segunda-feira, 4 de março de 2013

Lilith e o Dia Internacional da Mulher

Lilith - John Collier
Dia 8 de março foi convencionado como Dia Internacional da Mulher e como todas as datas comemorativas, em alguns contextos ela é esvaziada de seu significado. Mulheres recebem rosas com mensagens bonitas e, no dia seguinte, as coisas voltam ao cotidiano.

Para ser um pouco diferente, pretendo neste post, mostrar uma personagem que é bastante significativa no universo fantástico: Lilith.

Lilith é uma divindade babilônica feminina, associada à noite e a lugares desertos. Os relatos nos chegam através da visão hebraica do mito, que o demonizou. Os hebreus tiveram um longo período sob domínio dos babilônios e tendiam a ver os deuses de seus captores como algo extremamente negativo.

Na tradição judaica medieval, Lilith aparece como a primeira esposa de Adão, que se rebelou por não aceitar a dominação masculina imposta por Javé e foi por isso expulsa do Paraíso. Ela foi associada ao desejo sexual e aos sonhos eróticos, considerados maléficos. A Igreja Católica reforçou este mito, colocando Lilith como castradora e lider de uma legião de demônios de natureza sexual, os íncubos (masculinos) e súcubos (femininos). Ela também foi considerada esposa de Lúcifer ou de Samael.
Lilith – Carl Poellath

O interessante é que Lúcifer é associado à Estrela D’alva, aparecendo nos primeiros minutos da aurora e Lilith é um ser noturno e deve se recolher aos primeiros raios de sol. Ela e seu amado só podem ser ver por breves instantes. Esta ideia foi muito bem explorada no filme “O Feitiço de Aquila”.

Lilith começou a ser revista no século XIX, pelos autores românticos, que viam nela o aspecto sedutor e a expressão do desejo sexual feminino, encarado agora de uma forma mais positiva.

Ela representa a parte feminina mais selvagem da mulher, reprimida e impedida se manifestar, para que a organização patriarcal se erguesse. Isso não foi feito racionalmente nem de uma vez, mas ao longo de séculos, muitas vezes de forma inconsciente.

Também a sua libertação se dá pela necessidade da livre manifestação do desejo (de todos, homens e mulheres), reprimido na era vitoriana, fazendo aparecer a mulher fatal, que acende o desejo do homem, mas pode ser perigosa, mostrando o medo de se libertar algo que não se conhece.

Lilith é vista como gênio mal da lâmpada, que está revoltado por ter sido fechado e quer matar seu libertador, apesar de ter o poder de realizar todos os desejos dele. Assim, na visão temorosa, ela terá que continuar contida ou libertada mediante um acordo.

Nós (a maioria dos homens e muitas mulheres) tememos Lilith, por não sabermos quem ela é de fato. Ao tentar analisá-la, ela parece fugir, é arredia e escrever sobre ela parece difícil. Dizem que ela foge das palavras, pois as palavras são um atributo de Javé, o Deus patriarcal. Ensaios acadêmicos não libertam Lilith, apenas tentam analisá-la, dissecá-la, e depois prendê-la no Logos.


Quem quiser escrever sobre ela terá que procura as palavras com auxílio da bruxa (outro termo demonizado), pois a bruxa também tira poder das palavras, através dos encantamentos (em inglês, uma das palavras para feitiço é spell, que também significa 'soletrar'). Um dos motivos da perseguição às bruxas é porque elas dispunham de um poder que rivalizava com o poder estabelecido. Simbolicamente, o poder da palavra, no sentido da palavra ser criadora. Para o poder dominante, bruxas apenas praguejavam ou amaldiçoavam, criando somente o mal. De certa forma este preconceito ainda persiste, colocando a fofoca como um atributo apenas feminino. Um dos sinônimos para fofoca é fuxico, palavra que também significa “trabalho manual feito com retalhos de pano”. Normalmente este trabalho é feito por várias mulheres reunidas.

O caminho é a Arte. Nela domina o hemisfério direito, o lado feminino da mente. Pode-se fazer poesia, escrever um conto fantástico, criar uma música que a retrate ou pintá-la. Ou fazer um encantamento.

Muitas vezes Lilith é representada como um vampiro, um ser que tem a mesma ambiguidade que ela. Na tradição hebraica, às vezes ela é chamada de “bebedora de sangue”, um insulto associado à proibição judaica de se abster de sangue.

O vampiro representa a sedução e o perigo juntos. Alguém que oferece algo desejável, mas que tem um alto preço. A mesma imagem de Lilith. Ela oferece o prazer livre de culpa e o preço sermos expulsos do Paraíso. Psicologicamente nos tira do sonho infantil e nos coloca na realidade. Por isso Lilith é associada à serpente que tentou Eva. Perdemos o Paraíso, mas ainda que aqui seja "o Vale de Lágrima", aqui podemos evoluir.

Fugidia, nos assustando, ainda assim deve ser libertada. Quando ela vier à luz em sua totalidade veremos o quão bela é e podemos finalmente respirar aliviados.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Uma História de Amor e Fúria


Uma História de Amor e Fúria

Direção: Luiz Bolognesi
Roteiro: Luiz Bolognesi
Direção de Arte: Anna Caiado
Elenco (vozes): Selton Mello, Camila Pitanga, Rodrigo Santoro, Bemvindo Sequeira, Marcos Cesana e Sérgio Moreno

Sinopse: Um Guerreiro Tupinambá, em reencarnações sucessivas, luta para salvar seu povo e reencontrar seu amor, a índia Janaína, em quatro momentos, numa batalha contra os portugueses; no século XIX, durante a balaiada; nos anos 60 e 70, na ditadura militar e em 2096, numa rebelião futura contra o controle da água doce no Rio de Janeiro.

Luiz Bolognesi concebe esta história a partir da visão mitológica indígena. Assim, a reencarnação do guerreiro se dá através de uma dádiva, presente de um dos seus deuses. Assim, ele se transforma em um pássaro uirapuru a cada morte ou momento de grande perigo e o encantamento é quebrado assim que Janaína ouve seu canto. O vilão é uma entidade mistica chamada Anhangá, um demônio de contornos cosmológicos, que se alimenta da morte e destruição, mas não mostra a sua face, preferindo usar como intermediários alguns humanos. Podemos apenas reconhecê-lo pelo rastro de destruição que deixa.
Outro ponto de vista que é levado em conta é o dos derrotados, uma visão normalmente excluída da história oficial (contada do ponto de vista dos ganhadores).
Declarações do Diretor para a Revista do Cinema Brasileiro
Assim, no primeiro episódio, tomamos contato com a estratégia dos portugueses, qua acabou por dizimar os Tupinambás. O diretor não idealiza o indígena, pois mostra também que eles tem suas brigas internas pelo poder e não esconde nem minimiza o canibalismo dos Tupinambás. Neste episódio, aparece a primeira frase que pode definir o filme: “Viver sem conhecer o passado é andar no escuro”.

No segundo, temos uma visão diferente do Duque de Caxias, responsável pela organização do exercito brasileiro, mas que tem justamente sua primeira ação durante a balaiada. E ela é contra o povo brasileiro e não uma resposta a uma ameça externa. Aliás este é o episódio mais emblemático dos quatro contados, já que a balaiada, além de fazer surgir o exército, fez surgir seu contraponto, o cangaço, segundo a visão de alguns historiadores, compartilhada por Luiz Bolognesi.

No terceiro, coloca a ditadura militar contrapondo com o idealismo dos guerrilheiros e a posterior formação do Comando Vermelho, a partir do contato de marginais com os presos políticos. Aqui aparece a segunda frase: “Meus heróis não viraram estátua, morreram combatendo os que viraram”.

No quarto e último episódio são colocadas em foco algumas tendências para um futuro distópico: milícias paramilitares particulares legalizadas, valorização da água como recurso e a sua escassez gerada justamente pela sua super-exploração e controle por parte de uma elite. E, consequentemente, uma resistência. E aqui, a terceira frase que define o filme: “Mesmo sem perceber todo dia a gente está lutando por alguma coisa”.

A animação está muito boa, mostrando esmero com qual a produção foi cuidada e o talento e habilidade dos seus criadores e executores. Nela percebe-se claramente algumas influências (que Luiz Bolognesi mesmo aponta): quadrinhos europeus, produções americanas (Disney, por exemplo) e estrutura de animês (o uso de pouca movimentação sem perder a dramaticidade da cena).
Trailer
Percebe-se também uma variação principalmente no colorido e traços no ambiente da narrativa, como se cada uma das quatro histórias representasse uma fase diferente do herói, dando a impressão que ele evolui ao longo de seus 600 anos.
Em suma, uma excelente animação, com uma excelente história, que nos faz, principalmente pensar em nossa própria história (a nacional e a pessoal).
Qual é a sua luta?

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Star Trek – Into the Darkness



Star Trek – Into de Darkness está gerando um misto de expectativas dos fãs. Alguns esperam muito, outros estão com reservas. 

O trailer em si está magnífico, fazendo apostar num filme visualmente bonito. Observe uma das cenas iniciais, onde um Kirk mais jovem salta para as águas do mar e outra mais para o final do trailer, onde ele salta de um edifício. Quem fez o trailer é muito inteligente.





quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Modelo do Ano



Dois nerds, interessados em viagens no tempo, tem suas vidas modificadas por quando um deles se apaixona por um garota misteriosa. O outro segue em frente com suas pesquisas. Tempos depois se reencontram. Quem era a garota misteriosa que sumiu na poeira do tempo?

Conto meu, originariamente publicado na coletânea Time Out, em ebook na Amazon.


Esta configurado para o Kindle, porém é possível converte-lo para outros formatos ou usar um aplicativo gratuito para PC ou Tablets, disponibilizado pela própria Amazon.

Para obter o ebook, clique aqui.



sábado, 2 de fevereiro de 2013

Django - Tarantino homenageia o Western Spaghetti


Django Livre
Título Original: Django Unchained
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, Walton Goggins, James Remar
Produção: Estados Unidos
Ano: 2012


Sinopse: Um caçador de recompensas de origem alemã, encontra-se com um mercador de escravos, pois entre os escravos está Django, uma pessoa que é capaz de reconhecer três foragidos da lei, com a cabeça a prêmio. Django é libertado e os dois passam a ser parceiros.

Em meados dos ano 1966 os italianos causaram uma grande quebra de paradigma num dos pilares da cultura norte americana: criaram o western spaghetti. O estilo italiano de fazer western era: enredos simples, caracterização dos personagens sem glamour (feios, sujos e mal vestidos), cenários igualmente decadentes (ruas enlameadas, casas e comércio toscos) e muita violência.

Um dos filmes que estabeleceu os parâmetros foi Django, do diretor Sérgio Cobburci. Ele contém todas as características apontadas especialmente na questão “violência”: mulheres sendo chicoteadas, mãos esmagadas e principalmente, tiroteios, a ponto de ser banido na Inglaterra até 1993.


Um prato feito para Tarantino, que acrescentou um dedo a mais de sangue, sua assinatura. Tarantino não se propôs a simplesmente refilmar Django. Deu um novo contexto, situando-o no conflito racial pré Guerra da Secessão, deu-lhe novos inimigos e uma motivação de salvar sua esposa e não vingá-la (como no original) e um companheiro de luta alemão. Acrescentou uma boa dose de humor, por fim, mudou a etnia do personagem: Django agora é um escravo fugitivo. Mas manteve a sua principal característica: o personagem fala pouco e atira muito. E seus diálogos parecem tiroteio.

Sabiamente, Tarantino manteve a trilha original, um dos pontos altos da primeira versão de Django, mas perdeu ao não usar o caixão que Django carregava no início do filme, arrastando-o atrás de si (a cena foi aproveitada até num filme brasileiro da Boca do Lixo, o hilariante Um pistoleiro chamado Papaco).

As atuações dos atores estão primorosas, com destaque para o vilão, Mr Candie, representado o por Leonardo DiCarpio.

Um detalhe: Franco Nero, que representou o primeiro Django, faz uma ponta no filme. Os dois “Djangos” tem um diálogo, algo assim:

– Qual é seu nome?
– Django.
– Soletre.
– D-J-A-N-G-O. O D é mudo.
– Eu sei.

Um bom filme. Uma excelente homenagem ao gênero.