quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Anjos, Mutantes e Dragões


Autor: Ivanir Calado
Editora: Devir – Coleção Pulsar
Ano: 2010
292 páginas

Sinopse: 15 contos de Ficção Científica (em sua maior parte) e Fantasia, escritos entre 1990 e 2000, agrupados em cinco sessões.
Ivanir Calado é considerado por vários críticos um dos melhores escritores de Ficção Científica brasileiros, e de fato ele é um excelente escritor.
Cada um dos contos revela uma faceta diferente deste autor. Começando por “Paradoxo de Narciso”, publicada no número 16 da Isaac Asimov brasileira. É uma das melhores histórias de viagens no tempo envolvendo o paradoxo do encontro consigo mesmo que eu li. É o que basta, do contrário daria um spoiler para os leitores que não a conhecem!
As três histórias seguintes foram publicadas na Coleção Fatos e Relatos da Ediouro em 1994. Na primeira deles, “Refém”, um menino de classe média é tomado como refém por dois menores marginais e para suportar a tensão imagina ser um herói espacial vitima de uma abdução por alienígenas. O tom é humorístico e o desfecho muito bem conduzido.
Tia Moira trata de um tema bastante familiar ao brasileiro: as telenovelas. A personagem que dá o título ao conto parece misturar a realidade à fantasia, chorando até a morte de personagens, mas será que a vida imita a arte ou arte imita a vida?
A terceira, para mim a melhor do grupo, está “Anjo”. Um homem recebe a visita de um anjo sempre que algo de ruim vai acontecer em sua vida, só que não entende a mensagem e mesmo que suspeite do conteúdo não consegue evitar o fato predito. O final surpreendente garante a qualidade da história, superando as expectativas do leitor.
O grupo seguinte, também uma encomenda da Ediouro, integravam uma coleção, Eles são sete, que agrupava contos baseados em um dos sete pecados capitais.
A secção abre com o conto “Operação Lobo”, um conto muitíssimo bem humorado sobre a Gula. Nele um espião inglês deve retirar um prisioneiro de uma prisão búlgara, usando comida como suborno. O espião e comparsas acabam comendo o que não deviam e quase põe a perder a operação.  O sucesso é garantido por uma arma insuspeita. O desfecho deverá provocar boas risadas.
“Bobo” é o conto onde a Ira é o pecado-tema. Nele, em um planeta dominado por um regime totalitário, crianças de determinadas famílias são deformadas desde a mais tenra idade para se tornarem bobos da corte. A única vantagem em ser um bobo da corte era poder falar o que quisesse, pois seria interpretado pelos espectadores como uma piada. Mas um dia a piada foi levada a sério.
“O Dia do Dragão” é o conto associado à Preguiça. Um rapaz sonhador é escolhido para ser sacrificado ao Dragão por não ser produtivo. Seu inconformismo provocará uma mudança no comportamento da população.
“Kilumbo” é uma história contada por um idoso a seu bisneto sobre as origens de seu mundo. O orgulho está associado à dignidade recuperada de um povo antes escravo. O conto procura mudar a conotação da palavra orgulho alterando seu significado de arrogância para expressão de dignidade. Aliás a busca de um significado positivo aos chamados pecados é marca da maioria de seus contos neste bloco, como já vimos no conto relativo à Preguiça, ou da justificativa à Ira, no conto “Bobo”. Isso voltará a acontecer no conto “Avthar”, o último do grupo.
“Não é por Inveja” conta história de alguém que não tolera ser o segundo numa relação de amizade, sentindo-se usado pelo ego mais forte.  Um bom conto, onde o dialogo interior e o ponto de vista apenas do narrador-personagem (conto em primeira pessoa) nos conduz a uma expectativa de um final, aparentemente o único possível. Aparentemente.
“A Volta do Dragão”, dedicado à Avareza, é um conto situado no mesmo universo do conto “O Dia do Dragão”, só que separado por um longo período de tempo e contado pelo mesmo bisavô de “Kilumbo”, mostrando uma preocupação do autor em dar uma certa unidade a pelo menos um parcela dos contos deste bloco. Neste conto, um homem muito avarento decide se transformar num dragão para defender seus tesouros.
Fechando o grupo está "Avthar", associado à Luxuria, onde um menino nasce com poderes especiais, mas uma interpretação equivocada do conceito de pureza pelos monges guardiões da religião local condena este menino ao isolamento e o afasta da população que deveria ajudar.
O grupo seguinte é formado por duas histórias, mais voltadas à ficção histórica do que à fantasia ou ficção científica, publicadas por ocasião dos 500 anos do descobrimento na coleção “Aventuras no Tempo”, pela Editora Record.
O primeiro deles é “Foi assim (talvez)”, que especula sobre o fim do povo que vivia nos sambaquis (o povo que virou “talvez”). O segundo é a “Carta do filho da puta”, que explora um dos incidentes relatados por Caminha em sua carta, envolvendo dois grumetes que fugiram e se reuniram aos índios. A história é narrada por um deles, filho de uma prostituta que procura fugir de sua sina humilhante.
No último grupo estão dois contos, um, “Eleanor Rigby” para uma antologia patrocinada pelo CLFC (que infelizmente não saiu) com contos baseados em canções dos Beatles e outro que narra um história policial cyberpunk num Rio de Janeiro distópico, mas muito similar ao Rio de hoje.
“Eleanor Rigby” é baseado numa frase desta música dos Beatles: Wearing a face that she keeps in a jar by the door. Ivanir Calado imagina uma gueixa que troca seu rosto de tempos em tempos, mas sem nunca encarar sua face verdadeira. Para mim este é o melhor conto da coletânea, em primeiro lugar por perceber o potencial da frase para um conto de FC, em segundo, pelo traçado psicológico da personagem, muito bem estruturado e mostrado ao longo da narrativa de maneira sutil e poética, e pelo final, que, para muitos será uma surpresa. Uma belíssima homenagem a Lenon e McCartney.
Fechando o livro está o excelente policial cyberpunk, “O Altar de Nossos Corações”, que parece ter sido escrito por uma mistura do Capitão Nascimento com Bruce Sterling. O governador do estado é sequestrado pelo crime organizado, mas isso é apenas a ponta do iceberg de toda uma trama policial.
Em suma, um excelente livro de um excelente autor.

domingo, 24 de outubro de 2010

Hoje eu sou Alice


Hoje eu Sou Alice
Título original:  Today, I´m Alice
Tradução: Andréa Gottlieb de Castro Neves
Autores: Alice Jamieson & Clifford Thurlow
Editora: Larousse
336 página

Sinopse: Alice Jamieson narra de forma emocionante a partir de suas lembranças fragmentadas, sua infância atormentada e o resultado disso: um Transtorno de Personalidade Dissociada, ou em termos não médicos, um caso de múltiplas personalidades.

Desde que Robert Louis Stevenson escreveu o Médico e o Monstro
e o mangá MPD Pysicho levou às últimas consequencias, a literatura tem registrado um sem número de histórias com esta temática, mas com o livro As Três Faces de Eva, de 1954, e Sybil, de 1973, de casos reais dramáticos foram levados à literatura e ao cinema.

 
O protótipo das personalidades 
multiplas: O Médico e o Monstro

Tal é o caso de Hoje eu sou Alice. A diferença em relação às outras duas obras é que esta foi feita pela própria vítima do transtorno, o que redobra o interesse, tanto para o leigo, como para o profissional da área.

Outra diferença, é que o livro não é centrado no transtorno em si, mas nas suas causas e na evolução, tanto que as manifestações de personalidades de múltiplas só surgem mais ou menos na metade do romance. Antes, surgem alucinações auditivas e outros comportamentos, que também são sintomas de outros transtornos, como a esquizofrenia.


As três faces de Eva
Um dos primeiros casos reais levados ao Cinema

Narrado em primeira pessoa, o livro comove e choca principalmente com a narrativa em detalhes dos abusos sexuais violentos sofridos por Alice na sua infância, cometidos pelo seu próprio pai e por estranhos, com o consentimento dele. Também é dramática a descrição da violência perpetrada a si mesma em suas múltiplas tentativas de suicídio e do processo de hospitalização, que muitas vezes parece cruel, mesmo num sistema de saúde considerado um dos melhores do mundo (Inglaterra). Além destes problemas, Alice sofre com anorexia, abuso de álcool e drogas lícitas e ilícitas, incapacidade de se relacionar e outros problemas.

O livro coloca como um dado a ser verificado, mas plausível, que o Transtorno de Personalidade Dissociada é causado por um mecanismo de defesa criado por uma criança muito nova, face à violência perpetrada contra ela de maneira continuada. Ou seja, “quem está sofrendo a violência é outro, não eu.” Outro fator a alarmante, é que o livro aponta que possivelmente em quase 100% dos casos, a violência é de natureza sexual, perpetrada por alguém muito próximo da criança. Isso vai ao encontro da narrativa de Sibil, mas está apenas implícita em As três faces de Eva (talvez seus autores não estivessem propensos a levantar esta polêmica na época).


 Sybil, um dos casos mais complexos de multiplas personalidades

Em suma, um excelente livro, que trata de um problema complexo e raro, sem se perder em detalhes técnicos, nem deixar de lado a dramaticidade dos acontecimentos ali narrados.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

História da Ciência número 1


História da Ciência número 1
Edição especial da Revista de História
Biblioteca Nacional

Um dos conselhos que mais ouvi quando escrevia tanto artigos de caráter técnico como literatura foi: pesquise sempre e muito sobre o assunto sobre o qual vai escrever.

Isso vale muito para a Ficção Científica, mesmo para a chamada soft. É claro que não preciso conhecer tudo sobre mecânica do motor de combustão interna para poder escrever um romance dieselpunk, mas pelo menos preciso conhecer o nome de algumas peças básicas e o  contexto histórico que permitiu que o motor a explosão interna existisse (o motor a combustão interna poderia ter existido antes da descoberta do refino de petróleo? Alguém poderia ter pensado em usar álcool em vez de querosene, o que tornaria a invenção possível até para os gregos).

Na História Alternativa preciso conhecer os fatos históricos e suas consequencias que eu quero alterar e seguindo algumas leis sociológicas, tentar projetar um futuro (do pretérito, talvez) alternativo.

A edição especial História da Ciência, da Revista de História da Biblioteca Nacional é uma excelente fonte de pesquisa. Aliás, a Revista de História é básica para quem pretende escrever em qualquer gênero que envolva algum acontecimento histórico, em qualquer época.

No número 1 o tema é Ciência com jeito do Brasil, inovação e desafios desde a Colônia. Perfeito para quem quer escrever um conto com um olhar para o Brasil! 

Uma rápida folheada nos revela algumas matérias de interesse,  como “Laboratórios Emancipados”, sobre Oswaldo Cruz e seu papel de organizador e consolidador da ciência brasileira,  da “Ouro Negro tupiniquim”, sobre o petróleo na obra de Monteiro Lobato,  “Acervos produtivos”, sobre o papel dos museus na pesquisa científica, “Divulgar é preciso”, sobre a literatura de divulgação científica no Brasil (co-irmã da Ficção Científica) e “Projetando o progresso”, sobre o papel da engenharia no desenvolvimento tecnológico do país, entre outras. 

Uma atenção especial à página central, que contém uma linha do tempo sobre o desenvolvimento de seis aspectos da História da Ciência e da Tecnologia do Brasil: Astronomia e Cartografia, Amazônia e Biodiversidade, Agricultura, Transportes, Mulheres e Pensamento Social, indo do século XVII aos dias de hoje.

Fechando a edição, uma lista comentada de livros que podem interessar ao candidato a escritor, com destaque para 1910 – o primeiro voo  no Brasil,de Susana Alexandre e Salvador Nogueira, da editora Aleph, que mostra um aviador esquecido pela história: Dimitri Sensaud de Lavaud, que construiu o primeiro avião brasileiro (ou seja, construído no Brasil, com materiais e tecnologia brasileiros) e realizou um voo de sucesso.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Portal 2001


Portal 2001
Autor: Nelson Oliveira (org.)
Editora: Edição dos autores (cooperada), através do projeto Portal
150 Páginas

Sinopse: De acordo como o próprio site, o Projeto Portal  é uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral, editada no sistema de cooperativa. A pequena tiragem — duzentos exemplares de cada número — será distribuída entre acadêmicos, jornalistas e formadores de opinião. Serão no total seis números (de papel e tinta, não online). Cada número da revista homenageia, no título, uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit.

O livro (ou revista, se preferirem), reúne 17 autores, alguns bem conhecidos pelo Fandom e de um modo geral os textos são de boa qualidade,alguns excelentes, indicando o cuidado na seleção dos autores e contos. Se este cuidado tivesse sido um pouquinho maior, a edição seria quase perfeita.

Bráulio Tavares comparece com três contos:

“A República de Recursos Infinitos” faz mais que uma referência ao Processo  de Kafka. Inclusive o nome do personagem é Youseph B. Sua narrativa concentra-se na excessiva segmentação do serviço público, na tentativa de controlar cada vez mais o cidadão, que por fim o isola do serviço que lhe deve ser prestado, devido ao emaranhado de departamentos e subdepartamentos. Desesperante, tanto para quem se identifica com o personagem perdido no labirinto de departamentos e secções, como para quem é servidor público, preso nas suas intermináveis tarefas sem um significado que lhe seja claro.

Em “Universos Tangenciais (improviso)”, um homem lê um jornal pela manhã e é transportado para diversos lugares. Um bem construído paralelo metafórico sobre as divagações que às vezes fazemos?  Ou quem sabe a elaboração de uma teoria sobre os possíveis universos paralelos em que vivemos sem tomar consciência deles? Ou...

Em “Aquele de Nós (improviso)” uma entidade coletiva se preocupa com o destino de uma de suas partículas, que aparentemente tem a ilusão de ser um indivíduo.

Dos três contos o primeiro é de excepcional qualidade e os outros dois (que o autor indica no título como “improviso”) nos dão a impressão de que ele teve duas boas ideias e as anotou na forma de contos. As idéias são boas e os contos bem escritos, apesar de serem “improvisos”. Se é improviso, nos perguntamos: será que o autor vai desenvolvê-las mais tarde? 

Roberto de Sousa Causo comparece com “Arribação Rubra”, uma boa mistura de FC com histórias de espionagem, com uma trama bem construída e as reviravoltas que os enredos de espionagem costumam ter. Um bom conto. 

Mayrant Gallo no traz A Paz Forçada. Um conto com uma temática interessante: a narrativa navega entre dois pontos principais, as relações familiares e o casamento aparentemente aberto de um lado e as relações econômicas entre empresas e países, de outro. O conto trata destes assuntos com uma ironia mordaz e leva a narrativa a um final que surpreende o leitor.  O problema do conto está em demorar para “pegar o leitor”, o seu começo é um tanto lento, como excessivas descrições de pormenores desinteressantes.

Claudio Parreira escreveu “Além do Espelho” que reconta, misturando humor e horror, a lenda de Orfeu e Eurídice, a partir de uma cena de bar.  É um bom conto, mas onde está a ficção científica?

Delfin nos traz “Sentinela”, conto onde, num futuro próximo, seres humanos naturais e artificiais  disputam o mesmo espaço. Delfin, para manter o suspense, revela aos poucos a trama e, para garantir um final surpresa, “enrola” o leitor o tempo todo, fazendo ele ora pensar uma coisa, ora outra, acerca dos personagens envolvidos. Isso é feito de maneira muito inteligente, garantindo o interesse da leitura.

Mustafá Ali Kanso, apresenta dois contos, bastante poéticos. O primeiro deles, “Herdeiro dos Ventos”, é uma metáfora muito bem construída sobre o amor aos livros e à imaginação. O segundo, “Uma Carta a Guinevere” um astronauta numa viagem einsteniana se despede de sua amada, agora inatingível, traçando um paralelo com o mito de Lancelot e Guinevere.

Brontops Baruq também escreveu dois contos. No primeiro, “Planetas Invisíveis: Diana”, os habitantes de um planeta vêem como solução de seus problemas a miniaturização de todos os seus habitantes. O segundo, “Rebobinados”, uma narrativa divertida sobre um criminoso lançado no espaço na companhia de um tarado que pode estuprá-lo a qualquer momento. O problema é que a viagem vai durar 1800 anos. O que torna a história interessante é a forma de narrá-la.

“Prometeu acorrentado reboot”, de Sid Castro, conta a história de um planeta envolto em escuridão que é visitado por uma nave que, inadvertidamente traz iluminação na faixa visível, num mundo onde as radiações estão em outra faixa do espectro. A luz é mal interpretada pelos seres que lá habitam, para glória e desgraça dos exploradores. Muito bem construído.

“Novo Início”, de Marcelo L. Bighetti, é conto que tem por base uma possível viagem no tempo efetuada pelos nazistas. Uma boa premissa, mal aproveitada. No conto há um salto de mais de 400 anos entre um ponto e outro da narrativa, deixando muita coisa para a imaginação do leitor. Se o  autor trabalhar um pouco mais a idéia, poderemos ter até um excelente romance, mas como conto é apenas uma promessa não cumprida.

Rodrigo Novaes nos traz dois contos: “Contato Alpha 9” e “Zaratustra”. No primeiro deles seres alienígenas, aparentemente, utilizam-se de seres humanos para pesquisas, em busca de uma pedra especial, com resultados imprevisíveis. Por que “aparentemente”? Porque é o que eu pude deduzir da narrativa confusa. O que dizer? Apenas que não gostei. Em “Zaratustra”, a narrativa está bem mais legível, mas tem-se a impressão que se o autor dispusesse um pouco mais de tempo, teria composto um poema simbolista.

Maria Helena Nogueira nos traz nada menos que cinco contos: “Neve e sanduíche”, “A gruta de Venus”, “Eblon”, “Mãos de Borracha” e “Quem sabe?”. 

Em “Neve e Sanduíche, seres humanos, diante de seu fim descobrem que podem se perpetuar enquanto espécie indo a um universo paralelo. Mas isto seria mesmo uma solução? 

Em “A gruta de Venus”, um ser alienígena experimenta pela primeira vez um orgasmo genuíno. Teria valido a pena?

Em “Eblon”, uma humanidade futura tem todo o prazer que deseja em paraísos artificiais. A única coisa que se pede é que se chegue no horário marcado, do contrário uma punição terrível aguarda o incauto. Mas, e se o que se deseja é a punição? 

Em Mãos de Borracha (uma referencia a Edward Mãos de Tesoura), um ser humanoíde programado para fazer massagens perde o controle e se perde o controle sobre suas mãos, que executam um programa invasor que dá prazer sexual ao massageado. 

Em “Quem sabe?” nos mostra um mundo onde as pessoas resolviam seus conflitos no mundo virtual. Tudo bem, se estas incursões não deixassem sequelas. Onde termina o virtual e começa o real? 

Em comum, além do estilo impecável da autora, tem-se uma preocupação com limites que podem ou não ser rompidos e a diferença tênue entre artificial e natural, entre prazer e dor e entre real e virtual e entre céu e inferno.

“Sem nome” é um dos três contos de Marco Antonio de Araújo Bueno, e seu tema gira em torno de um extraterrestre. O conto caminha bem na primeira parte, porém escorrega na segunda. Passa pela mente do leitor sem deixar rastro. O conto seguinte é “Arquivo truncado”, que é exatamente isso, um arquivo truncado.  O terceiro é “Seguimento dezenove”, onde seres estudam sem entender fenômeno que ocorre no “seguimento 19”. Quem fica sem entender nada é o leitor.

Luiz Brás (pseudônimo de Nelson Oliveira) no conta em “Primeiro de Abril Corpus Christi” uma história sobre uma cidade automatizada que toma consciência de sua existência e está sendo combatida por mercenários que tem nomes de personagens da literatura e de HQ´s. Interessante e intrigante.

Daniel Fresnot nos traz três histórias. Em “Exit” o egoísmo de um astronauta e aprecipitação de outro conduz a uma situação de solução impossível. Divertido e inteligente, embora tenha uma inconsistência que tornaria este acontecimento improvável.

O seguinte é o horrível “A vida sexual dos dinossauros”, que aponta como causa provável da extinção dos dinossauros eles terem se tornados gays. Uma piada de mau gosto e inconsistente e ainda “sustentada” por uma informação ultrapassada sobra a AIDS (já faz alguns anos que esta doença não está mais vinculada exclusivamente ao comportamento homossexual). Sem dúvida o pior conto da coletânea.

O terceiro, “Convenção”, parece uma crônica disfarçada de conto (ou vice versa) sobre uma convenção de FC (que aconteceu ou acontecerá?) que não traz “nada de novo no front”.

Também com três contos comparece Ricardo Delfin. “Destino” conta a história de um duelo inusitado e com final surpreendente até para o participante vencedor. Um bom conto.

“Futuro do pretérito” é exatamente isso. O espírito do conto começa na primeira frase: “Eu me lembro de tudo como se fosse amanhã”. E é isto mesmo. A inversão do tempo, de alguém que lembra não do que aconteceu, mas do que acontecerá, percorre toda a narrativa. Uma boa ideia bem realizada.

Em “Gazeta Marciana”, uma revolta de mineiros em Marte é relatada como se fosse notícia de jornal. Competente, mas sem novidades.

Fechando o livro está o meloso e chato “Amor-perfeito”, de Roger-Silva, onde um ser cósmico declama seu amor imortal a outro. Há alguns achados no meio do monólogo de uma imensa declaração de amor, mas se perde na verborragia e elogios rasgados ao ser amado.

Apesar dos deslizes, o projeto Portal 2001 é uma boa leitura. Talvez um cuidado um pouco maior na seleção evitaria que desastres como" Amor-perfeito" e “A vida Sexual dos dinossauros” estivessem nas paginas deste portal.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Morte, no Palco

Morte, no Palco
Autor: Rubens Teixeira Scavone
Editora: Clube do Livro
Ano: 1979
160 páginas


Sinopse: O livro Morte, no Palco nos traz onze contos de um dos pioneiros da FC Brasileira, Rubens Teixeira Scavone.


Comprei este livro num sebo, motivado por conhecer um pouco mais deste escritor muito citado pelo fandom. Normalmente ele comparece sempre quando se pretende reunir contos significativos do gênero, como é o caso das antologias Os Melhores Contos de de Ficção Científica Brasileiros.


Fiquei agradavelmente surpreendido, mesmo já esperando algo muito bom. Scavone é um excelente contista. Em cada um deles revela não só sua habilidade em escrever, como também em compor uma boa história, de criar personagens e verosimilhança num cenário futurista.


Ao se ler cada um dos contos nota-se bastante a influência dos três grandes escritores dos anos 70, os chamados ABC: Asimov, Bradbury e Clark, porém há um jeito muito próprio de Scavone. Um traço marcante é o humor (coisa rara na FC) sutil e surpreendente algumas vezes.

O livro é iniciado pelo excelente ensaio “Ficção científica, uma reavaliação”, escrito pelo próprio autor., onde ele nos mostra sua visão do gênero. Vale destacar uma frase de um de seus últimos parágrafos, que resume seu amor pela FC: “Se imaginar é a mais requintada dádiva concedida ao homem, a ficção científica é o mais alto grau deste privilégio.”


Em “Flores pra uma terrestre” discute-se a questão da beleza fora do seu ambiente. Um flor arrancada de um planeta com uma atmosfera com outras nuances de coloridos seria igualmente bela se transportada para a Terra? E os olhos de quem vê não seriam mais importantes?


“Especialmente, quando sopra outubro” é um conto com características bastante poéticas e realmente merecedor de participar da antologia que reúne os melhores contos de FC. Uma menina tem uma rara habilidade que ninguém consegue explicar.


Em “A evidência do impossível” alienígenas gigantescos chegam à lua de um mundo morto. Seu tamanho descomunal não permite perceber sinais de uma civilização que ali deixara seu marco.


“A caverna” conta a história de um pesquisador amador que se depara com pinturas rupestres e deseja ser o único ter acesso a elas. O autor traça um paralelo com a caverna de Platão, invertendo o real e o ilusório do mito.




Trabalhadores na Lua são os personagens do conto seguinte, “A bolha e a cratera”. Um cruel método de seleção dos que podem, em sua folga, retornar à Terra leva a uma tragédia. O conto satiriza a pretensão de programas psicológicos baseados no comportamento da maioria, dita normal, sem dar conta das nuances individuais.

O menino e o robô é um conto com marcantes características “asimovianas”, com uma pitada de Ray Bradbury. Um menino recebe um robô de presente do pai. O controle remoto é feito por ondas mentais, que acabam gerando um inesperado laço entre o garoto e a máquina.


Em “Número Transcendental”, um fugitivo de um hospício encontra seres alienígenas, mas sabe que jamais acreditarão nele.


Em “O fim da aventura” sete pesquisadores perdem-se numa floresta tropical num mundo desconhecido e acabem morrendo de forma cruel. A história de sua aventura encontra-se narrada no diário do capitão. O comportamento extremamente profissional do psicólogo, a paranóia do comandante em relação a este profissional e o destino final de todos eles compõe um conto carregado de humor caústico e incomodativo, sobretudo no final realmente surpreendente.


“Morte, no palco”, que dá nome à coletânea, nos conta a história de um homem numa situação de risco onde sua única preocupação é de ter uma morte espetacular para que seu filho se orgulhe dele.


Em “O diálogo dos mundos” o humor também da a tônica. O primeiro contato com uma provável civilização acaba mostrando que é mais fácil contatar com extraterrestres do que haver comunicação real entre grupos de seres humanos. Outro conto com humor e final surpresa.


Em “Passagem para Júpiter”, um arquiteto sonha em viajar para o gigante do sistema solar, por ser relativamente inexplorado. O conto, que encerra a coletânea, brinca com os desejos humanos de coisas inalcançáveis.