domingo, 23 de outubro de 2011

Os Três Mosqueteiros


Os Três Mosqueteiros
Título original: The Three Musketeers
Direção: Paul W.S. Anderson
Roteiro: Andrew Davies, Alex Litvak
Elenco: Logan Lerman, Matthew Macfadyen, Ray Stevenson, Christoph Waltz,Orlando Bloom, Milla Jovovich, Mads Mikkelsen
Direção de arte: Glen MacPherson
Produzido em:  Estados Unidos /  Reino Unido /  França /  Alemanha
Ano: 2011   

Sinopse:  No inicio do reinado de Luiz XIV, o jovem D’Artagnan deseja tornar-se um mosqueteiro do rei. Desconhece que os mosqueteiros estão decadentes. Sua chegada e um acontecimento que pode levar a França a uma guerra, os motivará a retomar sua antiga disposição.

Eu suspeito que Os Três Mosqueteiros é a obra de literatura mais filmada da história do cinema. Não se pode dizer nem que seja um ”remake” de tantas versões que existem.

Normalmente as versões dão muita ênfase às lutas de espadas coreografadas, às intrigas palacianas com o Cardeal Richelieu e belas mulheres, como Milady de Winter, Constance e a rainha Ana.

Será que havia algo a inovar? Paul Anderson apostou que sim. Mantendo a estrutura do romance original com poucas alterações, introduziu alguns elementos retrofuturistas e de filmes de espionagem: navios alçados ao ar por meio de balões de ar quente,  trajes de mergulho, armas especiais, mecanismos e uma inexplicável armadilha diante do cofre de jóias da rainha.

Estes elementos dão mais cor e sabor ao filme e estão bem colocados na trama, com exceção da armadilha do cofre, que apenas está lá para mostrar os dotes físicos e acrobáticos de Mila Jovovich.

Quem conhece Os três Mosquetiros já sabe o que vai acontecer e uma parte do público até espera encontrar o que vai ver: a trama do colar, as lutas entre os guardas do Cardeal e os mosqueteiros, a impulsividade de d’Artagnan e a volta por cima no final.

Um filme divertido.

Dica: economize seu dinheiro, o efeito 3D não acrescenta muito.



trailler

Curiosidades Nerd

Alexandre Dumas escreveu vários romances históricos e tinha um bom conhecimento dos fatos que narrava, mas não tinha preocupações com a exatidão, misturando fatos de épocas distintas, como neste livro.  Por exemplo, os três moqueteiros realmente existiram,  mas apenas Athos e Aramis serviram juntos e num período posterior ao retratado no romance. A intriga do colar, retratada no romance, ocorreu com Maria Antonieta, uma tentativa dos revolucionários de legitimar a sua condenação à morte.

De certa forma, podemos dizer que Alexandre Dumas inventou a História Alternativa e provavelmente não reclamaria se colocassem balões no seu romance.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Reino das Névoas – contos de fadas para adultos


Reino das Névoas – contos de fadas para adultos
Autor: Camila Fernandes
Ilustrações e capa: Mila F (Camila Fernandes)
Editora: Tarja
Ano: 2011
168 páginas

Sinopse:  O livro reúne contos de fadas, recriados ou criados procurando resgatar  a forma como este tipo de narrativa era feito no passado.

O conceito de infância que temos hoje só surgiu após o estabelecimento da filosofia racionalista do século XVIII, tendo como marco a publicação de O Emílio, de Rosseau. Antes as crianças só se diferenciavam dos adultos pelo tamanho e habilidades. As narrativas, sobretudo de tradição oral, não tinham contornos para evitar ou atenuar passagens mais cruentas e cruéis ou que envolvessem sexualidade. Os Irmãos Grimm, que compilaram a maioria dos contos que conhecemos hoje fizeram o primeiro filtro, já dentro da visão de que existe uma infância a ser preservada e já influenciados pela ética protestante. Mesmo assim, alguns contos sofreram ainda mais uma censura deles mesmos na segunda edição. Ao longo do tempo mais e mais atenuações foram introduzidas.

Há ainda outros fatores históricos que mudaram a teor da narrativa. Por exemplo, na Idade Média, o perigo de um ataque de um lobo era real e palpável. Então o chapeuzinho vermelho devia temer mesmo um lobo, sem nenhuma metáfora. Com o passar do tempo, o perigo é um adulto manipulador, que pode ser representado por um lobo.

Contudo o livro não se propõe a um resgate histórico, nem criticar a forma como os contos são contados hoje para as crianças, mas apenas de trazer de volta alguns elementos ausentes para criar uma atmosfera fantástica que abranja alguns fatores importantes do universo adulto.

Ao pegar o livro, primeira coisa que se nota é que houve um cuidado na edição de emular um livro de contos de fadas de criança, desde a capa, passando pelas ilustrações internas, o papel, a tipologia dos títulos e do texto e uso de capitulares.

O texto também guarda similaridade com o dos Irmãos Grimm, mas de uma forma mais fluída e poética, mesmo nas passagens onde há crueldade explícita, e evitando sempre que possível o uso de lugares comuns (inclusive o “Era uma vez...” e o “...viveram felizes para sempre”), o maniqueísmo clássico e o final fechado.

O Chifre Negro

Uma princesa necessita pegar um chifre de unicórnio para salvar o pai. Essa busca a leva a uma série de situações perigosas, cruéis e amargas que a marcam de forma indelével e a levam ao amadurecimento como pessoa. Angustiante.

O Lenhador e a Sombra

Esta talvez seja a mais poética das histórias. Um lenhador solitário encontra uma companhia na floresta. A questão do desapego norteia a condução do conto. Belíssimo.

A Outra Margem do Rio

Duas cidades separadas por um rio e pelo preconceito. Um pai e leva o filho para um casamento com uma noiva do outro lado. Acontecimentos trágicos marcam esta travessia. A questão do que é realmente importante dá o tom.

A Torre onde ela dorme

Uma princesa tem muitas habilidades e só aceita casar-se com um homem que a vença. Por inveja de seus pretendentes é condenada a dormir um sono eterno, até que seja vencida por um homem. Esta é uma versão da história da bela adormecida, com um príncipe nem um pouco nobre. Surpreendente.

A Filha do Fidalgo

Uma jovem fantasia que um sapo que encontra em seu quarto, se beijado se tornaria um príncipe. Será?

A Espera

Uma metáfora para a busca da felicidade a partir de esperanças vãs, que na realidade impedem de ver que ela está ao alcance de sua mão.

Reino de Névoas

Uma Branca de Neve não tão pura e não tão indefesa. O conto mais longo e também o mais movimentado. O melhor da coletânea.

O resultado geral é muito bom, atingindo plenamente os objetivos da autora.

domingo, 9 de outubro de 2011

Deus ex machina – Anjos e Demônios na era do vapor


Deus ex machina – Anjos e Demônios na era do vapor.
Organizadores: Candido Ruiz, Tatiana Ruiz, M. D. Amado
Autores: Alex Nery, Alliah, Carlos Machado, Daniel I. Dutra, Davi M. Gonzales, Georgette Silen, Leonilson Lopes, Norberto Silva, O. S. Berquó, Paulo Fodra, Rebeca Bacin, Yuri W. Cortez 
Editora: Estronho
Ano: 2011
208 páginas


Sinopse: A expressão latina Deus ex machina pode ser interpretada como Deus é a causa e é usada em literatura quando uma situação insolúvel é resolvida com um elemento inesperado e fora do contexto, uma “forçada” de mão do autor que é o Deus da história. No caso aqui os organizadores resolveram dar o sentido que o senso comum dá à expressão: Deus é a  máquina, já que reúne Deus e máquina na mesma frase e é justamente isto que a coletânea se propõe. Uma mistura de gêneros terror com anjos e demônios e steampunk.

Um dos riscos quando se mistura gêneros é a falta de equilíbrio entre eles, acabando por um deles prevalecer e outro ficar forçado, apenas para cumprir tabela. Neste quesito, os organizadores conseguiram harmonizar o conjunto, com um bom resultado.

A capa esta boa, como tem sido as capas da Estronho, e as ilustrações do interior também, onde a editora continua buscando originalidade. Cada conto é precedido por uma ilustração em uma apresentação do autor e está numa “caldeira”, numerada com o número da página de início e o autor identificado como seu operador.

Há um senão: a combinação do papel sem tratamento (atualmente sendo chamado de “ecologicamente correto”) e desenhos e letras escuras acabou prejudicando a leitura da apresentação dos autores e, em alguns casos, até do nome do conto.

A Diabólica Comédia  - A Conquista dos Mares
Operador: Romeu Martins

O título é uma paráfrase de a Divina Comédia. Um submarino, comandado por um demônio enfrenta hordas de anjos em máquinas voadoras. Emocionante. Em alguns momentos chegamos a torcer pelo demônio.

Alerta de Spoiler!
O que está em jogo? O domínio dos mares, já que o inferno é de Lúcifer e o céu de Deus. Uma boa sacada.

A Seita do Ferrabraz
Operador: Paulo Fodra

Um bom conto de horror com anjos e demônios.  Tem como positivo de abordar um fato pouco explorado da história brasileira a revolta dos muckers, ocorrida no sul do país. O autor merece elogios por ter feito uma pesquisa e colocar os fatos principais em seu enredo de maneira consistente com o elemento sobrenatural.  O elemento steam está apenas en passant. E poderia muito bem ser substituído por qualquer outro elemento mágico ou tecnológico, que não faria diferença para o enredo. Porém isso é uma questão para os puristas do gênero, pois o que importa é que o conto é bom.


Anhanguera
Operador: Norberto Silva

Um padre perde seu rebanho, porém aos poucos os fieis retornam por que tudo o que pedem em suas orações é atendido. Nesta cidade onde todos estão felizes, surge um investigador que acha isso estranho. Outro bom conto onde o elemento steam está en passant. O final é bastante interessante (dizer mais é da spoiler).

O dia do grande Uirá
Operador:  Davi M. Gonzales

O conto divide-se em duas partes, uma contada por um indígena, que tenta encaixar o que aconteceu dentro de seus mitos e outro, de um militar português, num relato oficial. Os dois trechos estão muito bem escritos, com elementos de cada linguagem e cada visão de mundo muito bem colocados.

Neflin
Operador: Carlos Machado

Escavações de uma empresa mineradora topam com esqueletos do que pode ter siso restos de uma grande batalha. Junto às ossadas encontram estruturas metálicas que lembram asas. O autor vai buscar num passado remoto o desenvolvimento de uma tecnologia steam, que poderia ter dado origem àqueles mecanismos. A idéia é boa, mas o vai e vem no tempo dificulta um pouco acompanhar o enredo. Um pequeno spoiler:  A sacada maior do autor é usar um personagem histórico real que fez pequenas máquinas a vapor na antiguidade clássica.

Zeitgeist – Brigada anti incêndio
Operador: Yuri Wittlich Cortez

Patrocinado por um bispo, um inventor tenta construir uma máquina voadora que, segundo ele, subiria até os portões do céu. Contudo ele é perturbado constantemente por um brigadista anti-incêndio que volta e meia faz nova exigências de segurança. Um conto onde predomina o humor, com uma cena emocionante no final e uma piada que fecha a história com chave de ouro.

O Sheol de Abaddon
Operador: Alliah

Outro conto com traços de humor. Uma união aparentemente impossível de um anjo e um demônio é estabelecida para derrotar um inimigo comum. Boa descrição de batalhas.

Avatar de anjo
Operador: Georgete Silen

Um anjo desce ao inferno para enfrentar um inimigo. O começo do conto é muito bem elaborado,aguçando a curiosidade do leitor. Um enredo bem conduzido e um final bem pensado.  

A Obscura história da Sterling Railways
Operador: O. S. Berquó

Um estudante encontra dentro de um  livro uma carta que o conduz a uma investigação sobre o abandono da construção de uma ferrovia  após o desparecimento de alguns trabalhadores e de um engenheiro. 

O pai da mentira
Operador: Lenilson Lopes

Uma bem descrita batalha entre anjos e demônios.

A máquina dos sonhos
Operador: Daniel  I. Dutra

Um pintor frustrado, mas um engenheiro brilhante, resolve seu problema de falta de talento criando uma máquina que lê os as mentes das pessoas, captando suas imagens. Porém a máquina capta mais do que isto. Um bom conto, com um bom ponto de partida.

Os relógios pensantes de sua Majestade
Operador: Alex Nery

Na Índia, um inglês luta ao lado dos revoltosos hindus. Ele tem uma forte motivação para isto. Um conto que tem como pano de fundo a ética da ciência e da tecnologia. Excelente.

Cálico: entre o céu e o inferno
Operador: Rebeca Bacin

Uma mulher é procurada por um anjo para desarmar uma bomba. O plot simples conduz a uma boa e emocionante aventura.

No geral a coletânea é boa, com alguns contos excelentes. Mesmo os contos que tem poucos elementos do steampunk têm algo a acrescentar e principalmente, divertem o leitor.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Dia da Leitura


 
Menino Maluquinho, personagem de Millor Fernandes, obtido na Internet,

A Literatura Fantástica, em especial a brasileira, tem feito parte deste blog desde seu lançamento. E a literatura não sobrevive sem leitores e é para eles que os autores escrevem. Portanto, no Dia Nacional da Leitura, 12 de Outubro, leia um livro de literatura fantástica de autor lusófono (português, brasileiro, angolano, moçambicano, açoriano, etc..).

E boa diversão!

(P.S.: Ouvi dizer que os mitos e lendas açorianos são muito interessantes e têm um pé em Santa Catarina).


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Time Out – Os viajantes do tempo

Time Out – Os viajantes do tempo
Autores: Ademir Pascale (org), Roberto de Sousa Causo, Miguel Carqueija, Luciana Fátima, Álvaro Domingues, Estevan Lutz, Allan Pitz, Mariana Albuquerque. Apresentação: André Carneiro. Ensaio: Edgar Indanlecio Smaniotto. Orelha: Jorge Luiz Calife.
Editora: Estronho
Ano: 2011
120 páginas

Sinopse: Oito contos que têm por base a viagem no tempo. Os, autores, convidados por Ademir Pascale, tiveram total liberdade para criar, tendo como único parâmetro o tema. O resultado foram histórias que abrem um bom leque de visões sobre o assunto.

Déja-vù: O Forte Roberto de Sousa Causo
Uma mulher com uma doença terminal busca em uma viagem, um pouco de realização pessoal antes de morrer. Ao visitar um antigo forte, se vê transportada para uma batalha, século atrás, onde é um dos soldados em luta. A descrição ação e dos pensamentos da personagem ao ser surpreendida no passado, como suas dúvidas e angústias no presente estão muito bem realizados. Há uma ligeira referência a uma possível vida passada, à qual a personagem se transporta, mas isso não é fundamental para o enredo. A preocupação de Causo é uma reflexão sobre a vida, o sofrimento e a morte. Profundo.

A Velha Canção do Marinheiro – Ademir Pascale
O ponto de partida de Pascale são as experiências feitas no navio Eldridge, durante a Segunda Guerra, para torná-lo invisível, que segundo alguns, tiveram resultados inusitados e dramáticos, com parte da tripulação desaparecida. O fato é bastante explorado na literatura especulativa de não-ficção, com algumas teorias mirabolantes. O conto é narrado em primeira pessoa e centra-se no drama pessoal de um destes marinheiros que a cada 72 horas é transportado para outra época. O que mantém sua sanidade é a esperança de um dia numa destas viagens reencontrar-se com sua noiva. Angustiante. Nota dez para referência ao poema “A Balada do Velho Marinheiro”, de  Coleridge.

A Difícil Arte de Lidar com Patrulheiros do Tempo – Miguel Carqueija
Um cientista é visitado por um patrulheiro do tempo, que tem como missão matá-lo, pra evitar um desastre futuro. O conto é centrado na tentativa do cientista em convencer o patrulheiro a não matá-lo. O humor da situação dá o tom.

Pelas Badaladas do Tempo – Luciana Fátima
A autora opta por descrever a viagem no tempo como se fossem devaneios, conduzidas pelo badalar de sinos diferentes em diferentes épocas. Para ser um poema, falta apenas a rima e a métrica. Nostálgico.

Modelo do Ano – Álvaro Domingues
Dois nerds, que especulam sobre viagens no tempo, ao terminar a faculdade se separam e, dez anos depois, se reencontram. Este conto é de minha autoria. Apenas vou dizer que foi muito divertido escrevê-lo, já que é um conto com muito humor. Espero que os leitores se divirtam tanto quanto eu.

A Máquina da Insanidade – Estevan Lutz
Este pode ser considerado o que tem o maior apelo científico dos contos deste volume. O autor especula sobre o determinismo do Universo de uma maneira muito inteligente.

O Último Trem para Plêiades – Allan Pittz
Alienígenas levam um homem comum para ver um planeta similar à Terra onde pode observar o futuro do que poderia nos acontecer. Dizer mais do eu isto vai gerar spoilers desnecessários. Outro conto que tem uma boa dose de humor, sobretudo no desfecho, mas nos faz pensar.

Contra o apagar das Luzes – Mariana Albuquerque
Poderemos lutar contra o inevitável? Uma constatação amarga aguarda temponautas que tentam evitar um desastre de grandes proporções. Para reflexão. Excelente texto. 

Fechando o livro a há o ensaio Viagem no Tempo na Ficção Científica Brasileira: de Observadores a Viajantes do Tempo, de Edgar Indanlecio Smaniotto. O ensaio lança luz sobre esta vertente da FC, escrita no Brasil, desde as primeiras narrativas, onde o futuro ou o passado era observado por meio de algum aparelho tecnológico (por exemplo o poriviroscópio de Monteiro Lobado) ou mágico (O Copo de Cristal,  de Jeronymo Monteiro) até as incursões da Intempol. Muito bom.