Sinopse: Um casal recém
separado após seis anos de casamento, se reencontra após de três meses sem se
ver. Inicialmente cada um deles imagina o que vai dizer, mas ao se verem, num
primeiro momento, só conseguem se manifestar através de lugares comuns e frases
cuidadosamente pensadas. Entretanto, lentamente as emoções afloram e as
palavras se transformam em agressões e súplicas, temperadas por forte emoção. A
emoção toma conta e as palavras se tornam insuficientes para que o cada um,
homem e mulher, consiga expressar o que realmente desejam e sentem, onde pouco
a pouco o pouco de racionalidade cede lugar a um delírio desvairado, ante a
impossibilidade de haver comunicação por meio de palavras entre eles.
O filme de Arnaldo Jabor já havia sido adaptado pelo próprio autor em
1994 e transformado em livro em 2007 e esta nova adaptação de Francisca Braga
mantém o nível de qualidade.
Eu sei que vou te amar - filme de 1986
A peça está sendo apresentada como uma comédia romântica, porém é, paradoxalmente,
densamente dramática. Quando rimos de algo dito em cena é o riso nervoso de
alguém que se viu retratado de alguma forma no comportamento dos atores. Rimos
de nós mesmos para não chorar ou morrer de raiva.
Peça de 1994
A direção de Ewerton de Castro procura criar um ambiente onírico e surreal,
através do cenário, trilha sonora, movimentação dos atores e iluminação, que
contrasta com a crueza do texto. A iluminação é muito bem utilizada para
sublinhar os momentos de transição do pensamento interior (o ator falando
consigo mesmo) para a exteriorização por meio da fala.
O desempenho do atores, Daniel e Lígia, é muito bom, mesmo diante da
dificuldade do texto e de seu conteúdo denso.
Eu sei que
vou te amar - trailer
peça de 2012
Em suma, uma excelente montagem para um texto excelente, com atores de primeira grandeza.
Sinopse: Uma adolescente de
15 anos delira e conta de forma fragmentária e alucinada partes de sua vida.
A Valsa nº6 do título é uma música de Choppin pela qual a moça é
obcecada, tocando-a várias vezes durante a peça de forma compulsiva. O clima
onírico é criado pelo cenário, pela sonoplastia, pela iluminação (que tem por base
velas decorativas) e efeitos de fumaça e principalmente pela forma da
personagem contar a história.
Além da valsa, a adolescente é obcecada por dois nomes: Sonia, uma adolescente com a mesma idade da personagem, que em seu delírio pode
representar uma parte dela mesma e Paulo, que pode ser um namorado ou alguém
que ela deseja ou imagina.
O quebra cabeça vai sendo montado numa história de adultério,
pedofilia, múltipla personalidade, traumas e alucinações, onde é muito difícil
separar o real do imaginário. O texto de Nelson Rodrigues é centrado no
personagem, abandonando o lógico e o racional, dando espaço para a emoção
doentia da moça.
A interpretação de Lígia está perfeita, bem como toda a montagem.
Atenção, spoiler.
Só um
pequeno reparo a fazer e não é nem na peça propriamente dita: na sinopse distribuída
para o público, o texto de apresentação da peça afirma logo de início que a
personagem é Sônia. Está é um das interpretações possíveis, já que a personagem
refere-se a “Sônia” como alguém externo a ela. Durante o espetáculo, essa
possibilidade é construída lentamente na cabeça do espectador, que pode ou não
concordar que a personagem e Sônia sejam a mesma pessoa. Ou colocar-se na
posição neutra, já que externa ou interna, tudo é apenas uma alucinação.
Para quem gosta de um drama denso, de fundo psicológico profundo esta é
uma peça altamente recomendável.
Sinopse: Joana Pimentel é uma mercenária, de codinome Vésper, que costumeiramente trabalha para a Cosmopol. Ela está afastada desde
que seu marido morrera numa missão, mas agora é requisitada para ajudar a
recuperar um artefato roubado. Na realidade este objeto não é comum pois se não
for devolvido no local de onde foi removido a realidade espaço-tempo pode sobre
severas alterações.
Miguel Carqueija é um escritor bastante presente na
literatura de Ficção Científica Brasileira e pode ser caracterizado por alguns atributos: Gosta
de criar heroínas, mulheres com carater forte (como é o caso de Vésper),
escreve bem cenas de batalhas, coloca suas crenças religiosas à mostra
(cristianismo católico) sempre que possível, às vezes usa termos pouco usuais e
costuma usar o humor em algumas cenas.
Tudo isto está presente em a Face Oculta da Galáxia. Vésper
é uma heroína bem construída e o enredo esta centrado em recuperar um objeto de
origem “divina”. A equipe é formada por Beng (o lider) , Rotterdam, Tenesse e
Valentina. Esta última é uma assassina com uma missão específica de matar uma
determinada pessoa. Durante a missão, a moça revela-se mais um problema do que
uma solução.
No caminho, mais pessoas se juntam à missão, com destaque para
Gaspar, “inimigo íntimo” de Beng (eles tem uma rusga pessoal que dura décadas) e sua neta Lícia,
uma menina de dez anos muito esperta e determinada (um eufemismo para
“teimosa”), que acaba roubando a cena. Com esta personagem, Carqueija libera
seu lado humorista, transformando a menina em peça chave para colocar e retirar
o grupo de enrascadas.
As três personagens femininas principais (Vésper, Valentina
e Lícia) são um dos pontos fortes do enredo. Outro ponto é o conflito intimo de
Vésper, que viola valores pessoais para poder ser uma mercenária. Este
conflito, mesmo sendo centrado na questão religiosa, transcende este ponto por
ser algo universal. Todos nós temos um conjunto de crenças que norteiam nossas
ações e se temos que violá-las por qualquer motivo o recurso mais utilizado é
negar todo o conjunto (típico conflito “entre a cruz e a espada”).
Pontos fracos:
Valentina é uma lésbica extremamente
estereotipada, o que acaba tirando um pouco da força da personagem.
O objeto é apresentado a Vésper, como de origem
“divina” e isto não é questionado por ela nem por Beng, que lhe trás a
informação. Este seria um bom modo de demonstrar o conflito de Vésper.
O conflito se traduz apenas pela supressão da
prática religiosa, mas não da crença. Negar totalmente a crença e depois
recuperá-la aumentaria a dramaticidade.
Não há qualquer explicação de como se sabe que o
artefato é divino.
Estes pontos todavia não tiram o brilho do texto, pois o
principal mérito dele é que é principalmente divertido.
Recentemente voltou a cena o Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira, de Ivan Carlos
Regina, pela mão de Tibor
Moritz, que levantou a bola, e deixou o pessoal fazer algumas embaixadas.
Porém a bola caiu no chão e pingou, pingou e Bráulio
Tavares deu outro chute levantando um novamente a bola, que nos pés de Roberto
Causo e do próprio Moritz
voltou a pingar no meio do fandom.
Eu estou vendo a bola vir em minha direção e resolvi
arriscar um chute ou uma cabeçada e não espero atingir o gol, pois péssimo
jogador de futebol, nem sei onde ele está. Aliás, parece que ainda ninguém sabe,
mas o importante é que a bola continue no ar a espera de que alguém saiba onde
está o gol ou construa um.
Alguém poderia estar perguntando, por que Madame Butterfly?
Afinal não estamos falando de literatura brasileira de Ficção Científica?
Eu pergunto: quando pensa em madame Butterfly, qual o
primeiro país que aflora a mente? Japão!
Só que ela é uma opera italiana (escrita por Puccini) que se apropria de
alguns elementos culturais japoneses e de um momento histórico, onde ocorria
justamente a dominação econômica e cultural americana nas terras nipônicas.
E o que fez Katsuhiro Otomo? Criou uma história onde uma
nave especial com uma tripulação multinacional (não há um japonês sequer) segue
um sinal de SOS que é justamente uma ária de Madame Butterfly. O destino é um
grupo de asteróides com um perigoso campo magnético, Sargasso, nome de um mar onde na ficção é palco de naufrágios
misteriosos.
Mesmo sem ver o filme, só por esta sinopse percebe-se que o
local é uma armadilha. A atração magnética, a atração física por uma mulher, a
atração por uma cultura diferente, a busca do lucro fácil e a ilusão de que se
pode viver através das memórias compõe o quadro dramático do curta.
Apesar de todas as referencias não serem japonesas, sentimos
que estamos diante de uma obra genuinamente japonesa. Por quê? Talvez pela
forma? O tipo de narrativa? Ou o aprendizado de mais de um século que tivemos
de ver Madame Butterfly como uma referência ao Japão?
Já em o Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto coloca um personagem patético que tenta sozinho salvar o país através de três
projetos: um linguístico, um econômico e um político.
Nos interessa o linguístico, já que estamos envolvidos no uso
da linguagem como forma de expressão. Quaresma é menosprezado primeiro por
querer estudar violão, depois por estudar sem ter formação acadêmica e, por fim
querer adotar uma visão nacionalista extrema, ao propor o uso do tupi como língua
oficial.
Este é o perigo que temos que evitar. Até onde deve ir nossa
busca do nacionalismo? Enfiar um índio numa história de FC fará meu texto ser
mais brasileiro?
Eu particularmente penso que somos estrangeiros nesta terra.
Nossas origens são européias e se queremos colocar elementos indígenas em
nossas histórias temos que fazer um mergulho em suas tradições e crenças, criar
uma boa história (um bom exemplo é o herói Tajarê,
de Roberto Causo) e... lidar com uma possível rejeição do publico leitor.
Agora, vamos ao texto base, o Manifesto Antropofágico de
Ficção Científica Brasileira:
“Precisamos deglutir
urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista
maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o
alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco
voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua
das estrelas.
A ficção científica brasileira
não existe.
A cópia do modelo estrangeiro
cria crianças de olhos arregalados, velhinhos tarados por livros, escritores
sem leitores, homens neuróticos, literaturas escapistas, absurdos livros que se
resumem as capas e pobreza mental, colônias intelectuais, que procuram, num
grotesco imitar, recriar o modus vivendi
dos paises tecnologicamente desenvolvidos.”
O que seria este deglutir? Me vem a imagem de sandálias de
dedo feitas a partir de garrafas pet. O Cacique Raoni de óculos e beiço de botocudo. Ou o Visconde de Sabugosa, com um
laboratório de faz-de-conta. Alias Monteiro Lobato, apesar de não ter aderido
ao movimento, é mestre nisto: seus livros infantis têm Saci e Peter Pan, Cuca e
Gato Felix, onça e Tom Mix (caubói do cinema mudo). O sítio não vai ao
universo, o universo vem ao sítio.
Me vem novamente a imagem de Madame Butterfly, mastigada e
cuspida por Katsuhiro Otomo em forma de destroços.
Temos celulares de ultima geração, mas eles nos são roubados
nos ônibus apertados. O saci fuma uma pedra de crack em seu cachimbo, acendendo-a
com um isqueiro Zipo. A pesquisa é interrompida porque a verba foi desviada pra
fazer um jardim na casa do ministro. É esta realidade que não é retratada,
segundo Ivan Carlos Regina.
Por fim o próprio texto de Oswald de Andrade nos dá um tema
pra uma boa obra de ficção especulativa, se alguém se dispuser a escrevê-la:
“Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a revolução
Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem
nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.”
Infelizmente o que restou dos Caraíbas está prestes a ser
inundado pela usina de Belo Monte.
Sinopse: Peça em três atos, escrita em 1920, que narra o drama da fabricação de entidades humanóides com fins de realizarem o trabalho braçal, e de sua revolta contra seu estado de escravidão.
A Fábrica de Robôs foi o primeiro livro que tratou da fabricação em série de entidades artificiais com a intenção de substituir trabalhadores. Apesar do nome “robô” estar associado atualmente a máquinas, na peça são entidade humanóides de origem biológica.
Karel Tchápek é conhecido por sua visão agudamente crítica e seu humor ácido quando trata de problemas sociais e políticos, como vimos em A Fabrica de Absoluto. Socialista, não poupa nem o socialismo em seu posicionamento às vezes cínico. Por exemplo, um dos personagens explica que os robôs absorvem qualquer conhecimento, mas não tem nenhuma criatividade e, portanto dariam “bons professores universitários”.
Atenção contém spoiler
A peça começa com um diálogo entre Helena e Domin, gerente da fábrica, e seus sócios. Helena veio com o propósito de tentar libertar os robôs. Ela é confrontada com o fato de que eles eram insensíveis a seu estado, pois eram desprovidos de sentimentos.
Os robôs foram criados pelo Sr. Rossum com o propósito de provar que Deus era inútil e tentava fazê-los o mais perfeito possíveis, apesar de ter um parco conhecimento de anatomia. Seu filho toma a frente do projeto, pois vê uma utilidade prática para os robôs, eliminando tudo que era inútil, no seu ponto de vista: criatividade, sentimentos, sexualidade, paladar e olfato, por exemplo. E melhorando algumas características, como força física e capacidade de aprendizado.
Domin vê a criação do robô com uma forma de libertar a humanidade, reduzindo o custo de produção a quase zero, permitindo aos humanos não mais trabalhar (esta é a visão romântica do progresso). Todavia, ao longo da peça, percebe-se que o que resta aos humanos é o consumo puro e simples, confirmando os temores de Alquist, um dos sócios, que vê nas necessidade do cotidiano a oportunidade do homem evoluir. Alquist em momento de crise faz trabalhos de pedreiro, para manter as mãos ocupadas (isso faz com que os robôs durante a revolta o vejam como um igual).
O robos são construídos aos milhares e logo estão no mundo todo. São usados em diversa funções e como soldados em guerras, já que não têm medo.
Helena não deixa a fábrica e fica por lá, casando-se com Domin (fato bastante improvável, mas tratado com muito humor). Sua motivação oculta é tornar os robos mais humanos, dando-lhe sentimentos com a ajuda de um dos engenheiros. Todavia, quando um dos robôs manifesta um sentimento é ódio que aparece.
A revolta ocorre e, embora esperada, pega o pessoal da fábrica desprevenido (todos os envolvidos recusam-se a ver o óbvio). A humanidade é destruída com exceção de Alquist, que é obrigado a manter a fábrica em funcionamento, porém é incapaz de fazer robôs vivos. Com a impossibilidade de fazer novas unidades, o robôs também perecerão. Todavia há uma esperança: um casal de robôs manifesta rudimentos de amor e desejo um pelo outro o que faz Alquist rejubilar-se.
A parte menos inspirada da peça é o discurso pseudo religioso do final. Mas mesmo aí vemos a ironia de Tchápek. O homem querendo ser Deus, cria seu sucessor.
O livro é importantíssimo para quem gosta de boa ficção científica e esta interessado em mergulhar em suas raizes.
Algumas críticas presentes:
Quando a crise principia, Helena tenta convencer Domin a parar a produção. Domin retruca que deverão produzir robôs nacionalizados em vez de robôs universais. Dando diversidade a eles, passariam a odiar uns aos outros e deixariam os humanos em paz.
Helena luta pelos direitos iguais, contra a exploração dos robô, mas tem uma governanta, Nana, a quem pede inclusive para abotoar o vestido.
Nana tem um preconceito forte contra os robôs e vê as ações de fabricá-los como afronta a Deus. Representa a religiosidade intolerante.
O gerente financeiro, no meio da crise pensa apenas nos dividendos. Quando descobre que tem 500 milhões em caixa, tenta subornar o líder dos robôs, porém aos robôs o dinheiro não faz o menor sentido.
Apesar da crise instalada, não percebem que os robôs em volta deles são uma ameaça, pois são igualmente explorados e podem aderir à rebelião.
Quando um dos robôs se manifesta sobre seu desejo, diz que quer ter escravos humanos trabalhando para ele
Os robôs, querendo ser humanos, os imitam no que tem de pior (como diz o próprio Alquist: você já são humanos. Aprenderam a fazer guerra.)
O livro é importantíssimo para quem gosta de boa Ficção Científica e esta interessado em mergulhar em suas raízes. A peça ainda valeria pena ser encenada hoje em dia. Nerd Shop: