quarta-feira, 16 de julho de 2014

Noturno – Trilogia da Escuridão Volume 1

Noturno – Trilogia da Escuridão Volume 1
Autor: Guilhermo del Toro, Chuck Hogan
Título Original: The Strain
Tradução: Sérgio Moraes Rego e Paulo Reis
Editora: Rocco
Ano: 2009

Sinopse: Noturno é o primeiro livro da série Trilogia da Escuridão. Chega ao Aeroporto Internacional JFK, em Nova Iorque, um avião que pousa em completo silêncio. A tripulação não responde a nenhum chamado, o que faz o avião ficar sob suspeita. Inicialmente de um sequestro, depois, de alguma doença ou ataque biológico. Ephraim Goodweather, especialistas em ameças biológicas, é chamado para coordenar as operações de abertura e investigação do avião possivelmente infectado.

Embora os autores pretendam fazer suspense, o leitor já sabe o que vão encontrar: cadáveres. O avião silencioso lembra a chegada do navio de Drácula. Então também devemos suspeitar que ele também levou um caixão com um vampiro secular.




Sem me preocupar com possíveis spoilers, já digo: é isso mesmo. E é o que o leitor espera, desde que leu a contra capa do livro. E terá em doses nada homeopáticas. Rapidamente a cidade de Nova Iorque estará infestada por vampiros. 

A mente lógica de Ephraim no início não consegue atinar com o que está acontecendo, embora de quando em quando se lembre de enredos similares de velhos filmes de terror. 

Contudo Ephraim terá um aliado, Abrahan Setrakian, um judeu sobrevivente de um campo de extermínio. Ele conhece a lenda de Sardu, que a avó lhe conta deste tenra idade, um menino gigante e desengonçado, que se torna forte e mau.

A história é contada carregada de suspense e cenas de terror cru. Isso é temperado com alguns dramas pessoais de alguns personagens: o roqueiro drogado, a mulher insegura, a mulher vítima de violência doméstica, mexicano marginal apegado à mãe, a obsessão de Setrakian em perseguir e matar Sardu e o próprio protagonista, em disputa com ex-mulher pela guarda do filho.

Aliás, este último drama é um ponto fraco da história, já que muitas vezes repetido em filmes americanos, como se o único conflito possível fosse problemas de divórcio de um casal com filhos pré-adolescentes. E este conflito está aí para dar a motivação e justificar algumas atitudes temerárias e até estúpidas de Ephraim.

Noturno não é nem pretende ser uma renovação do gênero. Apenas atualiza e contextualiza nos dias de hoje a lenda milenar. Dá uma boa explicação biológica e não sobrenatural para a transformação, mas mantém a prata como elemento essencial no combate ao vampiro.

Há um bom gancho para o próximo volume, embora o clichê de “quase matamos o monstro, mas ele é mais forte do que supúnhamos” esteja presente.

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Noturno – Trilogia da Escuridão Volume 1. Editora Rocco. Livraria Cultura.

sábado, 21 de junho de 2014

O Homem Duplicado

O Homem Duplicado
Título Original: Enemy
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Javier Gullón, baseado no romance “O Homem Duplicado” de José Saramago
Elenco: Jake Gyllenhaal, Sarah Gadon, Mélanie Laurent, Isabella Rossellini, Stephen R. Hart
Produção: Canadá / Espanha
Ano: 2013 (estreou em 19/06/2014 no Brasil)
Duração: 90 min

Sinopse: Adam Bell (Jake Gyllenhaal) é um professor universitário que tem sua vida monótona abalada quando, a partir de uma cena de um filme em DVD, ele constata que um ator e terceira,  Anthony St. Claire (representado também por Jake Gyllenhaal) tem a fisionomia idêntica à sua. Então, achar este ator vira uma obsessão, com resultados trágicos para ambos.

O filme é uma grande metáfora sobre a desumanização imposta pela cidade grande a seus habitantes, sentida pelo cenário cinzento de Toronto, muito similar a São Paulo (ou qualquer outra grande cidade). O único colorido mais forte vem justamente dos filmes em DVD que Adam assiste.

Ironicamente, Adam como professor de história repete uma aula que trata justamente dos padrões históricos que se repetem, com ênfase no uso de formas de controle da população. No entanto, ele mesmo está preso a padrões, seguindo uma rotina diária: vai à universidade, dá sempre as mesmas aulas e faz sexo quase que mecanicamente com a namorada.

Seu alter ego, Anthony, também está preso a padrões, apesar do relativo sucesso financeiro e estar casado com uma bela mulher, Hellen (Sarah Gadon): fez apenas três papéis insignificantes, sobrevive profissionalmente como modelo e tem um relacionamento superficial com a esposa.

Paralelamente, desde o começo do filme somos confrontados com cenas oníricas, que lembram “De olhos bem Fechados” de Kubrick: um espetáculo erótico sombrio, até doentio, que ficamos em dúvida boa parte do filme sem saber se aquilo é real ou o sonho de um dos dois, mas que será fundamental para o desfecho da trama.

Para complicar ainda mais, algumas cenas são flash backs (como uma interrupção da relação sexual feita pela namorada de Adam), que não parecem ser flash backs no momento em que são apresentadas, pois podem ser parte da sequência lógica do filme e só percebemos isso perto do final.

Atenção! Spoiller:
Quando Adam tenta contatar Anthony pela primeira vez quem atende o telefone é Hellen. A partir daí ela ganha um papel crucial na trama. Hellen procura Adam sem revelar quem é e isso vai despertar um ciúme doentio em Anthony, que busca se vingar.




Comentar mais seria tirar o sabor da trama, que vai se conduzindo até uma desfecho surpreendente e assustador.

Jake Gyllenhaal representa soberbamente seus dois papéis: Adam, inseguro e tímido e Anthony, arrogante e violento, reforçando estes comportamentos com posturas corporais e tons de voz distintos.

A concepção da trama tenta fazer transcender do drama pessoal de Adam/Anthony para o universal: todos nós somos ninguém, presos numa teia a merce de um poder supremo e impessoal que nos devora, chamado civilização.


trailer



Detalhe Nerd (um ligeiro Spoiler)

A aranha que aparece no cartaz dominado a paisagem e em uma das cenas do filme é uma das aranhas de ferro fundido da escultora francesa Louise Bourgeois. Uma delas está em exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), localizado na Grande Marquise do Parque Ibirapuera.

Aranha de Louise Bourgeois

As aranhas (reais e imaginárias) tem um papel simbólico importante no filme, com vários significados, inclusive a representação que Louise Bourgeois pretendeu evocar com suas esculturas.

Quer saber qual é? Veja o filme, depois pesquise!


terça-feira, 20 de maio de 2014

Mary Shelley e Guy de Maupassant em e-books

O Mortal Imortal
Título Original: The Mortal Immortal
Autor: Mary Shelley
Tradução: Guilherme Kroll
Editora: Balão Editorial
Ano: 2014
Edição eletrônica


Sinopse: Um homem de mais de 300 anos conta sua história, de como ele chegou à condição de uma provável imortalidade.

De autoria de Mary Shelley – famosa por Frankstein, este conto se insere na tradição de histórias de humanos que se tornaram imortais e a benção duvidosa que logo se torna uma maldição. Isso é deixado claro logo no primeiro parágrafo da história e o conto se concentra no como o personagem adquiriu o malfadado dom, seu sofrimento e seu desejo maior de alcançar a morte.

Vale a leitura pelo texto quase poético de Mary Shelley, o personagem muito bem caracterizado e como uma introdução ao terror gótico. 

Enriquecem o texto notas de rodapé dos editores, que buscam contextualizar alguns pontos do conto.


No Mar 
Titulo Original (francês): En Mer
Autor: Guy de Maupassant
Tradução: Flávia Yacubian
Editora: Balão Editorial
Ano: 2013
Edição Eletrônica


Sinopse: Obra de Guy de Maupassant, que deu origem à HQ O Pobre Marinheiro, é a história da desventura de um rapaz que perde o braço a serviço de seu irmão em um navio pesqueiro. A atitude do irmão e a determinação mórbida do jovem marinheiro dão o tom da história.

O que está em jogo aqui são as motivações dos dois irmãos, em especial do mais novo. Um conto típico de Guy de Maupassant, que sabe captar o lado mais sombrio do ser humano.

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Ambos os livros estão sendo vendidos por cerca de um real na Amazon, no formato Kindle e na Cultura e em outras livrarias que vendem e-books, no formato epub (compatível com o Kobo)

O Mortal Imortal, Balão Editorial, formato epub
O Mortal Imortal, Balão Editorial, formato kindle

No Mar, Balão Editoria, formato epub
No Mar, Balão Editoria, formato kindle

Uma boa oportunidade para conhecer estes dois autores clássicos em duas excelentes traduções.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A Mão Esquerda da Escuridão

A Mão Esquerda da Escuridão
Título original: The left hand of darkness
Autor: Ursula K. Le Guin
Tradutor: Susana Alexandria
Editora:  Aleph
Ano: 2008
Páginas: 296

Sinopse: Ai Genly é um terráqueo em missão em um planeta distante e gelado, Gethen, também conhecido por Inverno. Ele está ali para convencer os governantes das várias nações a aderirem a uma comunidade interplanetária. Lá ele busca contato com as duas nações mais importantes, uma monarquia absolutista, Karhide,  e uma república burocrática estatal semelhante à União Soviética stalinista, Orgoreyn. Diplomata acostumado à diferenças políticas, Ai ainda tem que se adaptar à biologia dos habitantes. 

Os nativos do planeta Inverno tem uma biologia única: são andróginos. A maior parte do tempo apresentam um gênero neutro e quando entram num período de kemmer, uma espécie de cio, onde o ser andrógino pode assumir tanto o sexo masculino como o feminino.



Genly tem dificuldades com esta forma de biologia, estando sempre com “um pé atrás”, como se lidasse com homens efeminados. Esta reserva o impede de ver que um possível aliado, Estraven, está realmente interessado em ajudá-lo no cumprimento da missão. 

A questão mais importante levantada no livro é justamente a questão de gênero. Para os habitantes do planeta Inverno, Ai é uma aberração ou um pervertido, pois seres que tem um único sexo neste planeta são tratados como anomalias, da mesma forma que os homossexuais em culturas com alguma forma de homofobia. Ele também é negro, o que é estranho para os habitantes de Inverno. Num dos diálogos, o rei de Karhide pergunta se todos os habitantes da Terra são negros como ele. Assim também ele é visto com desconfiança pelos governantes de Inverno e ele é usado como peça de manipulação de jogos políticos internos em Karhide e  Orgoreyn, ou como trunfo numa espécie de guerra fria entre as duas nações (que não conheciam outra forma de guerra).

O frio invernal é um recurso da autora para colocar uma justificativa plausível para o comportamento dos habitantes, acostumados a um frio realmente glacial, o que os torna lentos em tomarem decisões e no processo evolutivo tecnológico (segundo Ai, na Terra todos tem pressa), que não os levou a invenção de veículos aéreos. E também como uma metáfora muito bem empregada para a Guerra Fria e para as relações entre Ai e os habitantes (a frieza do distanciamento num momento e a aproximação pela necessidade de calor, tanto afetivo como físico, em outro), em especial, Estraven.

A autora trabalha muito bem a questão da mudança de visão do personagem Ai, após uma travessia em um deserto de gelo junto com Estraven, onde diferenças tanto biológicas como culturais são superadas pela necessidade de sobrevivência.

O título é muito bem escolhido. A “mão esquerda da criação” na mitologia judaico-cristão mais arcaica é uma metáfora pra a mão de Lúcifer, que deu forma ao mundo material, criando as condições para o homem evoluir. Seria o inverso da mão de Deus, que cria o Paraíso, onde o homem é completamente feliz, mas não evolui. Lúcifer comandaria a Escuridão e Deus comandaria a Luz. A Mão Esquerda da Escuridão, seria o completo avesso, o inverso do inverso, pois a esquerda escuridão seria novamente a luz. Assim, a luz e as trevas se complementando, se materializando primeiro nos habitantes andróginos do Planeta Inverno, na polarização política em oposição a uma união e, por fim, na relação de Estraven com Ai.

Ursula consegue, sem fazer nenhum discurso, colocar-se frente a várias questões, entre elas: nacionalismos estúpidos, xenofobia, preconceito racial, sexismo e homofobia.

Uma observação: o livro é narrado sob vários pontos de vista. Genly, Estraven e lendas transcritas. Por causa da visão de Ai, que é um homem, temos a impressão de que todos os personagens são homens. Isso é reforçado pela língua portuguesa que tem muita flexão de gênero até para objetos inanimados. 

Pelo menos para mim, a visão não muda quando Estraven passa a ser o narrador. Não sei se isto é pela forma de narrar, pela tradução ou por uma questão minha enquanto leitor masculino. 

Um livro excelente!

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A Mão Esquerda da Escuridão. Editora Aleph. Livraria Cultura.

sábado, 26 de abril de 2014

Dystopia – Escolha o que de pior pode acontecer a humanidade

Dystopia
Organização: Cândido Ruiz
Autores: Aliah, Tânia Souza, Flavio Medeiros Jr, Gerson Lodi-Ribeiro, Jean Canesqui, Paulo Fodra
Editora: Taberna Selo Editorial (edição eletrônica)

Sinopse: Antologia de contos em futuros distópicos, onde seja onde a realidade futura é retratada de maneira pessimista, com cenários pós apocalípticos ou estados totalitários.

Uma das tradições da ficção científica é retratar o futuro como uma projeção pessimista do presente.  Nesta tradição, insere-se 1984 e Admirável Mundo Novo e no cinema a referência é Matrix. 

Esta antologia procurou reunir seis visões bem distintas de futuros. 

Pizza de Drone-Patinho – Alliah

Alliah retrata o cotidiano de uma caçadora de zumbis, que usa uma foice para este fim. Esta arma tem o mesmo valor do crucifixo para os cristãos, pois foi o instrumento que serviu para a morte do deus Arkhalial cultuado nesta época. A caçadora é muito mal paga pelo que faz, pois na hora que tem fome só tem dinheiro para pedir uma pizza requentada que lhe será entregue por meio de um drome em forma de patinho de banheira. Isso é um sinal de que  teremos um conto recheado com o humor corrosivo de Alliah, sua marca registrada. Divertido e niilista.

Um Beija-Flor de Bronze não gosta de flores cruas – Tânia Souza

Neste conto que podemos classificar como pós-humano, Tânia de Souza conta a história de um caçador de recompensa que deve recuperar informações em chips implantados numa deusa artificial, uma mulher geneticamente modificada e chipada, com poderes telepáticos e premonitórios. O cenário é uma nova Brasília onde todo o tipo de marginal se abriga, em busca de uma suposta liberdade. Emocionante e intrigante.

Monstros Genocidas – Flavio Medeiros Jr

Um planeta está sendo ameçado por um gigantesco devorador de mundos e dois caçadores são chamados para tentar enfrentá-lo. Estes dois caçadores são rivais e em vez de reunirem esforços, brigam pelo privilégio de matar o monstro. Um conto pontuado pelo humor negro, sobretudo no seu desfecho.

Artes de Camaleão – Gerson Lodi-Ribeiro

Num mundo futuro, humanos remanescentes de uma possível catástrofe planetária disputam espaço com alienígenas e prováveis mutantes, oriundos de mundos anteriormente colonizados.

Os humanos sobreviventes teriam sido congelados em um passado remoto e alguns poucos foram descongelados e são discriminados, recebendo a alcunha de “picolés”. Um agente infiltrado busca ganhar confiança num grupo de piratas. Uma boa aventura, com um final surpreendente, embora inconclusivo.

Severina – Jean Canesqui

Severina é uma ativista num futuro distópico onde a humanidade esta dividida em duas camadas: o que vivem no solo e o que estão longe dele e podem desfrutar do espaço aéreo. Muito bom. O autor deixou o melhor para o final da história e um ponto a ponderar: às vezes a fraqueza é sua melhor força e onde reside sua força, pode ser sua fraqueza. 

Iluminação – Paulo Fodra

Nirvana é o estado de iluminação dos budistas e também é o nome de um vírus que afetava implantes neurais no futuro distópico construído por Paulo Fodra. Todavia, como uma vacina, a doença pode ser uma cura.

Conclusão

Todos os contos são muito bons e conseguem retratar muito bem futuros distópicos por eles construídos. Percebe-se mesmo nos contos que não tem esse ponto como mote, a presença marcante de humor, quer nas falas dos personagens, quer nas descrições das situações. É como se os autores nos dissessem: se tudo está ruim, é melhor rir.

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Dystopia. Taberna Selo Editorial.