domingo, 7 de março de 2010

Um Tolo Desejo de Azul

Ficha Técnica
Um Tolo Desejo de Azul
Autor: Marcia Maia
Editora: Livro Rápido
Páginas:116
Ano: 2003


Sinopse: Em poemas curtos, alguns quase haicais, Márcia Maia nos descreve (ou nos faz sentir junto?) algumas sensações que ela define como "desejo de azul".

Fazer resenha de um livro de poesia nos coloca na difícil tarefa de transmitir em prosa um sentir, principalmente quando se trata de um livro que reúne poesias intimistas, como as que Márcia Maia costuma escrever.

O azul em si mesmo é uma cor ambígua, associado a sentimentos positivos, por ser a cor do céu e contrastar com o cinza que às vezes domina a paisagem (como no poema que dá o título ao livro), mas também está associado à tristeza (retratada em "melancolia"). Tristeza profunda como a cantada nos blues, que poderiam muito bem acompanhar algumas das poesias.

Este tipo de metáfora ambígua percorre todo o livro, quer nas imagens sugeridas, quer no despertar de sentimentos opostos (como no poema "Antagonismo" ou em "Tempo").

Outra característica que aparece em alguns poemas é a criação de neologismos, unicamente para reforçar uma imagem ou um paradoxo. Um bom exemplo é desadormeço, que aparece no poema "Matinal". Esta palavra em si mesma merece todo um artigo, dada a profusão de imagens que ela sugere.

Um recurso bastante próprio de Márcia é o uso de dois pontos precedendo uma palavra no início de um verso ( : palavra). Este recurso sugere uma parada forçada e inesperada e reforça o termo que vem em seguida, quase sempre fechando o poema com um cutucão no nosso sentir.

Em suma, um bom livro para quem gosta de poesia.

O livro pode ser obtido diretamente no blog da autora, Mudança dos Ventos.

AnaCrônicas

Ficha Técnica

AnaCrônicas – Pequenos Contos Mágicos
Autor: Ana Cristina Rodrigues
Editora: Gráfica e Editora A1
Páginas:90
Ano: 2009

Sinopse: Coletânea de 21 contos breves de fantasia, publicados originariamente na Internet em diversos momentos.


Ana Cristina começa com dois grandes acertos, o título e a capa. Ela escreve seus contos como se fossem crônicas escritas em tempos idos, como se as estivesse presenciando, como um narrador não tão isento, que vive junto aquilo que conta. A capa, que tenta mostrar um pouco do conteúdo, faz reverência imediata a um clássico da literatura fantástica: Alice no País das Maravilhas, mostrando ao leitor o que lhe espera.

Aliás, a referência à Alice está presente no primeiro conto, "É Tarde", com o Coelho Branco correndo por estar atrasado, com um desfecho ligeiramente inesperado, servindo de prefácio para o que vem a seguir.

"Chiaroscuro", um conto sobre uma maga que almeja ser necromante, uma arte restrita aos homens. Seu desejo a leva a ter um contato muito profundo com uma das Sombras que habitam o mundo dos mortos.

"Princesa de Toda a Dor", uma narrativa com ares de lenda indígena.

Em "O Último Soneto", um escritor suicida quer deixar como legado um soneto perfeito.

"A Casa do Escudo Azul", num mundo pós-apocalíptico a cultura é retomada pouco a pouco.

"A Vida na Estante", o mais curto dos contos (cerca de 60 palavras) nos mostra um frequentador muito assíduo das bibliotecas.

"Os Olhos de Joana": o que se podia ver nos olhos de Joana D'Arc?

"O Senhor do Tempo", uma pequena cosmogonia.

"Deus Embaralha, o Destino Corta", uma brincadeira com a frase de Einstein, "Deus não joga dados com o Universo".

"Feitiço Sem Nome", uma bruxa é presa e no desespero esquece o nome de quem deve conjurar pra salvá-la.

"A Dama de Shalot", uma princesa vive numa torra alta e seu contato com o mundo exterior se dá por um espelho de mão onde vê refletida cenas que transforma em bordados.

"Como Nos Tornamos Fogo?", um alquimista apaixona-se pelo objeto de seu estudo.

"Pelo Espaço de um Momento", a paixão de uma jovem pelos livros a leva a conhecer um retrato muito especial.

"Borboleta", uma borboleta de origami é construída pelos sonhos e ilusões de uma mulher.

"Viagem à Terra das Ilusões Perdidas", uma mulher tenta resgatar suas ilusões em lugar que tem essa finalidade.

"O Baile de Máscaras", um filósofo tenta estudar o comportamento das pessoas num baile de máscaras.

"Lenda do Deserto", uma história de amor baseada na mitologia árabe. Uma mulher djin é assediada loucamente pelo djin do vento e é protegida pelo seu marido, o djin da terra.

"O Mapa da Terra das Fadas", uma dona de casa tenta consolar o filho pela morte de seu coelho. O menino parece inconsolável, pois para ele o coelho conhecia o caminho do reino das fadas.

"O Eremita", um velho alerta uma aldeia para o perigo da destruição das florestas e da caça indiscriminada. Em vez de gratidão, recebe o ódio da população.

"Apocalypse NOW!", este "último" conto nos mostra (com humor) como seria o apocalipse num reality show.

Há um conto bônus que realmente fecha o livro: "O Sábio de Osgoroth". No planeta Esmeraldine, o mago de Osgoroth pode realizar qualquer desejo, menos um. É clara referência ao Mágico de Oz.

O livro AnaCrônicas como um todo tem o mérito de ser uma leitura leve e prazeirosa, muito bem escrito, porém alguns contos carecem de originalidade. Por exemplo, "O Eremita" tem uma mensagem ecológica por demais óbvia e "Baile de Máscaras" reconta uma história inúmeras vezes contada, o mesmo ocorrendo com "Viagem à Terra das Ilusões Perdidas".

Já outros revelam um bom exercício de imaginação, como é o caso do excelente "Chiaroscuro", em que há uma sutil passagem do foco narrativo da maga para a sombra que ela conjura. Ou quando ela resolve partir para o humor, como é o caso de "Deus Embaralha, o Destino Corta" e "Apocalypse NOW!"

Em outros, a magia se insinua de maneira sutil, como é o caso do excelente "O Caminho das Fadas" e do mediano "Borboleta".

Merecem destaque também "A princesa de toda a dor", a "Dama Shalot" e "Lenda do Deserto". O primeiro é uma lenda indígena, o segundo, um lenda medieval de caráter arturiano, e o terceiro uma lenda árabe, revelando a versatilidade da autora.
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Um livro para quem busca uma leitura leve com sabor de magia.

Nerd Shop

sábado, 6 de março de 2010

Rumo à Fantasia


Ficha Técnica

Rumo à Fantasia
Autor: Roberto de Souza Causo (org.)
Editora: Devir (selo Quymera)
Ano: 2009
200 páginas

Sinopse: Coletânea de contos reunindo autores nacionais e estrangeiros, de diversas épocas, percorrendo vários estilos de fantasia.

Nesta coletânea de 13 contos, Roberto Causo traça um panorama abrangente, cobrindo várias épocas e vários estilos de literatura de fantasia.

No primeiro conto, "Um habitante de Carcosa", de Ambroise Bierce, escrita em 1886, um homem vaga em busca da sua cidade natal, Carcosa, e subitamente a encontra de uma maneira desagradável e inesperada.

O conto seguinte, de Bráulio Tavares, é "A História de Maldun, O Mensageiro. Trata-se de um exemplo do que Causo chama de "Fantasia Ibérica", situada em Portugal e Espanha, no período que vai da reconquista à colonização do Novo Mundo. Maldun acompanha um cavaleiro à uma zona que lhe é proibida e ambos encontram o mago Carandec. Maldun tenta explicar então o que acontece, sem realmente entender. Os acontecimentos fantásticos são narrados, mas de uma maneira muito particular a partir de um homem com conhecimentos e imaginação limitadas. Os brancos serão preenchidos pelo leitor.

"O Lugar no Mundo", de Daniel Fresnot, nos coloca frente a frente com um duelo de cantadores no Nordeste. Este confronto tem paralelo com o duelo de magos medieval, com um desfecho de caráter mágico e simbólico, já que nenhum dos cantadores poderia ser derrotado.

"Onde caem os anjos", de Jean-Louis Trudel, constrói um cenário onde, numa cidade contemporânea, os anjos aprendem a voar e muitos caem e morrem no processo. A maneira como ele nos conta dá a impressão que isto é um fenômeno corriqueiro.

Em "Faerie, Seguindo As Sombras dos Sonhos", de Rosana Rios, uma mulher, desde sua infância ouve muitos chamados ao reino da fantasia, porém outras vozes sempre foram mais fortes. Rosana Rios faz um belo paralelo entre os quatro elementos e as fases da vida de uma mulher: criança, mulher, mãe e maturidade. Quando haveria tempo para ouvir a voz da fantasia?

Eça de Queirós, pai do realismo na literatura portuguesa, no conto "O Defunto" nos mostra que também domina o fantástico ao nos contar numa fantasia ibérica, a história de um nobre português que, em busca de uma noite de amor proibido, sem saber caminha para uma armadilha, recebe uma ajuda improvável de um enforcado.

"Mensagem na Garrafa", de Cesar Silva, conta a história de um homem preso num edificio comercial, porque não consegue achar a saída. Um alegoria desesperadora sobre a condição humana nas grandes cidades.

"Uma Praga de Borboletas", de Orson Scott Card, conhecido autor de ficção científica, nos narra uma história contada em um clima onírico e surreal, que lembra muito as histórias de Michael Ende, autor de História sem Fim. Neste conto, Amasa busca a cidade mitica de Hirusalem, que esconde um ser fantástico que deve nela permanecer.

Anna Creusa Zacharia nos conta em "O Cavalheiro das Esporas de Ouro" a história de um violinista virtuoso que, após a morte, não encontra paz por que as pessoas acreditam ter ele vendido a alma ao diabo em troca de seu dom e seu filho, apesar de todo o seu empenho naõ consegue enterrá-lo. O conto foi inspirado em fatos da vida do compositor Nicolo Paganini.

Bruce Sterling, conhecido como criador do Cyberpunk nos surpreende com a bela fábula medieval "A Negação". Após uma enchente devastadora, um tanoeiro percebe um comportamento estranho de sua esposa e passa a suspeitar que ela tivesse morrido afogada na enchente e se recusasse a aceitar o fato. O conto pode ser encarado como uma metáfora sobre um relacionamento a dois desgastado em que ambos os parceiros se negam a ver a verdade.

Em "Mapinguari", de Gian Danton, um monstro do folclore amazonense ataca a expedição de um pesquisador alemão, em meados do século XIX. Um bom resgate de um mito e uma boa contextualização deste mito dentro de um acontecimento histórico, a expedição de von Longsdorff ao norte do Brasil.

Causo nos brinda com seu conto de fantasia ibérica, "O Bebedor de Almas". Um aventureiro português, Gil Vasquez é feito prisioneiro dos mouros e deverá enfrentar um demônio que se alimenta das almas dos guerreiros mortos nas batalhas.

Fechando o livro está a utopia "Os que se Afastam de Omelas", de Ursula K. Le Guin. Com muita propriedade, Ursula faz um conto de como as coisas deveriam ser. Ormelas é uma cidade onde as pessoas são felizes. A felicidade é baseada em coisas que estão ao alcance de todos. Não há sacerdotes nem soldados. Mas esta felicidade tem um preço. Por isso há os que abandonam Omelas. Por que? Uma excelente fábula sobre a vida contemporânea.

Quem quiser ter um panorama sobre a literatura de fantasia, este é um bom começo.

Agente 86 - O Filme

Ficha Técnica 

Agente 86 - O Filme
Direção: Peter Segal
Roteiro: Tom J. Astle
Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway
Duração: 110 minutos 




Sinopse: Maxwell Smart é um analista de informações do Controle – agência governamental americana ultra-secreta, construída exclusivamente para dar combate à KAOS. Seu sonho é tornar-se agente e abandonar de vez o ambiente extremamente burocrático em que vive.

Esse sonho se vê realizado quando a sede do Controle é atacada e a identidade de quase todos os agente é descoberta. Ele então é chamado para uma missão: encontrar o terrorista Siegfried, responsável pelo ataque, descobrir seu planos e neutralizá-los. Para isso contará com a ajuda da bela agente 99, única que teve sua identidade preservada.

A série em que se baseia este filme, criada pelo genial Mel Brooks, foi ao ar pela primeira vez em 1967 e vem sendo reprisada desde então gerando fãs, alguns que sequer viveram a guerra fria.

Aliás, a ausência da Guerra Fria foi um dos primeiros obstáculos a serem contornados nesta transposição para o cinema. Isso até que foi fácil. A solução foi a mesma encontrada no filme a Soma de Todos os Medos – aliás aqueles que o viram, vão achar várias referências a ele no Agente 86 (Get Smart). Organizações terroristas, com finalidades políticas ou não, agindo na clandestinidade ainda existem hoje. E a Kaos desde a série é uma organização sem polarização política definida, parecendo mais um grupo de bandidos da Disney: são maus pelo prazer de serem maus.

Outra dificuldade foram as referências aos equipamentos clássicos que caracterizaram a série: o sapatofone (como colocá-lo hoje em dia, se temos celulares?), o cone do silêncio (que nunca funcionava) e o carro esporte conversível usado pelo Maxwell Smart original?

Estes objetos aparecem logo abertura do filme em um museu dedicado ao Controle, apresentado por um guia a um grupo de turistas como uma organização governamental desativada pelo fim da Guerra Fria. Logo descobrimos que o Controle não foi desativada coisa nenhuma, acompanhando o burocrata Maxwell Smart pelo absurdo caminho de escadas disfarçadas de elevador (como na série original), que leva ao escritório central a agencia. O cone do silêncio é recriado como um equipamento mais moderno por dois nerds, da espécie filmicus tipicus. Igualmente inoperante.

O sapatofone e o carro aparecerão oportunamente ao longo do filme.

A escolha do elenco foi também um desafio bem vencido pelos produtores. A semelhança física de 86 e de 99 com os da antiga série é notória. E os atores, Steve Carell e Anne Hathaway, excelentes.

E como colocar os bordões da série ao longo do filme sem aparecer chato e repetitivo? Mais um desafio vencido. A frases aparecem como um meio de lembrar aos fãs da série que eles estão lá. Afinal todos estariam esperando por um "desculpe por isso chefe" ou "neste exato momento estamos cercado por 100 helicópteros do exército..."

Além de referências à série os fãs vão identificar várias referências a filmes de espionagem, sobretudo à série de 007. Alguns vilões e algumas cenas muito bem parodiados, como a luta de pára-quedistas em pleno ar, contrariando todas as três leis de Newton... várias vezes!
Há cenas muito engraçadas, como o baile em que Smart escolhe a dama mais improvável para ser seu par. Ou os diálogos cheios de nonsense (aliás, uma das marcas da série).

Uma boa diversão tanto para os fãs antigos, como os novos conquistados ao longo de dezenas de reprises nos últimos quarenta anos ou quem nunca a assistiu.

Paralelamente ao lançamento do filme está sendo lançado um box de DVDs com a série original. Uma das preocupações deste lançamento foi recuperar a dublagem feita para a TV com a vozes originais. Bom para quem quer relembrar ou conhecer esta excelente série.

Promethea Livro 1

Ficha Técnica
Promethea Livro 1 
 
Autor: Alan Moore (roteiro) e J.H. Williams III
Editora: Pixel
Páginas: 176
Formato: 17X24 cm
Preço: indefinido

 

Sinopse: Uma estudante universitária pesquisa sobre uma personagem recorrente na literatura, aparecendo desde o século XVIII em poemas, contos, romances, quadrinhos e pulp fictions: Promethea. Seu trabalho faz com que a heroína re-surja.


O que aconteceria se você de repente descobrisse que todos os seu sonhos são realidade num universo paralelo ou que tudo o que todos imaginam seja realmente criado e componha um universo inteiro?


Foi isso que a estudante Sophie Bangs descobriu após uma entrevista com a viúva do último autor a falar de Promethea, Bárbara Sheley. O seu fascínio pela personagem irá atrair para si a missão de encarnar a deusa.


A partir de então, a garota, quer como Sophie, quer como Promethea, irá enfrentar toda sorte de entidades malignas que desejam que a ponte entre o mundo real e o imaterial seja destruída.

Com referências a mitos, lendas inglesas e a quadrinhos pulp fictions, Sophie irá visitar reinos fantásticos situados no plano da imatéria, obtendo das outras Prometheas de outras épocas seu treinamento, cada uma representando um caminho.


Neste vai e vem entre a realidade do mundo físico e a realidade do mundo da imaginação, Alan Moore vai construindo sua trama, prendendo o leitor nas malhas de um mundo fantástico.


Além do texto brilhante, a arte e a diagramação dos quadrinhos de J.H. Williams III e Mick Grabs acompanha estas viagens alucinandes em ambas as realidades, com algumas homenagens a estilos de ilustrações de pulp fictions dos anos 20 e revistas em quadrinhos do anos 50, entre outros.


Para o pessoal que curte magia e coisas semelhantes: Alan Moore sabe muito bem do que fala, demonstrando conhecimentos de símbolos específicos, nomes de demônios e seus comportamentos e intenções e "geografia" de realidades paralelas.