quarta-feira, 14 de abril de 2010

Espelhos Irreais

Ficha Técnica

Título:
Espelhos Irreais
Autores: Ana Cristina Rodrigues (org.), Aguinaldo Peres, Ana Carolina Silveira, Daniel Gomes, Rodrigo Reis
Editora: Fabrica dos Sonhos / Multifoco
186 páginas

 
Sinopse: Coletânea de contos de fantasia, tendo como tema a realeza em mundos fantásticos. 

A Fábrica de Sonhos é uma proposta que reúne leitores e escritores de ficção científica e fantasia que buscam um espaço para mostrar seu trabalho. Este livro é o primeiro trabalho em papel da Fábrica.

Um dos cuidados que tive ao fazer esta resenha foi levar em conta a inexperiência de alguns dos autores em colocar seus textos para o público em geral. Dar "a cara pra bater" é um dos méritos de cada um deles e só por isso já merecem elogios. O cuidado está em ser sincero e ao mesmo tempo não desestimular um talento nascente. Tentarei evitar a "síndrome de Monteiro Lobato" (que desestimulou Anita Malfati ao criticá-la). 

O livro é formado por cinco contos, um de cada autor, tendo por base o tema da realeza. O título do livro Espelhos Irreais nos remete imediatamente à impressão de se tratar de um livro de fantasia; a palavra "irreais", porém, ainda que derivada de real, como rei, não nos remete de imediato à realeza. O que fica forte é a ideia de fantasia, mas não a de realeza. Só sabemos do mote que une os contos ao ler o prólogo, ou, para os que tem o hemisfério direito dominante, ao ver a ilustração da capa (em que a realeza está representada por uma torre refletida por um espelho).

Cada conto é precedido por uma breve biografia de seus autores para que o leitor consiga situá-los em um contexto e saiba com quem vai conversar.

O primeiro conto, de Aguinaldo Peres, "Os Três Trílios", nos traz um história construída como um conto de fadas que, apesar de usar vários elementos do gênero, consegue inovar ao construir personagens sem se prender a estereótipos. Ao longo da narrativa consegue surpreender o leitor em vários momentos. Uma boa história.

O segundo conto, "A Morte do Temerário", é de Ana Cristina Rodrigues, organizadora da coletânea e autora com bastante projeção na internet. Seu conto centra-se na figura histórica de Carlos, o Temerário, e as circunstâncias de sua morte, procurando dar um contorno heroico ao personagem através de uma explicação mágica para o acontecimento. Muito bem escrito e envolvente.

O terceiro, "Bohtu e o Elfo Negro", de Rodrigo Reis, conta a história do resgate do heroísmo adormecido do filho de um feiticeiro. O herói relutante tem que enfrentar um ser temível para vingar a morte e resgatar a honra de seus pais, além de salvar a cidade da presença maligna do elfo negro do título. O personagem e seus medos estão muito bem construídos e o final ultrapassa o simples derrotar do antagonista. Muito bom também.

O quarto, "Prelúdio", de Daniel Gomes, conta a história de dois mercenários que tentam resgatar uma princesa em busca de uma recompensa. A trama mostra-se maior do que eles podem supor. 

Este é o mais longo e o mais fraco dos contos. A leitura foi para mim difícil e cansativa. A impressão que eu tive é a de uma narrativa coletada em uma mesa de RPG, em que o mestre tinha que fazer contornos mirabolantes para ajustar a história, estragada por um bando de jogadores rebeldes. Talvez por isso tenha ocorrido o excesso de descrição de ações, como se fossem turnos (um bate, outro apanha e depois vice-versa).

O último, "A Gênese de um Novo Mundo", de Ana Carolina, transporta para um ambiente de ficção científica a típica história de estabelecimento de uma dinastia por um pretenso rei corrupto, à custa de uma princesa herdeira e aparentemente ingênua. Uma história divertida e bem escrita, porém, com os personagens muito estereotipados. Isso não tira o brilho da narrativa, visto que a originalidade da autora está na ambientação em que o sangue real vira DNA e o reino, um novo planeta a ser colonizado, sem que nada fique forçado.

Destes autores, quatro já podem ir além, com voos mais altos (uns até já estão nesse caminho). 

Quanto ao Daniel, seria bom ele buscar uma narrativa mais simples, escrever alguns contos curtos para aprender a ser sintético e um pouco mais coerente. Ajudaria se ele tiver um amigo leitor que se dispusesse a ler e apontar os defeitos, o que costuma-se chamar de leitor beta (não vale a mãe, que só vai falar bem, e nem o cunhado, que só vai falar mal).

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A Âncora dos Argonautas

Título: A Ancora dos Argonautas
Autor: Miguel Carqueija
Editora: Hiperespaço & Megalon (amadoras) / Coleção Fantástica
Páginas: 80
Ano: 1999

Sinopse:
duas adolescentes gêmeas com poderes paranormais se envolvem acidentalmente no assassinato de um homem. Isso é apenas a ponta de um iceberg de uma trama que envolve o culto a uma entidade maligna (nada menos que Cthulhu), o Papa e a Âncora dos Argonautas. 

Miguel Carqueija mostra, neste pequeno livro, alguns das características que retomou em seu romance mais recente, Farei o meu destino.
 
Os personagens são adolescentes do sexo feminino, talvez uma tentativa de abordar este tipo de público, meio avesso a histórias de aventuras. 

A enredo começa bem e as meninas nos cativam pela mistura de inocência, ousadia e um poder mágico que elas mesmas não sabem qual a extensão dele. 

Mas Carqueija erra na mão na violência, sobretudo a praticada pelas meninas, que chegam a torturar um prisioneiro. Ainda que fosse necessária a cena de tortura, com certeza algum tipo de drama interno deveria aparecer. 

Mais adiante as meninas comandam um verdadeiro massacre dos vilões, ainda que elas sejam responsáveis só em reverter o ataque de um instrumento mágico. 

Em muitos pontos da narrativa ocorrem cortes abruptos, do tipo as meninas têm um sonho e na cena seguinte estão conversando com a mãe em um outro contexto, fazendo o leitor se perguntar "mas elas não estavam dormindo agora mesmo?", revelando uma decupagem descuidada, já que provavelmente teve que reduzir a narrativa para ela caber em 80 páginas.

A aventura situa-se num futuro próximo, mas ao ler toda a noveleta não temos a sensação de estar no futuro. A única coisa que justifica o futuro são os deslocamentos rápidos, que pressupõe veículos mais evoluídos. Se o autor de quando em quando não fizesse referências não saberíamos que os acontecimentos eram futuros. Uma destas referências era o fato do pai das meninas estar em viagem no espaço, portanto impossibilitado de ajudar. Se fosse no presente, poderia estar no Japão, que o efeito seria o mesmo.

Por outro lado a magia permeia a história a e solução dos problemas são baseadas em poderes especiais vindo de uma magia milenar. O autor poderia ter esquecido o ponto de vista da Ficção Científica e ficado com a magia, sem maiores traumas.

O grande vilão Cthulhu está bem caracterizado e a cena em que as meninas o enfrentam está bem construída, sendo este o ponto forte de sua narrativa.

Solarium

Solarium - Contos de Ficção Científica
Autor: Frodo Oliveira (organizador)
Editora: Multifoco, selo Anthology
Páginas: 176
Ano: 2009

Sinopse:
Antologia de 25 contos de ficção científica, de 23 autores diferentes. 


Reunindo contos de autores em sua maioria sem ter publicado em papel antes, esta antologia tem um mérito que já a destaca de outras com estas mesmas características. A regularidade da qualidade. Os contos selecionados tem uma qualidade de média a muito boa, sem nenhum "anti-destaque". Isso garante uma leitura flui de um conto para outro, sem tropeços.

Reunir uma grande quantidade de autores também traz algumas vantagens. Uma boa parte dos subgêneros está representada: temos contos de ficção científica hard, lembrando Asimov e Clark em alguns momentos, outros lembram Jornada nas Estrelas, tem um conto cyberpunk, alguns de FC soft, outros apocalípticos e pós apocalípticos e até pendendo para a fantasia, com lances poéticos lembrando Ray Bradbury.


Como desvantagem, corre-se o risco de uma boa idéia de um autor ser repetida por outro. Isso aconteceu com um final "surpresa" que aparece mais de uma vez em contos de enredos similares. Talvez uma seleção mais cuidadosa ou a redução do número de contos evitasse este deslize.
Eis os contos:

A Terra do Nunca – Chico Annes: A partir da frase "Penso logo Existo", o autor cria uma raça onde só pensamento garante a sua exitência.

Atlantis – Marcelo Andrade: Um conto sobre Atalntida, com enredo previsível

A Última Esperança da Terra – Humberto Amaral: uma raça invasora em busca de um lar encontra a "casa" ocupada. Quem seria este invasor?

Centro Médico das Civilizações – Danny Marks: Drama ecológico. Heroína com grande empatia por ser espacial em sofrimento.

Conspiração – Marcus Vinícius da Silva. Começo lembra documentário da Discovery. Bom desenvolvimento, final surpresa prejudicado.

Desvios – Ricardo Delfin: Conto do subgênero "História Alternativa". Faltou algo para engrenar e sensibilizar o leitor. Lembra Wikipédia. O mais fraco da coletânea.

Embriões – Humberto Amaral: Lembra jornada nas Estrelas. Uma carga perigosa está sendo transportada sem que a Tripulação tenha conhecimento. Texto bem humorado.

Endereço Certo – Larissa Redeker. Uma boa história de OVNI.

Esperança – André Garzia: Redescoberta da Matemática. Lembra " Sensação de Poder" de Asimov.

Fullen – Luiz R. R. Faria Jr. Um hacker deve literalmente o olho da cara. Um bom conto cyberpunk.

Globus-5: A Descoberta de um Novo Mundo – Ronaldo Luiz Souza: Hard. Discurso moralista com mensagem óbvia.

Guardiões do Universo, Um Conflito Eterno – Márcio Aragão: Hard. Alienígenas bem construídos. Boas cenas de batalha. Discurso "patriótico" à Independence Day no final.

Mutante Alcoólatra – Magalhães Neto: literalmente conta um "causo", com bastante humor.

O Alienígena – Emanoel Ferreira: O sol não brilha mais e um alienígena pode ser a causa. Final surpresa prejudicado.

O Homem Bicorpóreo – Hugo Vera: Um bom conto que envolve parapsicologia com um bom desenvolvimento.

O Limite que nos Cerca – Lino França Jr: Bom conto sobre discriminação e imortalidade. Lembra Ray Bradbury na temática e na maneira de contar a história.

O Novo Começo – Humberto Amaral: Pós apocalíptico. Final com humor cínico.

Os Estranhos – José Geraldo Gouvêa: Pós apocalípitico. Lembra história de Zumbis.

Oxia Palus – Nuno Lago: Um bom conto envolvendo sexo, jogo e telecinesia.

País de Gelo – Victor Stéfano: Um conto mais de fantasia que FC. Muito bem escrito.

Posto 7 – Pablo Casado: Um fotografo busca a foto perfeita.

Produto Descartável – Gabriel Zigue: Pós Apocalíptico em um futuro distante. Um menino redescobre a origem da raça humana. Talvez tarde demais.

Reprodutores – Frodo Oliveira: Pós apocalíptico. Que tal ter como profissão fazer sexo em nome do Estado?

Roleta Russa – Chico Annes: O destino da Humanidade pode ser decidido pela sorte combinada com seu desejo de auto destruição.

X – A Última Incógnita – Sabine Mendes: Um vírus de computador benéfico e espalhado no mundo inteiro. Mensagem otimista para fechar o livro após tantas distopias...

Merecem destaque: "A Terra do Nunca", por colocar de forma original a questão da evolução e da sobrevivência a qualquer preço. "O Homem Bicorpóreo" por apresentar a parapsicologia bem contextualizada."Oxia Palus", por colocar sexo de forma pertinente num contexto de ficção científica. "O Limite que nos Cerca" e "País de Gelo", pela condução do texto de forma quase que poética. "Fullen", por ser extamente o oposto: cínico e, até, cruel. "Mutante Alcoólatra", pela forma humorística de conduzir o tema. 
 

terça-feira, 13 de abril de 2010

O Fim da Picada

Ficha Técnica


O Fim da Picada
Diretor: Christian Saghaard
Roteiro: Christian Saghaard
Elenco: Ricardo De Vuono, Cláudia Juliana, Sandro Acrísio, Analú Silveira, Thais Pavão, Edu Guimarães
Duração: 80min
Ano: 2008
País: Brasil 

Sinopse: No ano de 1850, Macário participa de uma orgia satânica em uma praia. Ao voltar para São Paulo, passa mal e pede pousada numa taverna. Lá encontra com Exu-Lebara, entidade feminina do Candomblé, associada por Macário a Satã. Ele pede que a entidade o leve à São Paulo. Ela faz o que ele manda, mas em vez de levá-lo à São Paulo de 1850, o leva à São Paulo de 2008.

Aviso: contém spoilers

O filme inspira-se (pouco!) na peça de teatro Macário de Alvares de Azevedo e, como na peça, faz um crítica severa à cidade de São Paulo e a seus habitantes. Em uma das cenas, Lebara-Satã diz "a cidade tem nome de santo, mas ela é minha", indicando ser São Paulo o próprio Inferno.

A intenção de Christian Saghaard foi atualizar Macário, trazendo em uma profusão de imagens e sons, a violência, a miséria e a hipocrisia dos habitantes de São Paulo.

Entre os habitantes, está um favelado que cheira cola e num processo de transformação, que pode ou não ser fruto da sua alucinação ou a de Macário, torna-se o Saci Pererê, que divide o "reinado" com Lebara.

Outro é uma professora de classe média, com um filho pequeno, que segue pela cidade fingindo não ver a violência que a cerca, apesar de, em suas aulas de pré-escola tentar conscientizar as crianças sobre o assunto. Mas mesmo aí não vê que o tema dos desenhos de várias crianças é uma violência crua e até sádica, com decapitações e esquartejamentos.

Outro ainda é a madame que compra carne moída e a come crua na frente do seu cachorro apenas para provocá-lo.

Saghaard abusa das imagens delirantes, com muitos travelings*, inversão de cores, cortes abruputos, sequencias ilógicas, e dos sons que misturam instrumentos musicais clássicos (como cravo e vilolino) com batuques, sons da cidade, funk e rap. Paradoxalmente, muitas das imagens delirantes trazem a tona problemas da realidade de São Paulo.

Merece destaque as referências ao filme de Stanley Kubrick, 2001, Uma Odisséia no Espaço (um armário velho lembra o monolito negro e Macário anda em algumas cenas na cidade vestido com uma roupa que lembra um astronauta, ao som de Assim falou Zaratrustra) e a cena onde a professora perde literalmente a cabeça e a põe de volta, agindo como nada tivesse acontecido. Nota dez para o sorriso cínico do filho da professora (um ator mirim de uns quatro anos).

Outro destaque é para as legendas de abertura do filme. Enquanto os títulos estão passando, o som ao fundo vai preparando o espectador para a primeira cena.

Finalizando os destaques, está a homenagem a José Mojica Marins, mestre do gênero, que "encarna" por alguns segundos o seu personagem Zé do Caixão.

Como pontos fracos há o uso de imagens um tanto óbvias para simbolizar algumas coisas, por exemplo, o Mickey Mouse sequestrando o filho da professora. Outro ponto é o uso sem digerir muito bem de elementos do folclore (o Saci) e da cultura afro (com mil demônios, Christian... Exu NÃO É Satã!). E cansa ouvir a toda hora da boca de vários personagens: "antes, o diabo perseguia os homens, hoje, os homens perseguem o diabo".
Pelo uso constante de alegorias e de imagens e sons delirantes, o filme O Fim da Picada é difícil de ser assistido e tem algumas mensagens difíceis de serem engolidas, (sendo a principal, "o mal é endêmico").
* Quando a câmera é colocada em um carrinho que percorre a cena.

Contos e Lendas da Mitologia Celta

Ficha Técnica

Autor: Christian Leorier
Tradução: Monica Stoael
Ilustrações: Maurício Negro
Editora: Martins Fontes
Páginas: 215

Sinopse: Coletânea de contos celtas de várias épocas.
Diferentemente da mitologia grega, a mitologia celta, apesar de sua forte influência nas lendas arturianas e da recente expansão da Wicca, que se apropria dela, é pouco conhecida. Este livro busca resgatar alguns dos mitos celtas e trazê-los ao leitor de hoje.

Existem duas razões principais para este desconhecimento:

  1. Os celtas, apesar de terem uma escrita, faziam pouco uso dela, pois consideravam que a palavra tinha poderes mágicos e reservavam a escrita para casos especiais.
  2. Foram derrotados pelos romanos que destruíram monumentos, documentos e mataram detentores de conhecimentos, eliminando boa parte dos parcos registros da história do povo celta.
O livro é composto por 16 histórias, seguidas por um posfácio em que o autor explica suas escolhas e analisa um pouco do material disponibilizado ao leitor. É inteligente colocar este tipo de informação no final do livro, pois evita spoilers e uma leitura contaminada pela posição do ensaísta.

Os contos devem ser lidos pelo que são: uma narrativa construída para, principalmente, entreter.

Muito mais que os gregos, os celtas deixam os deuses próximos dos homens, a ponto de só os percebermos por seus feitos extraordinários. Deusas sofrem as dores do parto e deuses envelhecem ou são mortos por flechas, enquanto homens podem se transformar em animais.

A primeira história, "O Erro do Rei Nuada", conta a saga das tribos de Dana e seu rei em confronto com os filborg, com a ajuda dos fomores. Os filborg e os fomores representam as forças primitivas e destrutivas, enquanto a tribo de Dana e seu rei são as forças da ordem.

Mas a ordem em si mesma não é um bem puro, pois pode se transformar em tirania, como ocorre quando Bres assume o trono.

A saga do rei Nuada segue em "A Segunda Batalha de Mag Tuareg", onde os antes aliados fomores agora são o inimigo. Neste conto tomamos consciência de quem são os filhos de Dana.

O terceiro conto, "A Busca dos Filhos de Tuireann", nos mostra um dos valores caros aos celtas: o heróismo, considerado desta forma como a capacidade de realizar feitos maravilhosos (vencer monstros invencíveis, subir a mais alta montanha, descer ao mais profundo dos mares, etc.).

O heroísmo pode mesmo trazer redenção ao mais cruel assassino, mesmo ante aos familiares das vítimas, e uma morte com honra seria um dos mais admiráveis feitos, como nos é mostrado nesta história.

A quarta e a quinta histórias ("O Príncipe do Abismo" e "A Cavaleira de Aberth") são sobre Pwyll, conhecido por ser Príncipe do Abismo. O "abismo", o que seria? Como em muitas culturas, é o reino subterrâneo dos mortos. Pwyll, após ter cometido uma descortesia com um estranho numa caçada, se oferece para reparar o erro. O estranho, porém, não é ninguém menos que Arawn, príncipe do abismo. Na nossa cultura seria o mesmo que encontrar-se com Satã, porém, para os Celtas não existe tanta polarização entre o senhor dos mortos e os homens ou deuses. Tanto que é possível um acordo entre eles, sem que haja um comprometimento maior a não ser cada um cumprir sua parte, e tanto um como outro honram o combinado.

O conto 6, "A Montanha Sobre o Mar", conta a origem de Londres e por que ela venceu tantos ataques até os dias de hoje.

O sétimo, "A Mulher Mais Bonita do Mundo", é sobre a relutância de Arianrod, uma poderosa maga, em aceitar seu filho e os estratagemas do pai adotivo da criança, Gwydion, para conseguir as bençãos da mãe para o menino. Nesta mesma história, há a criação de uma mulher artificial (feita por magia), por quem todos se apaixonam, até quem deve destruí-la.

O conto 8 fala de "A Fraqueza dos Ulates" (irlandeses). Uma deusa, Macha, vive oculta entre os homens, casada com um um deles, de quem fica grávida. Essa deusa, por falta da compaixão dos irlandeses em relação a seu estado, os amaldiçoa a sentir as dores do parto uma vez por ano, durante 15 dias.

O nono conto fala de um jovem Cuchulainn, que ousa reivindicar para si "O pedaço do herói", a primeira porção do primeiro porco a ser servido num banquete. Aqui a questão da honra e da bravura ganham novamente relevância, mostrando quão caro eram esses valores para os celtas. No conto, os dois pretendentes ao pedaço do herói brigam o dia inteiro para provar quem é digno de tal iguaria, mesmo que ao cair da noite a carne esteja pra lá de fria.

O décimo conto, "O Touro Castanho de Culnge", tem como tema a inutilidade da guerra movida por simples ambição, em que os dois lados saem perdedores. Apesar dos celtas serem um povo guerreiro e conquistador, tinham uma ética bem delineada em relação aos conflitos, como está retratado nesse conto.

O 11o conto, "Um Voo dos Cisnes", é uma bela história de amor com um final surpreendente, cuja mensagem é o verdadeiro amor transcende a aparência física, um conceito que só volta a aparecer nos contos de fada após a Bela e a Fera e mais recentemente em Shrek.

Os contos 12, 13 e 14 ("O Rei sem Reino", "O Casamento de Fionn" e "O Ciúme de Fionn") são sobre o Fionn, rei dos fiana, com destaque para "O Ciúme de Fionn". O amor proibído, mas realizado sob duras penas, de Diarmaid e Graine é o tema desta grande história, que pode ser considerada ancestral de "Tristão e Isolda" do ciclo arturiano e de todas as histórias de amor, de Romeu e Julieta à novela das sete.

O conto 15, "A ilha das mulheres", conta uma história com contornos fantásticos, em que aparecem seres belíssimos e tentadores que afastam os homens de seus propósitos e distorções de tempo, que lembram histórias fantásticas e até de ficção científica mais contemporâneas.

O último conto, "O Príncipe dos Bardos", conta a história de Tailesin, o maior de todos os bardos. A sua origem foi recontada inúmeras vezes em várias lendas orais e escritas. Tailesin faz parte do ciclo arturiano. Uma parte importantante é o duelo com Keridwen, em que Gwyon e a maga duelam entre si cada um assumindo a forma de um animal (como aparece no duelo entre o mago Merlin e a Madame Min no desenho A Espada era a Lei, dos estúdios Disney).

O último conto encerra muito bem o livro, pois os celtas colocavam o homem dentro de um universo em que conviviam com os deuses lado a lado e poderiam não só interagir diretamente como lutar e até vencê-los e, como acreditavam no poder da palavra, o simples fato de fabular e contar histórias dava um poder extraordinário a quem tinha capacidade de imaginação. Tal qual Tailesin, os criadores de fábulas atuais – escritores, poetas, roteiristas, diretores de cinema e teatro – tem um poder incomensurável, sendo capazes de criar mitos e lendas que ultrapassam a época em que foram escritos.

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  • Contos e Lendas da Mitologia Celta, de Christian Leorier (Martins Fontes). Livraria Cultura