quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Hoje é dia da Maria -- A fabula Musical


Maria acompanhada pelos elementais encontra o Homem Ferido
Sinopse: Maria é uma moça ingênua que vive com o pai viúvo em um sítio decadente. A vida com o pai não é tranquila, pois ele, em alguns momentos, é violento (há uma insinuação de alcoolismo provocado pelo desespero), mas como ela ama o pai o convence casar-se com uma viúva. A Viúva e sua filha, em vez de representarem a salvação passam a ser um tormento muito maior. Maria, num momento de profunda tristeza decide abandonar tudo e embrenhar-se na floresta em busca das franjas do mar. Tem início sua jornada, acompanhada pelos elementais da natureza e pelo Pássaro Incomum, que a protege. Nesta jornada, ela recebe presentes simbólicos, entre eles um par de sapatinhos encarnados (numa alusão a Cinderela), que serão importantes para estabelecer seu retorno triunfante.
Hoje é dia de Maria - A fabula Musical é um musical baseada no texto de Carlos Aberto Soffredini, com Lígia Paula de Andrade (que também co-dirige e produz o musical) no papel de Maria, estreou dia 30 de Setembro no Teatro Cetip, em São Paulo, onde fica em cartaz até o fim de novembro.
O texto de junta diversas lendas e contos da tradição oral brasileira através da jornada de Maria, uma heroína, que, fugindo do ambiente opressivo onde vive, segue seu sonho de ir ver as franjas do mar e evolui de uma ingenuidade primária até a sua libertação de todas amarras: opressão e abuso pai (interpretado por Luiz Araújo), opressão da madrasta (interpretada por Kleber Montanheiro) e de um casamento escravizante, ainda que com um príncipe.
Trio de Direção: Dan Rosseto, Lígia Paula Machado e Kleber Montanhiero
O fio narrativo segue a história da Cinderela, ambientada no Sertão Paulista. Não há Fada Madrinha e as bençãos que Maria recebe vem do fato de ajudar as pessoas, de forma desinteressada. O texto vai alinhavando a História da Menina e a Figueira, a Busca das Franjas do Mar, a Terra Onde não Existe Noite, entre outras. Em cada cena importante, há uma música muito bem escolhida, arrematando o tecido narrativo e dando-lhe força. Um dos pontos altos é quando um menino, Felipe Machado, canta Rosa de Hiroshima, numa cena bonita e emocionante, sublinhada por um excelente jogo de luzes. A escolha das músicas está tão bem feita que às vezes tem-se a impressão que a peça foi escrita para acolher as músicas.
Felipe Machado
Maria tem como companheiro de jornada o Pássaro Incomum (interpretado por Cleto Baccic), que a protege e aponta os caminhos e também é ajudada elementais da natureza.
Maria e o Pássaro Incomum
Apesar de a peça ser estruturada no conto de fadas Cinderela, Maria não é simplesmente uma princesa frágil que vê no casamento com o príncipe encantado como o final de seus problemas, mas tem uma atitude crítica diante desta solução, preferindo a sua liberdade ao lado do Pássaro Incomum e seguir seu caminho. E como Maria diz, ela não é só Maria, mas todas as Marias e, por extensão, todas as mulheres.
As interpretações estão ótimas. Merece destaque a interpretação que Kleber Monteiro faz da Madrasta, valendo-se de sua voz plástica, consegue enfatizar o cinismo da personagem, variando seu tom voz no momento certo.
O espetáculo como um todo é completo, com uma trilha sonora formada por canções populares e grandes compositores (Caetano Veloso, Catulo da Paixão Cearense, Gonzaguinha, Renato Teixeira, Marisa Monte, Vinicius de Moraes, Herivelto Martins e Victor e Léo), magistralmente interpretada – tanto no canto como no instrumental, números de dança (incluindo um sapateado muito bem executado). O cenário é bem simples, dando espaço para que os atores se movimentem em cena com ampla liberdade.
Recomendo fortemente!
Ficha Técnica:

Texto: Carlos Alberto Soffredini
Adaptação do roteiro original: Francisca Braga
Direção Geral: Dan Rosseto, Ligia Paula Machado
Direção de Arte: Kleber Montanheiro
Direção Musical: Dyonisio Moreno
Elenco: Ligia Paula Machado, Cleto Baccic, Kleber Montanheiro, Luiz Araújo, Camila Brandão e Felipe Machado.
Encantados: Alberto Goya, Guilherme Pivetti, João Canedo, Roger Ciel, Vittor Fernando e Hicaro Nicolai.
Músicos: João Paulo Pardal (guitarra), Murilo Emerenciano (piano), Renan Cacossi (flauta), Guto Brambilla (baixo), Felipe Machado (violão), Jonatan Motta(violino), Mathilde Fillat (violino), Rafael Lourenço (Percussão).
Cenografia e Figurinos: Kleber Montanheiro
Coreografias: Ligia Paula Machado
Designer de Som: André Breda
Designer de Luz: Wagner Pinto
Supervisão Circense: Circo Garcia

Serviço:

O que: Hoje é Dia de Maria – Uma fábula Musical
Onde: Teatro CETIP, Rua Coropés, 88 – Pinheiros.
Quando: 30/09 até 27/11 (Sexta, Sábado às 21h e Domingo 18h)
Maiores informações: 4152-9370 e www.musicalhojeediademaria.com.br

Texto: Alvaro Domingues

Imagens: promocionais ou colhidas na internet.

domingo, 8 de maio de 2016

Blink



Autor: Phill Porter
Tradução e Adaptação: Francisca Braga
Direção: Kleber Montanheiro
Elenco: Ligia Paula Machado e Eduardo Pelizzari
Músico: Jonatan Motta

Sinopse: Sofia é uma jovem solitária que, após a morte do pai, herdou os dois apartamentos onde moravam. Cada apartamento tinha uma entrada independente e apenas compartilhavam o jardim. Precisando de dinheiro, Sofia, aluga a parte inferior do apartamento.

Quem vem habitar ao andar de baixo é o jovem Jonas, tímido e ingênuo. Eles nunca se viram, pois o contrato foi feio por uma imobiliária. Em um momento de ousadia, Sofia resolve mandar pelo correio monitor de wi-fi de uma babá eletrônica que usara para acompanhar o pai doente.

Jonas liga o monitor e a vê na tela, encantando-se. 

De curiosidade passa a obsessão, até que ele descobre que ela é a mulher que mora no apartamento de cima e passa a segui-la, começando um jogo mudo entre os dois.

Análise

Blink,  do autor inglês Phill Porter, magistralmente faz uma metáfora com nossas relações onde o mundo só parece real se for visto através de uma tela, seja uma TV, um monitor ou um celular. O outro está próximo, mas, ao mesmo tempo, distante. Em vários momentos o público ri ou dos pensamentos e atitudes ingênuas de Jonas ou das tentativas bem ou mal sucedidas de Sofia tentar alcançar a “visibilidade”, mas na realidade percebe-se que rimos de nós mesmos, quando mendigamos um “curtir” no facebook ou tentamos bisbilhotar a linha do tempo de uma celebridade ou mesmo de um amigo.

Blink também mostra uma Londres (que poderia muito bem ser São Paulo) fria, bastante agressiva principalmente para os jovens Sofia e Jonas, o que os leva a valorizar aquele contato indireto que passa a dar significado a suas vidas, talvez temendo que um contado real ainda que breve como um piscar de olhos (daí o nome Blink), quebre o encanto.



Lígia Paula Machado compõe uma Sofia de tal maneira que, paradoxalmente, torna visível sua invisibilidade, como as centenas de pessoas que passam por nós no nosso dia a dia que não deixam nenhum traço em nossas memórias. Pouco a pouco tomamos conhecimento de seu drama, que é bastante simples, mas que ganha dimensões cada vez maiores, não por ser uma grande tragédia, mas que é seu drama pessoal, como o que muitos de nós carregam dentro de si. Algo que se narrado num jornal ocuparia no máximo um parágrafo numa seção obscura, mas que para nós é toda uma vida.

Eduardo Pelizzari faz um Jonas na medida certa. Seria muito fácil transformá-lo numa caricatura, porém Eduardo consegue que ele seja visto com sua timidez e ingenuidade, com humor quando convém e também dando uma atenção especial ao drama de Jonas, que como o de Sofia, é simples e complexo ao mesmo tempo.

A interação entre os dois em cena é muito boa, conseguindo uma boa empatia com a platéia.

A encenação é feita num cenário bem simples e a estrutura narrativa mostra fatos que ocorrem com cada personagem simultaneamente, que guardam ou não relação entre si.

Há apenas um músico no palco, Jonatan Motta, parcialmente oculto por um pano, que toca muito bem o violino, sublinhando algumas cenas.

A peça está em cartaz hoje (08/05/16) no teatro Aliança Francesa, com promoção para o Dia das Mães (mães acompanhadas de um pagante não pagam).

E, de 15 de Maio a 12 de Junho, aos domingos às 19:00 h, no Espaço Promom.

Serviço

O que: Blink, de Phill Porter
    com Ligia Paula Machado e Eduardo Pelizzari

Onde: Teatro Aliança Francesa
   Rua General Jardim, 182 - Vila Buarque
           São Paulo - SP

   Quando: 08 de Maio de 2016, Domingo , às 19:00

            Espaço Promon Sala São Luiz
            Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 1830 - Itaim Bibi
            São Paulo – SP 

            Quando: de 15  a 12 de Junho de 2016, Domingo , às 19:00

terça-feira, 12 de abril de 2016

A Conquista do Polo Sul


A Conquista do Polo Sul
Autor: Manfred Karge
Direção (Encenação): Beatriz Batarda
Elenco: Ana Brandão, Bruno Nogueira, Flávia Gusmão, Miguel Damião, Nuno Lopes, Nuno Nunes e Romeu Costa
Quarta a Sábado às 21h; Domingo às 17h30, de 7 a 24 de Abril
Teatro São Luiz, Lisboa

7 de Maio – Centro de Arte de Ovar
14 de Maio – Centro Cultural Vila Flor, Guimarães
9 de Junho – Teatro Constantino Nery, Matosinhos
18 de Junho – Teatro Micaelense, São Miguel


Pouco antes da queda do Muro de Berlim, quatro desempregados alemães, Slupianek, Buscher, Braukmann e Seiffert estão à beira do desespero total. Quando Seiffert tenta o suicídio, Slupianek tem uma ideia: encenar a conquista do Polo Sul, tal como Roald Amundsen o fizera em 1911. O propósito é que todos eles entrarem no espírito que conduziu a equipe de noruegueses, vencendo dificuldades muito mais desafiantes que um simples desemprego. O cenário é criado no sótão, tendo como pano de fundo as roupas brancas lavadas por Luise, esposa de Braukmann. Aos pouco a fantasia ganha dimensões muito maiores que um simples jogo, passando a ser a coisa mais importante da vida deles, talvez até mais importante que o emprego que Braukmann conseguira.

Atenção contém antecipação de enredo (spolier)

A encenação segue bem, apesar da oposição de Luise, porém  Braukmann lê o prefácio e fica sabendo que uma equipe anterior de ingleses tentara uma expedição dois anos antes e desistira a 179,45 km do pólo.  Braukman vê nesta equipe o retrato de todos eles. Estariam representando Roald Amundesen, ou o fracasso dos ingleses, que apesar de tudo, pagaram o preço do pioneirismo e possibilitaram o sucesso da equipe norueguesa?

Isso provoca a ruptura dos amigos, pois Slupianek não quer abandonar o projeto. Os amigos só voltam a se encontrar no aniversário de  Braukmann e, após serem humilhados por Rudi, um convidado arrogante do casal Braukmann, retomam o projeto percorrendo simbolicamente os 179,45 km, com a participação de Luise, representando o quinto homem da equipe de Amundsen.



O Texto

O texto de Manfred Karge é bastante denso, algumas vezes cansativo, mas carregado de significado, coloca o imaginário e o próprio teatro como centro. Em vários momentos, desde o início, os atores se dirigem à plateia, quebrando a quarta parede. Sabemos que estamos diante de uma encenação, que fala sobre uma encenação, mas nem por isso deixamos de nos envolver pela história dos quatro desempregados, ou da bem sucedida equipe dos noruegueses, ou da fracassada equipe inglesa e seu simbolismo.

A atuação


Todos os atores estão muito bem, com destaque para Bruno Noqueira, fazendo um excelente  Slupianek, Flávia Gusmão, no papel de Luise e Ana Brandão que representa o cão Frankieboy e Rosi a esposa maltratada de Rudi.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Lisbela e o Prisioneiro




Lisbela e o Prisioneiro
Autor: Osman Lins
Adaptação e supervisão geral: Francisca Braga
Direção Geral: Dan Rosseto e Ligia Paula Machado
Coreografias: Ligia Paula Machado e Roger Pendezza
Direção Musical: Dyonisio Moreno

Elenco: Luiz Araújo (Leléu), Ligia Paula Machado (Lisbela), Beto Marden (Douglas), Marilice Consenza (Inaura), Nill de Pádua (Tenente Guedes), Fernando Prata (Vela de libra/Frederico Evandro), Jonatan Motta (Cabo Citonho) e Milene Vianna (Francisquinha).

Músicos: João Paulo Pardal (guitarra e violão), Renan Cacossi (pífano e flauta transversal), Maristela Silvério (piano), Jonatan Motta (violino), Azael Rodrigues (bateria e percussão), Daniel Warchauer (acordeon), Augusto Brambilla (baixo acústico e elétrico)
Cenografia, figurinos e designer de luz: Kleber Montanheiro

A história da inocente Lisbela com casamento marcado com Douglas, mas que se apaixona, por Leléu, dono de um circo mambembe, transforma-se em um musical de excelente qualidade.

Com adaptação de Francisca Braga e sob direção de Dan Rosseto e Lígia Paula Machado – que também encarna a personagem Lisbela, a montagem está sendo exibida no Teatro Nair Bello, em São Paulo, onde fica em cartaz até 7 de junho.

A peça foi escrita originalmente por Osman Lins, autor entre outras obras de Avalovara. O escritor concebia o teatro como uma forma de entretenimento e é justamente este lado lúdico que se busca ser mostrar nesta montagem, aproximando-a do circo. O cenário é despojado, mas altamente mutável graças à rapidez com que um grupo de acróbatas – uma atração à parte –  monta remonta a cena e a personagem vivida por Lígia Paula Machado (Lisbela) aparece várias vezes executando números acrobáticos de lira, com tecidos e com corda indiana, mostrando a versatilidade da atriz, que também atua e canta.



Com direção musical de Dyonisio Moreno, a trilha sonora traz músicas de  Zé Ramalho, Pixinguinha, Dominguinhos, Caetano Veloso, João Pernambuco e Filipe Catto e é executada ao vivo, de maneira brilhante por oito músicos.

Impressões Pessoais

Assisti a esta peça no último domingo (19/10) e fiquei agradavelmente impressionado, tanto com a montagem em si, como com a primorosa execução das músicas e com atuação de todo o elenco, com destaque para Lígia Paula Machado (Lisbela) e Luiz Araújo (Leléu), com uma atuação esplêndida, quer como atores, quer como cantores.

Percebe-se em Lígia que ela vive a arte com muita intensidade e a tem como propósito de vida, o que transparece em todos os momentos que está no palco.

Lisbela sofre uma grande transformação, de uma moça ingênua para uma mulher que luta pelo homem que ama, assim como Leléu, que descobre  que sua liberdade pessoal  de artista itinerante e de mulherengo precisa de um ponto de apoio e de constância, representado pelo amor de Lisbela.

Beto Marden faz um Douglas bem caricato, alguém que quer parecer o que não é, carioca, sendo pernambucano. Aliás, o texto de Osman Lins traz isso – a valorização do que é de fora – como uma crítica, aparecendo também nas primeiras falas de Lisbela, que se admira de atores estrangeiros  sem enxergar possíveis talentos nacionais.

Nill de Pádua compõe um Tenente Guedes também caricato do tipo de homem machista e que tenta controlar a filha sob rédea curta, mas faz isso apenas por amor.



Marilice Consenza representa Inaura, a perfeita antagonista para Lisbela: experiente e determinada.  A grandeza da personagem se revela num diálogo com Lisbela, onde as duas estão igualmente dispostas a lutar por Leléu.

Fernando Prata representa o vilão típico, um matador profissional, caracterizado por sua postura e falas carregadas de sotaque e arrogância.

Jonatan Motta (Cabo Citonho) e Milene Vianna (Francisquinha) compõe o segundo par romântico, funcionando como um canal entre as partes conflitantes. Esta dupla causou-me uma bela surpresa quando cantam seu número musical, sobretudo a voz de Jonatan Motta fazendo o personagem crescer a nossos olhos.




Todos os atores e músicos, principais e secundários demonstraram ter uma gama de talentos que os torna extremamente polivalentes. Por exemplo, os músicos são também a guarda de segurança do tenente Guedes. Os acróbatas além de mudarem o cenário, fazem números de circo e pequenos papéis em cena. Lígia faz números de acrobacia aérea e junto com Beto Marden faz um número de Roller Dance. Todos cantam e dançam.

Ao termino do espetáculo, após os aplausos, Lígia volta-se para a plateia e, em agradecimento, se posiciona que o objetivo do teatro é exatamente entreter, de tal maneira que as pessoas têm que sair um pouco diferentes do que entraram.

E com certeza, saíram.

E eu saí com a sensação de que a peça merecia um teatro bem maior.


Quando: Sexta, às 21h30, sábado, às 21h; domingo, às 19h. 105 min. 
              De 10/4/2015 a 7/6/2015
          Shopping Frei Caneca 3º piso
          Rua Frei Caneca, 569, Consolação, São Paulo, tel. 0/xx/11 3472-2414
Quanto: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada)
Classificação etária: livre


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? – Blade Runner para ler com prazer


Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? 
Título original: Do androids dream of eletric sheep?
Autor: Philip K. Dick
Tradução: Ronaldo Bressane

Sinopse: Rick Deckard vive numa Terra decadente, onde após uma guerra nuclear, boa parte dos humanos emigraram para colônias espaciais e a maioria dos animais morreu, transformando-se em produtos de luxo. Seu sonho é possuir um animal verdadeiro. Sua profissão é “caçador de recompensas” e ele persegue e “aposenta” androides. Recebe como missão perseguir e aposentar seis androides fugitivos de Marte e vê nesta caçada a possibilidade de realizar seu sonho de ter um animal verdadeiro. Mas, as coisas não saem exatamente do modo que deseja.

Durante muito tempo tive receio de ler o livro pois tinha medo de ver destruída a minha excelente impressão do filme Blade Runner, baseado neste livro ou que a minha visão do filme fizesse desgostar do livro.

Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Como o próprio Philip K. Dick disse, após ver um trecho do filme ainda em produção, os dois trabalhos se complementam.

O filme dá uma dimensão maior aos personagens Deckard (o caçador de androides), Rachel (a androide quase – ou mais que – humana) e Roy Bat, o líder dos androides fugitivos.


Rachel, mais humana que androide

O Deckard do livro é uma pessoa comum, com uma vida medíocre e a única coisa extraordinária (que ele trata como algo muito burocrático) é sua profissão. Roy Bat apesar de sua inteligência e de certa forma sensibilidade, seria incapaz de proferir aquele discurso do final filme e Rachel do livro não consegue passar sua humanidade como no filme.

Deckard, frieza burocrática ao aposentar androides.

Por outro lado, no filme a preocupação metafísica – que é bastante intensa no livro – está quase ausente e mostrada de um jeito diferente (concentra-se na busca do “criador” por parte dos androides). No livro, há uma espécie de religião chama mercerismo, onde todos se conectam através de um caixa de empatia a Mercer, um messias que sofre para  que todos sofram juntos e compartilhem emoções.

Mercer é um velho que sobe uma colina e é apedrejado por inimigos invisíveis e as pessoas quando a ele conectadas sentem seu sofrimento e as emoções de cada pessoa envolvida. Aliás, a empatia é o sentimento que distingue um ser humano de um androide e a busca por empatia é o que move os androides liderados por Roy.


Tanto no filme como no livro os androides buscam a transcendência

Está ausente no filme o programador de emoções de Penfield. É um aparelho em que você escolhe num menu o tipo de emoção que quer sentir no momento. Em geral, as pessoas “vestem” emoções convenientes, como alegria se estão em casa ou senso de responsabilidade profissional se estão indo trabalhar. Entretanto Iran, esposa de Deckard  (personagem ausente no filme) um dia, ao tomar consciência de sua condição de morar num mundo decadente, em vez de “felicidade” escolhe “depressão”, que segundo ela, era o que deveria estar sentindo realmente.

Há também a questão do “bagulho”. Na visão de Isidore (no livro um simples motorista que recolhe animais artificias com defeito) o bagulho seriam objetos inanimados que se multiplicam e destroem o mundo a sua volta, uma explicação ingênua para a deterioração entrópica do mundo em que está vivendo.

O mundo de Dick é um mundo onde o artificial expele o natural e hipocritamente destrói os androides, que paradoxalmente anseiam por humanidade. Isso também está no filme, mostrado de outra forma.


Um mundo onde o natural é expulso pelo artificial

Atenção Spoiler!

O ponto alto do filme é a perseguição dos androides no prédio onde mora Isidore. No livro há perseguição, mas sem a emotividade das cenas do filme e a morte de Roy é patética, como se fosse mais uma “aposentadoria” feita por Deckard.

O termo em inglês é “retire”, que significa também “retirar”. Em português não há esta ambiguidade. O segundo significado da palavra aposentar (colocar em um aposento) há muito não é utilizado. Nas versões do filme traduzidas (tanto dubladas como legendadas) a que assisti, o termo empregado é “remover”. O uso deste termo em vez de ser um eufemismo para “matar” coisifica o androide e acaba sendo mais forte que o inglês “retire”.

Na tradução do livro preferiu-se o termo “aposentar”, para manter a ironia original do texto em inglês, embora a ambiguidade seja intraduzível.

O livro se prolonga um pouco mais como um encontro em um deserto de Deckard com Mercer onde o caçador se descobre humano. Uma cena bem feita onde praticamente o imaginário e o real se reconciliam. 

O final também é “sem sal”. Decarkd volta para a casa e para sua esposa e apenas quer “uma longa e merecida paz”, que, em muitos idiomas, soaria como uma metáfora para morte.

Extras

O livro possui três adendos: uma carta de Philip K. Dick elogiando a adaptação e prevendo o caráter revolucionário do filme, sua ultima entrevista e uma analise do livro muito bem elaborada feita por Ronaldo Bressane.

Conclusão 

Realmente o livro e o filme se complementam e Blade Runner é uma das melhores adaptações para o cinema de um bom livro. 

Com certeza vale o conselho que normalmente aparece em publicidade de filmes: veja o filme, leia o livro e ouça a trilha sonora.

Nerd Shop

Livro: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? Philip K. Dick,. Editora Aleph.
Filme: Blade Runner - O caçadore de Androides. Versão definitiva
Trilha sonora: Blade Runner. Vangelis.