quinta-feira, 21 de outubro de 2010

História da Ciência número 1


História da Ciência número 1
Edição especial da Revista de História
Biblioteca Nacional

Um dos conselhos que mais ouvi quando escrevia tanto artigos de caráter técnico como literatura foi: pesquise sempre e muito sobre o assunto sobre o qual vai escrever.

Isso vale muito para a Ficção Científica, mesmo para a chamada soft. É claro que não preciso conhecer tudo sobre mecânica do motor de combustão interna para poder escrever um romance dieselpunk, mas pelo menos preciso conhecer o nome de algumas peças básicas e o  contexto histórico que permitiu que o motor a explosão interna existisse (o motor a combustão interna poderia ter existido antes da descoberta do refino de petróleo? Alguém poderia ter pensado em usar álcool em vez de querosene, o que tornaria a invenção possível até para os gregos).

Na História Alternativa preciso conhecer os fatos históricos e suas consequencias que eu quero alterar e seguindo algumas leis sociológicas, tentar projetar um futuro (do pretérito, talvez) alternativo.

A edição especial História da Ciência, da Revista de História da Biblioteca Nacional é uma excelente fonte de pesquisa. Aliás, a Revista de História é básica para quem pretende escrever em qualquer gênero que envolva algum acontecimento histórico, em qualquer época.

No número 1 o tema é Ciência com jeito do Brasil, inovação e desafios desde a Colônia. Perfeito para quem quer escrever um conto com um olhar para o Brasil! 

Uma rápida folheada nos revela algumas matérias de interesse,  como “Laboratórios Emancipados”, sobre Oswaldo Cruz e seu papel de organizador e consolidador da ciência brasileira,  da “Ouro Negro tupiniquim”, sobre o petróleo na obra de Monteiro Lobato,  “Acervos produtivos”, sobre o papel dos museus na pesquisa científica, “Divulgar é preciso”, sobre a literatura de divulgação científica no Brasil (co-irmã da Ficção Científica) e “Projetando o progresso”, sobre o papel da engenharia no desenvolvimento tecnológico do país, entre outras. 

Uma atenção especial à página central, que contém uma linha do tempo sobre o desenvolvimento de seis aspectos da História da Ciência e da Tecnologia do Brasil: Astronomia e Cartografia, Amazônia e Biodiversidade, Agricultura, Transportes, Mulheres e Pensamento Social, indo do século XVII aos dias de hoje.

Fechando a edição, uma lista comentada de livros que podem interessar ao candidato a escritor, com destaque para 1910 – o primeiro voo  no Brasil,de Susana Alexandre e Salvador Nogueira, da editora Aleph, que mostra um aviador esquecido pela história: Dimitri Sensaud de Lavaud, que construiu o primeiro avião brasileiro (ou seja, construído no Brasil, com materiais e tecnologia brasileiros) e realizou um voo de sucesso.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Portal 2001


Portal 2001
Autor: Nelson Oliveira (org.)
Editora: Edição dos autores (cooperada), através do projeto Portal
150 Páginas

Sinopse: De acordo como o próprio site, o Projeto Portal  é uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral, editada no sistema de cooperativa. A pequena tiragem — duzentos exemplares de cada número — será distribuída entre acadêmicos, jornalistas e formadores de opinião. Serão no total seis números (de papel e tinta, não online). Cada número da revista homenageia, no título, uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit.

O livro (ou revista, se preferirem), reúne 17 autores, alguns bem conhecidos pelo Fandom e de um modo geral os textos são de boa qualidade,alguns excelentes, indicando o cuidado na seleção dos autores e contos. Se este cuidado tivesse sido um pouquinho maior, a edição seria quase perfeita.

Bráulio Tavares comparece com três contos:

“A República de Recursos Infinitos” faz mais que uma referência ao Processo  de Kafka. Inclusive o nome do personagem é Youseph B. Sua narrativa concentra-se na excessiva segmentação do serviço público, na tentativa de controlar cada vez mais o cidadão, que por fim o isola do serviço que lhe deve ser prestado, devido ao emaranhado de departamentos e subdepartamentos. Desesperante, tanto para quem se identifica com o personagem perdido no labirinto de departamentos e secções, como para quem é servidor público, preso nas suas intermináveis tarefas sem um significado que lhe seja claro.

Em “Universos Tangenciais (improviso)”, um homem lê um jornal pela manhã e é transportado para diversos lugares. Um bem construído paralelo metafórico sobre as divagações que às vezes fazemos?  Ou quem sabe a elaboração de uma teoria sobre os possíveis universos paralelos em que vivemos sem tomar consciência deles? Ou...

Em “Aquele de Nós (improviso)” uma entidade coletiva se preocupa com o destino de uma de suas partículas, que aparentemente tem a ilusão de ser um indivíduo.

Dos três contos o primeiro é de excepcional qualidade e os outros dois (que o autor indica no título como “improviso”) nos dão a impressão de que ele teve duas boas ideias e as anotou na forma de contos. As idéias são boas e os contos bem escritos, apesar de serem “improvisos”. Se é improviso, nos perguntamos: será que o autor vai desenvolvê-las mais tarde? 

Roberto de Sousa Causo comparece com “Arribação Rubra”, uma boa mistura de FC com histórias de espionagem, com uma trama bem construída e as reviravoltas que os enredos de espionagem costumam ter. Um bom conto. 

Mayrant Gallo no traz A Paz Forçada. Um conto com uma temática interessante: a narrativa navega entre dois pontos principais, as relações familiares e o casamento aparentemente aberto de um lado e as relações econômicas entre empresas e países, de outro. O conto trata destes assuntos com uma ironia mordaz e leva a narrativa a um final que surpreende o leitor.  O problema do conto está em demorar para “pegar o leitor”, o seu começo é um tanto lento, como excessivas descrições de pormenores desinteressantes.

Claudio Parreira escreveu “Além do Espelho” que reconta, misturando humor e horror, a lenda de Orfeu e Eurídice, a partir de uma cena de bar.  É um bom conto, mas onde está a ficção científica?

Delfin nos traz “Sentinela”, conto onde, num futuro próximo, seres humanos naturais e artificiais  disputam o mesmo espaço. Delfin, para manter o suspense, revela aos poucos a trama e, para garantir um final surpresa, “enrola” o leitor o tempo todo, fazendo ele ora pensar uma coisa, ora outra, acerca dos personagens envolvidos. Isso é feito de maneira muito inteligente, garantindo o interesse da leitura.

Mustafá Ali Kanso, apresenta dois contos, bastante poéticos. O primeiro deles, “Herdeiro dos Ventos”, é uma metáfora muito bem construída sobre o amor aos livros e à imaginação. O segundo, “Uma Carta a Guinevere” um astronauta numa viagem einsteniana se despede de sua amada, agora inatingível, traçando um paralelo com o mito de Lancelot e Guinevere.

Brontops Baruq também escreveu dois contos. No primeiro, “Planetas Invisíveis: Diana”, os habitantes de um planeta vêem como solução de seus problemas a miniaturização de todos os seus habitantes. O segundo, “Rebobinados”, uma narrativa divertida sobre um criminoso lançado no espaço na companhia de um tarado que pode estuprá-lo a qualquer momento. O problema é que a viagem vai durar 1800 anos. O que torna a história interessante é a forma de narrá-la.

“Prometeu acorrentado reboot”, de Sid Castro, conta a história de um planeta envolto em escuridão que é visitado por uma nave que, inadvertidamente traz iluminação na faixa visível, num mundo onde as radiações estão em outra faixa do espectro. A luz é mal interpretada pelos seres que lá habitam, para glória e desgraça dos exploradores. Muito bem construído.

“Novo Início”, de Marcelo L. Bighetti, é conto que tem por base uma possível viagem no tempo efetuada pelos nazistas. Uma boa premissa, mal aproveitada. No conto há um salto de mais de 400 anos entre um ponto e outro da narrativa, deixando muita coisa para a imaginação do leitor. Se o  autor trabalhar um pouco mais a idéia, poderemos ter até um excelente romance, mas como conto é apenas uma promessa não cumprida.

Rodrigo Novaes nos traz dois contos: “Contato Alpha 9” e “Zaratustra”. No primeiro deles seres alienígenas, aparentemente, utilizam-se de seres humanos para pesquisas, em busca de uma pedra especial, com resultados imprevisíveis. Por que “aparentemente”? Porque é o que eu pude deduzir da narrativa confusa. O que dizer? Apenas que não gostei. Em “Zaratustra”, a narrativa está bem mais legível, mas tem-se a impressão que se o autor dispusesse um pouco mais de tempo, teria composto um poema simbolista.

Maria Helena Nogueira nos traz nada menos que cinco contos: “Neve e sanduíche”, “A gruta de Venus”, “Eblon”, “Mãos de Borracha” e “Quem sabe?”. 

Em “Neve e Sanduíche, seres humanos, diante de seu fim descobrem que podem se perpetuar enquanto espécie indo a um universo paralelo. Mas isto seria mesmo uma solução? 

Em “A gruta de Venus”, um ser alienígena experimenta pela primeira vez um orgasmo genuíno. Teria valido a pena?

Em “Eblon”, uma humanidade futura tem todo o prazer que deseja em paraísos artificiais. A única coisa que se pede é que se chegue no horário marcado, do contrário uma punição terrível aguarda o incauto. Mas, e se o que se deseja é a punição? 

Em Mãos de Borracha (uma referencia a Edward Mãos de Tesoura), um ser humanoíde programado para fazer massagens perde o controle e se perde o controle sobre suas mãos, que executam um programa invasor que dá prazer sexual ao massageado. 

Em “Quem sabe?” nos mostra um mundo onde as pessoas resolviam seus conflitos no mundo virtual. Tudo bem, se estas incursões não deixassem sequelas. Onde termina o virtual e começa o real? 

Em comum, além do estilo impecável da autora, tem-se uma preocupação com limites que podem ou não ser rompidos e a diferença tênue entre artificial e natural, entre prazer e dor e entre real e virtual e entre céu e inferno.

“Sem nome” é um dos três contos de Marco Antonio de Araújo Bueno, e seu tema gira em torno de um extraterrestre. O conto caminha bem na primeira parte, porém escorrega na segunda. Passa pela mente do leitor sem deixar rastro. O conto seguinte é “Arquivo truncado”, que é exatamente isso, um arquivo truncado.  O terceiro é “Seguimento dezenove”, onde seres estudam sem entender fenômeno que ocorre no “seguimento 19”. Quem fica sem entender nada é o leitor.

Luiz Brás (pseudônimo de Nelson Oliveira) no conta em “Primeiro de Abril Corpus Christi” uma história sobre uma cidade automatizada que toma consciência de sua existência e está sendo combatida por mercenários que tem nomes de personagens da literatura e de HQ´s. Interessante e intrigante.

Daniel Fresnot nos traz três histórias. Em “Exit” o egoísmo de um astronauta e aprecipitação de outro conduz a uma situação de solução impossível. Divertido e inteligente, embora tenha uma inconsistência que tornaria este acontecimento improvável.

O seguinte é o horrível “A vida sexual dos dinossauros”, que aponta como causa provável da extinção dos dinossauros eles terem se tornados gays. Uma piada de mau gosto e inconsistente e ainda “sustentada” por uma informação ultrapassada sobra a AIDS (já faz alguns anos que esta doença não está mais vinculada exclusivamente ao comportamento homossexual). Sem dúvida o pior conto da coletânea.

O terceiro, “Convenção”, parece uma crônica disfarçada de conto (ou vice versa) sobre uma convenção de FC (que aconteceu ou acontecerá?) que não traz “nada de novo no front”.

Também com três contos comparece Ricardo Delfin. “Destino” conta a história de um duelo inusitado e com final surpreendente até para o participante vencedor. Um bom conto.

“Futuro do pretérito” é exatamente isso. O espírito do conto começa na primeira frase: “Eu me lembro de tudo como se fosse amanhã”. E é isto mesmo. A inversão do tempo, de alguém que lembra não do que aconteceu, mas do que acontecerá, percorre toda a narrativa. Uma boa ideia bem realizada.

Em “Gazeta Marciana”, uma revolta de mineiros em Marte é relatada como se fosse notícia de jornal. Competente, mas sem novidades.

Fechando o livro está o meloso e chato “Amor-perfeito”, de Roger-Silva, onde um ser cósmico declama seu amor imortal a outro. Há alguns achados no meio do monólogo de uma imensa declaração de amor, mas se perde na verborragia e elogios rasgados ao ser amado.

Apesar dos deslizes, o projeto Portal 2001 é uma boa leitura. Talvez um cuidado um pouco maior na seleção evitaria que desastres como" Amor-perfeito" e “A vida Sexual dos dinossauros” estivessem nas paginas deste portal.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Morte, no Palco

Morte, no Palco
Autor: Rubens Teixeira Scavone
Editora: Clube do Livro
Ano: 1979
160 páginas


Sinopse: O livro Morte, no Palco nos traz onze contos de um dos pioneiros da FC Brasileira, Rubens Teixeira Scavone.


Comprei este livro num sebo, motivado por conhecer um pouco mais deste escritor muito citado pelo fandom. Normalmente ele comparece sempre quando se pretende reunir contos significativos do gênero, como é o caso das antologias Os Melhores Contos de de Ficção Científica Brasileiros.


Fiquei agradavelmente surpreendido, mesmo já esperando algo muito bom. Scavone é um excelente contista. Em cada um deles revela não só sua habilidade em escrever, como também em compor uma boa história, de criar personagens e verosimilhança num cenário futurista.


Ao se ler cada um dos contos nota-se bastante a influência dos três grandes escritores dos anos 70, os chamados ABC: Asimov, Bradbury e Clark, porém há um jeito muito próprio de Scavone. Um traço marcante é o humor (coisa rara na FC) sutil e surpreendente algumas vezes.

O livro é iniciado pelo excelente ensaio “Ficção científica, uma reavaliação”, escrito pelo próprio autor., onde ele nos mostra sua visão do gênero. Vale destacar uma frase de um de seus últimos parágrafos, que resume seu amor pela FC: “Se imaginar é a mais requintada dádiva concedida ao homem, a ficção científica é o mais alto grau deste privilégio.”


Em “Flores pra uma terrestre” discute-se a questão da beleza fora do seu ambiente. Um flor arrancada de um planeta com uma atmosfera com outras nuances de coloridos seria igualmente bela se transportada para a Terra? E os olhos de quem vê não seriam mais importantes?


“Especialmente, quando sopra outubro” é um conto com características bastante poéticas e realmente merecedor de participar da antologia que reúne os melhores contos de FC. Uma menina tem uma rara habilidade que ninguém consegue explicar.


Em “A evidência do impossível” alienígenas gigantescos chegam à lua de um mundo morto. Seu tamanho descomunal não permite perceber sinais de uma civilização que ali deixara seu marco.


“A caverna” conta a história de um pesquisador amador que se depara com pinturas rupestres e deseja ser o único ter acesso a elas. O autor traça um paralelo com a caverna de Platão, invertendo o real e o ilusório do mito.




Trabalhadores na Lua são os personagens do conto seguinte, “A bolha e a cratera”. Um cruel método de seleção dos que podem, em sua folga, retornar à Terra leva a uma tragédia. O conto satiriza a pretensão de programas psicológicos baseados no comportamento da maioria, dita normal, sem dar conta das nuances individuais.

O menino e o robô é um conto com marcantes características “asimovianas”, com uma pitada de Ray Bradbury. Um menino recebe um robô de presente do pai. O controle remoto é feito por ondas mentais, que acabam gerando um inesperado laço entre o garoto e a máquina.


Em “Número Transcendental”, um fugitivo de um hospício encontra seres alienígenas, mas sabe que jamais acreditarão nele.


Em “O fim da aventura” sete pesquisadores perdem-se numa floresta tropical num mundo desconhecido e acabem morrendo de forma cruel. A história de sua aventura encontra-se narrada no diário do capitão. O comportamento extremamente profissional do psicólogo, a paranóia do comandante em relação a este profissional e o destino final de todos eles compõe um conto carregado de humor caústico e incomodativo, sobretudo no final realmente surpreendente.


“Morte, no palco”, que dá nome à coletânea, nos conta a história de um homem numa situação de risco onde sua única preocupação é de ter uma morte espetacular para que seu filho se orgulhe dele.


Em “O diálogo dos mundos” o humor também da a tônica. O primeiro contato com uma provável civilização acaba mostrando que é mais fácil contatar com extraterrestres do que haver comunicação real entre grupos de seres humanos. Outro conto com humor e final surpresa.


Em “Passagem para Júpiter”, um arquiteto sonha em viajar para o gigante do sistema solar, por ser relativamente inexplorado. O conto, que encerra a coletânea, brinca com os desejos humanos de coisas inalcançáveis.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

As Três Velhas



As Três Velhas
Teatro
Elenco: Maria Alice Vergueiro, Luciano Chirolli,
Pascoal da Conceição e Marco Luz
Espaço Cultural Banco do Brasil
De 20/08/2010 a 31/10/2010


Sinopse: Duas irmãs gêmeas, de avançada idade, e sua criada, igualmente velha, discutem seus sonhos e angústias a partir de uma festa em que só uma delas poderá ir.

Uma das coisas que me motivou a assistir esta peça é seu autor, Alejandro Jodorowsky. Eu o conheci a partir de suas HQs (Incal), seus filmes e seus livros semi-autobiográficos (Psicomagia e Dança da Realidade).

Além disso, ele é um artista de muitas outras faces. Poeta, teatrólogo e tarólogo. A peça surgiu como uma oportunidade única de conhecer seu trabalho como teatrólogo, já que ele quase não é encenado no Brasil. 

O teatro de Jodorowsky é definido, por ele mesmo e pelo teatrólogo espanhol Fernando Arrabal, como “teatro pânico”, sendo aqui “pânico” entendido como relacionado ao deus grego, Pã, que comanda o caos. No teatro pânico não há uma única definição estética ou de gênero, mas a absorção (de certa forma até “antropofágica”, no sentido dado por Oswald de Andrade) de todas elas. Todavia, pode-se enxergar um propósito: mexer com o consciente e o inconsciente do público, trazendo a tona sentimentos e sensações ocultas. Durante a peça a alternância entre humor e drama desconcerta o público, quebrando algumas barreiras internas, conceituais e morais.

O humor muitas vezes nos faz rir de algo que nos incomoda e se dito de outra maneira nos faria sofrer. Rimos na peça das nossas angustias íntimas e ao mesmo tempo universais. Quem nunca sentiu medo de envelhecer? Ou viveu algum momento em que que não havia nenhuma perspectiva.

No caso da peça As Três Velhas, são discutidos: a falta de perspectiva de vida, a decadência provocada pela velhice, a proximidade da morte, a ausência de esperança disfarçada por sonhos irrealizáveis, incesto e abnegação extrema. O vai e vem de emoções nos acompanha até o final que realmente surpreende.

O teatro pânico proposto por Jodorowsky, muitas vezes beira o grotesco, exigindo muito dos atores. O texto de As Três Velhas é um desafio para a interpretação, que foi vencido com louvor pelo elenco, tanto nos momentos dramáticos como nos momentos carregados de humor. A atuação foi soberba.

Recomendo fortemente.



Reportagem em 20/08/2010, no programa Metropolis, 
da TV Cultura, com Maria Alice Vergueiro

Serviço:
As Três Velhas
de Alejandro Jororowsky
Direção: Maria Alice Vergueiro
Elenco: Maria Alice Vergueiro, Luciano Chirolli, Pascoal da Conceição e Marco Luz
Espaço Cultural Banco do Brasil
Rua Alvares Penteado, 112
Centro (Proximo a estação Sé do Metrô)
São Paulo - SP
De 20/08/2010 a 31/10/2010


Maiores informações, clique aqui.

sábado, 14 de agosto de 2010

Galeria do Sobrenatural – Jornada Além da Imaginação

Galeria do Sobrenatural – Jornada Além da Imaginação
Autor: Silvio Alexandre (org.) e outros 18 autores
Editora: Terracota
Ano:  2009
160 páginas

 
Sinopse: Em homenagem aos 50 anos do seriado Além da Imaginação, Sílvio Alexandre buscou em 18 contos de 18 autores diferentes recriar o clima do seriado.

A série foi criada por Rod Serling e teve uma repercussão muito grande na época, ecoando ainda hoje, pois influenciou e continua influenciando muitos autores de fantasia, horror e ficção científica.





 

Além da imaginação 

Será que o desafio foi vencido?

O livro começa muito bem, com o conto “Blade Zone”, de Andrea del Fuego.  Andrea, como sempre brinca (muito bem) mais com a linguagem que com o enredo, criando um conto metalinguistico onde o personagem conduz o autor.  Isso é feito de uma maneira inteligente, com diálogo intenso através do texto. Um conto excelente.

A seguir, “O homem que perdeu seu reflexo”, de Bráulio Tavares. Um magnata das comunicações procura vingar-se de seu desafeto da maneira mais ampla possível, ultrapassando a morte. O inusitado colocado de forma sutil está muito de acordo com o clima da série. Nota dez.

Cláudio Brites opta por dar uma coloração nacional ao colocar um personagem narrador que fala o linguajar de alguém sem muita cultura, mas com a sabedoria do povo. Uma história de terror clássica, que ainda cabe dentro espírito da série, se bem que os melhores episódios fossem de um terror mais sutil. Ainda assim, um bom conto.

“A cápsula”, de Cláudio Villa é um conto de FC puro, que tem como o ponto de partida o encontro de um artefato antigo vagando pelo espaço com uma mensagem esperançosa sobre o povo que o produziu. Mais um ponto a favor.

Danny Marks em “Limites” nos leva mais uma vez ao terror clássico, numa história de casa mal assombrada. O ponto original do autor está numa pequena reviravolta no conceito de “limite” operado na mente da personagem principal.

Em “O Haiti é aqui”,  Fábio Fernandes cria uma fábula de FC sobre racismo, invertendo os papéis discriminador-discriminado. Um bom conto.

Giullia Moon em “No céu, um bater de asas” nos conta a história de um camelô que tenta proteger dos males do mundo uma menina que o acompanha. O jogo de sutis inversões cria um conto sublime e ao mesmo tempo aterrorizante, bem dentro do espírito da série.

 “O demônio está chamando”, de Jana Lauxen, é um conto humorístico, onde um sujeito muito preguiço é tentado por telefone, para justamente continuar a não fazer nada. Apesar do humor ser raro na série, fazia parte de seu contexto. E o conto é bastante divertido.

“Dormindo com o inimigo”, de Luís Felipe Silva, é um conto “survivalista” onde o último homem em um futuro pós-apocalíptico, encontra-se com a última mulher. Mas ambos estão esquecidos do passado da humanidade. Uma boa FC, onde muitas vezes o cenário futurístico e reminiscências de uma tecnologia são colocados de uma maneira sutil.

“O último crepúsculo”, de Márcia Olivieri, e outro conto que trata do futuro da humanidade como espécie. Colocado na forma de um relatório, o conto, embora com uma premissa muito boa, não chega a empolgar. É o mais fraco até aqui.

Mário Carneiro Jr nos traz em “Um estranho incidente noturno” uma coisa bastante comum na série Além da Imaginação: uma pessoa comum diante de um fenômeno incomum, que não  entende. Um rapaz acorda no meio da noite e encontra um ser em sua cama. Um excelente conto.

“Hábito Noturno”, de Max MallMann, volta a ser um conto onde o humor predomina (dá até a impressão que foi inspirado em uma piada sobre o Batman), muito bom, porém, na minha opinião foge um pouco ao espírito da série, pois os fatos narrados não são insólitos, mas apenas inusitados.

“A ponte”, de Miguel Carqueija conta a história de Priscila, uma moça comum, que em viagem a uma cidade litorânea é surpreendida por um fog à noite e é perseguida por alguém que quer atacá-la. A perseguição segue com alterações do cenário levando a um final insólito. Por uma questão puramente estilística, eu preferia eliminar o último parágrafo, deixando a dedução final para o leitor.

“Armagedon em Madureira”, de Octávio Aragão, faz uma boa mistura entre humor e terror e faz algumas citações inclusive a um dos episódios. Uma dona de casa enfrenta uma revolta dos eletrodomésticos. Muito bom.

Em “A Herança”, de Regina Drummond, uma moça herda de sua tia um apartamento repleto de plantas. Horror clássico. Muito bom.

“Apenas Sonhos”, de Shirley Souza, nos traz uma história de uma moça que descobre ter controle sobre seu universo sonhado. Um bom conto. Outro que eu suprimiria o último parágrafo.

O livro fecha com uma história em quadrinhas, roteirizada por Bráulio Tavares e desenhada por Cavani Rosas. O texto brinca com a semelhança entre ratos e morcegos. Os desenhos de Cavani são primorosos.

Do ponto de vista da qualidade dos textos e da homenagem ao seriado, podemos dizer que Silvio Alexandre conseguiu seu intento. Um boa literatura tanto para quem conhece o seriado com para quem nunca o viu.