sábado, 15 de fevereiro de 2014

Ela


Ela
Título Original: her
Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze
Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Rooney Mara, Olivia Wilde, Scarlett Johansson
Produção: EUA
Ano: 2013

Sinopse: Theodore Twombly é um homem solitário. Recém divorciado, busca refúgio de sua solidão nas redes sociais ou em jogos de computador. Seu trabalho consiste em escrever cartas para pessoas num site especializado e ironicamente, uma parte de seus clientes são casais apaixonados. Um dia resolve comprar um sistema operacional (SO) dotado de inteligência artificial que obedeceria a comando de voz e seria capaz de ter consciência, o que o tornaria muito mais útil e interessante. Theodore configura o sistema para ter uma personalidade feminina que assume o nome de Samantha e como além de ter consciência ela também teria capacidade de aprendizado e evolução, vai se moldando à personalidade do proprietário. Logo começa a haver um relacionamento entre eles.

O filme lida com algumas coisas bastante comuns nos dias de hoje: a solidão e a interação social via redes sociais virtuais. Perfis fakes ou mesmo reais onde mostramos não quem somos mas quem desejamos ser são cada vez mais comuns. 




Trailer

Spoiler:
Theodore não sabe lidar com suas próprias emoções e esta foi a causa do divórcio. O relacionamento progride rápido porque Samantha é alguém com quem ele consegue se abrir. Todavia, quando o relacionamento avança os bloqueios de Theodore com qualquer envolvimento começam a aparecer.

O filme lida muito bem tanto com o humor quanto com o drama tanto dos relacionamentos reais como os virtuais e os artificiais, dando verosimilhança à trama. Por exemplo: Samantha é um ser sem corpo e sem vivências e lidar com isso são as primeiras preocupações dela. Por outro lado, sua capacidade de interação múltipla e de grande massa de dados que processa com grande velocidade de processamento, conferem a ela uma complexidade grande, com a qual Theodore terá que lidar.

Aos poucos tanto o personagem como os espectadores vão percebendo que um relacionamento é formado por um e pelo outro, não importando que o outro seja um ser de carne e osso ou uma inteligência artificial habitando a “nuvem”, apresentando alegrias e tristezas.

Filme excelente!

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Dieselpunk – Arquivos Confidenciais de uma bela época

Dieselpunk – Arquivos Confidenciais de uma bela época
Autores: Carlos Orsi, Tibor Moritz, Octávio Aragão, Hugo Vera, Gerson Lodi-Ribeiro (organizador), Antonio Luiz M. C. Costa, Cirilo Lemos, Sid Castro e Jorge Candeias
Editora: Draco
Ano: 2011
384 páginas

Sinopse: Depois do vapor, vaio o Diesel. Na linha do retrofuturismo, inaugurada com o gênero Steampunk, o Dieselpunk coloca como motor principal da sociedade o óleo diesel e se situa normalmente entre guerras, às vezes avançando até os anos 50. Como o Steampunk, os escritores imaginam artefatos e alternativas históricas, possíveis mas não realizadas durante o período retratado. 

A Fúria do Escorpião Azul – Carlos Orsi

O escorpião Azul é um herói num Brasil governado por um governo socialista, com características stalinistas. Agindo nas sombras, tenta desbaratar um golpe orquestrado pelo governo brasileiro e uma potência estrangeira. Cenas de ação do herói muito bem narradas, bem como o retrato o clima de opressão de um regime stalinista. 

Grande G – Tibor Morritz

Tibor compõe quase uma fábula, uma luta entre duas cidades, Steamcity, atrasada e vivendo na era do vapor, e Smokecity, que vive na era do Diesel e mantém dominância sobre Steamcity. Eu disse quase, por que em uma fábula há dois lados, o do bem e o do mal, porém neste conto não há um lado que se torna simpático aos nossos olhos, bem como os personagens principais envolvidos numa trama familiar, o Grande G e sua neta. 

O Dia que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o chuça excomungado – Octavio Aragão

O título lembra literatura de cordel. O conto narra com elementos retrofuturistas um possível encontro entre Luiz Carlos Prestes e Virgulino Ferreira, o Lampião. Há interesses de gente que manipula este encontro, fornecendo armas para um ou outro lado, colocando-os numa situação-limite de destruição mútua.

Impávido Colosso – Hugo Vera

Brasil e Argentina estão em confronto. A esperança dos brasileiros está no uso de robôs gigantes. Boa trama de espionagem e de batalhas entre robôs.

O país da aviação – Gerson Lodi-Ribeiro

De forma episódica, às vezes parecendo um relatório, outras um compêndio de história, o conto narra o desenvolvimento da aviação ao longo de aproximadamente 150 anos. O texto apresenta algumas boas ideias, prejudicadas pela forma de narrar, que torna a leitura enfadonha.

Ao perdedor, às baratas – Antonio Luiz M. C. Costa

O título inverte o mote de Quincas Borba, substituindo batata por baratas. Um assassino falha em sua missão por ter um pavor mórbido por baratas. Em sua fuga pensa ter visto uma barata gigante. O conto trabalha com o conceito de monstruosidade, que está nos olhos de quem vê. Emocionante.

Auto do extermínio – Cirilo S. Lemos

Na minha opinião, o melhor conto da coletânea. Um assassino que recebe orientações de uma Santa invisível, deve matar uma pessoa para anarquizar o processo eleitoral brasileiro, uma disputa entre comunistas, integralistas e uma tentativa de derrubar o poder monárquico. O texto mistura fantasia, terror e história alternativa. 

Spoiler: a Santa chama o protagonista de “homem-sonho”, pois aquela realidade é apenas um sonho de Santo Antão, que será desfeita assim que ele acordar.

Cobra de Fogo – Sid Castro

Num século XX alternativo, onde a Guerra Mundial aconteceu entre de 1919 a 1929 com  o uso de armas nucleares por ambos os lados, a Liga das Nações determinou que toda forma de guerra, atômica ou convencional estaria proibida. 

Para resolver os conflitos internacionais, a Liga das Nações determinou que as disputas fossem resolvidas por uma corrida de superlocomotivas pelos quatro cantos do mundo.

Há várias referências a filmes, começando pela Corrida Maluca e passando por Casablanca e Stalker. Personagens reais se misturam a personagens fictícios, compondo um enredo bem divertido.

Só a Morte te Resgata – Jorge Candeias

Há uma guerra entre os Lusitanos, império formado por Portugal e nações Africanas e os Aliados, um grupo de nações europeias brancas e racistas. Um piloto dos aliados sobrevive a um ride aéreo. Ele recebera pouco antes uma carta de sua família e isso o ajuda a manter vivo e suportar a trajetória através dos países inimigos. Utilizando-se de vários disfarces vai convivendo com elementos de várias etnias, sendo confrontado internamente com seu preconceito de raça e de gênero. 

Este conto difere fundamentalmente do restante da coletânea por se fixar no lado humano do personagem, deixando os conflitos políticos como pano de fundo.

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Dieselpunk – Arquivos Confidenciais de uma bela épocaGerson Lodi-Ribeiro (organizador). Editora Draco. Livraria Cultura.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O País dos Cegos e outras histórias

Trata-se de uma coletânea de contos de H. G. Wels em pré venda a Livraria Cultura..

Mais conhecido por seus romances como a Máquina do Tempo e A Guerra dos Mundos, Wells é um excelente contista.

Esta coletânea traz dezoito histórias, mas, infelizmente, as resenhas que li não traziam a lista de contos. Temos que confiar na habilidade de Wells em escrever e na de Bráulio Tavares (excelente tradutor e escritor) em selecionar e traduzir os textos.

Eu conheço vários contos de Wells e todos que li eram muito bons. O que dá o título à coletânea é O país dos Cegos, uma fábula em torno o dito popular Em terra de cegos quem tem um olho é rei. 

Um explorador descobre uma civilização formada por seres humanos que há várias gerações perderam a visão. Este explorador julga ter uma vantagem e age no sentido de querer se tornar rei deste povo. Spoiler: descobre então que ver num lugar onde ninguém vê não é vantagem nenhuma e ele passa a ser o diferente, o anormal.

A maioria das histórias que conheço especulam com a ciência da época, a sociedade e o comportamento humano. Normalmente seu texto é leve, ás vezes pontuado por humor, outras com críticas severas tanto à sociedade de sua época como com os seres humanos de um modo geral.

Nerd Shop

Trad. Barulio Tavares.
Editora Alfaguara Barsil

Em pré venda da Livraria Cultura.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Realidades Adaptadas – Phillip K. Dick

Autor: Philip K. Dick
Tradução: Ludimila Hashimoto
Editora: Aleph


Sinopse: Reunião de sete contos de Philip K. Dick que deram origem a filmes, entre eles o Vingador do Futuro, refilmado em 2013.

Dick é o autor de Ficção Científica mais filmado por Hollywood, com várias de suas obras adaptadas, como, por exemplo, Blade Runner, a partir do romance Do the androids dreams with electric sheep?

O sucesso do filme e maneira de Dick escrever chamaram a atenção dos produtores e tivemos uma boa safra de filmes, nem sempre muito fiéis ao texto do autor, porém com ótimos resultados.

Lembramos a você a preço de atacado

Este conto, publicado em 1966 deu origem ao Filme O Vingador doFuturo (Total Recall) em 1990 e refilmada em 2013. Quem viu o filme e lê o conto tem a sensação que falta algo, pois o conto abrange até mais ou menos a metade do filme e o desfecho é bem diferente. Os roteiristas conseguiram dar uma dimensão ainda maior para ambiguidade do personagem e das múltiplas realidades em que ele vive.

Segunda variedade

Este conto, escrito em 1953, deu origem ao filme Screamers –Assassinos Cibernéticos, de 1995. Não vi o filme. O conto, fruto da Guerra Fria, tem como pano de fundo uma longa guerra entre russos e americanos. Os americanos desenvolveram uma arma cruel, um robô chamado “garra”, uma pequena esfera de metal cuja única função era matar qualquer ser vivo, desde que não tivesse uma identificação especial (detalhe aproveitado num dos episódios da série Doctor Who). Spoiler: o problema é que estas armas começaram a evoluir e a modificar a si mesmas tornando-se uma ameça para ambos os lados. Suspense bem construído e final surpreendente (talvez não tanto para os fãs de Dick).


Conto de 1953, deu origem ao filme de mesmo nome de 2001. Outro filme que não vi. A Terra está numa situação de equilíbrio instável (metáfora pra a Guerra Fria) com uma força alienígena que pretende invadi-la. Spoiler: Um engenheiro pode ter sido substituído por um robô-bomba que poderá explodir assim que for dita por qualquer pessoa uma frase chave. O problema maior é que o robô pode desconhecer sua própria natureza, acreditando piamente ser quem está substituindo.

Relatório minoritário

Escrito em 1956 e filmado em 2002 com o nome Minority Report, o conto trata de um sistema policial onde através do uso dos precogs, seres humanos com retardo mental, mas dotados de vidência. Isso permite prender uma pessoa antes que ela cometa um assassinato. São três videntes e a pessoa é detida se pelo menos dois deles têm a mesma previsão. O relatório divergente é o relatório minoritário. No conto, o comissário Anderson, responsável pela divisão pré-crime, é acusado pela própria seção que dirige, de assassinar uma pessoa que não conhece. Tudo é parte de uma trama para desmoralizar o sistema. O conto se concentra na tentativa de Anderson de encontrar o relatório minoritário.

No filme, há alguns acréscimos importantes, que alteram a motivação da trama, e um final diferente. Todavia o resultado é muito bom.


Conto de 1953 e filmado em 2003. Um homem trabalhou dois anos para uma empresa, teve sua memória apagada e recebe em vez de pagamento um saquinho com bugigangas. Segundo seus empregadores, o adendo no contrato foi feio por ele mesmo, antes de ter sua memória apagada. Ele se sente engando, porém cada um daqueles objetos terá uma utilidade crucial no futuro, como se ele, ao pedir aquelas coisas, já soubesse o que iria lhe acontecer. O conto se concentra em desvendar pouco a pouco a função dos objetos e o que realmente ele fez durante aqueles dois anos. O protagonista está prensado entre o governo e uma empresa gigantesca e se sente uma engrenagem nesse jogo. De todos os contos, foi este o que mais me prendeu a atenção.

O homem dourado

Escrito em 1954, deu origem ao filme O Vidente (Next) em 2007. Uma família esconde um mutante, um rapaz de pele dourada, pois a política do governo é capturar para estudo e exterminar os mutantes “inapropriados” (quase todos). A capacidade deste mutante é prever tudo o que vai lhe acontecer com uma precisão incrível. O conto tem o mérito de apresentar, contrariando o padrão da época, um mutante belo, aparentemente inofensivo, como uma real ameaça ao futuro da espécie humana. Esta visão e a postura do governo no conto certamente influenciou X-Men.

Quem elu este conto deve ter tido um leve deja-vù: “tem algo que eu já vi em outro lugar”. Viu mesmo. Na primeira versão de O Vingador do Futuro: os mutantes de Marte.

Equipe de Ajuste

Também escrito em 1954, o filme deu origem a Os Agentes do Destino. Um homem chega atrasado ao trabalho e vê seu mundo literalmente desmoronar. Ele inadvertidamente foi colocado no meio de uma intervenção de uma espécie de administradores da realidade. Este conto tem um tom mais leve, com traços de humor. Alguns dos personagens são caricatos, como o cão que deve evocar um evento ou o vendedor de seguros que faz o protagonista perder seu tempo. E a organização que cuida do processo é uma caricatura de uma organização burocrática. Foge um pouco ao tom normal de Dick, que raramente usa o humor, e quando usa é de maneira cínica.

Conclusão

Destes filmes, só via as duas versões de O Vingador do FuturoMinority Report. Mais do que adaptações, estes dois filmes foram recriações muito bem realizadas.

Dick tem algumas coisas que lhe são próprias, que aparecem nestes contos:
  • Questionamento da realidade (nada é o que parece ser);
  • Questionamento do destino da humanidade;
  • Paranoia frente a julgamento de terceiros, sem possibilidade de defesa (sobretudo em Minority Report).

No todo, os contos são bastante interessantes e a ideia de reuni-los num único volume chega a ser didática, tanto para os apreciadores destas obras no cinema como para os fãs de Philip K. Dick.

Os textos são precedidos de um comentário que contextualiza as obras tanto na literatura como no cinema e o livro apresenta o final alguns comentários do autor sobre cada um dos contos. Está no final por que Dick deu vários spoilers, mas é interessnate para ver como o autor vê sua própria obra.


Um bom trabalho da editora Aleph.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

As armas de brinquedo e os ladrões de verdade

Clint Estwood foto promocional


Dia 12 de Janeiro foi publicada a Lei15301/2014 do Estado de São Paulo proibindo a fabricação e vendas de armas de brinquedo no Estado de São Paulo.

Isso me remeteu a minha infância quando havia uma campanha pelo desarmamento infantil (que foi ressuscitada recentemente) e meu pai decidiu não mais comprar armas de brinquedo para mim. Porém as brincadeiras de rua eram todas baseadas em tiros, exércitos e similares. A solução foi eu fabricar minhas próprias armas pra poder participar, construindo-as com monte-pinos, um brinquedo da época com pinos que podiam ser encaixados uns nos outros. Cheguei a fazer um revolver com tambor.

O curioso é que meu pai tinha uma arma em casa, uma pistola 45. A arma nunca chegou a ser usada e eu cresci me tornando pacifista.

O que esperam os legisladores? Evitar que as crianças se tornem bandidos do futuro (como o slogan da campanha de desarmamento infantil da minha infância “Hoje mocinho, amanhã bandido”)?

Parte das brincadeiras de criança produzem o que se chama de catarse, uma liberação de tensões a partir do drama que se desenrola na brincadeira. Na vida real as crianças não são nem policiais nem bandidos, mas fingem ser. Aliás o difícil na brincadeira é encontrar vilões, por que todos querem ser heróis. Normalmente isso é resolvido por um rodízio ou por um sorteio, ou se luta contra vilões imaginários. Após a brincadeira todos vão pra casa mais leves, pois as frustrações foram descarregadas pelos tiros imaginários contra os vilões imaginários. O professor que me deu uma nota baixa não precisara morrer de verdade, pois ele se transformara no comandante das tropas inimigas, vergonhosamente derrotadas.

Ao impedir a catarse, os nossos governantes podem estar atingindo o efeito oposto. É como suprimir o pino da panela de pressão. Uma metáfora interessante é o do filme Gremlin. O bonzinho carregava dentro de si todas as distorções sociais.

Aliás estão perto de ver algo acontecer ao reprimirem com violência os “rolezinhos” das pessoas “diferenciadas”.