domingo, 14 de março de 2010

Banquete de Contos e Poesia

Ficha Técnica

Banquete de Contos e Poesias
Autor: Alberico Rodrigues
Editora: Mentes Raras
Páginas: 150
Ano: 2008

Sinopse:
Entre histórias que contam reminiscências de infância e adolescência, contos e poesias ligeiramente autobiográficos sobre o ofício de escrever, encontros com histórias por vezes cruéis da cidade de São Paulo, a coletânea navega, trazendo por meio de uma linguagem fluída, a visão que o autor tem da vida.

A fluência da linguagem simples de Alberico Rodrigues é a principal característica deste livro. Os contos trazem muitas vezes um humor irônico, como Ovo Amigo, em que um escritor esfomeado debate consigo mesmo se deve ou não comer o ultimo ovo que tem na geladeira, ou do escritor sem inspiração, em Ociosidade do Escritor, que sai pela cidade em busca de algo e volta carregado de histórias que ele mesmo vivencia, ou O Poeta Andarilho, que finge ter uma mensagem importante para conseguir sobreviver. Ou o casal que discute infindavelmente mas se mantém junto em Obstinação.

Outra vezes, como em Pão e em Toninho, um destino previsível, a crueldade da cidade grande que forma marginais é duramente retratada, sem simpatias ou condenações prévias, onde, como o autor, nos quedamos impotentes ante a força maior da cidade.
Impotência esta que ele tenta compensar com uma atitude pessoal de luta como em Antonildo versus Mundo-Monstro, onde o personagem se recusa a ser derrotado pelo mundo. Ou quando tenta criar um cenário utópico neste nosso mundo em um futuro longínquo em Um flash no mundo dos humanos em 2220.

Fugindo um pouco a este tom, Alberico continua com um conto policial, com pinceladas bem humoradas, Uma ocorrência policial com um tour-guide.
Há, ainda, um conto de horror, muito bem escrito, A Sanha dos Gatos, onde um gato maltratado clama por vingança e é ouvido.

Em O popular Fernando, Alberico procura homenagear um amigo. Ooo.... Zé Batalha é um conto onde ele retoma um personagem de seu romance, Zé Batalha, um herói de minha infância. Como característica principal temos justamente o reforço de uma memória de criança. 

O conto seguinte retrata outra lembrança, desta vez de adolescência, onde o personagem principal relembra saudoso a primeira mulher que o seduziu.

Fechando a coletânea de contos, um triângulo amoroso não muito clássico: Dayse, José e Joana, onde o tempero é justamente ingenuidade de José. 

Após os contos, vem um grupo de poesias.

Nas duas primeiras (Adeus, so long, au revoir e Meus vinte anos) percebe-se por vezes um desencanto com a humanidade e com a própria vida. Esse desencanto como se apreende de sua leitura não parece ser muito bem aceito pelo próprio autor, que às vezes tenta negá-lo ou busca compensá-lo de alguma forma, tentando devolver a fé senão na humanidade, pelo menos em alguns homens.

Flash Paulistano mistura reminiscências de seu passado com o burburinho de São Paulo. Em O Silêncio, o poeta brinda o Silêncio como a companhia ideal pra quem escreve.

Em Mãezinha Querida o autor rememora um dos últimos encontros que teve com sua mãe.

Fechando o livro, com Mensagem Otimista, o autor busca ainda uma ultima palavra ao leitor dizendo que, apesar de tudo, ainda há esperança.

sábado, 13 de março de 2010

Avatar

Avatar
Direção:
James Cameron
Roteiro:
James Cameron<
Elenco:
Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang
Duração:
162 minutos

Sinopse:
Jake Scully, ex-fuzileiro paraplégico, embarca em uma missão ao planeta Pandora. Nesse planeta, uma companhia mineradora explora um raro mineral, que está concentrado em áreas habitadas pelo povo autocne. A missão de Jake e de outros recrutados para o mesmo fim é "pilotar", avatares que são cópias dos habitantes do planeta, com o objetivo de "diplomacia" (ou melhor, espionagem). 

A primeira coisa que se nota no filme é que não são só os avatares que são cópias, mas o enredo e algumas cenas parecem uma colcha de retalhos mal-costurados de cópias. Em primeiro lugar, um paraplégico que volta a andar habitando um avatar ou ambiente propício lembra Pequenos Espiões 3 e Lost. Os pilotos quando acordam tem seus olhos focalizados lembrando... Lost. A conexão lembra Matrix. Os avatares lembram os Evas de Evangelion (a única diferença é que a conexão é exterior, e não interior).

Tem os estereótipos também: o Coronel que acaba se tornando o vilão principal é o milico de sempre, truculento, que só sabe lutar; a cientista brilhante e dedicada, mas tão ingênua que não percebe que está sendo usada; o executivo que só pensa em lucro (que ultimamente tem substituído o antigo cientista louco como vilão de plantão) e o herói que resolve tudo.
Alerta de Spoiler: o próximo paragrafo revela detalhes da trama

E enredos "manjados": o infiltrado que resolve mudar de lado ao simpatizar com os nativos, mas acaba sendo rejeitado como traidor por ambos os lados. O envolvimento com a mocinha, já prometida a outro da tribo, etc. Ou o povo tecnologicamente superior que despreza e destrói os supostos selvagens (será que é dor de consciência dos americanos?).

O filme poderia ter uma duração um pouco menor, visto que acaba cansando o espectador. No meu ponto de vista, a ação demora a acontecer, com cenas desnecessárias no começo do filme que poderiam ser abreviadas. Por exemplo, o "drama" da morte do irmão do protagonista pouco acrescenta à história e poderia ser suprimido.

Como ponto positivo, o filme tem algumas boas sacadas, como os cabelos em trança que terminam em pequenos tentáculos que se conectam a qualquer ser vivo, como um verdadeiro cabo USB biológico.

Avatar também apresenta uma boa caracterização de uma biologia extraterrestre, com soluções interessantes para o voo (há um lagarto que voa como um helicóptero, girando a cauda; repteis alados com dois pares de asas) e um bom conjunto de predadores e montarias.

As cenas de ação também são bem construídas e emocionantes.

Os efeitos especiais em 3D são muito bons, bem ajustados às cenas. Os produtores introduziram legendas, novidade em exibições de filmes 3D. Uma boa inovação, se bem que em algumas cenas fica difícil a leitura.

Também foi bem caracterizada a visão xamânica do mundo, que seria um contraponto perfeito para a visão tecnicista tanto dos cientistas quanto dos executivos mineradores, não fosse o excessivo maniqueísmo do filme.

Em suma: vale (muito) pelos efeitos e pela ação. Esqueça a trama e personagens mal feitos.

Veja o post no blog do Homem Nerd sobre as nossas primeiras impressões. 

E também a reação de Hittler à sua indicação ao Oscar...

Vampiros de Almas

Ficha Técnica

Vampiro de Almas ( Invasion of the Body Snatchers )
Direção: Don Siegal
Roteiro: Daniel Mainwaring, Jack Finney
Elenco: Kevin McCarthy, Dana Wynter, Larry Gates, King Donovan
Duração: 80 minutos


Sinopse:
Médico retorna à sua cidade após participar de um congresso. A cidade parece normal, mas começa a perceber pouco a pouco pequenos acontecimentos anormais como o cancelamento repentino de todas as consultas agendadas, restaurantes vazios e pessoas que afirmam que seus entes queridos são impostores. Pouco a pouco percebe que estas pessoas não estão alucinadas.

Vampiros de Almas, filme de Don Siegal, surgiu em 1956 e durante muito tempo foi menosprezado por estar associado à propaganda anticomunista, comum nos anos 50. Boa parte da ficção científica da época usava invasores alienígenas para retratar o "perigo comunista". Há vários indicativos disto no filme. Por exemplo, num determinado momento os impostores tentam convencer o médido, Dr. Milles, a se unir a eles para viver num mundo onde todos são iguais e sem problemas, mas não tem individualidade (imagem dos comunistas vendida pelo governo dos EUA).

Algumas releituras o aproximam ao outro lado, pois nos anos 50 havia o macartismo, onde o perigo era exatamente de você ser traído pelo seu melhor amigo e acusado de comunista apenas por gostar da cor vermelha.

O filme de Don Siegal extrapola muito estas duas visões, pois ela retrata o comportamento paranóico presente naqueles tempos, pois não importava o lado em que você estivesse, o outro era um possível inimigo.

O clima de paranóia permeia todo o filme, pois o espectador sabe desde o começo que há um perigo real, pois a narrativa é feita em flash back, temperada com um bom suspense. A dúvida sobre os entes queridos serem impostores é estabelecida nos primeiros minutos e a tensão é crescente, pois a postura inicialmente cética do médico vai sendo substituída pela sua certeza da transformação das pessoas. E o inimigo aparece travestido de seus amigos, policiais, secretária e por fim, de sua namorada. E o monstro, um ser vegetal vindo do espaço, só é apresentado após ter 2/3 do filme terem rolado. O espectador que não era paranóico, ficou...

Como obra de ficção científica de antecipação, apresenta a possibilidade da clonagem e as implicações disso. O clone do Sr X, ainda que tenha suas memórias e comportamentos é o Sr X ou outro ser?

Um excelente filme!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Watchmen e a 5a Dimensão

Alerta: contém spoiler importante de Watchmen.

Nos anos 80, eu já era um pai nerd e pensava num legado para meus filhos. Este legado foi formado, por Akira, Cavaleiro das Trevas, Crise das Infinitas Terras e Watchmen. Watchmen, de Alan Moore, sempre teve um lugar de destaque para mim. Quando eu li pela primeira vez, fiquei impressionado com a trama perfeita e o desfecho surpreendente.


Eu o reli muitas vezes desde então e fiquei bastante entusiasmado com a notícia de que ele estaria sendo filmado, com estréia marcada para março de 2009, há exatamente um ano, com um trailler que me fez vislumbrar um trabalho de transposição muito bom. O filme decepcionou-me um pouco, porém os quadrinhos continuam valendo a pena.


 
A notícia do lançamento do filme me levou a uma nova releitura. Foi quando ao ler o seu final, tive uma sensação de "já vi isso em outro lugar". E não foi pelas constantes releituras. A lembrança vinha de muito tempo atrás, mais particularmente de minha infância, de uma série que me tirou o sono muitas noites: 5ª Dimensão (Outer of Limits) .

Com pobreza de recursos, mesmo para os padrões da época, compensados com uma boa música e uma narração de arrepiar os cabelos do fim da espinha, os filmes de 5ª Dimensão tinham forte apelo da ficção científica e foram um marco, juntamente com seu concorrente, Além da Imaginação.

Uma postagem num grupo de discussões me reavivou a memória: havia um episódio que realmente tinha a ver com Watchmen. Tratava-se (veja bem o título!) de: Arquitetos do medo. (Archtects of fear).

Neste episódio, um grupo de cientistas, diante da ameaça nuclear, deduz que a única forma de acabar com a intenção do ser humano se autodestruir é todas as nações terem um inimigo comum, um alienígena com sede de destruição. 

O filme tem uma outra abordagem, já que a idéia de causar ao mundo um medo extremo é anunciada nos primeiros cinco minutos de filme, indo por água abaixo qualquer idéia de mistério.


A maneira que os cientistas encontram de fazer a farsa e transformar um deles, escolhido por um sorteio macabro, num monstro. A idéia era alterar toda a sua fisiologia pois, caso ele fosse capturado e morto, uma analise revelaria ser ele diferente de um ser humano.

A história se concentra no drama da transformação do cientista, causando um sofrimento físico e psicológico, já que, além de tudo, está prestes a ser pai. Para que o segredo não vazasse, é simulada a sua morte, quando os primeiros sinais da transformação se tornaram visíveis. O "alienígena" faz sua aparição e é ferido de morte por uma das testemunhas. 

O final é aberto, mas insinua-se que tudo foi por água abaixo (do mesmo modo que Watchmen), pois a esposa do cientista descobre a trama e ela tinha todos os motivos para odiá-los e revelar o segredo. 

 Arquitetos do medo ou Watchmen?

Coincidência? Pode ser. Porém o filme Arquitetos do medo foi ao ar em 1963, quando Alan Moore tinha dez anos e certamente deve ter ficado sem dormir naquela noite...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Sabella, uma Vampira nas Galáxias


Ficha Técnica

Sabella, uma Vampira nas Galáxias
Título OriginaL:Sabella or The Blood Stone
Autor: Tanith Lee
Tradutor: Álvaro Luiz Hattner
Editora: Brasiliense
Páginas: 164
Ano: 1980

Sinopse: Sabella é uma das descendentes de colonizadores de Novo Marte, um planeta com características similares ao xará do sistema solar, e também é uma vampira. A moça recebe uma herança, junto com ela a revelação de que sua tia falecida sabia de sua origem e um perseguidor extremamente persistente.

Sabella é um casamento interessante entre a Ficção Científica e as histórias de vampiro, com elementos bem característicos de ambos os universos. Este é um recurso utilizado quando um dos dois gêneros está sem fôlego ou quando o autor já se propõe a navegar nestas águas.

Quando se tenta este tipo de mistura, corre-se o risco de parecer artificial, sem realmente inovar coisa alguma em genero nenhum. Se o autor usar recursos de FC num romance de vampiro eles têm que se justificar no enredo, desafio este vencido por Tanith Lee em Sabella. A sua personagem não está num planeta distante apenas porque os leitores enjoaram da velha Transilvânia.

O recurso se justifica por causa da origem do vampiro, associada à história específica do planeta, habitado anteriormente por uma espécie humanóide que deixou apenas ruínas e provavelmente agonizou lentamente com a perda de água.

]Há algumas coisas importantes a destacar em Sabella. A narrativa em primeira pessoa é uma delas. Um recurso necessário para que a busca pela sua origem seja mostrada com parte da verdade oculta, já que a personagem não sabe de todos os fatos. E, de quando em quanto, a personagem refere-se a si mesma em terceira pessoa, como se fosse um alter-ego conselheiro, que a impulsiona ("Vá até ele Sabella, chegue mais perto"), ou protege ("Corra, Sabella, corra!"). Este recurso permite sublinhar algumas cenas, colocando o leitor num clima com um certo suspense.

Outra, é o erotismo que permeia varias cenas, colocando Sabella ao lado de outras vampiras clássicas. O ponto de vista é feminino, com uma inversão dos papéis sexuais: é ela quem seduz e penetra (com os dentes), numa relação ambígua com as vítimas, pois o homem seduzido sabe que será vampirizado e o deseja, mesmo sabendo do risco da morte.

O seu caçador também merece destaque. Ele aparece como um sedutor cínico, invertendo o jogo de Sabella, pois ela sabe que ele quer matá-la, mesmo assim sente-se incapaz de uma reação mais efetiva e o deseja, mais do que uma vítima.

O jogo entre os dois e o mistério da origem de Sabella, descoberto pela sua falecida tia, são os focos narrativos mais importantes da noveleta, muito bem conduzidos tornando prazerosa a leitura.

Um destaque extra para o final, que surpreende, justificando a contextualização do universo escolhido para a origem de Sabella e o comportamento ambíguo de seu perseguidor.