele.

Identificação negativa. Às vezes nos identificamos não com o herói, mas com a vítima (que sofre alegoricamente o mesmo que sofremos no dia a dia) ou com o monstro, que após alguns maus bocados percebemos que ele é uma vítima da sociedade repressora como nós somos. É caso de King Kong (vítima da ganância) e do monstro de Frankstein (rejeitado pelo seu criador).

Efeito montanha russa. A montanha russa nos leva a uma situação de perigo aparente e depois de concluída, dá a sensação de alívio. Ao vermos um filme ou lermos um livro de terror ou horror ficamos aliviados ao saber que aquilo era apenas uma história. É o mesmo que calçar um sapato apertado pra depois ter o prazer de tirá-lo.

Alegoria sociológica ou política. Podemos usar o ambiente de um filme de horror para criticar ou exaltar a sociedade em que vivemos (o já citado King Kong, Jurassic Park, algumas histórias de zumbis, como Fido).

Estes foram os motivos que eu elenquei. Com certeza não são todos, mas são bem representativos. E quais são os seus motivos? Mas não racionalize muito, do contrário talvez o próximo livro ou filme de terror que você for ler ou ver não pareça tão interessante...


quinta-feira, 13 de maio de 2010

Fúria de Titãs

Fúria de Titãs

Título original: Clash of Titãs
Elenco: Sam Worthington, Pete Postlethwaite, Mads Mikkelsen, Gemma Arterton, Alexa Davalos, Ralph Fiennes, Liam Neeson.
Direção: Louis Leterrier
Roteiro: Travis Beacham e Phil Hay
Duração: 106 min
Origem: Inglaterra/EUA

Sinopse: Refilmagem do clássico de mesmo nome de 1981. Perseu, ao ver seus pais adotivos morrerem em consequencia de um ataque de Hades, revolta-se contra os Deuses, porém ignora sua verdadeira origem. Na verdade é filho de Zeus e embarca numa aventura para destruir Kraken, um monstro libertado por Hades para destruir ou Argos ou sua princesa, Andromeda, se ela fosse lhe dada em sacrifício.

O filme é retirado da mitologia grega, explorando o mito de Perseu e sua luta contra a Medusa.

Trailler

 

Já na sinopse se percebe os problemas do filme. Em primeiro lugar, desde quando Kraken é da mitologia grega? Que eu saiba, ele é da mitologia nórdica...

A razão para a escolha é que ele seria mais assustador que o monstro da lenda original, Cetus, um gigantesco peixe (cetus deu origem a palavra “cetáceo”, classe de animais da qual faz parte a baleia).

Outro problema está na escolha de Hades como vilão. Ele foi escolhido, porque simplesmente é o senhor do Inferno, fazendo ele se tornar muito próximo da figura de Satã, o príncipe das trevas da mitologia judaico-cristã. Isto o afasta da versão de 1981 (onde o vilão é Calibus, filho de Cassiopéia) e do mito grego, onde Hades é seu aliado, dando-lhe uma das armas fundamentais para seu sucesso (um capacete que o torna invisível). Aliás, é lamentável também tanto a ausência destas armas como da sua principal aliada, Atenas. O desprezo pela mitologia, como pelo filme orignal, é bem caracterizado quando Perseu na versão de 2010 encontra a coruja metálica (fundamental no filme de 1981) que é simplesmente jogada fora...

Pode-se argumentar que não precisamos ser fiéis ao mito para fazer um bom filme. Concordo. Se o resultado for bom. Neste sentido, um quase-acerto do filme foi trocar a motivação de Perseu – que no mito original e no filme de 1981 faz tudo simplesmente pelo espirito de aventura ou por sua paixão pelas mulheres (sua mãe, Atenas e Andrômeda). Na nova versão ele faz tudo em nome de uma revolta contra os Deuses, de quem os homens estão fartos de serem manipulados (e estão igualmente revoltados, dispostos a lutar contra isso).

Atenção, spoiler!

Por que um quase acerto? Porque Perseu a partir de um certo ponto passa a ser ajudado secretamente por Zeus, e, após ter concluído sua missão, aceita sua origem divina, numa clara tentativa de dar novamente uma conotação cristã à história, tangenciando a história de Perseu à de Cristo, de uma maneira muito artificial.

Outra presença espúria, se bem que bem vinda, pois humaniza um pouco o herói, é Io, uma mortal tornada imortal pelos caprichos dos Deuses, que acompanha o grupo amenizando o cenário agressivo da jornada.

Como aspectos positivos, pode-se destacar a aventura em si e as lutas contra os monstros: Calibus (que na versão samba-do-crioulo-doido de 2010 é Acrisio, o esposo traído da mãe de Perseu), os escorpiões gigantes, a Medusa e o Kraken.

Referências

Ao filme original: a cena de abertura, onde se começa a contar a história pelo céu, o caixão onde Perseu e sua mãe foram jogados no mar, a caracterização da Medusa e a já citada coruja metálica.

À Guerra nas Estrelas: em um determinado momento, Perseu recebe uma espada que lembra muito uma espada de luz. Em outro momento, o grupo encontra seres que são um cruzamento do General Greivous com o Povo da Areia.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Incal

O Incal
Autores: Alejandro Jodorowsky (roteiro) e Moebius (arte)
Editora: Devir
Ano: 2006 e 2007

Sinopse: Uma saga. No mais abrangente sentido da palavra. A jornada do Herói com todos os elementos descritos por Joseph Campbell (o genial mitólogo, consultor da trilogia original Star Wars –Guerra nas Estrelas), presentes nos mais variados mitos das mais variadas culturas.

John Difool é um personagem típico das sagas do herói tolo (não é à toa que se chama Di-fool), que aparentemente por acidente, mas na realidade por destino, se depara com uma grande aventura, muito maior do que ele próprio (e o leitor) supõe, atingindo níveis cada mais abrangentes e profundos.

Ele não é o exemplo de persistência nem de nobreza de caráter, pois várias vezes pensou em abandonar seus amigos, tirar vantagens pessoais etc., dando uma dimensão humana e consistente ao personagem. Todavia ele sofre modificações importantes durante a trama, passando duas vezes pelo desmembramento e remembramento (outra referencia mitológica universal, usado até mesmo no filme dOs Simpsons).
Difool é diretamente inspirado no Louco do Tarot, e segue os passos na tradição de Percival, o mais tolo dos cavaleiros que por fim encontra o Graal (ou seria o Incal?).

O Incal seria um objeto mágico capaz de transformar quem o toque dando um poder incrível, por isso ambicionado por seres de toda a galáxia. Este objeto vai parar por "acaso" nas mãos de Difool, um detetive de enésima categoria, amoral, tendo como único valor seu próprio bem estar. Logo ele descobre que o que pegou por acaso e do qual espera auferir lucros é algo que lhe trará além de um poder imenso, muita encrenca.

Seu companheiro inicial de Jornada é Deepo, uma ave que fará o papel do cão que guarda o Louco, representando o instinto de sobrevivência, nem sempre seguido pelo herói. Outros arquétipos serão encontrados, vividos pelos mais diversos personagens, numa clara influência junguiana, que engrossaram suas fileiras, um comando formado por diferentes caracteres (lembram-se da Sociedade do Anel, Obi-wan, Luck, Hans Solo, C3PO e R2D2, os Goonies ou os cavaleiros da Távola Redonda?):

Meta-Barão: Um mercenário com um poder muito grande, que havia renunciado a vida de lutas. Representa a coragem e sangue frio, necessários para conduzir o grupo sem perder o objetivo em foco.
Tanatah: Inimiga do Meta-Barão, de quem seqüestrou o filho, para conseguir o apoio necessário a sua jornada particular em busca do Incal Negro (objeto complementar ao Incal, teoricamente representando "o lado negro da Força"). Observe seu nome: qualquer semelhança com Tanus ou Tanatos – Deus da Morte – não é mera coincidência.
Solune: Filho do Meta Barão guarda dentro de si o poder do Sol e da Lua, a capacidade de ver além da luz e das trevas. Terá papel fundamental na trama, representando por vezes o papel do Sol ou da Lua do Tarot, e também o Mundo, simbolizando a união de opostos de forma harmônica.
Animah: Representa o arquétipo feminino puro (o Anima Junguiano), controladora do inconsciente, representado por um subterrâneo habitado por ratos gigantescos, dos quais ela é rainha. Veste-se com muito pouca roupa, despertando o desejo de Difool.
Matador: Um homem com cabeça de Lobo, representando o instinto selvagem, muitas vezes necessário para enfrentar forças descomunais.
Os inimigos também representam aspectos junguianos e tarológicos, mostrando o profundo conhecimento dos autores destes aspectos (Jodorowsky é conhecido por suas incursões no cinema surreal).

Prezidente: Arrogante, egocêntrico e fútil. Representa o Ego, ou eu menor na tradição mística. Preocupa-se apenas com a aparência e como ele aparece na Holovisão (espécie de divertimento que mantém mais de 80% da população sobre controle – qualquer semelhança com a TV aberta...) do que realmente governar. Seu alheamento da realidade é tal que não percebe que seu palácio está sob ataque.

Tecno-papa: Tem o controle sobre o Incal Negro e representa as forças do "mal", seu arquétipo é o lado negro do Papa. Sua base é a Tecno-cidade e representa a Torre do Tarot.
Finalizando cabe ressaltar a figura do/da Imperador/triz, que controla este mundo como um real governante. Este personagem é a fusão de três arquétipos: O Imperador, A Imperatriz e o Mundo. Seu objetivo é comandar o mundo pela luz, em oposição às trevas, que o Tecno–papa tem a pretensão de libertar e controlar.

A função de Difool e de seu grupo é evitar a todo custo que as trevas dominem a galáxia e talvez todo o Universo, dando um caráter cosmológico à busca do herói. Só poderá enfrentar as trevas quem conseguir descobrir a verdadeira essência do lado escuro do Universo.

Na realidade a busca de Difool e de qualquer herói é a nossa própria busca interior, onde como missão principal devemos ver qual é a nossa verdadeira natureza e enfrentar as nossas trevas interiores, descobrindo nossa real essência.

Anti-spoiler: 

Não leia as introduções, orelhas e contracapas antes de ler toda a saga!

Nerdshop:
•
Incal, V1, de Alejandro Jodorowski (Devir)
•
Incal, V2, de Alejandro Jodorowski (Devir)
•
Incal, V3, de Alejandro Jodorowski (Devir)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A Sombra dos Homens


Título A Sombra dos Homens A Saga de Tajarê: Livro I
Autor: Roberto de Souza Causo
Editora: Devir
Páginas: 120
Ano: 2004

O índio Tajarê, um herói de seu povo, vê estranhos, vindos de Muita Água, entrarem em seu território. Orientado por Anhangá, Tajarê rapta uma mulher de pele muito clara que parece ser a líder da expedição, Slaja. Slaja, tem uma missão; libertar o seu deus, Loki, há muito aprisionado, para que dê início ao Ragnarok, a batalha final entre os deuses nórdicos. A junção destas duas forças, ora em conflito, ora em harmonia dará início a uma saga de aventuras, onde não faltarão monstros mitológicos, seres mágicos, poder da espada e poder da magia, num confronto de forças que transcende os destinos de Tajarê e Slaja. 

Roberto Causo tem um propósito bem definido ao escrever este romance. Ela pretendia à época da primeira aparição de parte deste romance nas páginas da revista Dragão Brasil, em 1995 dar início a um movimento que ele mesmo chamou de "Borduna & Feitiçaria". 

Numa brilhante introdução de Bráulio Tavares (que recomendo a leitura após terem lido o romance, se não gostarem de spoilers), temos uma idéia do que seria este movimento. Causo vê, com razão, que os temas de fantasia medieval falam tanto aos ouvidos do brasileiro como uma guerra em outra galáxia (talvez até menos, haja visto o sucesso de Guerra nas Estrelas na Terra Brasilis). Ou seja gostamos e curtimos, mas quase não encontra eco na nossa mitologia cultural. Somos um povo sem mitos? Causo acredita que não e tenta mexer com eles resgatando três vertentes mitológicas que aterraram nesta Terras de Santa Cruz: a Indígena, representado pelo protagonista Tajarê, que transcende seu antecessor Peri, pois não é o índio idealizado pelos europeus, e também seu antecessor Macunaíma, pois Tajarê tem caráter, um caráter que o aproxima de outros heróis míticos; a européia dos chamados povos do norte (os vikings), resgatando uma referencia a vinda destes povos no norte do país (as carrancas dos barcos do rios São Francisco seriam uma herança desta passagem), representada pela determinada Slaja, que só vacila diante do ora amado, ora inimigo, Tajarê; e a européia dos povos celtas, representada pelas Amazonas, ou Icamiabas (mulheres-sem-homens), originadas da extinta Atlântida, antagonistas poderosas, que foram perdendo sua magia ao longo tempo.

Causo navega ao longo do romance com um estilo que lembra uma mistura de narrativa seiscentista (tipo "Carta de Caminha") com narrativas indígenas. Isso é feito de forma natural, que rapidamente elimina o estranhamento inicial, fazendo a leitura fluir muito bem.
A história tem dimensões épicas e os dois principais personagens estão muito bem caracterizados tanto como membros típicos de seus povos, como no seu parcial aculturamento, representado no caso de Tajarê quando se apropria da espada de um guerreiro viking, no caso de Slaja (um aculturamento muito mais forte) representado pelo seu filho Niadorã, que teve com Tajarê, que quase a faz esquecer de sua missão.

Há o confronto das culturas também, representado de várias formas, como batalhas mesmo: a batalha entre Tajarê e o grupo de vikings que veio em defesa de Slaja, batalha entre Tajarê e a aldeia das Icamiabas, ou como embates de criaturas sendo a mais dramática a luta entre Mboitatá e o Kraken, ou, ainda, embates pessoais como entre a líder das Icamiabas e Slaja, desejosa de roubar de Slaja o segredo de transformar-se em ave.

Vale ainda destacar a capa de Lourenço Mutarelli, que consegue captar muito bem todos este contrates, retratando a cena mis dramática da história.

Todas estas qualidades contudo me fazem perguntar: o que houve com o movimento Borduna & Feitiçaria?

Será que os possíveis leitores de sagas deste tipo ficaram traumatizados com José de Alencar e Mario de Andrade ao lerem obrigados "O Guarani" e "Macunaíma"?

Será que a dominação cultural americana e européia nos fez esquecer de nossos próprios mitos?

Será que só o Causo levantou a voz e a espada (digo, borduna) para defender este ideal?

Ler esse livro (excelente) me fez lembrar algumas coisas. A primeira é o caso da Turma do Pererê, do Ziraldo. Escrita nos anos 60, com preocupações de resgatar valores culturais brasileiros, com personagens e histórias bem feitas, também não decolou. Já o Menino Maluquinho, do mesmo Ziraldo, teve uma repercussão bem maior.

Pode-se pensar em marketing mais agressivo ou momento de mercado ou inibição provocada pela censura. Porém não creio ser este o caso. O Menino Maluquinho é um personagem urbano, bem característicos de uma cidade como São Paulo e fala mais alto que um saci para crianças que crescem na cidade.

No caso de Tajarê, embora tenha gostado do livro e esteja ansioso para ler o livro II, (que espero que Causo se anime em publicar), ele ainda me parece distante. Talvez o mito de um herói do tamanho de Tajarê tenha morrido com a chegada das caravelas e dos "descobridores", que estavam pouco interessados na cultura de um povo que, querendo ou não, acabaram por destruir.

Um resgate de uma raiz não é coisa fácil. Talvez por isso George Lucas tenha recriado toda a mitologia arthuriana, fundindo-a com várias outras e a colocou numa galáxia distante, há muito tempo atrás (talvez no tempo de "era uma vez...").

A Travessia

Ficha Técnica

Título:
A Travessia

Autor: Roberto se Souza Causo
Editora: Hiperespaço (amadora) / Coleção Fantástica
Páginas: 80
Ano: 2009

Sinopse: Em continuação ao livro A Sombra dos Homens, A Travessia segue contando a saga de Tajarê, herói épico pré-cabralino, e Slaja, sacerdotisa viking que cá aportou em busca de libertar Loki. No decorrer da ação, Slaja foi capturada por Tajarê, que a tomou como esposa. Slaja deixa aldeia mas é feita prisioneira das amazonas. Nesta noveleta, Tajarê e Slaja, agora juntos, mas ainda separados por suas missões diferentes, tem que retornar a sua aldeia, em meio ao caos gerado por Tajarê ao invocar forças mágicas para libertar sua amada.

Hiperespaço é um fanzine importante para a segunda onda de Ficção científica, revelando alguns autores, entre eles Roberto de Souza Causo, que ainda militam no meio. Entre as contribuições está a Coleção Fantástica que teve uma coleção de pequenos livros lançada em 1999 e retomada recentemente, com alguns lançamentos, entre eles, A Travessia.

Notamos aqui ainda presentes as principais boas características apontadas em A Sombra dos Homens, que continuam a merecer a atenção de uma boa editora e da leitura livre de preconceitos por parte dos leitores. O desinteresse da Devir, que continua a prestigiar o autor em outras publicações, se deve provavelmente pela ausência de leitores.


Por que um livro bem escrito não encontra eco nos leitores? O livro tem tudo para agradar o leitor em busca de aventura. Feitos heróicos. Perigos imensos. Intriga e amor. Espada e magia, ou melhor, borduna e feitiçaria. Resta infelizmente constatar que o leitor urbano não se sente atraído por um herói que é um índio brasileiro.

O gênero Borduna e Feitiçaria continua esperando por seu público e Roberto Causo ainda espera um destino melhor para seu herói.

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segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Guerra das Sombras - O Livro de Dinaer

A Guerra das Sombras
Livro de Dinaer

Autor: Jorge Tavares
Editora: Novo Século
Páginas: 424
Ano: 2006

Sinopse:  Rairom é filho do regente de uma das províncias do Império das Sombras. O Império é comandado pelo ambicioso e belicoso Fairon, que sonha em transformar o Império num estado totalitário e conquistador, mas vê seus planos frustrado por Zairon, que o impede de mobilizar as tropas, valendo-se de sua influência junto às outra províncias. Um equilibrio de forças se estabelece, mantendo o Império numa federação, com relativa indepência às províncias. Este equilibrio é quebrado por um guerra interna. Rairom cedo perceberá que além dos homens outras forças estão atuando, no qual a guerra é na realidade um imenso jogo.

Escrever literatura fantástica épica é um grande desafio, principalmente tendo como balizador O Senhor dos Anéis, de J.R. Tolkien.

Primeiro livro de uma tetralogia, A Guerra das Sombras – Livro de Dinaer causa uma impressão favorável, animando até o leitor mais exigente a procurar os outros livros. O desafio de um autor deste tipo de literatura a transcender a simples aventura e colocar o leitor num nível que atinge seu inconsciente mais profundo, resgatando o inconsciente coletivo da humanidade, como um criador de mitos clássicos.

Este desafio parece ter sido vencido por Jorge Tavares, ao criar uma aventura épica, em que não faltam batalhas entre defensores de uma linha política progressista contra um império totalitário e personalista. Só de escrever isto sem parecer estar fazendo uma colagem de Senhor dos Anéis com a Távola Redonda já é um grande mérito.

Mas isso só não basta. E realmente há mais. A aparente luta entre homens é só um pano de fundo para uma guerra muito maior, de natureza cósmica e sobrenatural, onde os homens são mero joguetes nas mãos de deuses, onde a noção de bem e mal segue critérios próprios e diversos daquilo que os personagens e os leitores chamam de "moral" ou "ética".

O autor nos brinda com algumas surpresas, uma delas causando um forte estranhamento ao se mudar a narrativa de terceira pessoa para primeria pessoa. Isso ocorre mais ou menos na metade do livro, quando temos um vislumbre de quem está realmente narrando a saga de Rairom Guenor, o jovem mago que tem em suas mãos o destino de toda a humanidade e o seu irmão Tairom, que aos treze anos por um capricho do destino tem que assumir o trono o momento de maior crise do reino onde vive.


A Guerra das Sombras – Livro de Ariela

Autor: Jorge Tavares
Editora: Novo Século
Páginas: 350
Ano: 2007

Sinopse: Doze anos após os acontecimentos narrados em A Guerra das Sombras – Livro de Dinaer, a saga de Rairom, longe de ter terminado, ainda terá muitos desdobramentos. Quem narra a história desta vez é a jovem Ariela, princesa de Delón, povo a quem foi confiada a missão de impedir que o Aloriam, mensageiro do caos, atinja seu objetivo de destruir a ordem e com ela o mundo como o conhecemos. Logo ela descobre que o jovem mago Rairom, a quem ajudou, é o Aloriam que tanto odeia. Decide então acompanhá-lo numa longa viagem através da Península Oreânica, enquanto o Império das Sombras, liderado pelo sanguinário Larcan, em sua louca sede de conquistas, destrói tudo em seu caminho.


Jorge Tavares, ao retomar a narração de A Guerra das Sombras, muda o narrador, que no primeiro volume é o proprio Dinaer, um ser onisciente e com poderes grandes suficientes para mudar o rumo dos acontecimentos, para jovem Ariela, mergulhada no olho do furacão de acontecimentos em que apenas tem uma visão parcial e limitada.

Ainda que a moça seja uma maga de poderes muito grandes e faça parte de uma cultura que tradicionalmente espera pela vinda do Aloiram para lhe dar combate, ela é, como todos os seres humanos envolvidos, apenas um instrumento nas mãos de forças que não consegue compreender totalmente. Sua narrativa então é contaminada por seus preconceitos, por sua ignorância e por seus sentimentos, que longe de empobrecer a história, a enriquece.


Rairom, mesmo com todo o poder a ele conferido, também é manipulado e dirigido por forças que ele apenas pode vislumbrar. Disposto primeiro a rejeitar Dinaer e a missão de Aloiram, o que lhe provocou uma doença, decide ir de encontro ao poder certo de que conseguiria libertar-se de seu pesado fardo.


Muitas reviravoltas tanto no mundo meramente humano, onde há uma guerra em curso, como no mundo espiritual onde duas forças igualmente titânicas – a Luz e o Caos – estão em choque permanente. Uma coisa que os personagens e o leitor engajado na trama irão perceber é que não basta apenas escolher um lado e defendê-lo. A resposta está muito além disso.

O climax do livro é a Batalha de Algar, muito bem contada, digna de um romance épico, com lances dramáticos, típicos de uma batalha arturiana.

Há dois pequenos senões para o livro. Após a batalha, espera-se um confronto entre Ariela e Rairom ou um gancho para o próximo volume. O confronto ocorre na forma de um diálogo entre os dois em que alguns fatos importantes são revelados. Embora tenha sido bem escrito, tem-se a sensação de pressa. Algumas coisas são contadas de forma superficial e, mesmo que o quebra cabeça se encaixe, tem-se a sensação que falta algo.

O segundo senão é sobre o personagem Laqueu. Ele cumpre um importante papel na viagem de Ariela pela Península, revelando-se um bom contraponto entre o comportamento arrogante e decidido da princesa e o comportamento dele, de laissez-faire, com uma motivação mercenária para acompanhá-la. Tornou-se duas coisas: o alívio cômico e o personagem que pode fazer o que a heroína não pode, já que ele tem um caráter não tão nobre.

Porém ele simplesmente some após o regresso. Ficou clara, durante a jornada, a evolução dos laços de amizade entre eles e seria muito interessante colocá-lo ao lado de Ariela até a batalha de Algar.

segunda-feira, 29 de março de 2010

O Livro de Eli (ou seria de São Leibowitz?)

Ficha Técnica

O Livro de Eli (The Book of Eli)
Direção: Albert Hughes, Allen Hughes
Roteiro: Gary Whitta
Elenco: Denzel Washington, Gary Oldman, Mila Kunis, Ray Stevenson
Duração: 118 minutos
País: EUA

Sinopse: em um mundo pós apocalíptico, um viajante solitário, Eli, carrega o último exemplar da bíblia. Este livro será disputado pelo "dono" de um vilarejo, que acredita que a bíblia pode ser usada para manipular as pessoas.

Quem conhece o excelente livro Um Cântico para São Leibowitz não pode deixar de sentir uma pontinha de déjà vu. Isso por que o cenário pós apocalíptico e a luta para preservar o conhecimento sob o ponto de vista religioso são comuns nos dois enredos

Eli carrega com fé o que ele diz ser o último exemplar da bíblia do rei James, a tradução mais aceita para o inglês do livro sagrado. Sua atitude de preservar a todo custo o seu exemplar entre em choque com tentativa do tirano senhor de uma cidade de se apossar do livro para controlar as pessoas.

O filme contrapõe, metaforicamente, a fé institucionalizada e corrompida (do tirando local) contra a fé individual e pura, ainda que ignorante (de Eli). Esta é a posição das igrejas protestantes, pelo menos em sua origem. O fato de tanta ação transcorrer por causa de um livro religioso, dentro de uma determinada ótica (cristã e protestante) pode incomodar alguns espectadores. A estes seria interessante recomendar: é apenas diversão. Curta a ação e esqueça os preconceitos (seus e dos realizadores do filme).

O núcleo da narrativa foca o conflito forasteiro versus dono do lugar. Isso lembra filmes de western. Se tirarmos os carros destruídos das ruas, substituir motos por cavalos e por chapéus pretos e brancos, temos aí um bom e velho western. Tem até um duelo de rua e um tiroteio a uma casa sitiada (ainda que as armas sejam mais modernas...). E outro duelo num clássico saloon, que serve bebidas e mulheres  (cujo dono, por "coincidência" é o vilão).

Merece destaque a fotografia que justamente tenta remeter ao velhos filmes de western, que tende para o sépia, com cores quase ausentes.

Além das referências ao Western e a São Leibowitz, o espectador encontrará outras, como a Farenheit 451 e a Mad Max (o protótipo de todos os filmes pós apocalípticos).

Destaque para uma surpresa que ocorre próximo ao final (não vou contar!), muito bem escondida durante o filme todo, de tal forma que alguns se perguntarão: "será que é isso mesmo"?

Em suma, esqueça o proselitismo e algumas inconsistências e divirta-se.

Recomendamos a leitura da resenha que aparece no Cine Dude, que aborda outros aspectos do filme. 

quarta-feira, 10 de março de 2010

Invisíveis - Revolução 1


Ficha Técnica

Os Invisíveis –Revolução 1
Autores: Grant Morrison (roteiros), Steve Yowell, Jill Thompson, Dennis Cramer (desenhos)
Editora: Pixel
Páginas: 228
 
Sinopse: Adolescente é preso, após ação terrorista da qual participa. Posteriormente é resgatado e cooptado por uma organização secreta, Os Invisíveis. Cedo descobrirá que está envolvido num conflito de dimensões muito maiores que supõe.

Publicado entre 1994 e 2000, a série Invisíveis ganha este volume da Pixel, que é uma reunião encadernada dos oito primeiros números, contendo as histórias "Beatles Mortos", "Tão Fodido no Céu como no Inferno" (partes de 1 a 3) e "Arcádia" (parte de 1 a 4).

Carregado de referências, que passam pela filosofia, política, rock, esoterismo, ufologia, mitologia de diversas culturas, HQs, história e literatura, Grant Morrison compõe um enredo extremamente complexo, dinâmico, que prende o leitor.

As referências tornam a leitura complexa para quem quer pegar todos os nuances da trama (inclusive trocadilhos muito sutis e algumas piadas). Todavia, o dinamismo da história permite uma leitura mais superficial para os que assim desejarem. Um glossário no final e algumas notas da tradução ajudam um pouco.

Todo início de um arco de histórias é precedido por uma página onde algo está acontecendo em paralelo e dá uma dica sutil (por vezes sutil demais, outras, nem tanto) que conduzirá à chave para explicar inicialmente o arco de histórias e posteriormente toda a trama. Por exemplo em "Beatles Mortos", onde somos apresentados à série, a página em questão mostra um diálogo entre dois personagens. Neste diálogo, onde está sendo passado o que seria um sinal da missão a ser empreendida, são feitas diversa referencias a besouros, que serão exploradas muitas vezes não só no capítulo em si, como durante a trama. (ver adiante em Rede de referências).

A narrativa principal de Invisíveis tem como característica a máxima "nada é o que parece", lembrando os enredos de Phillip Dick (a influ~encia do romance Valis é notória) e principalmente Matrix, que aliás não é mera coincidência. 

Ao ler a HQ temos um deja vù, nada a se estranhar, pois Matrix copiou descaradamente personagens, ideias, visual (os óculos escuros, por exemplo) e até cenas inteiras (até com diálogos), para não dizer tudo de Invisíveis. 

A Pixel acertou em reeditar este clássico, porém cometeu alguns delises: não está indicado em lugar nenhum quantos volumes serão e não há qualquer tipo de índice dos capítulos.
 
Rede de referências:

(Spoiler: se quer deduzir a história por si próprio, NÃO leia os parágrafos a seguir):

Beatles Mortos
 
O título faz referencia os dois membros da banda que já haviam morrido: John Lennon e o "quinto Beatle", Stuart Sudclife, que deixou a banda em seu início, morrendo pouco depois. Há um diálogo entre os dois presenciados por um dos personagens que não se dá conta do absurdo da cena.

Na primeira página, o objeto que indica qual é a missão é um escaravelho mumificado. O escaravelho é uma espécie de besouro. Um dos personagens fala que "quando abandonamos o planeta, partimos num enxame de besouros dourados". O título do episódio é "Beatles Mortos", referência ao grupo de rock inglês, cujo nome é um trocadilho com a palavra beetle, que significa besouro.

O episódio fecha com uma piada envolvendo a morte de um besouro. Pára aí? Certamente não. O escaravelho é o símbolo da morte e da ressurreição porque desce às profundezas e volta trazendo o sol. Há outras chaves ainda. Vale a pena retornar a estas páginas de quando em quando para tentar montar o quebra-cabeças que é Invisíveis.

Algumas outras referências a procurar: filosofia anarquista, óculos escuros, Laranja Mecânica, Tarot, Sandman.

Tão Fodido no Céu quanto no Inferno
 
A página que precede o início do arco de histórias mostra um discurso onde é dito que os pensamentos das pessoas são plantados por seres que querem nos controlar.

Em uma das cenas, um personagem mostra um disco e branco e pergunta; "o que você vê no espelho". É uma referência à iniciação dos mistérios de Eleusis, da Grécia Clássica, onde o iniciado era colocado diante de um espelho e, por meio de uma trucagem, não via o seu rosto, mas uma caveira. O resultado era um susto. Uma afirmação de um mestre da época: "sem susto, não há aprendizado".

Atenção para o nome Barbelith. Ele está relacionado com a Gnosis, uma anglisação do termo Barbelos, que significa "as emanações de Deus". Há também uma aproximação com o nome Lilith, a mãe-esposa de Adão, que está associada à lua nova. É uma importante chave para o entendimento da trama.

Observe a presença de ETs na alucinação do personagem principal (Dane McGowan), durante sua iniciação.

Outras referências: processo iniciáticos baseados em choque, processos iniciáticos baseados em drogas, mitologia inglesa (céltica), caça à raposa, óculos escuros, ETs, Gnosis e 1984.
 
Arcádia
 
A página que precede o início do arco é um diálogo entre dois apreciadores do teatro de sombras, onde um determinado artista consegue com sua habilidade fazer que os espectadores acreditem ser aquilo real.

Neste arco, as principais referências estão relacionadas com a revolução francesa e suas consequências, o poeta Shelley e sua esposa (Mary Shelley, criadora do Frankstein), Lord Byron e o Marquês de Sade.

Há uma descrição da desastrosa viagem de Mary Shelley para rever o marido, que causou a morte de sua filha mais nova, então um bebê. Esse incidente levou o poeta à depressão, pois sentia-se culpado pelo que acontecera. No caminho, Mary Shelley encontra um personagem que não diz seu nome mas dá algumas pistas, a principal é de que não aparenta a idade que tem. Isto e o dialogo que tem com ela dão uma dica muito clara para quem conhece filosofia esotérica.

Uma outra forte referência está relacionada ao controverso Marques de Sade e seu livro mais famoso, Os 120 dias de Sodoma. O marquês é mostrado em uma fase bastante decadente em sua vida, logo após o término de sua prisão. O enredo de seu livro mistura-se a referências ao século XX. 

Outras referências: Caliostro, Saint Germain, código de barras, mitologia Asteca, João Batista.

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Invisíveis - Revolução Volume 1 - Grant Morrison