quinta-feira, 29 de abril de 2010

Lost, o projeto Dharma e o I Ching

Este artigo foi publicado originalmente no Homem Nerd, em agosto de 2006. Como os números fazem parte de um dos mistérios ainda não resolvidos, vale ainda a teoria.

Lost, o projeto Dharma e o I Ching

Boa parte da trama de Lost está baseada numa seqüência de números que interliga todos os personagens e os eventos da ilha. E entre estes eventos está a descoberta do projeto Dharma. Quem está acompanhando a série sente a onipresença do símbolo associado ao projeto:


O significado de cada um dos trigramas está na tabela a seguir:



Os trigramas combinados dois a dois formam os hexagramas, que é um conjunto de 64 símbolos, numerados de 1 a 64. Notem bem: numerados! Cada um deles tendo uma interpretação total e uma parcial para cada uma das linhas em mutação (o I Ching também é conhecido como o Livro das Mutações). Numa seqüência, o hexagrama seguinte é gerado pela mudança de uma ou mais linhas.

Os números da série Lost são: 4, 8, 15, 16, 23 e 42. Notem que nenhum deles é maior que 64, portanto associá-los ao I Ching não é nenhuma heresia...

Tem outra coisa em Lost que aponta para o I Ching. Os chineses foram os primeiros a dar conta da existência do magnetismo terrestre e o associaram a muitos fenômenos da natureza. Inventaram a bússola (e notem a "coincidência" da disposição dos trigramas com os pontos cardeais) e o Feng Shui, que seria, resumidamente, a ciência do controle do fluxo energético da Terra, em especial do magnetismo (que no Ocidente virou apenas uma maneira de decorar a casa, completamente esvaziado de seu significado original).

Em volta do cisne aparecem usa seqüência de traços abertos _ _ e fechados ___ , compondo ao todo oito símbolos (que por "coincidência" estão na bandeira da Coréia...). Estes símbolos estão associados ao milenar oráculo I Ching. Cada um deles corresponde a um trigrama, formadas por três linhas numeradas de cima para baixo.

A tabela que mostramos a seguir traz a composição dos hexagramas. Números de Lost em vermelho:





A série começa com o número 4. O hexagrama 4 é composto pelos trigramas "Montanha" e "Abismo" (ou Água, dependendo da tradução). Montanha e água representam o quê? (Dou um doce pra quem responder...). Uma ilha! Montanha sobre abismo pode ser interpretado também com um desastre. A interpretação clássica é "Inexperiência Jovem", ou uma grande imprudência.

Interpretação do I Ching:
A Insensatez Juvenil prevalece.
Não sou eu quem procura o jovem insensato, é o jovem insensato quem me procura. À primeira consulta eu respondo.
Se ele pergunta duas ou três vezes, torna-se importuno.
Ao que se torna importuno não dou nenhuma informação.
A perseverança é favorável.

Vamos ao número seguinte:
O Hexagrama 8 é formado por Abismo sobre a Terra, ou Água sobre Terra (um rio). O chineses vêem aqui a simbologia de vários rios afluindo em um ponto só. E interpretam este Hexagrama como solidariedade ou cooperação, necessárias num momento de infortúnio.

A interpretação Chinesa:
Manter-se unido traz boa fortuna.


Indague ao oráculo mais uma vez se você possui elevação, constância e perseverança; então não há culpa.
Os inseguros gradualmente se aproximam.
Aquele que chega tarde demais encontra o infortúnio.

O Hexagrama 15 é formado por Terra sobre Montanha. A terra esconde uma montanha. Os chineses vêem nisso a expressão da Modéstia. Pode significar também um segredo (a terra plana na realidade oculta uma montanha)

Interpretação Chinesa:
A MODÉSTIA cria o sucesso.
O homem superior conduz as coisas à conclusão.
A montanha no interior da terra: a imagem da MODÉSTIA.
Assim o homem superior diminui o que é demasiado e aumenta o que é insuficiente.
Ele pesa as coisas, igualando-as.

O Hexagrama 16 é formado por Trovão sobre a Terra. O trovão é visto pelos chineses como algo que pode despertar o entusiasmo. A queda de um raio pode despertar aquele que estava desanimado.

Agora vejam pra que o entusiasmo seria necessário:
ENTUSIASMO. É favorável designar ajudantes e pôr os exércitos em marcha.

Em tempo: o I Ching foi a maneira que o Rei When, enquanto estava prisioneiro, encontrou para escrever seu plano de fuga, de tomada do poder e de governo, de forma a não despertar suspeitas... Não é à toa que era uma das leituras obrigatórias para os soldados japoneses durante a segunda Guerra e para os revolucionários de Mao...

Agora o porque:
Hexagrama 23. Montanha sobre a Terra. Os chineses vêem um desmoronamento. Descrevem forças inferiores lutando contra forças superiores, usando de subterfúgios e estratagemas escusos solapando a montanha, provocando a sua desintegração. Isso é bom ou ruim? Depende de que lado você está. Será que Jack está na base da montanha solapando-a? Ou são Outros que se utilizam de recursos escusos pra destruí-los?
A interpretação chinesa:
A montanha repousa sobre a terra: a imagem da DESINTEGRAÇÃO. Assim, os superiores só podem garantir suas posições mediante dádivas aos inferiores.

Hexagrama 42.
É formado por Vento sobre Trovão. O significado deste hexagrama foge um pouco da superposição de trigramas, mas considera a própria mutação como importante. A linha mais abaixo do hexagrama é forte, junto com outras duas fracas forma o trigrama inferior. O superior é o contrário, os dois pontos mais altos são fortes e o mais abaixo é fraco. O chineses vêem a imagem de uma barra forte que desceu, tirando a força de cima para pô-la embaixo. O nome do trigrama é Aumento, significando o sacrifício do superior em favor do inferior, pois no fundo, governar é servir.

Vejam a interpretação chinesa:
AUMENTO. É favorável empreender algo.

É favorável atravessar a grande água.

Em outra palavras: é melhor cair fora da ilha...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Revista Lama n°1

Revista Lama nº 1
Editor: Fabiana Vianna
Lançamento: Outubro 2009
Páginas: 60

Lama
é uma revista pulp especializada em Fantasia, Suspense e Terror. Pulp é um tipo de publicação, surgida nos anos 20, feita com papel barato (aí o nome pulp, polpa), visando principalmente a diversão.

O projeto gráfico procura lembrar uma revista antiga, com as marcas do envelhecimento de suas páginas. Os textos são enriquecidos por ótimas ilustrações.

Este primeiro número é aberto pela fotonovela policial "17:30 e Já é Noite em Curitiba", de autoria de Fabiano Vianna. Fotonovelas foram bastante populares nos 50 e 60, percorrendo as páginas das revistas femininas e algumas publicações exclusivamente voltadas para este tipo de narrativa. "17:30", apesar de resgatar um gênero antigo, busca inovar na linguagem, rompendo o modelo de "quadro a quadro" característico. As cenas se superpõem sem que haja um limite claro entre elas. As falas dos personagens e a narração aparecem como se fossem tecladas numa máquina de escrever. O recurso funciona bem para criar o clima da narrativa, mas algumas vezes dificulta a leitura.

A seguir temos o conto "Teu Sangue em meus sapatos engraxados", de Ana Paula Maia (autora de A Guerra dos Bastardos). Trata-se de um delírio descrito em primeira pessoa de alguém que vaga pela noite. Não temos outra informação a não ser o que ele fala. E fala em monstros que o perseguem e de seus sapatos sujos de sangue. Ao leitor, conduzido pelos desvarios do narrador, só resta imaginar o que poderia estar acontecendo.

Giulia Moon nos brinda com "Gueixa", um conto com sua personagem Kaori. Trata-se de um bem conduzido conto, onde uma gueixa cuida de seu cliente. Um texto levemente erótico, conduzido como se fosse um solo de violino, que de repente é quebrado.

"Mórbidas Confissões", de Assionara Souza, conta a história de um relacionamento tumultuoso entre um estudante e seu avô, que conduzem a uma vingança.

"Dr. Hannibal apaixonado", de Luiz Felipe Leprevost, é uma história de um amor mórbido de um psicopata canibal por sua vítima, contado do ponto de vista do assassino.

Daniel Gonçalves nos conta em "No silencio da mata" a trágica perseguição na Mata Atlântica de alguns excursionistas a um animal aparentemente desconhecido. Desta vez não foi o gato que foi morto pela curiosidade...

"Álbum de Família", de Martha Argel nos conta história de alguém que tem dois pais e duas mães, ou melhor, um pai e o resto...

"O Aleph de Botafogo" de Simone Campos, recria "O Aleph" de Borges no Rio de Janeiro, de uma forma muito bem humorada.

"A Idéia" de Fabiano Vianna, é literalmente a história de uma boa idéia. Como podemos ter certeza de que a idéia que nos encomendaram era realmente boa?

Uma carta que é entregue a um morto é o ponto de partida para o conto "A carta", de Emanuel R. Marques.

Em "O Anjo da USP", de Gisele Pacola, uma conversa entre duas amigas conduz a um relato sobre um violento caso de estupro. E o criminoso pode ser qualquer um.

Fechando a edição há uma pequena coleção de micro e mini contos de Rodriane DL.

Como se pode notar, Lama traz ao leitor realmente uma grande variedade de temas indo do policial à fantasia, passando pelo terror sutil e o horror cru.

Maiores informações, clique aqui

Paradigmas 3

Paradigmas 3
Autor: Richard Diegues (org)
Editora: Tarja
Páginas: 120
Ano: 2009


Sinopse:
Volume 3 da coleção Paradigmas que reúne contos que têm em comum não terem nada em comum (aparentemente).
 

O nome foi escolhido pela Tarja Editorial para justificar este tipo de reunião, tentando romper os limites entre gêneros, em especial, Ficção Científica, Terror e Fantasia. 

A quebra de paradigmas funciona no sentido em que há realmente uma boa amostra de gêneros. 

Entretanto, poucos dos contos presentes em Paradigmas 3 realmente romperam os limites gêneros a que estão presos. Quase todos, sem muito esforço, podem ser classificados num gênero específico, com uma provável exceção do conto de Hugo Vera, "O Homem Bicorpóreo", já publicado na coletânea Solarium, onde a parapsicologia ganha o espaço da magia num conto de FC (os puristas dirão que parapsicologia é também ciência).
Apesar de não terem rompido os limites, os contos são bons, o que indica um cuidado na escolha dos textos por parte de seu organizador, Richard Diegues. Este é um dos mérito desta coletânea, num momento em que no mercado estão surgindo várias coleções sem um cuidado de uma seleção mais criteriosa por parte de seus organizadores.

"Baby Beef, Baby", de Richard Diegues. Um muito bem humorado conto cyberpunk, onde um programador tem que testar um módulo de segurança de um programa que controla um rebanho de gado. O bom humor fica por conta da contextualização "histórica" da situação mundial e porque o gado é tão importante naquele contexto e da maneira como os o personagens navegam no mundo real e virtual.

"O Mito da Fecundação", de Ludimila Hashimoto. Uma fábula onde duas sociedades primitivas dependem uma da outra e uma delas tenta romper com esta dependência apropriando-se do conhecimento da outra.

"Reminiscências de um mundo verde", de Ronaldo Luiz de Souza. Um conto com fundo ecológico, onde somente privilegiados podem possuir um jardim. Apesar da mensagem ser óbvia, a maneira de contá-la é original, sobretudo o desfecho.

"O Animal Morto", Saulo Sisnado. História de Terror, onde uma menina encontra em seu jardim uma carcaça de um estranho animal. Na abertura, o autor nos dá uma pista do que nos espera, pois afirma que tem preferências por histórias onde o monstro é mais explícito.

"Lamentações de Jeremias", de Lúcio Manfredi. Uma ficção científica onde o humor predomina e conta a história de um autor frustrado com um crítico que costumava arrasar suas obras.

"Esperança Corrompida", de Leandro Reis. Fantasia medieval sobre um vilarejo assolado por um demônio que derrota um a um todos os cavaleiros que ousam enfrentá-lo.

"Em Berço Esplêndido", de Camila Fernandes. Num conto narrado como se fosse um artigo de revista ou tópico de livro didático, a autora cria uma lenda como as que costumam povoar as histórias do interior de São Paulo.

"Choque de Civilizações", de Marcelo Jacinto Ribeiro. Fantasia onde predomina o humor, sobre uma invasão involuntária feita por um contador carente de imaginação ao reino dos gnomos.


"Hatzemberg", Davi Gonzáles. Após a morte misteriosa de um colega, um padre é assolado por fortes dores de cabeça, acompanhado de pesadelos com seres que exigem que abandone a religião cristã, toda vez que ministra seus ofícios religiosos.

"A Velha Remington", Wolmir Alcântara. Terror onde um escritor mantém seus originais ocultos porque atribui um poder mágico a uma velha máquina de escrever. Lembra bastante o seriado Além da Imaginação.

"O Cavaleiro e o Senhor do Inverno", de Gianpaolo Celli. Outra fantasia medieval, onde um cavaleiro para honrar o código de conduta, auxilia uma inimiga a salvar seu irmão.

"De Vento e de Pedra", de Viviane Yamabuchi. Fantasia Mitológica sobre o relacionamento de uma fada com uma estátua.

"O Homem Bicorpóreo", de Hugo Vera. FC onde a ciência em foco é a parapsicologia.

Nerd Shop:
Paradimas 3, de Richard Diegues -- Organizador (Tar
ja)

7 Vidas – A aventura de uma pessoa e seus passados

7 Vidas – A aventura de uma pessoa e seus passados
Autores: André Diniz (roteiro) Antonio Eder (desenhos)
Editora: Conrad
Páginas: 124
Formato: 155 mm X 230 mm
Ano: 2009

Sinopse:
André Diniz faz um relato sobre sua experiência com Terapia de Vidas Passadas, a que se submeteu em busca de respostas e de autoconhecimento.

André deixa Santa Teresa, no interior do estado do Rio de Janeiro, e vai morar em Copacabana, onde tem um contrastante contato diário com a violência urbana. Essa experiência faz com que ele mude para Petrópolis, cidade mais tranqüila. Atitude que o faz sentir a necessidade de busca das suas raízes e junto com uma série experiências de devaneios espontâneos o leva a procurar uma terapia. Sua escolha recai sobre a Terapia de Vidas Passadas.

André não está comprometido com seitas ou filosofias reencarnacionistas e, antes de optar pelo tratamento, até tinha restrições quanto a esta forma de pensamento, porém sua terapeuta deu a real dimensão do tratamento: ainda que as vivências relatadas pelo paciente possam não ser reais, são produtos de seu inconsciente e podem ser úteis tanto para um tratamento específico como para autoconhecimento. 

A partir de uma escada imaginária de dez degraus, que o paciente desce simbolicamente em direção a seu insconsciente, é induzido um estado alterado de consciência no qual ele toma contato com uma lembrança que pode ser um fragmento de uma "vida passada", normalmente relacionado com alguns de seus problemas emocionais, mentais ou físicos. No caso de André, um desconforto persistente na sua perna direita é o ponto de ligação entre as várias vidas que vai "relembrando". Fora do consultório, na "vida atual", André começa a resgatar fatos importantes de sua infância e, aos poucos reconcilia-se com ela.

Em suas vidas passadas, algumas apresentam lances dramáticos outra são mais tranquilas. Assume posições em várias classes sociais e traços de personalidades considerados positivos, como bondade e coragem, outros, negativos, como arrogância e sadismo. Algumas vezes foi vítima, outras, algoz. Há até alguns lances onde há humor.

Relatos de terapias tendem a cair ou em uma descrição fria do processo ou em apologia de uma determinada forma de tratamento. André consegue escapar destas duas armadilhas, pois quer apenas contar uma boa história, ainda que seja sobre uma experiência pessoal muito íntima. E consegue. 

O traço limpo de Antonio Eder torna a leitura da HQ bem suave e cativante.

Nerdshop:
7 Vidas: A aventura de uma pessoa em seus passados, de André Diniz e Antonio Eder (Conrad)

terça-feira, 27 de abril de 2010

Distrito 9

Distrito 9 (District 9)
Direção: Neill Blomkamp
Roteiro: Neill Blomkamp, Terri Tatchell
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt
Duração: 112 minutos

Sinopse:
Uma nave paira sobre a cidade de Joanesburgo África do Sul, sem manter contato. Há uma forte expectativa de que sejam muito evoluídos ou hostis, mas durante três meses nada acontece e o governo resolve agir abrindo a nave, encontrando milhares de extraterrestres subnutridos. A solução é retirá-los de lá e abrigá-los num alojamento provisório. O tempo passa e, sem que haja qualquer solução, aos poucos, o alojamento se transforma numa favela (o Distrito 9). Os alienígenas são segregados e marginalizados. Os problemas aumentam e o governo decide afastá-los da cidade, colocando-os num campo de concentração. 


Narrada na forma de um documentário, a trama de Distrito 9 (District 9) lembra muito o apartheid, regime político que separava negros e brancos na África do Sul até o inicio dos anos 80, quando ação de Nelson Mandela, entre outros, terminou com essa forma de discriminação. Além disso, a favela (que poderia ser qualquer uma de qualquer lugar do mundo) com seus problemas está muito bem retratada, com exploração entre marginalizados: os traficantes nigerianos explorando os alienígenas, com drogas e prostituição, em troca de suas armas. 

Os alienígenas não são simpáticos num primeiro momento aos olhos do espectador. São feios, lembrando baratas crescidas (são chamados pelos humanos pejorativamente de "camarões"), nojentos (sobrevivem revirando lixo, urinam na rua), violentos e individualistas.

O público tende a simpatizar com o protagonista humano, uma espécie de "oficial de justiça" de uma empresa privada, a MNU, que tem de entregar as intimações aos "favelados" para que deixem suas casas. O personagem é um típico "laranja", que mal percebe que na realidade está no comando de uma força militar de extermínio. Não esconde seus preconceitos e até reage com prazer ao ver um ninho de aliens ser queimado. Quando os desmandos vão crescendo e as verdadeiras intenções da MNU aparecem, tanto o personagem quanto o público mudam de postura. 

Mas o filme não é formado apenas por uma trama sócio-política. A luta final para a fuga do Distrito 9 é muito bem feita, não deixando o fã desse tipo de ação insatisfeito. Os alienígenas são muito bem caracterizados e todos eles são criados por computação gráfica de tal forma que temos a impressão que podemos encontrar um deles na esquina. 

Uma excelente ficção científica, que mostra que essa forma narrativa não é apenas "escapismo". 

Para ver o trailer, clique aqui.