sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Patrimônio Cultural do Xingu – O Começo do Fim?


Patrimônio Cultural do Xingu – O Começo do Fim?
100 páginas
Editora Duetto

A motivação em ler e comentar esta edição partiu de dois pontos: um a iniciativa do Clube de Leitores de Ficção Científica em convocar escritores para uma antologia com temas nacionais e a polêmica provocada pela construção da usina hidroelétrica em Belo Monte.

Conhecer sobre o que se pretende escrever é um dever de todo bom escritor. Esta revista torna-se um instrumento fundamental para aqueles que desejam abordar questões indígenas em seus trabalhos.

Quanto à usina de Belo Monte, acompanho já há algum tempo as discussões no facebook e percebo que há muita desinformação circulando, não importa em que ponto da discussão estejam os internautas.

Por isso escolhi esta edição. A Scientific Americam é uma publicação de divulgação científica tradicional, com alta confiabilidade, em qualquer ramo da ciência que aborde, e procura ser imparcial em suas colocações.

Com reportagens de grande profundidade e fotos belíssimas, foca o problema indígena com um todo, desde suas raízes históricas passando pelo contato com os brancos e suas influências e o legado que ameaça ser destruído pela construção usina.

A usina é o que temos de mais premente ameaçando estas culturas, mas há outras, que devem ser levadas em conta. Por exemplo, a introdução de alimentos industrializados em populações indígenas trouxe doenças desconhecidas e de difícil tratamento. Ou a pressão das cidades vizinhas ao Xingu onde publicamente se defende o extermínio dos índios. Ou ainda os agronegócios, interessados nas terras férteis do vale do Xingu.

Estou usando neste momento um computador para fazer isso e logo mais estarei divulgando pela internet este artigo. Usando energia elétrica. Que preço paguei por isso?

Assistimos Avatar e nos compadecemos com os Na´vi. Será que não teremos a mesma coragem e compaixão e aceitar Belo Monte e outras ameaças à populações inteiras sem discutir?



Recomendo a leitura para todos.



terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Pele em que Habito


A Pele em que Habito
Título Original: La Piel que Habito 
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar, baseado em livro de Thierry Jonquet
Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet.
Duração: 117 min
Ano de Lançamento: 2011 (Espanha)
País de Produção: Espanha

Sinopse: Um médico, Richard Ledgard (Antonio Banderas),  traumatizado pela morte da esposa queimada num incêndio, mantém em cárcere privado uma paciente em que pouco a pouco busca transformar sua aparência na da esposa. Para isso usa técnicas cirúrgicas e de construção de pele não éticas. Quem é esta paciente e por que esta lá?

Contém um pequeno spoiler:

Uma das razões que me levou a resenhar este filme e do uso de elementos da ficção científica por alguém consagrado que não é do ramo.  A sinopse, ao lê-la pela primeira vez, me deu a impressão de ser uma mistura de Frankstein com Pigmaleão. De fato, encontram-se elementos das duas fábulas: um médico obcecado por um sonho que se apaixona por sua criação.

A ficção científica entra apenas como um dos elementos da narrativa e que poderia estar ausente, sem prejuízo da trama.  E, mesmo assim,  colocada de maneira muito canhestra. O primeiro elemento de FC colocada na trama é a data: os fatos ocorrem em 2012. Tem sentido situar uma narrativa tão próxima? Será que ele tencionava dizer que acontece no filme poderia estar acontecendo logo? Totalmente dispensável.

O segundo elemento de FC está na pele sintética à prova de fogo que ele coloca na paciente, feita partir de mutações transgênicas, uma combinação de células humanas e de porco . É insinuado também que é à prova de cortes, o que impediria a paciente de cometer suicídio cortando o pescoço ou os pulsos, totalmente plausível, já que é uma prisioneira e sujeita a experiências macabras.

Todavia após o teatro (extremamente caricato) da feitura e colocação da pele na paciente, o fato da pele dela ser ou não à prova de fogo não ganha relevância, o que definitivamente afasta a obra de ser ficção científica.

Banderas é um cientista muito caricato.

Atenção: Um grande spoiler!

Uma outra razão que me levou a resenhar A Pele em que Habito é que Almodovar trata do problema da identidade, tanto pessoal como sexual (ouço alguém dizendo “como sempre”) e isso ele fez com maestria.

Vicente, sob efeito de drogas, estupra a filha do médico, que acaba se suicidando. O rapaz torna-se vítima  de uma vingança arquitetada pelo personagem interpretado por Antonio Banderas:  a identidade de Vicente é destruída e transformada em Vera. Da vingança, Richard Ledgard passa a obsessão em reconstruir a esposa e da obsessão ao desejo pelo objeto criado.  Isso mesmo, objeto. Ledgard ama a pele que construiu.

Mas Vicente, ainda que externamente seja Vera, continua sendo Vicente. O que justifica muito bem o título: para Vicente, Vera é apenas a pele em que habita, não sua identidade.

Neste contexto, a pele sintética se justifica, visto que, se ela não é sensível à dor, também não é sensível às carícias, isolando Vicente/Vera do mundo. Porém acredito que poucos expectadores perceberam isso.

Vale destaque para o irmão de Richard, que aparece fantasiado de tigre. Ele está fugindo da polícia aproveitando-se de um baile de carnaval. Ele é o responsável indireto pela morte da esposa de Richard e será o catalisador do desfecho da trama.



Um bom filme.


domingo, 30 de outubro de 2011

Auxiliares para escritores


Todos que um dia tentaram escrever sentiram falta em algum momento de algo mais formal e organizado para auxiliá-lo na sua escrita que não fossem as velhas aulas de redação da escola.

Alguns escritores costumam dar dicas, de forma organizada ou não, sobre o seu jeito de escrever. E alguns escreveram livros.

Começarei com os livros de Silvia Adela Kohan, recentemente lançados pela editora Gutemberg. Comentarei dois deles, Como Narrar uma História e Como Escrever Diálogos. Ambos são bem didáticos e bastante aconselháveis para quem quer por a mão na massa, tem uma boa ideia, mas não sabe por onde começar. Isso não invalida sua leitura por quem já escreve há algum tempo e quer melhorar sua escrita. Às vezes é muito bom ver dentro de uma estrutura mais organizado aquilo que a gente já sabe empiricamente. Isso é proveitoso até para quem escreve muito bem.


Um outro livro que eu li com bastante interesse foi A Arte da Ficção, de David Lodge, da LP&M pocket (título original The Art of Fiction, tradução de Guilherme da Silva Braga). O livro é uma coletânea de artigos que saíram semanalmente em dois jornais americanos, o Washington Post e o Independent on Sunday. Ele se propõe a mostra vários elementos que compõe o romance, literalmente do começo ao fim: o primeiro artigo é O Começo e o último, obviamente, O Fim.

Em cada capítulo é feito com base em algumas citações de autores ingleses e americanos, e a partir delas, constrói seu texto. A maioria dos livros é bem conhecida do público em geral, mas não é fundamental conhecer a obra citada, pois David Lodge quase sempre contextualiza o texto para o leitor.

São 50 capítulos, abrangendo a estrutura do romance, alguns de seus elementos, como a ambientação, o diálogo, a construção dos nomes de personagens, o título; recursos narrativos, como o suspense, o mistério, o estranhamento; estilos literários como o surrealismo, o realismo mágico, o simbolismo; tipos de romance, como o experimental, o cômico, a metaficção; e a linguagem, como o uso da gíria, a diferenças de linguagens de acordo com o personagem.

Vale ressaltar que o autor dá a devida importância a Ficção Cientítica, dedicando-lhe o capítulo O Futuro Imaginado (usou 1984 como exemplo) e à Literatura Fantástica (usou Edgar Allan Poe como exemplo), dedicando-lhe o capitulo O estranho. Ele usou também como exemplo A LaranjaMecânica, quando falou sobre romances de ideias. Uma observação interessante: quando ele falou sobre 1984, mostrou um detalhe que lança o leitor da época em que foi escrito quase que imediatamente ao futuro, na primeira frase do romance: “Era um dia claro e frio em abril, e os relógios soavam 13 horas.”

Em 1948 (ano da publicação do livro) não existiam relógios digitais. Marcar 13 horas em todos os relógios só poderia estar acontecendo em algum momento do futuro. Uma sutileza de mestre!

Para o pessoal do Steampunk

Quem escreve gêneros onde a história ganha relevância, sabe da importância de uma boa pesquisa. E que nem só de Wikipédia vive o escritor. Existem bons livros de história que abrangem o período onde normalmente os escritores steampunks situam suas narrativas.

O primeiro deles que eu recomendo é História da Vida Privada, volume 4, Da Revolução Francesa à PrimeiraGuerra. Editado pela Companhia das Letras, tem duas versões, uma em capa dura e outra, de bolso. As informações são bastante interessantes e ajudam muito para termos uma ideia bem precisa do período retratado, centradas não nos episódios grandiosos, mas no dia a dia das diversas camadas da sociedade.

Com o mesmo teor há Históriada Vida Privada no Brasil, volume 2, a corte e a modernidade nacional, também da Companhia das Letras, e História da Vida Privada em Portugal à épocaContemporânea, da editora Temas e Debates, ambos somente em capa dura.

Pegando o teor mais político, temos as obras de EricHobsbawn: A Era das Revoluções 1789-1848, A Era do Capital 1848-1875, A Era dos Impérios  1875-1914, todos da Editora Paz e Terra e, abrangendo um período mais longo, Bandidos, onde analisa o chamado “banditismo social”.

Epílogo

Além da leitura formal, é bom ter uma gama variada de leituras, começando pelos seus “colegas de classe”: outros escritores brasileiros e estrangeiros que estão produzindo o mesmo gênero que você.

Além deles é bom ter uma leitura bem variada, abrangendo diversos gêneros, diversas nacionalidades e diversas épocas, não só os de sua preferência. E não se esqueça dos Clássicos!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Capitães da Areia


Capitães da Areia
Direção: Cecília Amado
Direção de Fotografia: Guy Gonçalves
Direção de Arte: Adrian Cooper
Jean Luis Amorim, Ana Graciela, Robério Lima, Paulo Abade, Israel Gouvêa, Ana Cecília, Marinho Gonçalves,  Jussilene Santana, Jordan Mateus, Elielson Conceição, Evaldo Maurício, Heder Novaes,  Elcian Gabriel, Jamaclei Pinho, Edelvan de Jesus, Felipe Duarte
Produção: Brasil
Ano: 2011
96 minutos


Sinopse: Baseado no livro de Jorge Amado, a história concentra-se na vida de um grupo de meninos de rua, que viviam em Salvador nos anos 50. Liderados por Pedro Bala, os meninos realizam roubos. A vida deles muda quando um deles, o Professor, resolve recolher duas crianças abandonadas, uma menina (Dora) e um menino (Zé Fuinha).

O filme é ambientado nos anos 50, com uma boa reconstituição de época, com veículos, roupas e objetos de cena bem caracterizados. Porém, do meu ponto de vista, o drama dos garotos supera qualquer caracterização de época e a história poderia ser representada nos dias de hoje, sem muitas adaptações. Ela é envolvente o suficiente para até deixar passar desapercebida esta caracterização.

O elenco de atores adolescentes é excepcional, mostrando um cuidado muito grande na escolha destes atores e na sua direção. Merece elogios também a fotografia, muito bem realizada, com tomadas que valorizam a cena em si, sem haver uma preocupação excessiva com a paisagem.

A preocupação presente no romance de humanizar os meninos de rua e deixá-lo mais próximo do leitor-espectador é plenamente respeitada no filme.

Atenção! Spoiler!
Um pequeno senão é o final do filme, onde o destino provável de cada um dos meninos é contado pela boca do Professor, como se fosse um resumo. Ainda que isto seja feito forma poética, enfraquece um pouco o desfecho trágico de Dora, atenuando seu impacto.



Trailler

domingo, 23 de outubro de 2011

Os Três Mosqueteiros


Os Três Mosqueteiros
Título original: The Three Musketeers
Direção: Paul W.S. Anderson
Roteiro: Andrew Davies, Alex Litvak
Elenco: Logan Lerman, Matthew Macfadyen, Ray Stevenson, Christoph Waltz,Orlando Bloom, Milla Jovovich, Mads Mikkelsen
Direção de arte: Glen MacPherson
Produzido em:  Estados Unidos /  Reino Unido /  França /  Alemanha
Ano: 2011   

Sinopse:  No inicio do reinado de Luiz XIV, o jovem D’Artagnan deseja tornar-se um mosqueteiro do rei. Desconhece que os mosqueteiros estão decadentes. Sua chegada e um acontecimento que pode levar a França a uma guerra, os motivará a retomar sua antiga disposição.

Eu suspeito que Os Três Mosqueteiros é a obra de literatura mais filmada da história do cinema. Não se pode dizer nem que seja um ”remake” de tantas versões que existem.

Normalmente as versões dão muita ênfase às lutas de espadas coreografadas, às intrigas palacianas com o Cardeal Richelieu e belas mulheres, como Milady de Winter, Constance e a rainha Ana.

Será que havia algo a inovar? Paul Anderson apostou que sim. Mantendo a estrutura do romance original com poucas alterações, introduziu alguns elementos retrofuturistas e de filmes de espionagem: navios alçados ao ar por meio de balões de ar quente,  trajes de mergulho, armas especiais, mecanismos e uma inexplicável armadilha diante do cofre de jóias da rainha.

Estes elementos dão mais cor e sabor ao filme e estão bem colocados na trama, com exceção da armadilha do cofre, que apenas está lá para mostrar os dotes físicos e acrobáticos de Mila Jovovich.

Quem conhece Os três Mosquetiros já sabe o que vai acontecer e uma parte do público até espera encontrar o que vai ver: a trama do colar, as lutas entre os guardas do Cardeal e os mosqueteiros, a impulsividade de d’Artagnan e a volta por cima no final.

Um filme divertido.

Dica: economize seu dinheiro, o efeito 3D não acrescenta muito.



trailler

Curiosidades Nerd

Alexandre Dumas escreveu vários romances históricos e tinha um bom conhecimento dos fatos que narrava, mas não tinha preocupações com a exatidão, misturando fatos de épocas distintas, como neste livro.  Por exemplo, os três moqueteiros realmente existiram,  mas apenas Athos e Aramis serviram juntos e num período posterior ao retratado no romance. A intriga do colar, retratada no romance, ocorreu com Maria Antonieta, uma tentativa dos revolucionários de legitimar a sua condenação à morte.

De certa forma, podemos dizer que Alexandre Dumas inventou a História Alternativa e provavelmente não reclamaria se colocassem balões no seu romance.