quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Fábrica de Absoluto


Ficha Técnica

Título: A Fábrica de Absoluto
Título Original: Tovarna na Absolutno
Autor: Karel Capek (ou Karel Tchápek)
Editora: Livros do Brasil, Lisboa
Ano: 1943

Karel Capek, um excelente escritor tcheco da primeira metade do século 20, é um autor pouquíssimo editado entre nós, por estes três "graves problemas": não é americano, é comunista e escreveu entre 1920 e 1943. Ele só não é completamente esquecido porque teve a felicidade de cunhar o termo ROBOT em sua peça de teatro R.U.R. (Karel Capek cria os robôs para simbolizar trabalhadores explorados que se rebelam).

Mas além de R.U.R. (que todo mundo cita, mas ninguém leu), é de sua autoria, entre outros romances, o fantástico A Fábrica de Absoluto, escrito em 1933, pouco antes da Segunda Guerra Mundial.

No distante futuro de 1943, um engenheiro descobre um meio de transformar toda a matéria de um combustível qualquer em energia pura. Constrói um motor que chamou de Carburador e pretendia industrializá-lo. Descobre, porém, que do local da máquina emana uma estranha radiação, que não é contida por nada. O leitor mais desavisado sentiria tentado e fechar aqui o livro e abandonar a leitura, achando-se tratar de velhos temas já bastante reais depois de bombas atômicas e Chernobil. Engano!

Algumas páginas mais pra frente, citando o filósofo Espinoza (para quem Deus é imanente à Natureza e está contido em todas as coisas), o engenheiro conta para seu amigo capitalista que, se Deus está em todas as coisas está também numa pedra de carvão e, se tirarmos todo o carvão, o que sobra? Isso mesmo: Deus!

As pessoas contaminadas por Deus passam a ter delírios religiosos, carolice e crises de caridade excessiva. Mas o G. H. Boney, o capitalista contatado pelo engenheiro, vê uma enorme possibilidade de lucrar e aceita fabricar em série os carburadores. Tendo um sucesso estrondoso, passa a exportar para toda a Europa e depois para o resto do mundo.

Os problemas começam a acontecer quando Deus começa a vazar dos carburadores, contaminado funcionários com crises de beatitude e, sem ter o que fazer, resolve assumir o controle das máquinas onde está atrelado. Passa Ele mesmo a produzir sem parar o produto das fábricas, gerando toneladas de tecidos, pregos, chapas de metal etc..

Uma maravilha se houvesse mercado para tudo aquilo e meios de distribuir os produtos!

Neste ponto temos a real dimensão da ficção científica de Capek: as ciências envolvidas são a economia, a sociologia e a psicologia. As ciências físicas só dão um pequeno suporte à trama.

Sua crítica corrosiva à sociedade e à economia capitalista é feita por meio de uma linguagem leve e bem humorada. Algumas passagens são hilariantes.

Capek atira em todos:

  • no capitalismo, onde a máquina, a produção e o lucro se transformam literalmente em Deus;
  • na Igreja Católica, que num primeiro momento nega a existência do Absoluto, por ele não preencher os requisitos dogmáticos defendidos por ela, embora saiba que os milagres são legítimos;
  • nos crentes de quaisquer manifestações religiosas, que querem se apossar fisicamente de Deus (que deve ser moldado à sua (deles) imagem e semelhança), não hesitando em matar quem contrariar sua postura, ainda que o outro acredite no mesmo Deus;
  • na política em geral, mas com uma atenção maior para a política internacional com seus acordos escusos.

O livro vale a pena ser lido, porém, infelizmente a sua última edição em português que conheço é a portuguesa de 1962. Mas pode ser encontrada em sebos que tenham uma grande variedade de livros. Vale a busca.

Um comentário:

  1. Muito boa esta indicaçao de leitura. O tema é bem interessante. Um humor sarcástico, ao que tudo indica, lucidez e desencanto.
    Sonia

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