Morte, no Palco
Autor: Rubens Teixeira Scavone
Editora: Clube do Livro
Ano: 1979
160 páginas
Sinopse: O livro Morte, no Palco nos traz onze contos de um dos pioneiros da FC Brasileira, Rubens Teixeira Scavone.
Comprei este livro num sebo, motivado por conhecer um pouco mais deste escritor muito citado pelo fandom. Normalmente ele comparece sempre quando se pretende reunir contos significativos do gênero, como é o caso das antologias Os Melhores Contos de de Ficção Científica Brasileiros.
Fiquei agradavelmente surpreendido, mesmo já esperando algo muito bom. Scavone é um excelente contista. Em cada um deles revela não só sua habilidade em escrever, como também em compor uma boa história, de criar personagens e verosimilhança num cenário futurista.
Ao se ler cada um dos contos nota-se bastante a influência dos três grandes escritores dos anos 70, os chamados ABC: Asimov, Bradbury e Clark, porém há um jeito muito próprio de Scavone. Um traço marcante é o humor (coisa rara na FC) sutil e surpreendente algumas vezes.
O livro é iniciado pelo excelente ensaio “Ficção científica, uma reavaliação”, escrito pelo próprio autor., onde ele nos mostra sua visão do gênero. Vale destacar uma frase de um de seus últimos parágrafos, que resume seu amor pela FC: “Se imaginar é a mais requintada dádiva concedida ao homem, a ficção científica é o mais alto grau deste privilégio.”
Em “Flores pra uma terrestre” discute-se a questão da beleza fora do seu ambiente. Um flor arrancada de um planeta com uma atmosfera com outras nuances de coloridos seria igualmente bela se transportada para a Terra? E os olhos de quem vê não seriam mais importantes?
“Especialmente, quando sopra outubro” é um conto com características bastante poéticas e realmente merecedor de participar da antologia que reúne os melhores contos de FC. Uma menina tem uma rara habilidade que ninguém consegue explicar.
Em “A evidência do impossível” alienígenas gigantescos chegam à lua de um mundo morto. Seu tamanho descomunal não permite perceber sinais de uma civilização que ali deixara seu marco.
“A caverna” conta a história de um pesquisador amador que se depara com pinturas rupestres e deseja ser o único ter acesso a elas. O autor traça um paralelo com a caverna de Platão, invertendo o real e o ilusório do mito.
Trabalhadores na Lua são os personagens do conto seguinte, “A bolha e a cratera”. Um cruel método de seleção dos que podem, em sua folga, retornar à Terra leva a uma tragédia. O conto satiriza a pretensão de programas psicológicos baseados no comportamento da maioria, dita normal, sem dar conta das nuances individuais.
O menino e o robô é um conto com marcantes características “asimovianas”, com uma pitada de Ray Bradbury. Um menino recebe um robô de presente do pai. O controle remoto é feito por ondas mentais, que acabam gerando um inesperado laço entre o garoto e a máquina.
Em “Número Transcendental”, um fugitivo de um hospício encontra seres alienígenas, mas sabe que jamais acreditarão nele.
Em “O fim da aventura” sete pesquisadores perdem-se numa floresta tropical num mundo desconhecido e acabem morrendo de forma cruel. A história de sua aventura encontra-se narrada no diário do capitão. O comportamento extremamente profissional do psicólogo, a paranóia do comandante em relação a este profissional e o destino final de todos eles compõe um conto carregado de humor caústico e incomodativo, sobretudo no final realmente surpreendente.
“Morte, no palco”, que dá nome à coletânea, nos conta a história de um homem numa situação de risco onde sua única preocupação é de ter uma morte espetacular para que seu filho se orgulhe dele.
Em “O diálogo dos mundos” o humor também da a tônica. O primeiro contato com uma provável civilização acaba mostrando que é mais fácil contatar com extraterrestres do que haver comunicação real entre grupos de seres humanos. Outro conto com humor e final surpresa.
Em “Passagem para Júpiter”, um arquiteto sonha em viajar para o gigante do sistema solar, por ser relativamente inexplorado. O conto, que encerra a coletânea, brinca com os desejos humanos de coisas inalcançáveis.
Filmes, livros, notícias, artigos sobre fantasia, horror, ficção científica e alguma poesia.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
As Três Velhas
As Três Velhas
Teatro
Autor: Alejandro Jodorowsky
Direção: Maria Alice Vergueiro
Elenco: Maria Alice Vergueiro, Luciano Chirolli,
Pascoal da Conceição e Marco Luz
Espaço Cultural Banco do Brasil
De 20/08/2010 a 31/10/2010
Sinopse: Duas irmãs gêmeas, de avançada idade, e sua criada, igualmente velha, discutem seus sonhos e angústias a partir de uma festa em que só uma delas poderá ir.
Uma das coisas que me motivou a assistir esta peça é seu autor, Alejandro Jodorowsky. Eu o conheci a partir de suas HQs (Incal), seus filmes e seus livros semi-autobiográficos (Psicomagia e Dança da Realidade).
Além disso, ele é um artista de muitas outras faces. Poeta, teatrólogo e tarólogo. A peça surgiu como uma oportunidade única de conhecer seu trabalho como teatrólogo, já que ele quase não é encenado no Brasil.
O teatro de Jodorowsky é definido, por ele mesmo e pelo teatrólogo espanhol Fernando Arrabal, como “teatro pânico”, sendo aqui “pânico” entendido como relacionado ao deus grego, Pã, que comanda o caos. No teatro pânico não há uma única definição estética ou de gênero, mas a absorção (de certa forma até “antropofágica”, no sentido dado por Oswald de Andrade) de todas elas. Todavia, pode-se enxergar um propósito: mexer com o consciente e o inconsciente do público, trazendo a tona sentimentos e sensações ocultas. Durante a peça a alternância entre humor e drama desconcerta o público, quebrando algumas barreiras internas, conceituais e morais.
O humor muitas vezes nos faz rir de algo que nos incomoda e se dito de outra maneira nos faria sofrer. Rimos na peça das nossas angustias íntimas e ao mesmo tempo universais. Quem nunca sentiu medo de envelhecer? Ou viveu algum momento em que que não havia nenhuma perspectiva.
No caso da peça As Três Velhas, são discutidos: a falta de perspectiva de vida, a decadência provocada pela velhice, a proximidade da morte, a ausência de esperança disfarçada por sonhos irrealizáveis, incesto e abnegação extrema. O vai e vem de emoções nos acompanha até o final que realmente surpreende.
O teatro pânico proposto por Jodorowsky, muitas vezes beira o grotesco, exigindo muito dos atores. O texto de As Três Velhas é um desafio para a interpretação, que foi vencido com louvor pelo elenco, tanto nos momentos dramáticos como nos momentos carregados de humor. A atuação foi soberba.
Recomendo fortemente.
Reportagem em 20/08/2010, no programa Metropolis,
da TV Cultura, com Maria Alice Vergueiro
Serviço:
As Três Velhas
de Alejandro Jororowsky
Direção: Maria Alice Vergueiro
Elenco: Maria Alice Vergueiro, Luciano Chirolli, Pascoal da Conceição e Marco Luz
Espaço Cultural Banco do Brasil
Rua Alvares Penteado, 112
Centro (Proximo a estação Sé do Metrô)
São Paulo - SP
De 20/08/2010 a 31/10/2010
Maiores informações, clique aqui.
sábado, 14 de agosto de 2010
Galeria do Sobrenatural – Jornada Além da Imaginação
Galeria do Sobrenatural – Jornada Além da Imaginação
Autor: Silvio Alexandre (org.) e outros 18 autores
Editora: Terracota
Ano: 2009
160 páginas
Sinopse: Em homenagem aos 50 anos do seriado Além da Imaginação, Sílvio Alexandre buscou em 18 contos de 18 autores diferentes recriar o clima do seriado.
A série foi criada por Rod Serling e teve uma repercussão muito grande na época, ecoando ainda hoje, pois influenciou e continua influenciando muitos autores de fantasia, horror e ficção científica.
Será que o desafio foi vencido?
O livro começa muito bem, com o conto “Blade Zone”, de Andrea del Fuego. Andrea, como sempre brinca (muito bem) mais com a linguagem que com o enredo, criando um conto metalinguistico onde o personagem conduz o autor. Isso é feito de uma maneira inteligente, com diálogo intenso através do texto. Um conto excelente.
A seguir, “O homem que perdeu seu reflexo”, de Bráulio Tavares. Um magnata das comunicações procura vingar-se de seu desafeto da maneira mais ampla possível, ultrapassando a morte. O inusitado colocado de forma sutil está muito de acordo com o clima da série. Nota dez.
Cláudio Brites opta por dar uma coloração nacional ao colocar um personagem narrador que fala o linguajar de alguém sem muita cultura, mas com a sabedoria do povo. Uma história de terror clássica, que ainda cabe dentro espírito da série, se bem que os melhores episódios fossem de um terror mais sutil. Ainda assim, um bom conto.
“A cápsula”, de Cláudio Villa é um conto de FC puro, que tem como o ponto de partida o encontro de um artefato antigo vagando pelo espaço com uma mensagem esperançosa sobre o povo que o produziu. Mais um ponto a favor.
Danny Marks em “Limites” nos leva mais uma vez ao terror clássico, numa história de casa mal assombrada. O ponto original do autor está numa pequena reviravolta no conceito de “limite” operado na mente da personagem principal.
Em “O Haiti é aqui”, Fábio Fernandes cria uma fábula de FC sobre racismo, invertendo os papéis discriminador-discriminado. Um bom conto.
Giullia Moon em “No céu, um bater de asas” nos conta a história de um camelô que tenta proteger dos males do mundo uma menina que o acompanha. O jogo de sutis inversões cria um conto sublime e ao mesmo tempo aterrorizante, bem dentro do espírito da série.
“O demônio está chamando”, de Jana Lauxen, é um conto humorístico, onde um sujeito muito preguiço é tentado por telefone, para justamente continuar a não fazer nada. Apesar do humor ser raro na série, fazia parte de seu contexto. E o conto é bastante divertido.
“Dormindo com o inimigo”, de Luís Felipe Silva, é um conto “survivalista” onde o último homem em um futuro pós-apocalíptico, encontra-se com a última mulher. Mas ambos estão esquecidos do passado da humanidade. Uma boa FC, onde muitas vezes o cenário futurístico e reminiscências de uma tecnologia são colocados de uma maneira sutil.
“O último crepúsculo”, de Márcia Olivieri, e outro conto que trata do futuro da humanidade como espécie. Colocado na forma de um relatório, o conto, embora com uma premissa muito boa, não chega a empolgar. É o mais fraco até aqui.
Mário Carneiro Jr nos traz em “Um estranho incidente noturno” uma coisa bastante comum na série Além da Imaginação: uma pessoa comum diante de um fenômeno incomum, que não entende. Um rapaz acorda no meio da noite e encontra um ser em sua cama. Um excelente conto.
“Hábito Noturno”, de Max MallMann, volta a ser um conto onde o humor predomina (dá até a impressão que foi inspirado em uma piada sobre o Batman), muito bom, porém, na minha opinião foge um pouco ao espírito da série, pois os fatos narrados não são insólitos, mas apenas inusitados.
“A ponte”, de Miguel Carqueija conta a história de Priscila, uma moça comum, que em viagem a uma cidade litorânea é surpreendida por um fog à noite e é perseguida por alguém que quer atacá-la. A perseguição segue com alterações do cenário levando a um final insólito. Por uma questão puramente estilística, eu preferia eliminar o último parágrafo, deixando a dedução final para o leitor.
“Armagedon em Madureira”, de Octávio Aragão, faz uma boa mistura entre humor e terror e faz algumas citações inclusive a um dos episódios. Uma dona de casa enfrenta uma revolta dos eletrodomésticos. Muito bom.
Em “A Herança”, de Regina Drummond, uma moça herda de sua tia um apartamento repleto de plantas. Horror clássico. Muito bom.
“Apenas Sonhos”, de Shirley Souza, nos traz uma história de uma moça que descobre ter controle sobre seu universo sonhado. Um bom conto. Outro que eu suprimiria o último parágrafo.
O livro fecha com uma história em quadrinhas, roteirizada por Bráulio Tavares e desenhada por Cavani Rosas. O texto brinca com a semelhança entre ratos e morcegos. Os desenhos de Cavani são primorosos.
Do ponto de vista da qualidade dos textos e da homenagem ao seriado, podemos dizer que Silvio Alexandre conseguiu seu intento. Um boa literatura tanto para quem conhece o seriado com para quem nunca o viu.
Autor: Silvio Alexandre (org.) e outros 18 autores
Editora: Terracota
Ano: 2009
160 páginas
Sinopse: Em homenagem aos 50 anos do seriado Além da Imaginação, Sílvio Alexandre buscou em 18 contos de 18 autores diferentes recriar o clima do seriado.
A série foi criada por Rod Serling e teve uma repercussão muito grande na época, ecoando ainda hoje, pois influenciou e continua influenciando muitos autores de fantasia, horror e ficção científica.
Além da imaginação
Será que o desafio foi vencido?
O livro começa muito bem, com o conto “Blade Zone”, de Andrea del Fuego. Andrea, como sempre brinca (muito bem) mais com a linguagem que com o enredo, criando um conto metalinguistico onde o personagem conduz o autor. Isso é feito de uma maneira inteligente, com diálogo intenso através do texto. Um conto excelente.
A seguir, “O homem que perdeu seu reflexo”, de Bráulio Tavares. Um magnata das comunicações procura vingar-se de seu desafeto da maneira mais ampla possível, ultrapassando a morte. O inusitado colocado de forma sutil está muito de acordo com o clima da série. Nota dez.
Cláudio Brites opta por dar uma coloração nacional ao colocar um personagem narrador que fala o linguajar de alguém sem muita cultura, mas com a sabedoria do povo. Uma história de terror clássica, que ainda cabe dentro espírito da série, se bem que os melhores episódios fossem de um terror mais sutil. Ainda assim, um bom conto.
“A cápsula”, de Cláudio Villa é um conto de FC puro, que tem como o ponto de partida o encontro de um artefato antigo vagando pelo espaço com uma mensagem esperançosa sobre o povo que o produziu. Mais um ponto a favor.
Danny Marks em “Limites” nos leva mais uma vez ao terror clássico, numa história de casa mal assombrada. O ponto original do autor está numa pequena reviravolta no conceito de “limite” operado na mente da personagem principal.
Em “O Haiti é aqui”, Fábio Fernandes cria uma fábula de FC sobre racismo, invertendo os papéis discriminador-discriminado. Um bom conto.
Giullia Moon em “No céu, um bater de asas” nos conta a história de um camelô que tenta proteger dos males do mundo uma menina que o acompanha. O jogo de sutis inversões cria um conto sublime e ao mesmo tempo aterrorizante, bem dentro do espírito da série.
“O demônio está chamando”, de Jana Lauxen, é um conto humorístico, onde um sujeito muito preguiço é tentado por telefone, para justamente continuar a não fazer nada. Apesar do humor ser raro na série, fazia parte de seu contexto. E o conto é bastante divertido.
“Dormindo com o inimigo”, de Luís Felipe Silva, é um conto “survivalista” onde o último homem em um futuro pós-apocalíptico, encontra-se com a última mulher. Mas ambos estão esquecidos do passado da humanidade. Uma boa FC, onde muitas vezes o cenário futurístico e reminiscências de uma tecnologia são colocados de uma maneira sutil.
“O último crepúsculo”, de Márcia Olivieri, e outro conto que trata do futuro da humanidade como espécie. Colocado na forma de um relatório, o conto, embora com uma premissa muito boa, não chega a empolgar. É o mais fraco até aqui.
Mário Carneiro Jr nos traz em “Um estranho incidente noturno” uma coisa bastante comum na série Além da Imaginação: uma pessoa comum diante de um fenômeno incomum, que não entende. Um rapaz acorda no meio da noite e encontra um ser em sua cama. Um excelente conto.
“Hábito Noturno”, de Max MallMann, volta a ser um conto onde o humor predomina (dá até a impressão que foi inspirado em uma piada sobre o Batman), muito bom, porém, na minha opinião foge um pouco ao espírito da série, pois os fatos narrados não são insólitos, mas apenas inusitados.
“A ponte”, de Miguel Carqueija conta a história de Priscila, uma moça comum, que em viagem a uma cidade litorânea é surpreendida por um fog à noite e é perseguida por alguém que quer atacá-la. A perseguição segue com alterações do cenário levando a um final insólito. Por uma questão puramente estilística, eu preferia eliminar o último parágrafo, deixando a dedução final para o leitor.
“Armagedon em Madureira”, de Octávio Aragão, faz uma boa mistura entre humor e terror e faz algumas citações inclusive a um dos episódios. Uma dona de casa enfrenta uma revolta dos eletrodomésticos. Muito bom.
Em “A Herança”, de Regina Drummond, uma moça herda de sua tia um apartamento repleto de plantas. Horror clássico. Muito bom.
“Apenas Sonhos”, de Shirley Souza, nos traz uma história de uma moça que descobre ter controle sobre seu universo sonhado. Um bom conto. Outro que eu suprimiria o último parágrafo.
O livro fecha com uma história em quadrinhas, roteirizada por Bráulio Tavares e desenhada por Cavani Rosas. O texto brinca com a semelhança entre ratos e morcegos. Os desenhos de Cavani são primorosos.
Do ponto de vista da qualidade dos textos e da homenagem ao seriado, podemos dizer que Silvio Alexandre conseguiu seu intento. Um boa literatura tanto para quem conhece o seriado com para quem nunca o viu.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Um conto para esta sexta-feria 13
Necronomicon
Álvaro A. L. Domingues
Finalmente eu tinha o que desejava. Um velho antiquário me vendera O Necronomicon. O Grimório dos Grimórios. O desejo de todos os magos e o terror de todos os fracos. O alfarrábio recendia a papel velho, embora alguns autores tivessem dito que suas páginas eram pergaminhos feitos a partir de pele humana. E para dar um tom mais aterrorizante, diziam que a pele de muitas pessoas fora arrancada quando elas ainda estavam vivas. Se ele fosse aberto em determinada hora, poder-se-ia ouvir os gritos. Pouco importava, pois jamais abriria suas páginas. Não desejava tamanho poder, queria apenas o livro.
Enquanto carregava o pesado volume para casa, fiquei imaginando a cara do irmão que fizera demoradas pesquisas na internet e garantia que o livro não existia.
Levei-o para meu quarto, escondendo-o o melhor que pude, dentro de minha gaveta de camisetas. O meu irmão não mexeria lá, pois não gostava do estilo de minhas roupas. Heavy Metal não era a praia dele desde que raspara a cabeça e se juntara com um grupo de skin heads. Não entendia a opção de meu irmão. Não combinava com seu jeito nerd gritar slogans racistas e bater em punks, nordestinos e metaleiros. Na verdade achava que fazia isso só para me menosprezar. Neste instante senti ódio. Não dele, mas das coisas que o transformaram de um tímido internauta em um agressivo skin head. Percebi que não era um simples raiva, nem ódio comum. Era um ódio que vinha de dentro.
Naquela noite tive um sonho estranho. Estava no Tribunal da Inquisição cercado de frades. Eu era o réu. Estava acorrentado, ao lado de dois soldados. Ouvia cânticos gregorianos, e entre os frades via meu irmão com um rosto assustado. Viu em cima da mesa do juiz o Necronomicon, a prova contra mim. Vários frades me acusaram de práticas sinistras que envolviam bruxaria e até sacrifícios humanos. Chegou a vez do irmão falar. Sabia que meu irmão não gostava de mim e desprezava qualquer coisa em que acreditava e que provavelmente corroboraria as acusações. Fiquei aguardando o pronunciamento, mas acordei antes de ouví-lo. Levou algum tempo para perceber que aquilo fora um sonho, mas a sensação de ódio permanecia. Era uma hora da manhã.
Lembrei-me do livro. Abri-o com cuidado. Senti um forte cheiro. Não era simplesmente o cheiro de mofo ou de "guardado", mas, se pudesse defini-lo, seria do próprio Inferno. Apesar de nauseado, continuei. O livro era escrito em árabe. Isso me deixou zangado a princípio, mas o que poderia esperar? O livro poderia estar escrito em sanscrito, latin ou em qualquer língua desconhecida para mim e até para o mundo, já que teoricamente o Grimório fora escrito por uma humanidade extinta, esperando para ser despertada.
Olhava as palavras com frustração, quando as letras começaram a se dissolver diante de meus olhos. Talvez o primeiro contato com o ar tivesse feito isso, mas não era um fenômeno tão simples de ser explicado. As letra surgiram de novo, agora em português, um português muito antigo, parecendo daquelas cantigas de amigo que vira em minhas aulas de literatura. Meu instinto de preservação, ainda alerta, fez com que fechasse imediatamente o livro, mas a curiosidade falou mais alto e o abri novamente.
Comecei a ler o texto e senti aquele ódio novamente. Imediatamente, ouvi o som de cantos gregorianos e vi as páginas transformarem-se numa visão do julgamento que assistira. Me vi novamente como o réu em julgamento e meu irmão depondo:
– Ele é inocente! O Grimório é falso! Um de vocês o colocou em seu claustro apenas para provar sua culpa!
Ouvi um grande oh! Seguido por um burburinho. O Juiz se levantou com visível raiva:
– Prendam este insolente! Ele será julgado junto com o irmão, como cúmplice!
A cena seguinte foi ver a mim mesmo e meu irmão sendo queimados em uma grande fogueira. Senti até as dores. Talvez tivesse gritado e acordado meus pais e o meu irmão.
Quando voltei a mim viu-me diante do livro. Não havia mais ninguém em seu quarto, sinal de que não gritara. E no livro a palavra escrita em caracteres góticos: VINGANÇA.
Bateu-me uma forte sensação de cansaço e voltei a dormir. Acordei muito tarde, muito mal. Meu irmão saira como de costume sem destino definido, já que abandonara tudo em prol de sua "turma".
Minha mãe estava preparando-se para sair. Após alguns meses desempregada, estava indo trabalhar. Recomendou-me um monte de coisas já que eu ficaria só em casa e dali a pouco iria para a escola.
Fiquei só por cerca de meia hora sem muito animo par fazer nada, quando contrariamente a seu costume, meu irmão voltou. Sua aparência estava muito estranha. Eu diria que apavorado.
– O que houve perguntei? -- perguntei.
Meu irmão me olhou com os olhos cheios de pavor e disse:
– Um de meus amigos skin head foi assassinado. E com requintes de crueldade: arrancaram a pele dele deixando-o morrer aos poucos, cheio de dor.
Tranquilizei meu irmão o melhor que pude. Quando ele se acalmou, fui até meu quarto correndo. Abri minha gaveta e, logo abaixo do Grimório, cuidadosamente dobrado algo que julguei ser pele humana. Uma sensação forte de satisfação percorreu todo o meu ser. Mas sabia que não pararia ali.
Álvaro A. L. Domingues
Finalmente eu tinha o que desejava. Um velho antiquário me vendera O Necronomicon. O Grimório dos Grimórios. O desejo de todos os magos e o terror de todos os fracos. O alfarrábio recendia a papel velho, embora alguns autores tivessem dito que suas páginas eram pergaminhos feitos a partir de pele humana. E para dar um tom mais aterrorizante, diziam que a pele de muitas pessoas fora arrancada quando elas ainda estavam vivas. Se ele fosse aberto em determinada hora, poder-se-ia ouvir os gritos. Pouco importava, pois jamais abriria suas páginas. Não desejava tamanho poder, queria apenas o livro.
Enquanto carregava o pesado volume para casa, fiquei imaginando a cara do irmão que fizera demoradas pesquisas na internet e garantia que o livro não existia.
Levei-o para meu quarto, escondendo-o o melhor que pude, dentro de minha gaveta de camisetas. O meu irmão não mexeria lá, pois não gostava do estilo de minhas roupas. Heavy Metal não era a praia dele desde que raspara a cabeça e se juntara com um grupo de skin heads. Não entendia a opção de meu irmão. Não combinava com seu jeito nerd gritar slogans racistas e bater em punks, nordestinos e metaleiros. Na verdade achava que fazia isso só para me menosprezar. Neste instante senti ódio. Não dele, mas das coisas que o transformaram de um tímido internauta em um agressivo skin head. Percebi que não era um simples raiva, nem ódio comum. Era um ódio que vinha de dentro.
Naquela noite tive um sonho estranho. Estava no Tribunal da Inquisição cercado de frades. Eu era o réu. Estava acorrentado, ao lado de dois soldados. Ouvia cânticos gregorianos, e entre os frades via meu irmão com um rosto assustado. Viu em cima da mesa do juiz o Necronomicon, a prova contra mim. Vários frades me acusaram de práticas sinistras que envolviam bruxaria e até sacrifícios humanos. Chegou a vez do irmão falar. Sabia que meu irmão não gostava de mim e desprezava qualquer coisa em que acreditava e que provavelmente corroboraria as acusações. Fiquei aguardando o pronunciamento, mas acordei antes de ouví-lo. Levou algum tempo para perceber que aquilo fora um sonho, mas a sensação de ódio permanecia. Era uma hora da manhã.
Lembrei-me do livro. Abri-o com cuidado. Senti um forte cheiro. Não era simplesmente o cheiro de mofo ou de "guardado", mas, se pudesse defini-lo, seria do próprio Inferno. Apesar de nauseado, continuei. O livro era escrito em árabe. Isso me deixou zangado a princípio, mas o que poderia esperar? O livro poderia estar escrito em sanscrito, latin ou em qualquer língua desconhecida para mim e até para o mundo, já que teoricamente o Grimório fora escrito por uma humanidade extinta, esperando para ser despertada.
Olhava as palavras com frustração, quando as letras começaram a se dissolver diante de meus olhos. Talvez o primeiro contato com o ar tivesse feito isso, mas não era um fenômeno tão simples de ser explicado. As letra surgiram de novo, agora em português, um português muito antigo, parecendo daquelas cantigas de amigo que vira em minhas aulas de literatura. Meu instinto de preservação, ainda alerta, fez com que fechasse imediatamente o livro, mas a curiosidade falou mais alto e o abri novamente.
Comecei a ler o texto e senti aquele ódio novamente. Imediatamente, ouvi o som de cantos gregorianos e vi as páginas transformarem-se numa visão do julgamento que assistira. Me vi novamente como o réu em julgamento e meu irmão depondo:
– Ele é inocente! O Grimório é falso! Um de vocês o colocou em seu claustro apenas para provar sua culpa!
Ouvi um grande oh! Seguido por um burburinho. O Juiz se levantou com visível raiva:
– Prendam este insolente! Ele será julgado junto com o irmão, como cúmplice!
A cena seguinte foi ver a mim mesmo e meu irmão sendo queimados em uma grande fogueira. Senti até as dores. Talvez tivesse gritado e acordado meus pais e o meu irmão.
Quando voltei a mim viu-me diante do livro. Não havia mais ninguém em seu quarto, sinal de que não gritara. E no livro a palavra escrita em caracteres góticos: VINGANÇA.
Bateu-me uma forte sensação de cansaço e voltei a dormir. Acordei muito tarde, muito mal. Meu irmão saira como de costume sem destino definido, já que abandonara tudo em prol de sua "turma".
Minha mãe estava preparando-se para sair. Após alguns meses desempregada, estava indo trabalhar. Recomendou-me um monte de coisas já que eu ficaria só em casa e dali a pouco iria para a escola.
Fiquei só por cerca de meia hora sem muito animo par fazer nada, quando contrariamente a seu costume, meu irmão voltou. Sua aparência estava muito estranha. Eu diria que apavorado.
– O que houve perguntei? -- perguntei.
Meu irmão me olhou com os olhos cheios de pavor e disse:
– Um de meus amigos skin head foi assassinado. E com requintes de crueldade: arrancaram a pele dele deixando-o morrer aos poucos, cheio de dor.
Tranquilizei meu irmão o melhor que pude. Quando ele se acalmou, fui até meu quarto correndo. Abri minha gaveta e, logo abaixo do Grimório, cuidadosamente dobrado algo que julguei ser pele humana. Uma sensação forte de satisfação percorreu todo o meu ser. Mas sabia que não pararia ali.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Sonhos, cinema e ficção científica
O filme A Origem me fez recordar outros filmes e livros cujo tema é sonho ou discutir a realidade.
O Cinema em si vive de criar ilusões, similares a sonhos e é natural que o tema surja de forma mais explícita de vez em quando.
Há até uma estética, surgida oficialmente em 1924, chamada Surrealismo, que se ocupa justamente do inconsciente, então recém descoberto por Freud. Neste movimento, está um cineasta, Luiz Buñuel , que em 1929 filmou "Um Cão Andaluz", com clima totalmente onírico. O filme foi baseado em três sonhos de Salvador Dali, pintor considerado ícone do movimento.
Bunñel seguiu carreira, com o tema sonhos implícita ou explicitamente presente em suas obras. O movimento do Surrealismo “encerrou oficialmente” em 1966, com a morte de seu mentor, André Breton.
Todavia esta estética ainda tem seus ecos no cinema, sobretudo na obra de David Linch. Dela vale destacar "Cidade dos Sonhos" (Mulholland Drive, 2001). Nota zero para a tradução do título, que explicita o que deveria ficar implícito. Neste filme, uma mulher é salva de ser assassinada ao ocorrer um acidente com o carro onde está sendo transportada. Acorda desmemoriada é ajudada por outra moça, que começa e investigar o que poderia ter-lhe acontecido. Há referencias ao teatro e ao cinema, tratadas de forma onírica.
David Linch também usa os sonhos na série Twin Peaks. Os sonhos no enredo são usados como um meio de comunicação entre entidades espirituais e o agente Cooper. Aliás, é muito comum usar tratamento onírico para mostrar o mundo espiritual, talvez pela não necessidade do respeito às leis de física que o suposto mundo espiritual teria. Fantasmas atravessam paredes e anjos voam. Em Twin Peaks os dois universos estão intrinsecamente ligados.
Nesta animação, uma psicanalista utiliza-se de uma máquina para analisar os sonhos de seus pacientes, aparecendo neles como uma moça chamada Paprika. As coisas se complicam quando o aparelho é roubado por um suposto terrorista, que invade os sonhos das pessoas, impondo o seu.
O enredo é extremamente criativo e está recheado de referências ao cinema, ao circo, bares, desfiles festivos e à internet, dentro do contexto de que tudo isto é similar a sonhos. Varias histórias, sonhos e realidades se misturam, com destaque para os dois mistérios principais: quem é o responsável pelo roubo e pela invasão do inconsciente e qual é o trauma do detetive que sonha repetidamente o mesmo sonho. Aqui a interpretação não é freudiana, mas muito ligada ao cinema.
Uma excelente fantasia steampunk francesa, "O Ladrão dos Sonhos" (La Cité des Enfants Perdues) trata dos sonhos como uma necessidade humana imperiosa. Nesta história, um homem não consegue sonhar e para isto sequestra crianças das quais tenta roubar os sonhos, através de uma máquina que os transfere para sua mente. O circo aqui também é uma forte referência. O clima sombrio e densamente noturno faz-nos sentir em um pesadelo.
O Cinema em si vive de criar ilusões, similares a sonhos e é natural que o tema surja de forma mais explícita de vez em quando.
Há até uma estética, surgida oficialmente em 1924, chamada Surrealismo, que se ocupa justamente do inconsciente, então recém descoberto por Freud. Neste movimento, está um cineasta, Luiz Buñuel , que em 1929 filmou "Um Cão Andaluz", com clima totalmente onírico. O filme foi baseado em três sonhos de Salvador Dali, pintor considerado ícone do movimento.
Bunñel seguiu carreira, com o tema sonhos implícita ou explicitamente presente em suas obras. O movimento do Surrealismo “encerrou oficialmente” em 1966, com a morte de seu mentor, André Breton.
Um quadro de Salvador Dali
Todavia esta estética ainda tem seus ecos no cinema, sobretudo na obra de David Linch. Dela vale destacar "Cidade dos Sonhos" (Mulholland Drive, 2001). Nota zero para a tradução do título, que explicita o que deveria ficar implícito. Neste filme, uma mulher é salva de ser assassinada ao ocorrer um acidente com o carro onde está sendo transportada. Acorda desmemoriada é ajudada por outra moça, que começa e investigar o que poderia ter-lhe acontecido. Há referencias ao teatro e ao cinema, tratadas de forma onírica.
É marcante a cena onde as duas vão a um teatro mambembe onde são representados vários números. Em um deles, o apresentador diz “Silencio. No hai banda”. Os instrumentos param e música continua tocando. Altamente onírico, como tudo que acontece naquele teatro e em várias partes do filme, sobretudo o final, bastante freudiano.
Silencio! No hai banda!
David Linch também usa os sonhos na série Twin Peaks. Os sonhos no enredo são usados como um meio de comunicação entre entidades espirituais e o agente Cooper. Aliás, é muito comum usar tratamento onírico para mostrar o mundo espiritual, talvez pela não necessidade do respeito às leis de física que o suposto mundo espiritual teria. Fantasmas atravessam paredes e anjos voam. Em Twin Peaks os dois universos estão intrinsecamente ligados.
Em Twin Peaks o universo onírico
se mistura ao espiritual
Estes dois universos também estão presentes em Giulietta dos Espíritos, de Frederico Fellini, onde uma mulher, após uma sessão espírita, passa a ver espíritos, misturados a lembranças de sua infância, fantasias e sonhos. Final também bastante freudiano.
Sonho, realidade e cinema se misturam em Paprika, animê de Satyoshi Kon de 2006, que eu considero uma obra prima.
Giulietta dos Espíritos
Nesta animação, uma psicanalista utiliza-se de uma máquina para analisar os sonhos de seus pacientes, aparecendo neles como uma moça chamada Paprika. As coisas se complicam quando o aparelho é roubado por um suposto terrorista, que invade os sonhos das pessoas, impondo o seu.
O enredo é extremamente criativo e está recheado de referências ao cinema, ao circo, bares, desfiles festivos e à internet, dentro do contexto de que tudo isto é similar a sonhos. Varias histórias, sonhos e realidades se misturam, com destaque para os dois mistérios principais: quem é o responsável pelo roubo e pela invasão do inconsciente e qual é o trauma do detetive que sonha repetidamente o mesmo sonho. Aqui a interpretação não é freudiana, mas muito ligada ao cinema.
Uma excelente fantasia steampunk francesa, "O Ladrão dos Sonhos" (La Cité des Enfants Perdues) trata dos sonhos como uma necessidade humana imperiosa. Nesta história, um homem não consegue sonhar e para isto sequestra crianças das quais tenta roubar os sonhos, através de uma máquina que os transfere para sua mente. O circo aqui também é uma forte referência. O clima sombrio e densamente noturno faz-nos sentir em um pesadelo.
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