 |
Lilith - John Collier |
Dia 8 de março foi convencionado como
Dia Internacional da Mulher e como todas as datas comemorativas, em alguns
contextos ela é esvaziada de seu significado. Mulheres recebem
rosas com mensagens bonitas e, no dia seguinte, as coisas voltam ao
cotidiano.
Para ser um pouco diferente, pretendo
neste post, mostrar uma personagem que é bastante
significativa no universo fantástico: Lilith.
Lilith é uma divindade babilônica
feminina, associada à noite e a lugares desertos. Os relatos nos
chegam através da visão hebraica do mito, que o demonizou. Os
hebreus tiveram um longo período sob domínio dos babilônios e
tendiam a ver os deuses de seus captores como algo extremamente
negativo.
Na tradição judaica medieval, Lilith
aparece como a primeira esposa de Adão, que se rebelou por não
aceitar a dominação masculina imposta por Javé e foi por isso
expulsa do Paraíso. Ela foi associada ao desejo sexual e aos sonhos
eróticos, considerados maléficos. A Igreja Católica reforçou este
mito, colocando Lilith como castradora e lider de uma legião de
demônios de natureza sexual, os íncubos (masculinos) e súcubos
(femininos). Ela também foi considerada esposa de Lúcifer ou de
Samael.
.jpg) |
Lilith – Carl Poellath |
O interessante é que Lúcifer é
associado à Estrela D’alva, aparecendo nos primeiros minutos da
aurora e Lilith é um ser noturno e deve se recolher aos primeiros
raios de sol. Ela e seu amado só podem ser ver por breves instantes.
Esta ideia foi muito bem explorada no filme “O Feitiço de Aquila”.
Lilith começou a ser revista no século
XIX, pelos autores românticos, que viam nela o aspecto sedutor e a
expressão do desejo sexual feminino, encarado agora de uma forma
mais positiva.
Ela representa a parte feminina mais
selvagem da mulher, reprimida e impedida se manifestar, para que a
organização patriarcal se erguesse. Isso não foi feito
racionalmente nem de uma vez, mas ao longo de séculos, muitas vezes
de forma inconsciente.
Também a sua libertação se dá pela
necessidade da livre manifestação do desejo (de todos, homens e
mulheres), reprimido na era vitoriana, fazendo aparecer a mulher
fatal, que acende o desejo do homem, mas pode ser perigosa, mostrando
o medo de se libertar algo que não se conhece.
Lilith é vista como gênio mal da
lâmpada, que está revoltado por ter sido fechado e quer matar seu
libertador, apesar de ter o poder de realizar todos os desejos dele.
Assim, na visão temorosa, ela terá que continuar contida ou libertada mediante um
acordo.
Nós (a maioria dos homens e muitas
mulheres) tememos Lilith, por não sabermos quem ela é de fato. Ao
tentar analisá-la, ela parece fugir, é arredia e escrever sobre ela
parece difícil. Dizem que ela foge das palavras, pois as palavras
são um atributo de Javé, o Deus patriarcal. Ensaios acadêmicos não libertam Lilith, apenas tentam analisá-la, dissecá-la, e depois prendê-la no Logos.

Quem quiser escrever
sobre ela terá que procura as palavras com auxílio da bruxa (outro
termo demonizado), pois a bruxa também tira poder das palavras,
através dos encantamentos (em inglês, uma das palavras para feitiço
é spell, que também significa 'soletrar'). Um dos motivos da
perseguição às bruxas é porque elas dispunham de um poder que
rivalizava com o poder estabelecido. Simbolicamente, o poder da
palavra, no sentido da palavra ser criadora. Para o poder dominante,
bruxas apenas praguejavam ou amaldiçoavam, criando somente o mal. De
certa forma este preconceito ainda persiste, colocando a fofoca como
um atributo apenas feminino. Um dos sinônimos para fofoca é fuxico,
palavra que também significa
“trabalho manual feito com retalhos de pano”. Normalmente este
trabalho é feito por várias mulheres reunidas.
O caminho é a Arte. Nela
domina o hemisfério direito, o lado feminino da mente. Pode-se fazer
poesia, escrever um conto fantástico, criar uma música que a
retrate ou pintá-la. Ou fazer um encantamento.
Muitas vezes Lilith é representada
como um vampiro, um ser que tem a mesma ambiguidade que ela. Na
tradição hebraica, às vezes ela é chamada de “bebedora de
sangue”, um insulto associado à proibição judaica de se abster
de sangue.
O vampiro representa a sedução e o
perigo juntos. Alguém que oferece algo desejável, mas que tem um
alto preço. A mesma imagem de Lilith. Ela oferece o prazer livre de
culpa e o preço sermos expulsos do Paraíso. Psicologicamente nos
tira do sonho infantil e nos coloca na realidade. Por isso Lilith é
associada à serpente que tentou Eva. Perdemos o Paraíso, mas ainda que aqui seja "o Vale de Lágrima", aqui podemos evoluir.
Fugidia, nos assustando, ainda
assim deve ser libertada. Quando ela vier à luz em sua totalidade
veremos o quão bela é e podemos finalmente respirar aliviados.