segunda-feira, 29 de março de 2010

O Livro de Eli (ou seria de São Leibowitz?)

Ficha Técnica

O Livro de Eli (The Book of Eli)
Direção: Albert Hughes, Allen Hughes
Roteiro: Gary Whitta
Elenco: Denzel Washington, Gary Oldman, Mila Kunis, Ray Stevenson
Duração: 118 minutos
País: EUA

Sinopse: em um mundo pós apocalíptico, um viajante solitário, Eli, carrega o último exemplar da bíblia. Este livro será disputado pelo "dono" de um vilarejo, que acredita que a bíblia pode ser usada para manipular as pessoas.

Quem conhece o excelente livro Um Cântico para São Leibowitz não pode deixar de sentir uma pontinha de déjà vu. Isso por que o cenário pós apocalíptico e a luta para preservar o conhecimento sob o ponto de vista religioso são comuns nos dois enredos

Eli carrega com fé o que ele diz ser o último exemplar da bíblia do rei James, a tradução mais aceita para o inglês do livro sagrado. Sua atitude de preservar a todo custo o seu exemplar entre em choque com tentativa do tirano senhor de uma cidade de se apossar do livro para controlar as pessoas.

O filme contrapõe, metaforicamente, a fé institucionalizada e corrompida (do tirando local) contra a fé individual e pura, ainda que ignorante (de Eli). Esta é a posição das igrejas protestantes, pelo menos em sua origem. O fato de tanta ação transcorrer por causa de um livro religioso, dentro de uma determinada ótica (cristã e protestante) pode incomodar alguns espectadores. A estes seria interessante recomendar: é apenas diversão. Curta a ação e esqueça os preconceitos (seus e dos realizadores do filme).

O núcleo da narrativa foca o conflito forasteiro versus dono do lugar. Isso lembra filmes de western. Se tirarmos os carros destruídos das ruas, substituir motos por cavalos e por chapéus pretos e brancos, temos aí um bom e velho western. Tem até um duelo de rua e um tiroteio a uma casa sitiada (ainda que as armas sejam mais modernas...). E outro duelo num clássico saloon, que serve bebidas e mulheres  (cujo dono, por "coincidência" é o vilão).

Merece destaque a fotografia que justamente tenta remeter ao velhos filmes de western, que tende para o sépia, com cores quase ausentes.

Além das referências ao Western e a São Leibowitz, o espectador encontrará outras, como a Farenheit 451 e a Mad Max (o protótipo de todos os filmes pós apocalípticos).

Destaque para uma surpresa que ocorre próximo ao final (não vou contar!), muito bem escondida durante o filme todo, de tal forma que alguns se perguntarão: "será que é isso mesmo"?

Em suma, esqueça o proselitismo e algumas inconsistências e divirta-se.

Recomendamos a leitura da resenha que aparece no Cine Dude, que aborda outros aspectos do filme. 

sábado, 27 de março de 2010

Fábulas do Tempo e da Eternidade

Ficha Técnica

Fábulas do Tempo e da Eternidade
 
Autor: Cristina Lasaitis
Editora: Tarja
Páginas: 174
Ano: 2008


Sinopse: Em doze contos, misturando os gêneros ficção científica e fantástico, a Cristina Lasaitis conta histórias que tem por pano de fundo o Tempo e a Eternidade.
Ao ler os primeiros parágrafos deste livro, temos a sensação de que a autora tem um domínio muito grande de sua ferramenta principal: a linguagem. Seu texto parece poesia, trabalhando cenas, diálogos, personagens e sensações muito bem.


E também demonstra ser igualmente hábil nos dois outros quesitos pra se fazer uma boa ficção científica: saber escrever uma boa história e ter um bom conhecimento científico.


Como o tema é "tempo e eternidade", o sumário é uma representação gráfica de um relógio. Começando à 1h00, com um conto sobre a internet: "Além do Invisível". Parece que ela fez de propósito pra contrariar minha crônica no Pai Nerd, onde afirmo que não há boas histórias sobre a internet na literatura clássica de FC. A autora sabe o que faz! Constrói um enredo sobre o relacionamento entre duas pessoas no mundo virtual, com delicadeza, com sutileza e com um final surpreendente.


Às 2h00, aparece o conto, "As Asas do Inca", onde somos levados para o império pré-colombiano, às vésperas da invasão espanhola, demonstrando um outro domínio: o dos mitos e lendas do povo Inca. Novamente a linguagem brilha.


Às 3h00, "Nascidos das Profundezas", onde descobrimos que o desconhecido pode estar debaixo de nosso narizes. E o futuro pode estar no passado.


Às 4h00, "Revés Alquímico", num campus de uma universidade com os problemas típicos de uma instituição de ensino do Brasil: falta de verbas, professores dedicados mas pouco valorizados, etc., um velho professor se dedica a uma pesquisa bem pessoal. Quem estudou Química em uma universidade pública vai se sentir em casa.


Às 5h00, "Assassinando o Tempo", onde aparece a personagem Cláudia Mansilha, muito bem construída pela autora. Neste conto o tema "tempo e eternidade" aparece com mais força e cercado por uma verossímil teoria física, mostrando que Cristina Lasaitis é realmente uma escritora de ficção científica que merece este nome, pois consegue transitar tanto na ficção científica soft quando na hard.


Às 6h00, "A Outra Metade" nos leva novamente ao fantástico, num bem construído conto sobre almas gêmeas.


Às 7h00, "Viagem Além do Absoluto", mostra uma outra faceta da FC, a cosmogonia, um conto que tem como pano de fundo o cosmos em seus últimos instantes. O nome do conto poderia ser "Enquanto houver Aurora", uma frase que aparece algumas vezes no texto, o que seria muito mais poético.


Às 8h00, em "De Onde Viemos, para Onde Vamos", velhos intelectuais fracassados se reúnem num café, discutindo filosofia diante de um ouvinte privilegiado. Um conto de FC que toca o fantástico, onde a ciência é a Filosofia.


Às 9h00, "Irmãos Siameses", um texto que também resvala no fantástico, nos conta a vida de dois irmãos que não podem se separar. As ciências que servem de apoio são a medicina e a psicologia. Uma boa história dramática, que certamente pode arrancar algumas lágrimas dos mais sensíveis.


Às 10h00, "Caçadores de Anjos", nos remete à Idade Média e à Inquisição, onde nem os anjos eram poupados da fogueira.


Às 11h00, "Os Parênteses da Eternidade", onde um correio entre épocas permite uma conversa de alguém do presente com que ainda não nasceu. A dra. Mansilha é citada mais uma vez, mas apenas para ligar esta história com "Assassinando o Tempo". O lado humano da ficção hard.


E, finalmente, à meia noite, fechando o volume, o conto "Meia Noite", onde o tema internet, é retomado no mesmo universo do primeiro conto, fechando o que ali foi aberto.


No geral, Fábulas do Tempo e da Eternidade é um livro excelente, mostrando versatilidade da autora, que não deixa de ser brasileira para ser universal.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Versilêncios

Ficha Técnica

Versilêncios
Autor: Gerusa Leal
Editora: Edições Bagaço
Ano: 2008
122 páginas

Sinopse: Coletânea de poesias de Gerusa Leal, que recebeu o premio Edmir Domingues de Poesia de 2007, da Acadêmia Recifense de Letras.

O título deste livro, Versilêncios, chamou-me a atenção pois é um excelente jogo de palavras que traduz o conceito aparentemente paradoxal que a autora vê na poesia: Versos que traduzem sons servem para que possamos ver o silêncio.

E que silêncio a autora quer que vejamos? O nosso silêncio interior, que acolhe a palavra com que os versos são moldados, uma das matérias primas que compõe a sua poesia. E quais seriam as outras? Os sentimentos que estas palavras arrumadas em verso despertam no leitor.

As poesias são agrupadas em "capítulos" nos quais a autora nos mostra um dos possíveis caminhos para ler o que ela escreve.

Começando por Aquecimento, em que a autora se coloca no próprio ato de escrever poesia – destino ou um desatino – que provavelmente acompanha todo poeta. A inspiração repentina e o branco andando de mãos dadas.

Após o Aquecimento, a autora arrisca mais um passo em seu caminho, Partindo rumo à sua Trajetória. Sua Trajetória é pontuada por eventos e pensamentos (autobiográficos? não podemos nos esquecer que, como nos diz Fernando Pessoa, "o poeta é um fingidor"), com os quais ela tenta dizer-nos (e a ela mesma) quem é.

Em A Dois nos leva a um caminho onde a sensualidade habita ou os encontros e desencontros da nossa busca da felicidade através de outro ser humano, com quem dividimos carícias e sentimentos. Ilusão? Solidão? Atire a primeira pedra quem nunca teve uma ou outra...

Se palavra ainda estava contida, a autora a liberta em Soltando Amarras, para depois nos mostrar o seu (nosso?) cotidiano, que vivemos sem ver a poesia que habita nele.

Ela, Ele, Os Outros nos mostra a mitologia pessoal que acompanha a autora. O mito feminino de Lilith domina a paisagem.

Nós nos lembra uma relação pessoal, porém logo surge Laing para nos dizer que "nós" pode significar "laços", ambiguidade impossível em inglês.

Ocasos nos remete a um fim próximo, de um tempo ou de algo, que talvez volte ao amanhecer, nos conduzindo a Idas e vinda.

E antes do final, Gerusa Leal nos reserva uma Degustação, nos lembrando a filosofia de Quincas Borba.

E, Chegando termina seu caminho.

Há dois ensaios, um abrindo, Versilêncios Femino Sustantivo, de André Cervinski e outro fechando o livro, O poema perfeito é a morte. Ainda que eles tenham sua utilidade, sugerimos que os leia bem depois de ter apreciado os versos. Qualquer tentativa de analisar ou classificar os poemas de forma acadêmica, pressupõe um dissecar, que nos lembra o dissecar da biológica: após termos cortado o animal pra vê-lo, percebemos que o matamos. Isso pode acontecer se lermos os ensaios antes, pois adquirimos o viés do ensaísta e deixamos de perceber os versos em sua plenitude.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Star Gate Linha do Tempo

Stargate: Linha do Tempo (Stargate: Continuum)
Direção: Martin Wood
Roteiro: Brad Wright
Elenco: Ben Browder, Amanda Tapping, Christopher Judge, Michael Shanks, Beau Bridges, Claudia Black, Richard Dean Anderson, Cliff Simon, William Devane, Don S. Davis
Duração: 97 minutos
Ano de Lançamento: 2008

Sinopse: Ao participar de um cerimônia de extração do último dos Goa'uld, espécie de alienígena parasita, de seu hospedeiro, Ba'al, uma equipe militar de elite (SG-1) é surpreendida por uma alteração repentina no continuum espaço-tempo e dois de seus membros desaparecem. Os três sobreviventes correm para o portal Stargate, enquanto o fenômeno vai destruindo a paisagem em volta.

Devido às alterações no tempo, em vez de voltarem para a Terra que conhecem, voltam para uma linha de tempo alternativa onde o Stargate nunca foi descoberto. Neste mundo um dos personagens jamais existiu e os outros têm histórias de vida diversas: um está oficialmente morto, e outro é um escritor, autor de livros de ciência alternativa sobre alienígenas do passado.

Dentro dessa realidade, os personagens tentam convencer o governo a permitir que voltem e alterem a linha do tempo. Inicialmente enfrentam a incredibilidade aparente do governo e depois da relutância em permitir que eles alterem a linha do tempo, uma vez que sua atitude irá mudar a aquela linha de realidade (o que faz uma linha de tempo ser melhor que outra?), mesmo ante a argumentação de que há um inimigo alienígena poderoso, que alterou alinha do tempo e deseja conquistar a Terra. E... está na iminência de invadi-la!

Stargate: Linha do Tempo (Stargate: Continuum) situa-se cronologicamente entre Star Gate SG-1 e Stargate Atlantis e é uma obra feita diretamente para DVD.

Uma coisa que deve ter passado pela cabeça dos fãs das séries Star Gate é que, apesar da clara influência do seriado O Túnel do Tempo, raramente a possibilidade da viagem no tempo foi mencionada, quanto mais produzido um episódio voltado para isto. Todas as vezes que há alguma menção a civilizações do passado é em um planeta em outra galáxia que ainda está em um estágio evolutivo comparável a algum período da história terrestre.

De uma forma geral, viagens no tempo são fascinantes e tem aparecido com frequência no universo da ficção científica, porém devido aos constantes apelos a este tipo de história, fica difícil fazer alguma coisa criativa, sem cair no lugar comum de outras histórias similares. Histórias de viagem no tempo quase sempre caem em cima dos paradoxos do tempo (e Star Gate: Linha do tempo não é exceção), como o paradoxo do avô (o que aconteceria seu viajasse pelo tempo e matasse meu avô?), ou o encontro consigo mesmo em épocas ou realidades diferentes, levados às últimas consequências na excelente série De volta para o futuro.

Isso demonstra a dificuldade de produzir material novo, o que fez os produtores de Star Gate evitarem o assunto nas séries tradicionais.

Neste longa, o resultado é apenas razoável, com uma dose de aventura, algumas ousadias de roteiro (que levou os produtores a construir em estúdio um navio dos anos 30 e fazer tomadas no ártico) e uma leve menção ao paradoxos clássico na viagem no tempo.

Ainda que haja ganchos que permitam a continuação, creio que dificilmente alguém pensará em transformar Star Gate: Continuum em seriado.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Fringe

Ficha Técnica
Fringe
Elenco: Anna Torv, John Noble, Kirk Acevedo, Joshua Jackson, Lance Reddick, Mark Valley
Duração: 80 min (episódio de estréia)
Canal: Fox

Sinopse: Durante o vôo 627, todos os passageiros e tripulantes morrem misteriosamente, atacados por um agente biológico desconhecido. A investigação fica a cargo de várias agências sob comando de Phillip Broyles (Lance Reddick). Entre os agentes chamados estão Olivia Dunham (Anna Torv) e John Scott (Mark Valley), agentes do FBI. Durante as investigações, John Scott se contamina com o mesmo agente biológico. Com a ajuda do Dr. Walter Bishop (John Noble), cientista brilhante com um passado tenebroso, e do filho dele, Peter Bishop (Joshua Jackson), rapaz brilhante, porém com fatos bastante obscuros em sua vida, Olivia fará de tudo para salvar o parceiro e, de quebra, tentar resolver o mistério.

Criada por J.J. Abrams (o mesmo de Lost), Alex Kurtzman e Roberto Orci, a série Fringe, graças ao uso de algumas pesquisas reais de ciência limítrofes, caiu no agrado dos fãs de ficção científica clássica, mais voltados para a ciência do que para a ficção.

Por exemplo, neste piloto, o ataque de uma doença virulenta e extremamente rápida é altamente plausível. Em outra cena, Olivia fica imersa num tanque de privação sensorial para tentar se conectar telepaticamente com o inconsciente do parceiro. O tanque de privação sensorial foi muito usado nos anos 1970 e 1980 em pesquisas sobre o comportamento do cérebro. Também nos anos 1970, a parapsicologia ganha o status de ciência e o Instituto Rhine fez pesquisas sobre telepatia, usando aparelhos de eletroencefalograma para monitorar a atividade cerebral dos envolvidos, verificando o grau de sincronismo entre eles (como na cena do episódio). Um dos personagens tem uma prótese inteligente que substitui um membro amputado, como o braço de Luke Skywalker (a série só coloca mais inteligência e flexibilidade em algo que já existe).

Isso não é coincidência: Fringe é um termo usado em ciência por designar a chamada ciência limítrofe, aquela que trata de pesquisas e tecnologias baseadas em especulações ou tecnologia de ponta ainda em desenvolvimento, como paranormalidade, genética avançada, inteligência artifical, pesquisas aplicadas com ética duvidosa e outros temas.

Ao longo do episódio, o espectador percebe que a trama ultrapassará um mero ataque terrorista a um avião, envolvendo corporações misteriosas, agentes de organizações supranacionais de origem desconhecida, agentes duplos, etc. A sensação é de estar vendo uma mistura de Lost com Arquivo X. Afinal há um avião envolvido em um acontecimento misterioso, uma corporação, a Massive Dynamic, que faz pesquisas de tudo, deste próteses inteligentes a remédios para doenças raras, tem uma dupla de agentes do FBI, um homem e uma mulher, e você não pode confiar nem na sua sombra.

Pontos fracos

– Há um conflito de personalidades entre o chefe da operação, Phillip Broyles, e a agente Olivia Duhan, muito estereotipado. A agente prendera um amigo dele algum tempo antes e ele guarda rancor, mas tem que engoli-la nas investigações. Quando o conflito surge em cena, parece que os atores estão lendo uma série de carimbos, de tão padronizado que é.
– Astrid Farnsworth, assistente de Olivia, mais parece um poste, apenas presente na maioria das cenas como um dos móveis e utensílios. Eventualmente faz alguma pergunta ou comentário estúpido, para ser esclarecida por um dos personagens. Seu papel parece ser o de um Dr. Watson, o assistente de Sherlock Holmes, que permite ao autor explicar algumas coisas, sem recorrer a palestras científicas. Dr. Watson, porém, tinha substância, enquanto a pobre Astrid parece ter sido esquecida pelos roteiristas e diretores, sem ter muito que dizer ou fazer.

– Alguns diálogos entre Peter Bishop, Walter e Olivia, quando ela está prestes a tentar alguma solução arriscada, são bastante fracos. Peter, o filho do professor, parece um grilo falante psicodramático, alertando-a da instabilidade psicológica do pai, com uma raiva mal representada. E Olivia cede à argumentação do professor Walter, sem ao menos perguntar quais os riscos reais.

Pontos fortes

– A verossimilhança científica é o principal ponto forte, ainda que toque em temas controversos, como telepatia.

– Os efeitos especiais das cenas do ataque viral no avião são excelentes.

– A executiva principal da corporação Massive Dynamic, Nina Sharp, que provavelmente será a principal vilã da série, foi muito bem caracterizada pela atriz Blair Brown. 


Publicada orignalmento no Homem Nerd 
em 10/11/2008, antes da estréia da série