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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Realidades Adaptadas – Phillip K. Dick

Autor: Philip K. Dick
Tradução: Ludimila Hashimoto
Editora: Aleph


Sinopse: Reunião de sete contos de Philip K. Dick que deram origem a filmes, entre eles o Vingador do Futuro, refilmado em 2013.

Dick é o autor de Ficção Científica mais filmado por Hollywood, com várias de suas obras adaptadas, como, por exemplo, Blade Runner, a partir do romance Do the androids dreams with electric sheep?

O sucesso do filme e maneira de Dick escrever chamaram a atenção dos produtores e tivemos uma boa safra de filmes, nem sempre muito fiéis ao texto do autor, porém com ótimos resultados.

Lembramos a você a preço de atacado

Este conto, publicado em 1966 deu origem ao Filme O Vingador doFuturo (Total Recall) em 1990 e refilmada em 2013. Quem viu o filme e lê o conto tem a sensação que falta algo, pois o conto abrange até mais ou menos a metade do filme e o desfecho é bem diferente. Os roteiristas conseguiram dar uma dimensão ainda maior para ambiguidade do personagem e das múltiplas realidades em que ele vive.

Segunda variedade

Este conto, escrito em 1953, deu origem ao filme Screamers –Assassinos Cibernéticos, de 1995. Não vi o filme. O conto, fruto da Guerra Fria, tem como pano de fundo uma longa guerra entre russos e americanos. Os americanos desenvolveram uma arma cruel, um robô chamado “garra”, uma pequena esfera de metal cuja única função era matar qualquer ser vivo, desde que não tivesse uma identificação especial (detalhe aproveitado num dos episódios da série Doctor Who). Spoiler: o problema é que estas armas começaram a evoluir e a modificar a si mesmas tornando-se uma ameça para ambos os lados. Suspense bem construído e final surpreendente (talvez não tanto para os fãs de Dick).


Conto de 1953, deu origem ao filme de mesmo nome de 2001. Outro filme que não vi. A Terra está numa situação de equilíbrio instável (metáfora pra a Guerra Fria) com uma força alienígena que pretende invadi-la. Spoiler: Um engenheiro pode ter sido substituído por um robô-bomba que poderá explodir assim que for dita por qualquer pessoa uma frase chave. O problema maior é que o robô pode desconhecer sua própria natureza, acreditando piamente ser quem está substituindo.

Relatório minoritário

Escrito em 1956 e filmado em 2002 com o nome Minority Report, o conto trata de um sistema policial onde através do uso dos precogs, seres humanos com retardo mental, mas dotados de vidência. Isso permite prender uma pessoa antes que ela cometa um assassinato. São três videntes e a pessoa é detida se pelo menos dois deles têm a mesma previsão. O relatório divergente é o relatório minoritário. No conto, o comissário Anderson, responsável pela divisão pré-crime, é acusado pela própria seção que dirige, de assassinar uma pessoa que não conhece. Tudo é parte de uma trama para desmoralizar o sistema. O conto se concentra na tentativa de Anderson de encontrar o relatório minoritário.

No filme, há alguns acréscimos importantes, que alteram a motivação da trama, e um final diferente. Todavia o resultado é muito bom.


Conto de 1953 e filmado em 2003. Um homem trabalhou dois anos para uma empresa, teve sua memória apagada e recebe em vez de pagamento um saquinho com bugigangas. Segundo seus empregadores, o adendo no contrato foi feio por ele mesmo, antes de ter sua memória apagada. Ele se sente engando, porém cada um daqueles objetos terá uma utilidade crucial no futuro, como se ele, ao pedir aquelas coisas, já soubesse o que iria lhe acontecer. O conto se concentra em desvendar pouco a pouco a função dos objetos e o que realmente ele fez durante aqueles dois anos. O protagonista está prensado entre o governo e uma empresa gigantesca e se sente uma engrenagem nesse jogo. De todos os contos, foi este o que mais me prendeu a atenção.

O homem dourado

Escrito em 1954, deu origem ao filme O Vidente (Next) em 2007. Uma família esconde um mutante, um rapaz de pele dourada, pois a política do governo é capturar para estudo e exterminar os mutantes “inapropriados” (quase todos). A capacidade deste mutante é prever tudo o que vai lhe acontecer com uma precisão incrível. O conto tem o mérito de apresentar, contrariando o padrão da época, um mutante belo, aparentemente inofensivo, como uma real ameaça ao futuro da espécie humana. Esta visão e a postura do governo no conto certamente influenciou X-Men.

Quem elu este conto deve ter tido um leve deja-vù: “tem algo que eu já vi em outro lugar”. Viu mesmo. Na primeira versão de O Vingador do Futuro: os mutantes de Marte.

Equipe de Ajuste

Também escrito em 1954, o filme deu origem a Os Agentes do Destino. Um homem chega atrasado ao trabalho e vê seu mundo literalmente desmoronar. Ele inadvertidamente foi colocado no meio de uma intervenção de uma espécie de administradores da realidade. Este conto tem um tom mais leve, com traços de humor. Alguns dos personagens são caricatos, como o cão que deve evocar um evento ou o vendedor de seguros que faz o protagonista perder seu tempo. E a organização que cuida do processo é uma caricatura de uma organização burocrática. Foge um pouco ao tom normal de Dick, que raramente usa o humor, e quando usa é de maneira cínica.

Conclusão

Destes filmes, só via as duas versões de O Vingador do Futuro e Minority Report. Mais do que adaptações, estes dois filmes foram recriações muito bem realizadas.

Dick tem algumas coisas que lhe são próprias, que aparecem nestes contos:
  • Questionamento da realidade (nada é o que parece ser);
  • Questionamento do destino da humanidade;
  • Paranoia frente a julgamento de terceiros, sem possibilidade de defesa (sobretudo em Minority Report).

No todo, os contos são bastante interessantes e a ideia de reuni-los num único volume chega a ser didática, tanto para os apreciadores destas obras no cinema como para os fãs de Philip K. Dick.

Os textos são precedidos de um comentário que contextualiza as obras tanto na literatura como no cinema e o livro apresenta o final alguns comentários do autor sobre cada um dos contos. Está no final por que Dick deu vários spoilers, mas é interessnate para ver como o autor vê sua própria obra.


Um bom trabalho da editora Aleph.

domingo, 16 de setembro de 2012

Fragmentos


Fragmentos
Autor: Ricardo Guilherme dos Santos
Editora: Vesper (Giz Editorial)
Ano: 2012
150 páginas

Sinopse: O livro está dividido em duas partes, na primeira, Textos diversos, autor reúne alguns textos selecionados de sua produção: crônicas, contos, poemas. Na seguinte, o ensaio acadêmico O Ritmo das Narrativas.

Reunir em um só livro vários tipos de textos, parece estranho à primeira vista, por estarmos acostumados a antologias onde um tipo só de trabalho é publicado, por exemplo, contos. Na minha opinião, isto não deveria nos estranhar, dada a diversidade de textos que lemos diariamente na Internet, seja em sites, blogs, ou redes sociais.

Lendo todos os textos da primeira parte, percebe-se que o autor trabalha melhor com os contos. Vamos a eles:

A Pequena Xamã

História fantástica, onde uma menina lentamente percebe que tem o poder de se comunicar com os animais e curá-los. O conto lida com mitos e lendas brasileiros (resgatando algumas deles, pouco conhecidas) num texto leve, direcionado ao público de uma faixa etária entre 10 e 12 anos. A heroína do conto é muito bem caracterizada e bem verossímil, mesmo com seus poderes sobrenaturais.

Ísis

O conto está no gênero ficção científica, destinado a uma faixa etária um pouquinho maior (em torno de 14 anos) e é bem construído, com uma linguagem fluída e de agradável leitura. Clarice é uma cientista viaja pelo tempo e espaço em busca de respostas, algumas sobre si mesma. Um dos méritos do autor é construir um mistério e mantê-lo oculto até o momento que ele resolve mostrá-lo. E a solução do mistério está coerente com o desenrolar da trama. Outro mérito é conduzir muito bem a transformação psicológica da personagem principal. Porém tem algo que me incomodou: o conto termina como uma fábula de La Fontaine, com “uma moral” muito explicitada. Mesmo que a finalidade fosse essa (passar a mensagem) ela poderia ser feita de uma forma mais sutil.

Sedução

Outro conto de ficção científica, com um pitada de erotismo.
(spoiler)
Uma criatura feminina aguarda o momento certo para seduzir um pescador.
O texto é bom e a história envolvente, misturando o erotismo com a angústia de percebermos que o pescador é uma vítima de um plano de invasão alienígena. Um conto que revive o mito da sereia e o medo inconsciente (masculino) de ser “devorado” na relação amorosa.

Sansão

Destinado ao publico entre 10 e 12 anos (talvez avançando um pouco mais) Sansão é um conto de terror (leve) onde um policial investiga um crime onde as testemunhas garantem que quem o cometeu foi um boneco. Remete ao “Brinquedo Assassino” e a “Toy Story”. O humor, que atenua bastante o clima de terror, fica por conta do detetive encarregado a desvendar o crime.

A Última Anã Vermelha

Um sonho leva o personagem à ultima estrela anã vermelha a se apagar, quando teoricamente o Universo teria seu fim.

O grupo seguinte a ser analisado são os poemas. Vou destacar quatro deles:

Além do Horizonte

Está em tom de alerta, como se fosse uma tentativa de tirar alguém da depressão. O texto é realmente motivador pelo seu ritmo, apenas quebrado no segundo verso da segunda estrofe, por causa dos dois pontos (:) colocados após a palavra “Nota” (talvez seja essa a intenção do autor).

O Cavaleiro Solitário

O poema é construído sob várias referências, desde o título (remete a um personagem de HQ antigo, um seriado de TV e um filme com Clint Eastwood), passando por Alan Kardec e Raul Seixas, muito bem colocadas.

Criatura da Noite

Poema em homenagem à personagem Kaori, de Giulia Moon

Este é um melhor do livro pela escolha da temática, pela sonoridade (lembrando alguns poemas simbolistas), e por causa da construção dos verso que remetem ora à sedução, ora ao perigo, ora ao sentir do personagem diante disto, sem mencionar uma única vez a palavra “vampiro”.

Vento

Um poema curto, que pelo seu ritmo e sonoridade, dá ideias exata do vento.

As crônicas são Ave Rowling, onde o autor fala sobre a sua relação com os livros e filmes de Harry Potter e Um povo que caminha sozinho, onde o autor se posiciona em relação ao descaso em relação à educação em contraponto com uma atitude que permeia sobretudo os jovens, em buscar conhecimento por conta própria.

A segunda parte é dedicado a um ensaio O Ritmo das Narrativas. Neste ensaio, o autor aborda um dos aspectos que tornam um texto interessante, o ritmo.

Um texto acadêmico bem desenvolvido e bastante útil para quem pretende ser um bom escritor.

Uma coisa interessante a fazer é reler a primeira parte do livro e ver como o autor aplica isso no seus próprios textos (ele, de fato, aplica).

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Time Out – Os viajantes do tempo

Time Out – Os viajantes do tempo
Autores: Ademir Pascale (org), Roberto de Sousa Causo, Miguel Carqueija, Luciana Fátima, Álvaro Domingues, Estevan Lutz, Allan Pitz, Mariana Albuquerque. Apresentação: André Carneiro. Ensaio: Edgar Indanlecio Smaniotto. Orelha: Jorge Luiz Calife.
Editora: Estronho
Ano: 2011
120 páginas

Sinopse: Oito contos que têm por base a viagem no tempo. Os, autores, convidados por Ademir Pascale, tiveram total liberdade para criar, tendo como único parâmetro o tema. O resultado foram histórias que abrem um bom leque de visões sobre o assunto.

Déja-vù: O Forte – Roberto de Sousa Causo
Uma mulher com uma doença terminal busca em uma viagem, um pouco de realização pessoal antes de morrer. Ao visitar um antigo forte, se vê transportada para uma batalha, século atrás, onde é um dos soldados em luta. A descrição ação e dos pensamentos da personagem ao ser surpreendida no passado, como suas dúvidas e angústias no presente estão muito bem realizados. Há uma ligeira referência a uma possível vida passada, à qual a personagem se transporta, mas isso não é fundamental para o enredo. A preocupação de Causo é uma reflexão sobre a vida, o sofrimento e a morte. Profundo.

A Velha Canção do Marinheiro – Ademir Pascale
O ponto de partida de Pascale são as experiências feitas no navio Eldridge, durante a Segunda Guerra, para torná-lo invisível, que segundo alguns, tiveram resultados inusitados e dramáticos, com parte da tripulação desaparecida. O fato é bastante explorado na literatura especulativa de não-ficção, com algumas teorias mirabolantes. O conto é narrado em primeira pessoa e centra-se no drama pessoal de um destes marinheiros que a cada 72 horas é transportado para outra época. O que mantém sua sanidade é a esperança de um dia numa destas viagens reencontrar-se com sua noiva. Angustiante. Nota dez para referência ao poema “A Balada do Velho Marinheiro”, de  Coleridge.

A Difícil Arte de Lidar com Patrulheiros do Tempo – Miguel Carqueija
Um cientista é visitado por um patrulheiro do tempo, que tem como missão matá-lo, pra evitar um desastre futuro. O conto é centrado na tentativa do cientista em convencer o patrulheiro a não matá-lo. O humor da situação dá o tom.

Pelas Badaladas do Tempo – Luciana Fátima
A autora opta por descrever a viagem no tempo como se fossem devaneios, conduzidas pelo badalar de sinos diferentes em diferentes épocas. Para ser um poema, falta apenas a rima e a métrica. Nostálgico.

Modelo do Ano – Álvaro Domingues
Dois nerds, que especulam sobre viagens no tempo, ao terminar a faculdade se separam e, dez anos depois, se reencontram. Este conto é de minha autoria. Apenas vou dizer que foi muito divertido escrevê-lo, já que é um conto com muito humor. Espero que os leitores se divirtam tanto quanto eu.

A Máquina da Insanidade – Estevan Lutz
Este pode ser considerado o que tem o maior apelo científico dos contos deste volume. O autor especula sobre o determinismo do Universo de uma maneira muito inteligente.

O Último Trem para Plêiades – Allan Pittz
Alienígenas levam um homem comum para ver um planeta similar à Terra onde pode observar o futuro do que poderia nos acontecer. Dizer mais do eu isto vai gerar spoilers desnecessários. Outro conto que tem uma boa dose de humor, sobretudo no desfecho, mas nos faz pensar.

Contra o apagar das Luzes – Mariana Albuquerque
Poderemos lutar contra o inevitável? Uma constatação amarga aguarda temponautas que tentam evitar um desastre de grandes proporções. Para reflexão. Excelente texto. 

Fechando o livro a há o ensaio Viagem no Tempo na Ficção Científica Brasileira: de Observadores a Viajantes do Tempo, de Edgar Indanlecio Smaniotto. O ensaio lança luz sobre esta vertente da FC, escrita no Brasil, desde as primeiras narrativas, onde o futuro ou o passado era observado por meio de algum aparelho tecnológico (por exemplo o poriviroscópio de Monteiro Lobado) ou mágico (O Copo de Cristal,  de Jeronymo Monteiro) até as incursões da Intempol. Muito bom.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Um conto para esta sexta-feria 13

Necronomicon
Álvaro A. L. Domingues 

Finalmente eu tinha o que desejava. Um velho antiquário me vendera O Necronomicon. O Grimório dos Grimórios. O desejo de todos os magos e o terror de todos os fracos. O alfarrábio recendia a papel velho, embora alguns autores tivessem dito que suas páginas eram pergaminhos feitos a partir de pele humana. E para dar um tom mais aterrorizante, diziam que a pele de muitas pessoas fora arrancada quando elas ainda estavam vivas. Se ele fosse aberto em determinada hora, poder-se-ia ouvir os gritos. Pouco importava, pois jamais abriria suas páginas. Não desejava tamanho poder, queria apenas o livro.


Enquanto carregava o pesado volume para casa, fiquei imaginando a cara do irmão que fizera demoradas pesquisas na internet e garantia que o livro não existia.


Levei-o para meu quarto, escondendo-o o melhor que pude, dentro de minha gaveta de camisetas. O meu irmão não mexeria lá, pois não gostava do estilo de minhas roupas. Heavy Metal não era a praia dele desde que raspara a cabeça e se juntara com um grupo de skin heads. Não entendia a opção de meu irmão. Não combinava com seu jeito nerd gritar slogans racistas e bater em punks, nordestinos e metaleiros. Na verdade achava que fazia isso só para me menosprezar. Neste instante senti ódio. Não dele, mas das coisas que o transformaram de um tímido internauta em um agressivo skin head. Percebi que não era um simples raiva, nem ódio comum. Era um ódio que vinha de dentro.


Naquela noite tive um sonho estranho. Estava no Tribunal da Inquisição cercado de frades. Eu era o réu. Estava acorrentado, ao lado de dois soldados. Ouvia cânticos gregorianos, e entre os frades via meu irmão com um rosto assustado. Viu em cima da mesa do juiz o Necronomicon, a prova contra mim. Vários frades me acusaram de práticas sinistras que envolviam bruxaria e até sacrifícios humanos. Chegou a vez do irmão falar. Sabia que meu irmão não gostava de mim e desprezava qualquer coisa em que acreditava e que provavelmente corroboraria as acusações. Fiquei aguardando o pronunciamento, mas acordei antes de ouví-lo. Levou algum tempo para perceber que aquilo fora um sonho, mas a sensação de ódio permanecia. Era uma hora da manhã.


Lembrei-me do livro. Abri-o com cuidado. Senti um forte cheiro. Não era simplesmente o cheiro de mofo ou de "guardado", mas, se pudesse defini-lo, seria do próprio Inferno. Apesar de nauseado, continuei. O livro era escrito em árabe. Isso me deixou zangado a princípio, mas o que poderia esperar? O livro poderia estar escrito em sanscrito, latin ou em qualquer língua desconhecida para mim e até para o mundo, já que teoricamente o Grimório fora escrito por uma humanidade extinta, esperando para ser despertada.


Olhava as palavras com frustração, quando as letras começaram a se dissolver diante de meus olhos. Talvez o primeiro contato com o ar tivesse feito isso, mas não era um fenômeno tão simples de ser explicado. As letra surgiram de novo, agora em português, um português muito antigo, parecendo daquelas cantigas de amigo que vira em minhas aulas de literatura. Meu instinto de preservação, ainda alerta, fez com que fechasse imediatamente o livro, mas a curiosidade falou mais alto e o abri novamente.


Comecei a ler o texto e senti aquele ódio novamente. Imediatamente, ouvi o som de cantos gregorianos e vi as páginas transformarem-se numa visão do julgamento que assistira. Me vi novamente como o réu em julgamento e meu irmão depondo:


– Ele é inocente! O Grimório é falso! Um de vocês o colocou em seu claustro apenas para provar sua culpa!


Ouvi um grande oh! Seguido por um burburinho. O Juiz se levantou com visível raiva:


– Prendam este insolente! Ele será julgado junto com o irmão, como cúmplice!


A cena seguinte foi ver a mim mesmo e meu irmão sendo queimados em uma grande fogueira. Senti até as dores. Talvez tivesse gritado e acordado meus pais e o meu irmão.


Quando voltei a mim viu-me diante do livro. Não havia mais ninguém em seu quarto, sinal de que não gritara. E no livro a palavra escrita em caracteres góticos: VINGANÇA.


Bateu-me uma forte sensação de cansaço e voltei a dormir. Acordei muito tarde, muito mal. Meu irmão saira como de costume sem destino definido, já que abandonara tudo em prol de sua "turma".


Minha mãe estava preparando-se para sair. Após alguns meses desempregada, estava indo trabalhar. Recomendou-me um monte de coisas já que eu ficaria só em casa e dali a pouco iria para a escola.


Fiquei só por cerca de meia hora sem muito animo par fazer nada, quando contrariamente a seu costume, meu irmão voltou. Sua aparência estava muito estranha. Eu diria que apavorado.


– O que houve perguntei? -- perguntei.


Meu irmão me olhou com os olhos cheios de pavor e disse:


– Um de meus amigos skin head foi assassinado. E com requintes de crueldade: arrancaram a pele dele deixando-o morrer aos poucos, cheio de dor.


Tranquilizei meu irmão o melhor que pude. Quando ele se acalmou, fui até meu quarto correndo. Abri minha gaveta e, logo abaixo do Grimório, cuidadosamente dobrado algo que julguei ser pele humana. Uma sensação forte de satisfação percorreu todo o meu ser. Mas sabia que não pararia ali.