Mostrando postagens com marcador Philip K. Dick. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Philip K. Dick. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? – Blade Runner para ler com prazer


Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? 
Título original: Do androids dream of eletric sheep?
Autor: Philip K. Dick
Tradução: Ronaldo Bressane

Sinopse: Rick Deckard vive numa Terra decadente, onde após uma guerra nuclear, boa parte dos humanos emigraram para colônias espaciais e a maioria dos animais morreu, transformando-se em produtos de luxo. Seu sonho é possuir um animal verdadeiro. Sua profissão é “caçador de recompensas” e ele persegue e “aposenta” androides. Recebe como missão perseguir e aposentar seis androides fugitivos de Marte e vê nesta caçada a possibilidade de realizar seu sonho de ter um animal verdadeiro. Mas, as coisas não saem exatamente do modo que deseja.

Durante muito tempo tive receio de ler o livro pois tinha medo de ver destruída a minha excelente impressão do filme Blade Runner, baseado neste livro ou que a minha visão do filme fizesse desgostar do livro.

Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Como o próprio Philip K. Dick disse, após ver um trecho do filme ainda em produção, os dois trabalhos se complementam.

O filme dá uma dimensão maior aos personagens Deckard (o caçador de androides), Rachel (a androide quase – ou mais que – humana) e Roy Bat, o líder dos androides fugitivos.


Rachel, mais humana que androide

O Deckard do livro é uma pessoa comum, com uma vida medíocre e a única coisa extraordinária (que ele trata como algo muito burocrático) é sua profissão. Roy Bat apesar de sua inteligência e de certa forma sensibilidade, seria incapaz de proferir aquele discurso do final filme e Rachel do livro não consegue passar sua humanidade como no filme.

Deckard, frieza burocrática ao aposentar androides.

Por outro lado, no filme a preocupação metafísica – que é bastante intensa no livro – está quase ausente e mostrada de um jeito diferente (concentra-se na busca do “criador” por parte dos androides). No livro, há uma espécie de religião chama mercerismo, onde todos se conectam através de um caixa de empatia a Mercer, um messias que sofre para  que todos sofram juntos e compartilhem emoções.

Mercer é um velho que sobe uma colina e é apedrejado por inimigos invisíveis e as pessoas quando a ele conectadas sentem seu sofrimento e as emoções de cada pessoa envolvida. Aliás, a empatia é o sentimento que distingue um ser humano de um androide e a busca por empatia é o que move os androides liderados por Roy.


Tanto no filme como no livro os androides buscam a transcendência

Está ausente no filme o programador de emoções de Penfield. É um aparelho em que você escolhe num menu o tipo de emoção que quer sentir no momento. Em geral, as pessoas “vestem” emoções convenientes, como alegria se estão em casa ou senso de responsabilidade profissional se estão indo trabalhar. Entretanto Iran, esposa de Deckard  (personagem ausente no filme) um dia, ao tomar consciência de sua condição de morar num mundo decadente, em vez de “felicidade” escolhe “depressão”, que segundo ela, era o que deveria estar sentindo realmente.

Há também a questão do “bagulho”. Na visão de Isidore (no livro um simples motorista que recolhe animais artificias com defeito) o bagulho seriam objetos inanimados que se multiplicam e destroem o mundo a sua volta, uma explicação ingênua para a deterioração entrópica do mundo em que está vivendo.

O mundo de Dick é um mundo onde o artificial expele o natural e hipocritamente destrói os androides, que paradoxalmente anseiam por humanidade. Isso também está no filme, mostrado de outra forma.


Um mundo onde o natural é expulso pelo artificial

Atenção Spoiler!

O ponto alto do filme é a perseguição dos androides no prédio onde mora Isidore. No livro há perseguição, mas sem a emotividade das cenas do filme e a morte de Roy é patética, como se fosse mais uma “aposentadoria” feita por Deckard.

O termo em inglês é “retire”, que significa também “retirar”. Em português não há esta ambiguidade. O segundo significado da palavra aposentar (colocar em um aposento) há muito não é utilizado. Nas versões do filme traduzidas (tanto dubladas como legendadas) a que assisti, o termo empregado é “remover”. O uso deste termo em vez de ser um eufemismo para “matar” coisifica o androide e acaba sendo mais forte que o inglês “retire”.

Na tradução do livro preferiu-se o termo “aposentar”, para manter a ironia original do texto em inglês, embora a ambiguidade seja intraduzível.

O livro se prolonga um pouco mais como um encontro em um deserto de Deckard com Mercer onde o caçador se descobre humano. Uma cena bem feita onde praticamente o imaginário e o real se reconciliam. 

O final também é “sem sal”. Decarkd volta para a casa e para sua esposa e apenas quer “uma longa e merecida paz”, que, em muitos idiomas, soaria como uma metáfora para morte.

Extras

O livro possui três adendos: uma carta de Philip K. Dick elogiando a adaptação e prevendo o caráter revolucionário do filme, sua ultima entrevista e uma analise do livro muito bem elaborada feita por Ronaldo Bressane.

Conclusão 

Realmente o livro e o filme se complementam e Blade Runner é uma das melhores adaptações para o cinema de um bom livro. 

Com certeza vale o conselho que normalmente aparece em publicidade de filmes: veja o filme, leia o livro e ouça a trilha sonora.

Nerd Shop

Livro: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? Philip K. Dick,. Editora Aleph.
Filme: Blade Runner - O caçadore de Androides. Versão definitiva. 
Trilha sonora: Blade Runner. Vangelis. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Realidades Adaptadas – Phillip K. Dick

Autor: Philip K. Dick
Tradução: Ludimila Hashimoto
Editora: Aleph


Sinopse: Reunião de sete contos de Philip K. Dick que deram origem a filmes, entre eles o Vingador do Futuro, refilmado em 2013.

Dick é o autor de Ficção Científica mais filmado por Hollywood, com várias de suas obras adaptadas, como, por exemplo, Blade Runner, a partir do romance Do the androids dreams with electric sheep?

O sucesso do filme e maneira de Dick escrever chamaram a atenção dos produtores e tivemos uma boa safra de filmes, nem sempre muito fiéis ao texto do autor, porém com ótimos resultados.

Lembramos a você a preço de atacado

Este conto, publicado em 1966 deu origem ao Filme O Vingador doFuturo (Total Recall) em 1990 e refilmada em 2013. Quem viu o filme e lê o conto tem a sensação que falta algo, pois o conto abrange até mais ou menos a metade do filme e o desfecho é bem diferente. Os roteiristas conseguiram dar uma dimensão ainda maior para ambiguidade do personagem e das múltiplas realidades em que ele vive.

Segunda variedade

Este conto, escrito em 1953, deu origem ao filme Screamers –Assassinos Cibernéticos, de 1995. Não vi o filme. O conto, fruto da Guerra Fria, tem como pano de fundo uma longa guerra entre russos e americanos. Os americanos desenvolveram uma arma cruel, um robô chamado “garra”, uma pequena esfera de metal cuja única função era matar qualquer ser vivo, desde que não tivesse uma identificação especial (detalhe aproveitado num dos episódios da série Doctor Who). Spoiler: o problema é que estas armas começaram a evoluir e a modificar a si mesmas tornando-se uma ameça para ambos os lados. Suspense bem construído e final surpreendente (talvez não tanto para os fãs de Dick).


Conto de 1953, deu origem ao filme de mesmo nome de 2001. Outro filme que não vi. A Terra está numa situação de equilíbrio instável (metáfora pra a Guerra Fria) com uma força alienígena que pretende invadi-la. Spoiler: Um engenheiro pode ter sido substituído por um robô-bomba que poderá explodir assim que for dita por qualquer pessoa uma frase chave. O problema maior é que o robô pode desconhecer sua própria natureza, acreditando piamente ser quem está substituindo.

Relatório minoritário

Escrito em 1956 e filmado em 2002 com o nome Minority Report, o conto trata de um sistema policial onde através do uso dos precogs, seres humanos com retardo mental, mas dotados de vidência. Isso permite prender uma pessoa antes que ela cometa um assassinato. São três videntes e a pessoa é detida se pelo menos dois deles têm a mesma previsão. O relatório divergente é o relatório minoritário. No conto, o comissário Anderson, responsável pela divisão pré-crime, é acusado pela própria seção que dirige, de assassinar uma pessoa que não conhece. Tudo é parte de uma trama para desmoralizar o sistema. O conto se concentra na tentativa de Anderson de encontrar o relatório minoritário.

No filme, há alguns acréscimos importantes, que alteram a motivação da trama, e um final diferente. Todavia o resultado é muito bom.


Conto de 1953 e filmado em 2003. Um homem trabalhou dois anos para uma empresa, teve sua memória apagada e recebe em vez de pagamento um saquinho com bugigangas. Segundo seus empregadores, o adendo no contrato foi feio por ele mesmo, antes de ter sua memória apagada. Ele se sente engando, porém cada um daqueles objetos terá uma utilidade crucial no futuro, como se ele, ao pedir aquelas coisas, já soubesse o que iria lhe acontecer. O conto se concentra em desvendar pouco a pouco a função dos objetos e o que realmente ele fez durante aqueles dois anos. O protagonista está prensado entre o governo e uma empresa gigantesca e se sente uma engrenagem nesse jogo. De todos os contos, foi este o que mais me prendeu a atenção.

O homem dourado

Escrito em 1954, deu origem ao filme O Vidente (Next) em 2007. Uma família esconde um mutante, um rapaz de pele dourada, pois a política do governo é capturar para estudo e exterminar os mutantes “inapropriados” (quase todos). A capacidade deste mutante é prever tudo o que vai lhe acontecer com uma precisão incrível. O conto tem o mérito de apresentar, contrariando o padrão da época, um mutante belo, aparentemente inofensivo, como uma real ameaça ao futuro da espécie humana. Esta visão e a postura do governo no conto certamente influenciou X-Men.

Quem elu este conto deve ter tido um leve deja-vù: “tem algo que eu já vi em outro lugar”. Viu mesmo. Na primeira versão de O Vingador do Futuro: os mutantes de Marte.

Equipe de Ajuste

Também escrito em 1954, o filme deu origem a Os Agentes do Destino. Um homem chega atrasado ao trabalho e vê seu mundo literalmente desmoronar. Ele inadvertidamente foi colocado no meio de uma intervenção de uma espécie de administradores da realidade. Este conto tem um tom mais leve, com traços de humor. Alguns dos personagens são caricatos, como o cão que deve evocar um evento ou o vendedor de seguros que faz o protagonista perder seu tempo. E a organização que cuida do processo é uma caricatura de uma organização burocrática. Foge um pouco ao tom normal de Dick, que raramente usa o humor, e quando usa é de maneira cínica.

Conclusão

Destes filmes, só via as duas versões de O Vingador do Futuro e Minority Report. Mais do que adaptações, estes dois filmes foram recriações muito bem realizadas.

Dick tem algumas coisas que lhe são próprias, que aparecem nestes contos:
  • Questionamento da realidade (nada é o que parece ser);
  • Questionamento do destino da humanidade;
  • Paranoia frente a julgamento de terceiros, sem possibilidade de defesa (sobretudo em Minority Report).

No todo, os contos são bastante interessantes e a ideia de reuni-los num único volume chega a ser didática, tanto para os apreciadores destas obras no cinema como para os fãs de Philip K. Dick.

Os textos são precedidos de um comentário que contextualiza as obras tanto na literatura como no cinema e o livro apresenta o final alguns comentários do autor sobre cada um dos contos. Está no final por que Dick deu vários spoilers, mas é interessnate para ver como o autor vê sua própria obra.


Um bom trabalho da editora Aleph.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Valis - um genial delírio de Philip Dick


Valis
Título orignal (inglês): Valis
Tradução: Fábio Fernandes
Editora: Aleph
Ano: 2007
302 páginas

Sinopse: Horselover Fat (na realidade um alter ego de Philip Dick) tem uma experiência mística que o faz acreditar ter encontrado Deus. Durante um tempo curto, ele sente estar estar vivendo simultaneamente em duas épocas, uma nos anos 70 (tempo presente da história) e outra na época de Cristo. Quando esta sensação some, Horselover passa a procurar revivenciá-la desesperadamente. Uma amiga sua se mata e isso é a gota d'água pra ele sofrer um surto e ser internado. Ao ter alta, decide ir em busca do Salvador. Nesta busca encontra Valis, um (im)provável artefato no espaço, que acredita ser responsável pela sua visão.

Este livro descreve de forma romanceada uma experiencia do próprio Dick (descrita em uma excelente HQde Robert Crumb).

O autor alterna a narração colocando-se como sendo ele Horselover Fat outras como um amigo dele, que o acompanha e tem uma postura menos alucinada (embora não descartando a hipótese de ser verdadeira a experiência). Muitas vezes o os dois dialogam entre si e até tem uma interação diferenciada com os amigos em comum, como se realmente fossem duas pessoas (algumas vezes o leitor que se envolve com a trama acha que são mesmo).

Os amigos que o acompanham na maior parte do tempo são Kevin e David, que representam duas posturas opostas em relação à religião. Kevin é cético, por ver que o mundo é absurdo, e David, católico praticante, de postura bastante dogmática.

Boa parte do livro concentra-se na discussão travada por Horselover com seus amigos (Dick entre eles) e eventualmente com outros personagens. Este discussão é pontuada por dados extraídos de uma exegese “escrita” por Fat (essa exegese realmente existe. São cerca de 8.000 laudas, e nunca publicadas em sua integra).

Percorrendo-se aproximadamente dois terços do livro, encontramos Valis. Inicialmente como um filme feito por um rock star apelidado de Mamãe Ganso, depois como um artefato (que pode ou não ser uma nave alienígena).

Dick define Valis, com um verbete de dicionário, logo na abertura do romance:

“Uma perturbação no campo da realidade no qual um vórtice negencentrópico autominotorador espontâneo é formado, tendo progressivamente a subsumir e incorporar seu ambiente em combinações e informações”.

A editora Aleph coloca na quarta capa que é um “romance policial teológico” e de certa forma é isso mesmo, já que contém perguntas que o personagem principal está investigando para alcançar a verdade.

Como sempre, o que Dick vai discutir é a natureza da “realidade”, a eterna questão “nada é o que parece ser”.

Este livro é importante poar algumas razões. A principal é que revela muito da personalidade de Philip K. Dick, que não se importa de mostrar seu lado mentalmente doentio (representado por Horselover). Uma leitura imperdível para os fãs do autor. A outra é pelas influências que exerceu, sobretuudo em Matrix.

Fechando o livro, há um apêndice com uma sequencia de trechos da exegese de Horselover Fat, reunidos em ordem numérica

Nerd Shop

Em português:
Valis, Philip K. Dick, Editora Aleph. Clique aqui.

Em inglês:
Valis, Phlip K. Dick, Editora Orion Publishing. Clique aqui.
Valis, Phlip K. Dick, Editora Vintage Books. Clique aqui.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Total Recall – Vingando o futuro pela segunda vez


Título original: Total Recall
Diretor: Len Wiseman
Roteiristas: Kurt Wimmer, Mark Bomback (baseado no conto We Can Remember It for You Wholesale, de Phllip K. Dick)
Elenco: Colin Farrell, Bokeem Woodbine and Bryan Cranston

Sinopse: Após uma guerra química, a Terra está dividida em apenas dois lugares onde a sobrevivência é possível: a Federação Unida da Bretanha (com um território correspondente a parte da Europa, e do outro lado do mundo, onde seria hoje a Austrália, A Colônia. A comunicação entra as duas e feita por um sistema de transporte que atravessa o eixo da Terra. Esta oposição marca também uma divisão de classes bem clara: os habitantes da colônia fornecem trabalhadores para a Federação. Denis Quaid, um trabalhador numa fábrica de robôs, sonha cvom uma vida melhor e decide usar os serviços de uma agência de viagens ilusórias, a Total Recall. A partir de então seus sonhos e a realidade se misturam de tal forma que nem sua própria identidade pode ser real.

O filme é uma refilmagem de um clássico de FC com o mesmo nome, feito em 1990, tendo Arnold Schwarzenegger no papel de Quaid. Na época os exibidores brasileiros, para aproveitar o vácuo de O Exterminador do Futuro escolheram o título infeliz de O Vingador do Futuro, como se o filme não pudesse andar com as próprias pernas.


Total Recall – 1990

Por ser uma refilmagem, os exibidores atuais  resolveram manter o nome torto. Eu particularmente acho o título original do filme genial, pois transmite a ideia de recuperação de memória como a chamada de consumidores para uma correção um erro de um produto. Pelo título, já saberíamos que alguma coisa iria dar muito errada.

Assumindo o papel do agente duplo Hauser, Quaid, um homem comum, passa já dentro da própria Recall a assumir uma vida cheia de perigos, justamente. aqueles que ele escolheu para compor seu sonho.

O enredo é típico de Dick: nada pode ser considerado real. Será que a(s) vida(s) do agente Hauser (papel assumido por Quaid no sonho da Recall) são mais verdadeiras que a do operário?

O filme não decepciona nem um novo espectador, nem aqueles que conhecem a obra original. O diretor optou por manter a estutura original, mundando alguns pontos do enredo e recheando-o com referências ao filme anterior (por exemplo, não usou Marte como cenário, mas citou isso numa das conversas sobre a Rekall).

O filme também tem referências a Blade Runner (cenário cosmopolita decadente, uma das armas usada por Hauser, alguns trechos da trilha sonora e outros easter eggs), Hulk (corridas nos telhados de casa pobres lembrando favelas), uma bem sutil ao filme A Origem (aliás, que também que trata da dubiedade do que é real e o que é imaginário).

Comparações

Isso é inevitável. A nova versão acertou a mão em escolher o ator, Colin Farrell, que, ao contrário de Schwarzenegger, dá mais verossimilhança à trama, pois tem a aparência e expressões faciais e corporais de uma pessoa comum que se vê às voltas com uma situação incomum.

Já na primeira versão, a dúvida entre o que que é real ou o que é imaginário é bem mais marcada, fazendo o espectador ficar confuso até o último instante (e depois também...).

Na nova versão apesar disso também estar presente, há um pouco mais ênfase na situação política (já que a Austrália é bem mais perto que Marte e a população em risco não é formada por mutantes e sim trabalhadores). E, por não haver mutantes, não há muitos efeitos de maquiagem.

Em relação à ação, embora os dois filmes sejam voltados para isso, na versão mais nova o ritmo é mais rápido e as ações mais espetaculares.


Total Recall - Trailer 2012


segunda-feira, 10 de maio de 2010

Blade Runner - Edição Especial

Titulo: Blade Runner - Edição especial - 3 discos
Direção: Ridley Scott
Elenco: Harrison ford, Rutger Hauer, Sean young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah
Ano: 2007.


Para fanáticos. Quem, a não ser um fã de carteirinha, compraria um caixa de um DVD triplo com quatro (isso mesmo, quatro) versões do mesmo filme e um making of de três hora de duração?
A versões apresentadas são: a versão original de dos cinemas americanos de 1982, a versão internacional, também de 1982, a versão de diretor de 1992 e a tão esperada versão "definitiva" do diretor Ridley Scott.

O grande chamariz é a versão "definitiva" com algumas cenas ampliadas e, segundo boatos, um final onde Ridley Scott dá sua visão de que Derek era definitivamente um andróide.

Graças aos céus esta versão de final era apenas um boato! Do contrario Ridley Scott teria jogado fora o que o filme tem de melhor. Philip K. Dick, autor do romance que deu origem ao filme, tem como características mais marcante a geração de dúvidas na cabeça de seus leitores. O filme ainda que mostre o unicórnio em origami e o sonho de Derek, não diz claramente "é". E isso de fato não importa, pois nós humanos o que realmente somos? Esta é a questão que Dick e Scott nos colocam.

Do mais o que esta versão trás de diferente? O acréscimo de umas poucas cenas, sendo a mais marcante o assassinato de Tyrrell, onde é mostrado o esmagamento dos olhos da vítima para dentro do seu cérebro (cena que já apareceu na versão para VHS de 1982). Estas cenas mais cuidam de detalhes que outra coisa. Por exemplo, Derek bebe um gole uma bebida clara após ter sido ferido na boca e o liquido passa a apresentar filetes de sangue.

Dicas nerds:

Há muitas referências no filme:

  • O visual futurista revela de quando em quando algumas ambientações retrô, como a sala onde foi interrogado Leon. Ela lembra filmes noir dos anos 50.
  • O aparelho usado no teste assemelha-se um engenho descrito num dos livros de Isaac Asimov, como uma máquina para testar a terceira lei da robótica.
  • A atriz se veste e parece fisicamente com a namorada do Spirit, personagem de Will Eisner, dos anos 40 (a roupa e o penteado de Rachel são típicos do anos 40).
  • O nome do edifício onde ocorre a luta final, além de lembrar a arquitetura dos anos 40, chama-se Bradbury, homenagem a um dos autores de FC contemporâneos de Dick (Ray Bradbury).
  • Numa cena de perseguição na rua, aparecem Hare Krishnas (muito comuns nos anos 80).
  • Um dos anúncios luminosos é da Pan Am, empresa aérea que faliu nos anos 80 (uma ironia mostrá-la com atuante em 2019).

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O Homem do Castelo Alto

O Homem do Castelo Alto
Autor: Philip K. Dick
Editora: Aleph
Ano: 2006
Páginas: 300

Sinopse:
Estamos nos anos 60. A Guerra Fria é o pano de fundo para a ação. Há espiões, refugiados políticos, pessoas separadas por uma fronteira imposta num país dividido. A esperança está num livro que mostra como tudo isto pode ser diferente: O Gafanhoto torna-se pesado.

Um romance de espionagem à 007? Como tudo que Philip Dick escreve, parece, mas não é. Há uma diferença: o país dividido são os Estados Unidos e a Guerra Fria é entre Japão e Alemanha.

Trata-se de uma realidade alternativa onde os países do Eixo ganharam a Segunda Guerra Mundial. O Estados Unidos, derrotados são divididos entre os japoneses, que tem uma postura mais aberta e os alemães, que mantém sua política de extermínio aos judeus e seu expansionismo bélico.

Paralelamente, um escritor de ficção científica americano escreve um romance alternativo (O Gafanhoto torna-se pesado) onde descreve uma realidade em que os Aliados ganham a guerra e impõe uma derrota ao Eixo.

Pode-se considerar este romance como precursor do gênero do steampunk, da mesma forma que Blade Runner (também de Phlip Dick) é precursor do cyberpunk. Porém, eu prefiro considerar que este é um romance de ficção científica onde a ciência é a História.

Um importante personagem é o onipresente I Ching, o Livro da Mutações, o oráculo milenar chinês. Como parte da dominação cultural japonesa, o I Ching aparece muitas vezes nas mãos de personagens das mais diversas etnias, apontando os rumos dos acontecimentos, dando conselhos não muito claros, mas que influenciam muitas decisões.

O I Ching tem o mesmo problema das analises históricas: tudo se encaixa quando analisamos retrospectivamente, depois que a profecia aconteceu, ou quando contamos a História passada do ponto de vista presente. Uma saída para este impasse é uma fazermos uma analise dentro dos conceitos de História Contrafatual: "o que aconteceria se..." É o que faz Philip Dick neste romance, e o I Ching não está ali por acaso, como para nos lembrar do vício de raciocínio das análises históricas tradicionais.

Considerado por muitos como o melhor romance de Philip Dick, O Homem do Castelo Alto é uma leitura divertida e intrigante, deixando-nos com uma sensação de estranhamento nos acompanha muito tempo após a sua leitura. 

Nerdshop
• O Homem no Castelo Alto, de Philip K. Dick (Aleph)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O Homem Duplo -- Philip K. Dick

Ficha técnica:
O Homem Duplo
Autor:Philip K. Dick
Editora: Rocco
Ano: 2007

Um futuro tão próximo que se pode tocá-lo com as mãos. Este é o tempo onde ocorrem os acontecimentos de O Homem Duplo, de Philip K. Dick. Tirando alguns artefatos e algumas referências e, principalmente a Substância D, o ano poderia ser 2008 ou 1972 (ano em que foi escrito o romance).
Contudo é um romance de ficção científica, onde a ciência envolvidas são a psicologia e sociologia. Philip Dick mergulha fundo não no espaço, mas cérebro de um drogado, na tribo de viciados e na sociedade hipócrita que os gera.

Fred é um agente do governo infiltrado em um grupo de viciados. Para preservar sua identidade, fica escondido atrás de um “traje misturador”. Esse traje o mostra até mesmo para seus colegas da polícia como um ser que troca de faces dezenas de vezes por segundo sendo Todo Mundo e Ninguém ao mesmo tempo. Quando está sem seu traje, é um dos viciados, cuja identidade é desconhecida até mesmo pela polícia. Sabem apenas que ele é um do grupo, mas não sabem qual.

Como parte de seu trabalho, para não estragar seu disfarce, Fred toma uma droga chamada Substância D, um alucinógeno que tem como efeito colateral causar a separação dos hemisférios cerebrais. O problema é que essa droga é altamente viciante e Fred passa tomá-la regularmente, mesmo quando não está infiltrado. Lentamente acompanhamos o deteriorar do cérebro de Fred e o vemos mergulhar numa bad trip, alucinante e alucinada, a ponto dele não saber mais quem é.

Philip K. Dick conhece muito bem o assunto pois era um viciado em drogas alucinógenas e quase todos os personagens foram inspirados em amigos seus, conforme ele mesmo descreve em um posfácio em que dedica o livro a esses amigos. A maioria deles, mortos ou com algum dano cerebral ou físico permanente. Dentro desse contexto, escreve um romance que foge de um moralismo fácil, aliás duramente criticado. Entre as instituições sociais presentes está a New Path, organização financiada pelo governo que recolhe viciados, colocando-os em papéis socialmente aceitos. Numa das cenas os ex-viciados são aconselhados a serem seguidores e não líderes, pois “líderes, como Jesus, são mortos e seguidores sobrevivem”.

O autor consegue também fugir à apologia das drogas ao mostrar com clareza seus efeitos sobre o cérebro dos personagens. Os viciados são apenas pessoas, nem boas nem más, que fizeram uma escolha e sofrem as conseqüências dela (como todos nós).

Merecem destaque algumas cenas. Há uma discussão entre os viciados a respeito de uma bicicleta de dez marchas onde eles não percebem a relação entre as rodas dentadas e as marchas. Ela é fundamental para caracterizar a disfunção cerebral provocada pela substância D.

Há algumas passagens hilariantes, provocada pela falsa percepção da realidade e a perda da capacidade metafórica do cérebro, que os leva a interpretar tudo ao pé da letra.

Já as cenas em que Fred está na companhia dos psicólogos que detectaram as disfunções cerebrais dele servem para dar embasamento científico às especulações do autor sobre os efeitos da droga.

Em uma delas, Fred pede um conselho sobre como cativar uma garota por que está apaixonado, sem que ela se sinta apenas objeto de seu desejo sexual. Guarde a sugestão do psicólogo. Ela é óbvia e banal, porém será fundamental para fechar a trama.

Um destaque especial para o desfecho. Ele nos surpreende e nos faz pensar.

Sobre o filme: o filme de Richard Linklater é bastante fiel ao livro, talvez por isso o “excesso de verbos” apontados pelo nosso colega Edu. Philip Dick é verborrágico também, exagerando nos detalhes em algumas passagens. Todavia quem admira o livro e Philip Dick não fica decepcionado.

Dicas Nerd: leia a Experiência Religiosa de Philip Dick, quadrinhos de Robert Crumb sobre uma entrevista com ele (há uma excelente tradução publicada no site Ovelha Elétrica). Depois releia as páginas 258 (último parágrafo) até 261 desta edição do romance.

Álvaro A. L. Domingues
Publicado originalmente no Homem Nerd em 02/02/2008