domingo, 9 de outubro de 2011

Deus ex machina – Anjos e Demônios na era do vapor


Deus ex machina – Anjos e Demônios na era do vapor.
Organizadores: Candido Ruiz, Tatiana Ruiz, M. D. Amado
Autores: Alex Nery, Alliah, Carlos Machado, Daniel I. Dutra, Davi M. Gonzales, Georgette Silen, Leonilson Lopes, Norberto Silva, O. S. Berquó, Paulo Fodra, Rebeca Bacin, Yuri W. Cortez 
Editora: Estronho
Ano: 2011
208 páginas


Sinopse: A expressão latina Deus ex machina pode ser interpretada como Deus é a causa e é usada em literatura quando uma situação insolúvel é resolvida com um elemento inesperado e fora do contexto, uma “forçada” de mão do autor que é o Deus da história. No caso aqui os organizadores resolveram dar o sentido que o senso comum dá à expressão: Deus é a  máquina, já que reúne Deus e máquina na mesma frase e é justamente isto que a coletânea se propõe. Uma mistura de gêneros terror com anjos e demônios e steampunk.

Um dos riscos quando se mistura gêneros é a falta de equilíbrio entre eles, acabando por um deles prevalecer e outro ficar forçado, apenas para cumprir tabela. Neste quesito, os organizadores conseguiram harmonizar o conjunto, com um bom resultado.

A capa esta boa, como tem sido as capas da Estronho, e as ilustrações do interior também, onde a editora continua buscando originalidade. Cada conto é precedido por uma ilustração em uma apresentação do autor e está numa “caldeira”, numerada com o número da página de início e o autor identificado como seu operador.

Há um senão: a combinação do papel sem tratamento (atualmente sendo chamado de “ecologicamente correto”) e desenhos e letras escuras acabou prejudicando a leitura da apresentação dos autores e, em alguns casos, até do nome do conto.

A Diabólica Comédia  - A Conquista dos Mares
Operador: Romeu Martins

O título é uma paráfrase de a Divina Comédia. Um submarino, comandado por um demônio enfrenta hordas de anjos em máquinas voadoras. Emocionante. Em alguns momentos chegamos a torcer pelo demônio.

Alerta de Spoiler!
O que está em jogo? O domínio dos mares, já que o inferno é de Lúcifer e o céu de Deus. Uma boa sacada.

A Seita do Ferrabraz
Operador: Paulo Fodra

Um bom conto de horror com anjos e demônios.  Tem como positivo de abordar um fato pouco explorado da história brasileira a revolta dos muckers, ocorrida no sul do país. O autor merece elogios por ter feito uma pesquisa e colocar os fatos principais em seu enredo de maneira consistente com o elemento sobrenatural.  O elemento steam está apenas en passant. E poderia muito bem ser substituído por qualquer outro elemento mágico ou tecnológico, que não faria diferença para o enredo. Porém isso é uma questão para os puristas do gênero, pois o que importa é que o conto é bom.


Anhanguera
Operador: Norberto Silva

Um padre perde seu rebanho, porém aos poucos os fieis retornam por que tudo o que pedem em suas orações é atendido. Nesta cidade onde todos estão felizes, surge um investigador que acha isso estranho. Outro bom conto onde o elemento steam está en passant. O final é bastante interessante (dizer mais é da spoiler).

O dia do grande Uirá
Operador:  Davi M. Gonzales

O conto divide-se em duas partes, uma contada por um indígena, que tenta encaixar o que aconteceu dentro de seus mitos e outro, de um militar português, num relato oficial. Os dois trechos estão muito bem escritos, com elementos de cada linguagem e cada visão de mundo muito bem colocados.

Neflin
Operador: Carlos Machado

Escavações de uma empresa mineradora topam com esqueletos do que pode ter siso restos de uma grande batalha. Junto às ossadas encontram estruturas metálicas que lembram asas. O autor vai buscar num passado remoto o desenvolvimento de uma tecnologia steam, que poderia ter dado origem àqueles mecanismos. A idéia é boa, mas o vai e vem no tempo dificulta um pouco acompanhar o enredo. Um pequeno spoiler:  A sacada maior do autor é usar um personagem histórico real que fez pequenas máquinas a vapor na antiguidade clássica.

Zeitgeist – Brigada anti incêndio
Operador: Yuri Wittlich Cortez

Patrocinado por um bispo, um inventor tenta construir uma máquina voadora que, segundo ele, subiria até os portões do céu. Contudo ele é perturbado constantemente por um brigadista anti-incêndio que volta e meia faz nova exigências de segurança. Um conto onde predomina o humor, com uma cena emocionante no final e uma piada que fecha a história com chave de ouro.

O Sheol de Abaddon
Operador: Alliah

Outro conto com traços de humor. Uma união aparentemente impossível de um anjo e um demônio é estabelecida para derrotar um inimigo comum. Boa descrição de batalhas.

Avatar de anjo
Operador: Georgete Silen

Um anjo desce ao inferno para enfrentar um inimigo. O começo do conto é muito bem elaborado,aguçando a curiosidade do leitor. Um enredo bem conduzido e um final bem pensado.  

A Obscura história da Sterling Railways
Operador: O. S. Berquó

Um estudante encontra dentro de um  livro uma carta que o conduz a uma investigação sobre o abandono da construção de uma ferrovia  após o desparecimento de alguns trabalhadores e de um engenheiro. 

O pai da mentira
Operador: Lenilson Lopes

Uma bem descrita batalha entre anjos e demônios.

A máquina dos sonhos
Operador: Daniel  I. Dutra

Um pintor frustrado, mas um engenheiro brilhante, resolve seu problema de falta de talento criando uma máquina que lê os as mentes das pessoas, captando suas imagens. Porém a máquina capta mais do que isto. Um bom conto, com um bom ponto de partida.

Os relógios pensantes de sua Majestade
Operador: Alex Nery

Na Índia, um inglês luta ao lado dos revoltosos hindus. Ele tem uma forte motivação para isto. Um conto que tem como pano de fundo a ética da ciência e da tecnologia. Excelente.

Cálico: entre o céu e o inferno
Operador: Rebeca Bacin

Uma mulher é procurada por um anjo para desarmar uma bomba. O plot simples conduz a uma boa e emocionante aventura.

No geral a coletânea é boa, com alguns contos excelentes. Mesmo os contos que tem poucos elementos do steampunk têm algo a acrescentar e principalmente, divertem o leitor.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Dia da Leitura


 
Menino Maluquinho, personagem de Millor Fernandes, obtido na Internet,

A Literatura Fantástica, em especial a brasileira, tem feito parte deste blog desde seu lançamento. E a literatura não sobrevive sem leitores e é para eles que os autores escrevem. Portanto, no Dia Nacional da Leitura, 12 de Outubro, leia um livro de literatura fantástica de autor lusófono (português, brasileiro, angolano, moçambicano, açoriano, etc..).

E boa diversão!

(P.S.: Ouvi dizer que os mitos e lendas açorianos são muito interessantes e têm um pé em Santa Catarina).


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Time Out – Os viajantes do tempo

Time Out – Os viajantes do tempo
Autores: Ademir Pascale (org), Roberto de Sousa Causo, Miguel Carqueija, Luciana Fátima, Álvaro Domingues, Estevan Lutz, Allan Pitz, Mariana Albuquerque. Apresentação: André Carneiro. Ensaio: Edgar Indanlecio Smaniotto. Orelha: Jorge Luiz Calife.
Editora: Estronho
Ano: 2011
120 páginas

Sinopse: Oito contos que têm por base a viagem no tempo. Os, autores, convidados por Ademir Pascale, tiveram total liberdade para criar, tendo como único parâmetro o tema. O resultado foram histórias que abrem um bom leque de visões sobre o assunto.

Déja-vù: O Forte Roberto de Sousa Causo
Uma mulher com uma doença terminal busca em uma viagem, um pouco de realização pessoal antes de morrer. Ao visitar um antigo forte, se vê transportada para uma batalha, século atrás, onde é um dos soldados em luta. A descrição ação e dos pensamentos da personagem ao ser surpreendida no passado, como suas dúvidas e angústias no presente estão muito bem realizados. Há uma ligeira referência a uma possível vida passada, à qual a personagem se transporta, mas isso não é fundamental para o enredo. A preocupação de Causo é uma reflexão sobre a vida, o sofrimento e a morte. Profundo.

A Velha Canção do Marinheiro – Ademir Pascale
O ponto de partida de Pascale são as experiências feitas no navio Eldridge, durante a Segunda Guerra, para torná-lo invisível, que segundo alguns, tiveram resultados inusitados e dramáticos, com parte da tripulação desaparecida. O fato é bastante explorado na literatura especulativa de não-ficção, com algumas teorias mirabolantes. O conto é narrado em primeira pessoa e centra-se no drama pessoal de um destes marinheiros que a cada 72 horas é transportado para outra época. O que mantém sua sanidade é a esperança de um dia numa destas viagens reencontrar-se com sua noiva. Angustiante. Nota dez para referência ao poema “A Balada do Velho Marinheiro”, de  Coleridge.

A Difícil Arte de Lidar com Patrulheiros do Tempo – Miguel Carqueija
Um cientista é visitado por um patrulheiro do tempo, que tem como missão matá-lo, pra evitar um desastre futuro. O conto é centrado na tentativa do cientista em convencer o patrulheiro a não matá-lo. O humor da situação dá o tom.

Pelas Badaladas do Tempo – Luciana Fátima
A autora opta por descrever a viagem no tempo como se fossem devaneios, conduzidas pelo badalar de sinos diferentes em diferentes épocas. Para ser um poema, falta apenas a rima e a métrica. Nostálgico.

Modelo do Ano – Álvaro Domingues
Dois nerds, que especulam sobre viagens no tempo, ao terminar a faculdade se separam e, dez anos depois, se reencontram. Este conto é de minha autoria. Apenas vou dizer que foi muito divertido escrevê-lo, já que é um conto com muito humor. Espero que os leitores se divirtam tanto quanto eu.

A Máquina da Insanidade – Estevan Lutz
Este pode ser considerado o que tem o maior apelo científico dos contos deste volume. O autor especula sobre o determinismo do Universo de uma maneira muito inteligente.

O Último Trem para Plêiades – Allan Pittz
Alienígenas levam um homem comum para ver um planeta similar à Terra onde pode observar o futuro do que poderia nos acontecer. Dizer mais do eu isto vai gerar spoilers desnecessários. Outro conto que tem uma boa dose de humor, sobretudo no desfecho, mas nos faz pensar.

Contra o apagar das Luzes – Mariana Albuquerque
Poderemos lutar contra o inevitável? Uma constatação amarga aguarda temponautas que tentam evitar um desastre de grandes proporções. Para reflexão. Excelente texto. 

Fechando o livro a há o ensaio Viagem no Tempo na Ficção Científica Brasileira: de Observadores a Viajantes do Tempo, de Edgar Indanlecio Smaniotto. O ensaio lança luz sobre esta vertente da FC, escrita no Brasil, desde as primeiras narrativas, onde o futuro ou o passado era observado por meio de algum aparelho tecnológico (por exemplo o poriviroscópio de Monteiro Lobado) ou mágico (O Copo de Cristal,  de Jeronymo Monteiro) até as incursões da Intempol. Muito bom.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Fantástica Literatura Queer – Volume Laranja





Organizadores: Rober Pinheiro, Cristina Lasaitis
Autores: Osíris Reis, Cláudio Parreira, Eric Novell, Renato A. Azevedo, Cindy Dalfovo, Daniel Machado, Kyran, Rober Pinheiro. Prefácio: Luiz Mott.
Editora: Tarja Editorial
Ano: 2011
176 páginas

Sinopse: Segundo volume da coletânea de contos tendo por diretriz a diversidade tanto de estilos, gêneros (fantasia, horror e ficção científica) e sexualidade.

Seguindo a mesma linha da Fantástica Literatura Queer – Volume Vermelho, este livro reúne mais oito contos dentro das temáticas Ficção Científica, Fantasia e Horror, voltados pra a a diversidade sexual.

Neste volume, percebe-se ainda o cuidado na seleção e a qualidade literária dos contos.

Queda – Osíris Reis
Uma narrativa com contornos épicos, como se fosse um recorte de uma imensa batalha de dois anjos contra um grupo de guerreiros dispostos a destruir divindades femininas. A condução do texto é bem emocionante e lembra narrativas mitológicas. Nota dez para o uso preciso e ao mesmo tempo poético da linguagem. Emoção pura.

A Presença Cláudio Parreira
Atenção! Spoiller!
Um conto sobre um homem insatisfeito com seu casamento que passa sentir a presença de um ser que o seduz. Bem escrito, mas com um defeito:  o conto lembra um pouco um dos maneirismos de Wood Allen: criar uma mulher detestável para justificar o adultério. Isso minimiza o conflito. É fácil para o marido insatisfeito se jogar nos braços de outrem (mulher, homem ou espectro), se a esposa não se importa com ele e até o despreza.  Isso torna o conto previsível, ainda que esteja bem escrito. Um conto apenas competente e o mais fraco da coletânea.

Sonhos e Refúgios – Eric Novello
Um mago exorcista, num congresso de magia, faz uma palestra onde conta dois sonhos seus, recorrentes, relacionados com sua sexualidade, que acabam atrapalhando sua profissão. História bem movimentada, com uma leve referência à literatura policial, mas com um pé firme no fantástico.

A Lista: Letras da Igualdade – Renato A. Azevedo
Atenção! Spoiller!
Uma lista de discussões na internet, por algum fenômeno desconhecido, mistura vários universos paralelos, vários Brasis, onde os análogos podem trocar mensagens. Duas destas realidades acabam influenciando uma a outra. Em uma delas vive-se um momento de opressão violenta à diversidade sexual, com perseguição às minorias, na outra a situação é a extrema oposta, com uma ditadura das minorias (manipuladas por políticos inescrupulosos), escudadas em leis de “afirmação positiva”. Em ambos os mundos o que tem em comum é a intolerância, a corrupção dos políticos e a hipocrisia da sociedade.  Faz pensar. O melhor deste volume.

O Beijo de Alice – Cindy Dalfovo
O conto pode ser lido como uma resposta à pergunta: “quanto tempo será necessário para que os seres humanos percebam que amor é apenas Amor?” Basicamente fala, de uma forma muito poética, da mudança de conceitos, da rejeição completa à aceitação plena do amor, ainda que fora dos parâmetros considerados adequados pela sociedade.

A primeira vez de Silvânia – Daniel Machado
Uma transexual, Silvânia, é seguida por um ser sobrenatural em seu trottoir. A personagem é concedida como reunisse em si todas as rejeições preconceituosas: etnia, gênero, orientação sexual e prostituição. Cada aspecto desta personagem é desnudado através dos olhos do ser que a segue, que o leitor acompanha ao longo da narrativa. Muito bom.

Awaken – Kyran
Um padre faz uma cerimônia de exorcismo em um rapaz. O duelo do padre com as criaturas é o centro deste conto. As motivações do padre são questionadas pelos demônios e a pergunta principal é “o motivo da queda de um demônio não poderia ser simplesmente o amor?” Emocionante em vários aspectos.

Eu era um Lobisomem Juvenil – Rober Pinheiro
Nas ruas de São Paulo, um homem trata de seus negócios. Parece ser um simples traficante, mas é mais do que isso. Está em busca de alguém, como um caçador.  Narrado em primeira pessoa, vamos tomando conhecimento da personalidade e das intenções do narrador aos poucos.  A surpresa final fica por conta do letreiro em neón.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Armadilha para um homem só – Uma trama perfeita


Autor: Robert Thomas
Tradução:  Luis de Lima
Adaptação:  Miguel  Langone J. e Antonio Natal
Direção:  Miguel  Langone Jr
Elenco:  Antonio Natal, Almara Mendes, Rodrigo Fabbro, Emílo Bozzo, Teca Pinkovai,  Miguel  Langone Jr
Duração 110 minutos

Sinopse: Na cidade francesa de Chamonix, um marido, Daniel Corban, reclama para a polícia do desaparecimento de sua esposa, após três meses de casamento.  Aos poucos percebe-se que ele está sendo envolvido numa trama gerada por uma quadrilha que pretende enloquecê-lo ou matá-lo por causa de uma provável herança.

Num cenário despojado, característico do grupo Teatro Compacto, é desenvolvida uma trama de suspense do primeiro ao último minuto, pontuada por um humor sutil e irônico e excelente atuação o elenco.

O público se identifica com o desespero de Daniel, que a cada passo que dá se envolve mais e mais nas malhas criadas pela quadrilha até o desfecho final, realmente surpreendente.

A forma do autor conduzir a trama impressionaram até o mestre do Suspense, Hitchcock, que quase chegou a filmá-la.

O grupo optou por desenvolver a peça recriando o clima do final dos anos 50, época em que o texto foi escrito. Isso fica bem notável nos figurinos e na trilha sonora.

O resultado é excelente. Recomendo.

A peça está em cartaz todos os domingos às 19:00 até dia 30 de outubro, Teatro Estação Caneca, na Rua Frei Caneca, 384 - Bela Vista, a 200m do Shopping Frei Caneca. Telefone – 2371.5744.