quinta-feira, 15 de maio de 2014

A Mão Esquerda da Escuridão

A Mão Esquerda da Escuridão
Título original: The left hand of darkness
Autor: Ursula K. Le Guin
Tradutor: Susana Alexandria
Editora:  Aleph
Ano: 2008
Páginas: 296

Sinopse: Ai Genly é um terráqueo em missão em um planeta distante e gelado, Gethen, também conhecido por Inverno. Ele está ali para convencer os governantes das várias nações a aderirem a uma comunidade interplanetária. Lá ele busca contato com as duas nações mais importantes, uma monarquia absolutista, Karhide,  e uma república burocrática estatal semelhante à União Soviética stalinista, Orgoreyn. Diplomata acostumado à diferenças políticas, Ai ainda tem que se adaptar à biologia dos habitantes. 

Os nativos do planeta Inverno tem uma biologia única: são andróginos. A maior parte do tempo apresentam um gênero neutro e quando entram num período de kemmer, uma espécie de cio, onde o ser andrógino pode assumir tanto o sexo masculino como o feminino.



Genly tem dificuldades com esta forma de biologia, estando sempre com “um pé atrás”, como se lidasse com homens efeminados. Esta reserva o impede de ver que um possível aliado, Estraven, está realmente interessado em ajudá-lo no cumprimento da missão. 

A questão mais importante levantada no livro é justamente a questão de gênero. Para os habitantes do planeta Inverno, Ai é uma aberração ou um pervertido, pois seres que tem um único sexo neste planeta são tratados como anomalias, da mesma forma que os homossexuais em culturas com alguma forma de homofobia. Ele também é negro, o que é estranho para os habitantes de Inverno. Num dos diálogos, o rei de Karhide pergunta se todos os habitantes da Terra são negros como ele. Assim também ele é visto com desconfiança pelos governantes de Inverno e ele é usado como peça de manipulação de jogos políticos internos em Karhide e  Orgoreyn, ou como trunfo numa espécie de guerra fria entre as duas nações (que não conheciam outra forma de guerra).

O frio invernal é um recurso da autora para colocar uma justificativa plausível para o comportamento dos habitantes, acostumados a um frio realmente glacial, o que os torna lentos em tomarem decisões e no processo evolutivo tecnológico (segundo Ai, na Terra todos tem pressa), que não os levou a invenção de veículos aéreos. E também como uma metáfora muito bem empregada para a Guerra Fria e para as relações entre Ai e os habitantes (a frieza do distanciamento num momento e a aproximação pela necessidade de calor, tanto afetivo como físico, em outro), em especial, Estraven.

A autora trabalha muito bem a questão da mudança de visão do personagem Ai, após uma travessia em um deserto de gelo junto com Estraven, onde diferenças tanto biológicas como culturais são superadas pela necessidade de sobrevivência.

O título é muito bem escolhido. A “mão esquerda da criação” na mitologia judaico-cristão mais arcaica é uma metáfora pra a mão de Lúcifer, que deu forma ao mundo material, criando as condições para o homem evoluir. Seria o inverso da mão de Deus, que cria o Paraíso, onde o homem é completamente feliz, mas não evolui. Lúcifer comandaria a Escuridão e Deus comandaria a Luz. A Mão Esquerda da Escuridão, seria o completo avesso, o inverso do inverso, pois a esquerda escuridão seria novamente a luz. Assim, a luz e as trevas se complementando, se materializando primeiro nos habitantes andróginos do Planeta Inverno, na polarização política em oposição a uma união e, por fim, na relação de Estraven com Ai.

Ursula consegue, sem fazer nenhum discurso, colocar-se frente a várias questões, entre elas: nacionalismos estúpidos, xenofobia, preconceito racial, sexismo e homofobia.

Uma observação: o livro é narrado sob vários pontos de vista. Genly, Estraven e lendas transcritas. Por causa da visão de Ai, que é um homem, temos a impressão de que todos os personagens são homens. Isso é reforçado pela língua portuguesa que tem muita flexão de gênero até para objetos inanimados. 

Pelo menos para mim, a visão não muda quando Estraven passa a ser o narrador. Não sei se isto é pela forma de narrar, pela tradução ou por uma questão minha enquanto leitor masculino. 

Um livro excelente!

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A Mão Esquerda da Escuridão. Editora Aleph. Livraria Cultura.

sábado, 26 de abril de 2014

Dystopia – Escolha o que de pior pode acontecer a humanidade

Dystopia
Organização: Cândido Ruiz
Autores: Aliah, Tânia Souza, Flavio Medeiros Jr, Gerson Lodi-Ribeiro, Jean Canesqui, Paulo Fodra
Editora: Taberna Selo Editorial (edição eletrônica)

Sinopse: Antologia de contos em futuros distópicos, onde seja onde a realidade futura é retratada de maneira pessimista, com cenários pós apocalípticos ou estados totalitários.

Uma das tradições da ficção científica é retratar o futuro como uma projeção pessimista do presente.  Nesta tradição, insere-se 1984 e Admirável Mundo Novo e no cinema a referência é Matrix. 

Esta antologia procurou reunir seis visões bem distintas de futuros. 

Pizza de Drone-Patinho – Alliah

Alliah retrata o cotidiano de uma caçadora de zumbis, que usa uma foice para este fim. Esta arma tem o mesmo valor do crucifixo para os cristãos, pois foi o instrumento que serviu para a morte do deus Arkhalial cultuado nesta época. A caçadora é muito mal paga pelo que faz, pois na hora que tem fome só tem dinheiro para pedir uma pizza requentada que lhe será entregue por meio de um drome em forma de patinho de banheira. Isso é um sinal de que  teremos um conto recheado com o humor corrosivo de Alliah, sua marca registrada. Divertido e niilista.

Um Beija-Flor de Bronze não gosta de flores cruas – Tânia Souza

Neste conto que podemos classificar como pós-humano, Tânia de Souza conta a história de um caçador de recompensa que deve recuperar informações em chips implantados numa deusa artificial, uma mulher geneticamente modificada e chipada, com poderes telepáticos e premonitórios. O cenário é uma nova Brasília onde todo o tipo de marginal se abriga, em busca de uma suposta liberdade. Emocionante e intrigante.

Monstros Genocidas – Flavio Medeiros Jr

Um planeta está sendo ameçado por um gigantesco devorador de mundos e dois caçadores são chamados para tentar enfrentá-lo. Estes dois caçadores são rivais e em vez de reunirem esforços, brigam pelo privilégio de matar o monstro. Um conto pontuado pelo humor negro, sobretudo no seu desfecho.

Artes de Camaleão – Gerson Lodi-Ribeiro

Num mundo futuro, humanos remanescentes de uma possível catástrofe planetária disputam espaço com alienígenas e prováveis mutantes, oriundos de mundos anteriormente colonizados.

Os humanos sobreviventes teriam sido congelados em um passado remoto e alguns poucos foram descongelados e são discriminados, recebendo a alcunha de “picolés”. Um agente infiltrado busca ganhar confiança num grupo de piratas. Uma boa aventura, com um final surpreendente, embora inconclusivo.

Severina – Jean Canesqui

Severina é uma ativista num futuro distópico onde a humanidade esta dividida em duas camadas: o que vivem no solo e o que estão longe dele e podem desfrutar do espaço aéreo. Muito bom. O autor deixou o melhor para o final da história e um ponto a ponderar: às vezes a fraqueza é sua melhor força e onde reside sua força, pode ser sua fraqueza. 

Iluminação – Paulo Fodra

Nirvana é o estado de iluminação dos budistas e também é o nome de um vírus que afetava implantes neurais no futuro distópico construído por Paulo Fodra. Todavia, como uma vacina, a doença pode ser uma cura.

Conclusão

Todos os contos são muito bons e conseguem retratar muito bem futuros distópicos por eles construídos. Percebe-se mesmo nos contos que não tem esse ponto como mote, a presença marcante de humor, quer nas falas dos personagens, quer nas descrições das situações. É como se os autores nos dissessem: se tudo está ruim, é melhor rir.

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Dystopia. Taberna Selo Editorial.

sábado, 5 de abril de 2014

Neblina e a Ninja


Neblina e a Ninja
Autor: Miguel Carqueija 
Editora: auto publicação no Recanto das Letras
Ano: 2013
70 páginas.


Sinopse: Num futuro longínquo, a humanidade, após ter destruído a biosfera, vive em subterrâneos. Neste mundo a produção de energia é vital. Ela é obtida a partir de cristais que, instalados em torres altas, retiram energia solar a partir da superfície contaminada. 

Neste ambiente, o poder está ligado ao controle destes cristais e roubá-los é o objetivo do crime organizado.

Para combatê-los o governo tem um programa que treina jovens superdotados para desenvolverem suas habilidades especiais e tem também um treinamento intenso em artes marciais. Para se protegerem, estes jovens usam disfarces. Entre eles está Neblina, uma moça esperta, inteligente e hábil. Ela é convocada para ajudar nas investigações de um assassinato de um diplomata romeno, para desespero da polícia local – eficiciente pra lidar com o dia dia a dia, mas incapaz de lidar com algo muito maior. Este crime é a ponta do iceberg, pois quem está por trás das operações é uma vilã extremamente inteligente e cruel, a Ninja.

Carqueija, como sempre compõe duas grandes personagens femininas, Neblina e sua sombra, a Ninja, que vão se enfrentado num ritmo cada vez mais intenso até o desfecho final, onde o autor mostra seu maior talento: uma precisa descrição de cenas de ação, com direito a uma luta corpo a corpo digna de filmes de artes marciais.

Os personagens secundários também merecem uma atenção especial do autor, sobretudo os policiais  que inicialmente fazem oposição a Neblina, vendo-a como intrometida, depois pouco a pouco vão aceitando-a como parceira. Aliás, Carqueija faz com que a entrada em cena dela seja realmente uma intromissão, fazendo com que o leitor num primeiro momento até dê razão aos policiais. Junto a isso está a forma de agir da heroína, que em vários momentos resolve agir sozinha, correndo vários riscos, para desespero de Madeira, o chefe das operações.

Além de enfrentar a oposição de Madeira e seus homens, Neblina tem como outro obstáculo a incompetência do Primeiro-Ministro Darci, apelidado de Jujuba, que administrou mal a construção das torres de energia e a sua segurança, usando medidas paliativas estúpidas que acabaram favorecendo os vilões e meteu os pés pelas mãos na solução do problema.

Dizer mais é dar spoiler. A noveleta é muito boa. Só senti falta de algo que levasse o leitor sentir um pouco da claustrofobia de um ambiente subterrâneo. Certamente se houvesse mais disso, o nível de urgência em combater os vilões ficaria um pouco maior. Mas isso não tira o brilho da narrativa.

Uma leitura bem divertida, cheia de emoções e reviravoltas. 

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Gratuito para baixar, no Recanto das Letras

sexta-feira, 28 de março de 2014

A Última Expedição

Autor: Olívia Maia
Editora: Draco
Ano: 2013
224 páginas

Sinopse: Após ter fracassado numa expedição à Antártida, Estevão recebe um convite para, junto com a antiga equipe, participar de uma missão para encontrar um médico desaparecido na Colômbia. Apesar de estranhar o pedido (já que eles acabaram de sair de um fracasso) e de as informações serem extremamente vagas, aceita. Tem início a uma busca que é seguida de perto por uma moça supostamente argentina e cedo descobrem que não estão envolvidos numa simples busca.

Soma-se a isso o drama pessoa de Estevão, que não fala com o pai – que também está na equipe – desde o fracasso da Antártida e as motivações ocultas do contratante, da garota argentina, de alguns membros da equipe e do próprio médico desaparecido.

Esses são os elemento de uma trama de mistério, que aos poucos vai se revelando ao leitor. Os personagens estão longe de serem heróis: estão carregados de frustrações, pensam em desistir várias vezes e não formam um time coeso. Até aí tudo bem, mas o que me incomodou deveras é que ele eram muito obtusos, a ponto de não perceberem o mais óbvio, qual a motivação do médico para desaparecer e qual o interesse em achá-lo por parte do contratante.

Numa história de mistério é normal o leitor ter mais informações que os personagens e um bom autor dá sutis sinais para que o leitor se sinta um pouco mais esperto que os personagens envolvidos. Por exemplo, Watson das histórias de Sherlock Holmes. Ele é inteligente o suficiente para acompanhar Sherlock e após a trama ser deslindada de compreender os passos da lógica, mas não é capaz de perceber alguns detalhes que amarram o raciocínio durante o processo de investigação. Mas o que ele não percebe são detalhes que um leitor mais atento consegue ver. Mas jamais deixaria de reparar em um elefante e foi isso que os personagens de A Última Expedição fizeram.

Quando eu percebi isso, ler o restante do romance foi difícil, ainda mais que narrativa é arrastada e com pouca ação até cerca de dois terços do livro, que coroa tudo com um final frustrante.

Quanto à forma, Olívia Maia algumas vezes termina as frases com uma conjunção ou preposição, lembrando phrasal verbs do inglês, ou frases truncadas quando o seu final é óbvio. Num diálogo às vezes dá a impressão de que as pessoas se interrompem umas às outras por agressividade ou cumplicidade (“eu já sei o que quer dizer”). Isso até que seria interessante se a leitura não estivesse se arrastando.

Ainda assim, o romance tem o mérito de criar um bom personagem: Estevão Timber, um perfeito anti-herói, que quer apenas sair da monotonia em que se transformou sua vida, reencontrar com o pai, recuperar a auto-estima e levar uma boa bolada de grana. Temos acesso a seus pensamentos íntimos e podemos acompanhar sua trajetória transformadora e talvez seja o único que lucrou alguma coisa além do dinheiro em toda a aventura.

Outro ponto positivo é ambientação bem feita de várias regiões da Colômbia e a presença de personagens locais bem feitos, que não parecem simples chicanos.


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terça-feira, 25 de março de 2014

Lobisomem sem barba

Lobisomem sem Barba - Balão Editorial
Lobisomem sem barba
Texto e Arte: Wagner Willian
Editora: Balão Editorial
Ano: 2014
352 páginas

Sinopse: formado por pequenos textos como se tirados aleatoriamente de postagens e comentários em blogs e redes sociais, este mosaico, formado por caquinhos aparentemente díspares, compõe uma história maior.

A primeira sensação que tive ao começar a ler Lobisomem sem barba é que alguém num acesso de fúria tivesse rasgado uma centena livros de HQs e pegado um punhado de papéis rasgados e me dado pra ler. Neste conjunto aparentemente caótico foi formando uma história na minha cabeça.

A leitura também pode ser comparada à leitura fragmenta que fazemos nas redes sociais, correemos os posts dos nossos amigos, às vezes sem relação entre si, observando o feed de notícias com o rabo dos olhos e de vez em quando respondendo alguma coisa no chat.

Sentimos que há algo estranho ocorrendo, pode ser um lobisomem, mas não vemos seu rosto para saber se tem ou não barba. E terminar a leitura não nos dá certeza alguma.

Recheado de citações à cultura popular, que vão do mangá Akira à Waldick Soriano (cantor brega dos anos 80, cujo maior sucesso era Eu não sou cachorro não), passando pelo Coelho Pernalonga e sua turma, ou a cultura mainstream, como Jung e van GoghLobisomem sem barba é uma leitura intrigante e que nos faz combinar lógica, intuição e imaginação para tentar alcançar um sentido maior do conjunto de fragmentos que temos à mão, não muito diferente de quanto tentamos entender a realidade em que vivemos.

Uma boa parte dos fragmentos é acompanhada por citação a uma música pop, MPB ou clássica, por exemplo Bang Bang, na voz de Nancy Sinatra, Essa moça tá diferente, de Chico Buarque e  Clair de Lune, de Debussy. Algumas podem ser ouvidas na lista de reprodução feita pelo autor no Youtube.



E há as ilustrações, do próprio autor, tão desconcertantes quanto o texto. Eu classificaria o Lobisomem sem barba como um desafio semelhante ao da Esfinge, decifra-me ou devoro-te.



Leia amostra do texto aqui.

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Lobisomem sem barba. Wagner Willian. Balão Editorial. Livraria Cultura