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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Rei Rato


Titulo Original: King Rat
Autor: China Miéville
Tradução: Alexandre Mandarino
Editora: Tarja Editorial
Ano: 2011
400 páginas

Sinopse: Saul é surpreendido com a morte do pai e logo em seguida com a sua prisão. Enquanto aguarda novo interrogatório em sua cela, é libertado por um homem de maneiras furtivas, que se autodenomina Rei Rato. A partir daí Saul toma contato com um mundo novo escondido em pontos obscuros da cidade de Londres: os becos, os telhados e sobretudo o esgoto, onde encontra com os súditos do Rei Rato e outros reis, criatura antropomórficas de animais e um grande inimigo comum a todas estas criaturas.

Com uma tradução primorosa de Alexandre Mandarino, que se preocupa em contextualizar o leitor no universo onde a trama se desenrola: o mundo dos excluídos de Londres e o mundo dos músicos e fãs do Drum and Bass, que se misturam entre si.

Rei Rato pode ser classificado como New Weird, um gênero de literatura fantástica caracterizado entre outras coisa por misturar elementos das três vertentes principais da literatura fantástica: horror, fantasia e ficção científica, mas poderia igualmente ser caracterizado como Fantasia Urbana, sem susto. Mas pouco importa a classificação, pois o romance é excelente.

O primeiro ponto a favor de Miéville é a linguagem. Ele usa metáforas pouco usuais pra descrever as ações, o ambiente e os sentimentos dos personagens chegando a tornar poéticos vários trechos. Isso desde a frase que abre o romance:

Os trens que entram em Londres chegam como navios que singram telhados.

Esta poetização ocorre mesmo em trechos onde algumas pessoas sentiriam asco.

Um outro elemento importante é música, que dá o foco e, literalmente, o ritmo da narrativa. Narrativa esta que prende o leitor de várias maneiras, pelo clima, pelo suspense e pelos personagens, principalmente Saul. E também pelo desenlace da trama.

A escolha do inimigo dos ratos é perfeita e muito bem contextualizada no enredo.

A capa está ótima, bem como as ilustrações internas e as vinhetas dos capítulos, ressaltando muito bem o clima de Rei Rato.

Uma pequena bronca na Tarja: cadê o título original? Esta referencia é bastante importante, mesmo neste caso em que é óbvio: King Rat (mas tive que confirmar pelo Google).

E agora um elogio: o disclaimer da página 2 (“Todas as citações e nomes... etc) é hilariante (não sei se é ideia da Tarja ou do autor).

Nerd Shop

Você pode encontrar Rei Rato aqui


domingo, 3 de novembro de 2013

Once Upon a Time...



Um dia depois do Dia das Bruxas recebi a notícia de que a Tarja Editorial, que investira pesadamente na Literatura Fantástica, fechara as portas. As mesmas portas que abrira anos antes para autores iniciantes e para um gênero marginalizado pelo mainstream.

Muitos autores inciantes começaram por lá e alguns tive o prazer de conhecer nos lançamentos e que depois se tornaram meus amigos, em companhia dos diretores da Tarja, Richard Diegues e Giampaolo Celli, pessoas que tinham um real entusiasmo por aquilo que faziam, desde a escolha de autores, de títulos, da arte da capa, tradução de obras estrangeiras e de tudo que faz um bom livro.

De todos os lançamentos, merece destaque a coleção Fantástica Literatura Queer que, mais do que levantar uma bandeira, trouxe textos de real qualidade de um tema duplamente marginalizado.

Não sabemos qual o motivo que gerou esta decisão, mas supomos ser pelas agruras deste mercado editorial, onde todos nós, autores, editores, críticos e leitores, somos pressionados pelos desprezo do chamado mainstream, da presença maciça de multinacionais que entopem as livrarias com livros com vários tons de cinza ou códigos de pintores renascentistas de um lado e de editoras caça niqueis de outro, que aviltam o trabalho de bons editores.


Espero sinceramente que o trabalho de Richard Diegues e de Giampaolo Celli continue em outras paragens. O mundo da Literatura Fantástica precisa de gente assim.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Paradigmas 3

Paradigmas 3
Autor: Richard Diegues (org)
Editora: Tarja
Páginas: 120
Ano: 2009


Sinopse:
Volume 3 da coleção Paradigmas que reúne contos que têm em comum não terem nada em comum (aparentemente).
 

O nome foi escolhido pela Tarja Editorial para justificar este tipo de reunião, tentando romper os limites entre gêneros, em especial, Ficção Científica, Terror e Fantasia. 

A quebra de paradigmas funciona no sentido em que há realmente uma boa amostra de gêneros. 

Entretanto, poucos dos contos presentes em Paradigmas 3 realmente romperam os limites gêneros a que estão presos. Quase todos, sem muito esforço, podem ser classificados num gênero específico, com uma provável exceção do conto de Hugo Vera, "O Homem Bicorpóreo", já publicado na coletânea Solarium, onde a parapsicologia ganha o espaço da magia num conto de FC (os puristas dirão que parapsicologia é também ciência).
Apesar de não terem rompido os limites, os contos são bons, o que indica um cuidado na escolha dos textos por parte de seu organizador, Richard Diegues. Este é um dos mérito desta coletânea, num momento em que no mercado estão surgindo várias coleções sem um cuidado de uma seleção mais criteriosa por parte de seus organizadores.

"Baby Beef, Baby", de Richard Diegues. Um muito bem humorado conto cyberpunk, onde um programador tem que testar um módulo de segurança de um programa que controla um rebanho de gado. O bom humor fica por conta da contextualização "histórica" da situação mundial e porque o gado é tão importante naquele contexto e da maneira como os o personagens navegam no mundo real e virtual.

"O Mito da Fecundação", de Ludimila Hashimoto. Uma fábula onde duas sociedades primitivas dependem uma da outra e uma delas tenta romper com esta dependência apropriando-se do conhecimento da outra.

"Reminiscências de um mundo verde", de Ronaldo Luiz de Souza. Um conto com fundo ecológico, onde somente privilegiados podem possuir um jardim. Apesar da mensagem ser óbvia, a maneira de contá-la é original, sobretudo o desfecho.

"O Animal Morto", Saulo Sisnado. História de Terror, onde uma menina encontra em seu jardim uma carcaça de um estranho animal. Na abertura, o autor nos dá uma pista do que nos espera, pois afirma que tem preferências por histórias onde o monstro é mais explícito.

"Lamentações de Jeremias", de Lúcio Manfredi. Uma ficção científica onde o humor predomina e conta a história de um autor frustrado com um crítico que costumava arrasar suas obras.

"Esperança Corrompida", de Leandro Reis. Fantasia medieval sobre um vilarejo assolado por um demônio que derrota um a um todos os cavaleiros que ousam enfrentá-lo.

"Em Berço Esplêndido", de Camila Fernandes. Num conto narrado como se fosse um artigo de revista ou tópico de livro didático, a autora cria uma lenda como as que costumam povoar as histórias do interior de São Paulo.

"Choque de Civilizações", de Marcelo Jacinto Ribeiro. Fantasia onde predomina o humor, sobre uma invasão involuntária feita por um contador carente de imaginação ao reino dos gnomos.


"Hatzemberg", Davi Gonzáles. Após a morte misteriosa de um colega, um padre é assolado por fortes dores de cabeça, acompanhado de pesadelos com seres que exigem que abandone a religião cristã, toda vez que ministra seus ofícios religiosos.

"A Velha Remington", Wolmir Alcântara. Terror onde um escritor mantém seus originais ocultos porque atribui um poder mágico a uma velha máquina de escrever. Lembra bastante o seriado Além da Imaginação.

"O Cavaleiro e o Senhor do Inverno", de Gianpaolo Celli. Outra fantasia medieval, onde um cavaleiro para honrar o código de conduta, auxilia uma inimiga a salvar seu irmão.

"De Vento e de Pedra", de Viviane Yamabuchi. Fantasia Mitológica sobre o relacionamento de uma fada com uma estátua.

"O Homem Bicorpóreo", de Hugo Vera. FC onde a ciência em foco é a parapsicologia.

Nerd Shop:
Paradimas 3, de Richard Diegues -- Organizador (Tar
ja)

domingo, 14 de abril de 2013

Steampunk: Histórias de um passado extraordinário


Steampunk: Histórias de um passado extraordinário
Autores: Gianpaolo Celli (org.), Fábio Fernandes, Antonio Luiz M. C. Costa, Alexandre Lancaster, Roberto de Souza Causo, Cláudio Villa, Jacques Barcia, Romeu Martins e Flávio Medeiros
Editora: Tarja Editorial
Ano: 2009

Sinopse: Esta coletânea foi a primeira coletânea do gênero no Brasil. Com uma seleção de textos cuidadosa de Gianpaolo Celli, reúne textos de diversos matizes sobre o gênero.

Este gênero da Ficção Científica, explora um momento extremamente rico da história: o século XIX, acrescentando alguns desenvolvimentos tecnológicos dos séculos XX e XXI, construídos a partir da tecnologia da época (à vapor, principalmente, daí o steam). O exemplo mais famoso é o computador, descrito em A MáquinaDiferencial, de William Gibson e Bruce Sterling. Ao lado da tecnologia, o desenvolvimento social também é explorado, com os impactos à sociedade, tendo como pano de fundo a Era Vitoriana, com seu moralismo rígido, as distorções provocadas pela exploração dos trabalhadores e as guerras (o século XIX se rivaliza com século XX em número de conflitos). Daí o termo punk. O steampunk em sua essência seria um gênero nostálgico, (retro)futurista e distópico.

O Assalto ao Trem Pagador – Gianpaolo Celli

O conto centra-se na ação de três agentes, uma mulher e dois homens no assalto a um trem com um carregamento de ouro. A missão tem uma relação com a Guerra Franco-Prussiana, que ocorreria em pouco tempo.

Há uma preocupação do autor em dar verossimilhança aos engenhos que coloca no conto, como pistola de “dardos” elétricos, com uma breve descrição e algumas notas de rodapé. Esta preocupação com detalhes tecnológicos o aproxima da FC Hard. Mas isso não compromete o desenvolvimento da narrativa e do clima de aventura. O leitor mais entusiasmado com o desenrolar da trama, pode simplesmente ignorar as notas de rodapé, sem prejuízo para o entendimento.

Uma breve história da Maquinidade – Fábio Fernandes

Este conto mereceu uma inserção na coletânea de Bráulio Tavares, Páginas do Futuro, acredito que pela originalidade de seu ponto de vista. A História é contatada do ponto de vista das máquinas.Parodiando um compêndio didático mostra a evolução da Maquinidade desde a segunda criatura do Dr. Victor Frankstein, que abandonara os cadáveres para usar engrenagens e vapor. Há algumas passagens dignas de nota: como a adesão de Marx à luta pelos direitos das máquinas e a guerra entre duas empresas fabricantes de Cérebros Mecânicos.

A Flor do Estrume – Antônio Luiz M. C. Costa

Recheados de referências a Machado de Assis e a mitos indígenas, Costa imagina índios num grau de evolução tecnológica que permite a Brás Cubas realizar sua sonhada panaceia universal. O conto é muito engraçado, principalmente para quem leu Machado de Assis.

E, ao vencedor, as batatas.

A Música das Esferas – Alexandre Lancaster

Um cientista desenvolve um aparelho para captar a música da “harmonia das esferas”, acreditando que com isso aumentaria a inteligência das pessoas. Porém morre ao experimentar o aparelho em si mesmo. Apesar disso, uma apresentação pública do invento esta programada, o que provocaria morte de todos os presentes. Um jovem cientista e seu amigo tentam impedir que isto aconteça.

O humor está presente de várias formas e a aventura também, fazendo a leitura ser bastante divertida.

O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire – Roberto de Souza Causo

Num Brasil onde não aconteceu a Proclamação da República, o país enfrente a ameaça de uma invasão vinda dos ares. Quem comanda a invasão é Robida, um pirata dos ares, que quer dominar o planeta. Sua tecnologia é bastante superior ao que set em disponível no mundo naquele momento e naquela realidade.

A tentativa do Brasil combatê-lo reside na habilidade e criatividade de um homem: Alberto Santos Dummont.

Uma bem movimentada aventura, centrado em questões militares, onde normalmente Causo brilha.

O Dobrão de Prata – Claudio Villa

O conto foge um pouco ao gênero. É mais uma história de horror do que propriamente FC e peca num coisa fundamental para uma história de horror: a partir de um terço da história, já sabemos qual será seu final. Um conto apenas competente.

Uma Vida Possível atrás das Barricadas – Jacques Barcia

O ambiente é uma guerra civil, uma luta de classes onde trabalhadores oprimidos e seres artificiais lutam por igualdade. Neste clima, um autômato mecânico e uma golem buscam refúgio num cidade controlada pelos rebeldes onde podem dar vazão a seu sonho: terem um filho.

Como os dois são seres artificiais de espécies diferentes, necessitam da ajuda de um cientista humano.

O autômato torna-se um miliciano e luta no front, resitindo ao cerco. A situação vai se agravando a media que o tempo passa e o cerco à cidade vai aumentando.

Há boas cenas de batalha.

O final é surpreendente e poético. Gostei bastante deste conto.

Cidade Phantástica – Romeu Martins

Este conto reúne personagens de Conan Doyle e Júlio Verne, figuras históricas brasileiras e personagens do romance a Escrava Isaura numa aventura policial e de ficção científica de tirar o folego. Este conto é o que mais caracteriza o Steampunk e lhe dá um ar bem brasileiro.

O sequestro da noiva de um industrial inglês e o desparecimento de uma enorme quantidade de tubos de aço põe em ação o policial ferroviário João Fumaça.

Uma boa quantidade de aventura e suspense garante a diversão.

Por um fio – Flávio Medeiros

Um submarino da marinha de guerra francesa e uma fortaleza voadora do império inglês travam uma batalha estilo gato-e-rato. Na realidade é uma batalha entre os dois comandantes, extremamente habilidosos, que se respeitam enquanto inimigos, através de uma admiração mútua. Lembra muito um episódio de Star Trek clássico, onde Kirk enfrenta um comandante romulano (O Equilíbiro do Terror).

Fecha com chave de ouro a coletânea.

Nerd Shop

Steampunk: Histórias de um passado extraordinário. Tarja Editorial
Steampunk. Livraria Cultura

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Reino das Névoas – contos de fadas para adultos


Reino das Névoas – contos de fadas para adultos
Autor: Camila Fernandes
Ilustrações e capa: Mila F (Camila Fernandes)
Editora: Tarja
Ano: 2011
168 páginas

Sinopse:  O livro reúne contos de fadas, recriados ou criados procurando resgatar  a forma como este tipo de narrativa era feito no passado.

O conceito de infância que temos hoje só surgiu após o estabelecimento da filosofia racionalista do século XVIII, tendo como marco a publicação de O Emílio, de Rosseau. Antes as crianças só se diferenciavam dos adultos pelo tamanho e habilidades. As narrativas, sobretudo de tradição oral, não tinham contornos para evitar ou atenuar passagens mais cruentas e cruéis ou que envolvessem sexualidade. Os Irmãos Grimm, que compilaram a maioria dos contos que conhecemos hoje fizeram o primeiro filtro, já dentro da visão de que existe uma infância a ser preservada e já influenciados pela ética protestante. Mesmo assim, alguns contos sofreram ainda mais uma censura deles mesmos na segunda edição. Ao longo do tempo mais e mais atenuações foram introduzidas.

Há ainda outros fatores históricos que mudaram a teor da narrativa. Por exemplo, na Idade Média, o perigo de um ataque de um lobo era real e palpável. Então o chapeuzinho vermelho devia temer mesmo um lobo, sem nenhuma metáfora. Com o passar do tempo, o perigo é um adulto manipulador, que pode ser representado por um lobo.

Contudo o livro não se propõe a um resgate histórico, nem criticar a forma como os contos são contados hoje para as crianças, mas apenas de trazer de volta alguns elementos ausentes para criar uma atmosfera fantástica que abranja alguns fatores importantes do universo adulto.

Ao pegar o livro, primeira coisa que se nota é que houve um cuidado na edição de emular um livro de contos de fadas de criança, desde a capa, passando pelas ilustrações internas, o papel, a tipologia dos títulos e do texto e uso de capitulares.

O texto também guarda similaridade com o dos Irmãos Grimm, mas de uma forma mais fluída e poética, mesmo nas passagens onde há crueldade explícita, e evitando sempre que possível o uso de lugares comuns (inclusive o “Era uma vez...” e o “...viveram felizes para sempre”), o maniqueísmo clássico e o final fechado.

O Chifre Negro

Uma princesa necessita pegar um chifre de unicórnio para salvar o pai. Essa busca a leva a uma série de situações perigosas, cruéis e amargas que a marcam de forma indelével e a levam ao amadurecimento como pessoa. Angustiante.

O Lenhador e a Sombra

Esta talvez seja a mais poética das histórias. Um lenhador solitário encontra uma companhia na floresta. A questão do desapego norteia a condução do conto. Belíssimo.

A Outra Margem do Rio

Duas cidades separadas por um rio e pelo preconceito. Um pai e leva o filho para um casamento com uma noiva do outro lado. Acontecimentos trágicos marcam esta travessia. A questão do que é realmente importante dá o tom.

A Torre onde ela dorme

Uma princesa tem muitas habilidades e só aceita casar-se com um homem que a vença. Por inveja de seus pretendentes é condenada a dormir um sono eterno, até que seja vencida por um homem. Esta é uma versão da história da bela adormecida, com um príncipe nem um pouco nobre. Surpreendente.

A Filha do Fidalgo

Uma jovem fantasia que um sapo que encontra em seu quarto, se beijado se tornaria um príncipe. Será?

A Espera

Uma metáfora para a busca da felicidade a partir de esperanças vãs, que na realidade impedem de ver que ela está ao alcance de sua mão.

Reino de Névoas

Uma Branca de Neve não tão pura e não tão indefesa. O conto mais longo e também o mais movimentado. O melhor da coletânea.

O resultado geral é muito bom, atingindo plenamente os objetivos da autora.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Fantástica Literatura Queer – Volume Laranja





Organizadores: Rober Pinheiro, Cristina Lasaitis
Autores: Osíris Reis, Cláudio Parreira, Eric Novell, Renato A. Azevedo, Cindy Dalfovo, Daniel Machado, Kyran, Rober Pinheiro. Prefácio: Luiz Mott.
Editora: Tarja Editorial
Ano: 2011
176 páginas

Sinopse: Segundo volume da coletânea de contos tendo por diretriz a diversidade tanto de estilos, gêneros (fantasia, horror e ficção científica) e sexualidade.

Seguindo a mesma linha da Fantástica Literatura Queer – Volume Vermelho, este livro reúne mais oito contos dentro das temáticas Ficção Científica, Fantasia e Horror, voltados pra a a diversidade sexual.

Neste volume, percebe-se ainda o cuidado na seleção e a qualidade literária dos contos.

Queda – Osíris Reis
Uma narrativa com contornos épicos, como se fosse um recorte de uma imensa batalha de dois anjos contra um grupo de guerreiros dispostos a destruir divindades femininas. A condução do texto é bem emocionante e lembra narrativas mitológicas. Nota dez para o uso preciso e ao mesmo tempo poético da linguagem. Emoção pura.

A Presença Cláudio Parreira
Atenção! Spoiller!
Um conto sobre um homem insatisfeito com seu casamento que passa sentir a presença de um ser que o seduz. Bem escrito, mas com um defeito:  o conto lembra um pouco um dos maneirismos de Wood Allen: criar uma mulher detestável para justificar o adultério. Isso minimiza o conflito. É fácil para o marido insatisfeito se jogar nos braços de outrem (mulher, homem ou espectro), se a esposa não se importa com ele e até o despreza.  Isso torna o conto previsível, ainda que esteja bem escrito. Um conto apenas competente e o mais fraco da coletânea.

Sonhos e Refúgios – Eric Novello
Um mago exorcista, num congresso de magia, faz uma palestra onde conta dois sonhos seus, recorrentes, relacionados com sua sexualidade, que acabam atrapalhando sua profissão. História bem movimentada, com uma leve referência à literatura policial, mas com um pé firme no fantástico.

A Lista: Letras da Igualdade – Renato A. Azevedo
Atenção! Spoiller!
Uma lista de discussões na internet, por algum fenômeno desconhecido, mistura vários universos paralelos, vários Brasis, onde os análogos podem trocar mensagens. Duas destas realidades acabam influenciando uma a outra. Em uma delas vive-se um momento de opressão violenta à diversidade sexual, com perseguição às minorias, na outra a situação é a extrema oposta, com uma ditadura das minorias (manipuladas por políticos inescrupulosos), escudadas em leis de “afirmação positiva”. Em ambos os mundos o que tem em comum é a intolerância, a corrupção dos políticos e a hipocrisia da sociedade.  Faz pensar. O melhor deste volume.

O Beijo de Alice – Cindy Dalfovo
O conto pode ser lido como uma resposta à pergunta: “quanto tempo será necessário para que os seres humanos percebam que amor é apenas Amor?” Basicamente fala, de uma forma muito poética, da mudança de conceitos, da rejeição completa à aceitação plena do amor, ainda que fora dos parâmetros considerados adequados pela sociedade.

A primeira vez de Silvânia – Daniel Machado
Uma transexual, Silvânia, é seguida por um ser sobrenatural em seu trottoir. A personagem é concedida como reunisse em si todas as rejeições preconceituosas: etnia, gênero, orientação sexual e prostituição. Cada aspecto desta personagem é desnudado através dos olhos do ser que a segue, que o leitor acompanha ao longo da narrativa. Muito bom.

Awaken – Kyran
Um padre faz uma cerimônia de exorcismo em um rapaz. O duelo do padre com as criaturas é o centro deste conto. As motivações do padre são questionadas pelos demônios e a pergunta principal é “o motivo da queda de um demônio não poderia ser simplesmente o amor?” Emocionante em vários aspectos.

Eu era um Lobisomem Juvenil – Rober Pinheiro
Nas ruas de São Paulo, um homem trata de seus negócios. Parece ser um simples traficante, mas é mais do que isso. Está em busca de alguém, como um caçador.  Narrado em primeira pessoa, vamos tomando conhecimento da personalidade e das intenções do narrador aos poucos.  A surpresa final fica por conta do letreiro em neón.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A Fantástica Literatura Queer – Volume Vermelho



Fantástica Literatura Queer – Volume Vermelho
Organizadores: Rober Pinheiro, Cristina Lasaitis
Autores: Alliah, Camila Fernandes, Cesar Sinicio Marques, Rogério Paulo Vieira, Mônica Malheiros, Laura Valença Guerra, Cristina Lasaitis. Prefácio: Luiz Mott.
Ano: 2011
176 páginas


Sinopse: Coletânea de contos tendo por diretriz a diversidade tanto de estilos, gêneros (fantasia, horror e ficção científica) e sexualidade.

Rober Pinheiro e Cristina Lasaitis quando se lançaram nesta empreitada propuseram um trabalho sério, onde o quesito principal deveria ser a qualidade dos textos.  Limitaram um contorno onde a diversidade sexual deveria estar em pauta, como tema ou pelo menos cenário. Não restringiram a participação dos autores ao meio LGTB, mas colocaram limitantes no sentido de excluir qualquer texto com manifestação de homofobia ou de sexismo.

O resultado tanto da quantidade de textos participantes (que demandou uma maratona de leitura dos organizadores), que acabou gerando dois volumes (este, vermelho e outro, laranja) como da qualidade (que pude observar neste volume) foram surpreendentes.

Tanto a capa (fotografia de Katrina Brown) como o projeto gráfico (de Richard Diegues) foram primorosos.

Cada um dos contos é finalizado com um comentário do autor ou de um dos organizadores onde se contam suas motivações na feitura do texto. Isso dá algumas informações extras que permitem ao leitor sentir um pouco quem é aquela pessoa que escreveu aquele conto.

Fechando o volume há uma pequena biografia de cada um.

Uma grande sacada a é a ausência de índice.

Morgana Menphis contra a Irmandade Gravibramânica - Alliah

De longe o texto mais divertido da coletânea. Morgana Mephis é uma cantora pop que entra numa batalha contra uma tentativa de genocídio de uma raça alienígena que optou por adquirir de forma artificial sua sexualidade, inexistente no seu planeta de origem. A autora optou por levar tudo ao extremo, tanto a diversidade sexual como as reações homofóbicas em especial as pautadas em convicções religiosas ou políticas. Isso torna o conto extremamente movimentado e, em alguns momentos, carregados de um humor cáustico. Tanto Morgana como sua companheira Amadahy são duas heroínas excelentes. O conto da vontade de ler mais coisas da autora, em especial se tiverem pelo menos uma das duas em ação.

É foda existir – Camila Fernandes

Num texto belíssimo, uma pessoa conta seu amor por outra. Tanto o gênero como a orientação sexual delas vão surgindo lentamente e o desenrolar do final também. Esta forma poética de narrar é o grande destaque do conto.

Eu tenho um disco voador na garagem – Cesar Sinício Marques

Este é um conto que trata da descoberta da homossexualidade por dois jovens, que tem que lidar com as próprias incertezas. Tão imponderáveis quanto à possibilidade da existência ou não de vida em outro planeta. Perfeito, desde o título.

Alternativa A – Rogério Paulo Vieira

Diante de um desastre, a comandante de uma nave tem que tomar uma decisão. Optará por uma decisão racional esquecendo seus sentimentos? O que é uma decisão “racional”? O conto discute a racionalização do ato de esconder a orientação sexual em função da sociedade.

Distúrbia – Monica Malheiros

Um jogador perde algo muito importante em um jogo. Um conto que mistura horror com erotismo e coloca a questão das relações onde há submissão. Quem realmente está no controle?

Eros – Laura Valência Guerra

Um jovem às voltas com sua orientação sexual recebe a visita de um anjo. O conto procura deslindar os meandros da mente em dúvida do jovem, o anjo simbolizando a sua redenção diante de si mesmo. Muito bom!

Sal e Fogo – Cristina Lasaitis

A relação tumultuda de amor e ódio entre duas irmãs. O conflito entre as duas tem como panorama um conflito maior entre o Deus e a Deusa. Entre o socialmente aceito e o comportamento incestuoso das duas. E finalmente, entre o sagrado e o profano, em uma falsa dicotomia. Prosa poética de primeira, mesmo quando a protagonista-narradora despeja seu ódio verborragicamente.



sábado, 27 de março de 2010

Fábulas do Tempo e da Eternidade

Ficha Técnica

Fábulas do Tempo e da Eternidade
 
Autor: Cristina Lasaitis
Editora: Tarja
Páginas: 174
Ano: 2008


Sinopse: Em doze contos, misturando os gêneros ficção científica e fantástico, a Cristina Lasaitis conta histórias que tem por pano de fundo o Tempo e a Eternidade.
Ao ler os primeiros parágrafos deste livro, temos a sensação de que a autora tem um domínio muito grande de sua ferramenta principal: a linguagem. Seu texto parece poesia, trabalhando cenas, diálogos, personagens e sensações muito bem.


E também demonstra ser igualmente hábil nos dois outros quesitos pra se fazer uma boa ficção científica: saber escrever uma boa história e ter um bom conhecimento científico.


Como o tema é "tempo e eternidade", o sumário é uma representação gráfica de um relógio. Começando à 1h00, com um conto sobre a internet: "Além do Invisível". Parece que ela fez de propósito pra contrariar minha crônica no Pai Nerd, onde afirmo que não há boas histórias sobre a internet na literatura clássica de FC. A autora sabe o que faz! Constrói um enredo sobre o relacionamento entre duas pessoas no mundo virtual, com delicadeza, com sutileza e com um final surpreendente.


Às 2h00, aparece o conto, "As Asas do Inca", onde somos levados para o império pré-colombiano, às vésperas da invasão espanhola, demonstrando um outro domínio: o dos mitos e lendas do povo Inca. Novamente a linguagem brilha.


Às 3h00, "Nascidos das Profundezas", onde descobrimos que o desconhecido pode estar debaixo de nosso narizes. E o futuro pode estar no passado.


Às 4h00, "Revés Alquímico", num campus de uma universidade com os problemas típicos de uma instituição de ensino do Brasil: falta de verbas, professores dedicados mas pouco valorizados, etc., um velho professor se dedica a uma pesquisa bem pessoal. Quem estudou Química em uma universidade pública vai se sentir em casa.


Às 5h00, "Assassinando o Tempo", onde aparece a personagem Cláudia Mansilha, muito bem construída pela autora. Neste conto o tema "tempo e eternidade" aparece com mais força e cercado por uma verossímil teoria física, mostrando que Cristina Lasaitis é realmente uma escritora de ficção científica que merece este nome, pois consegue transitar tanto na ficção científica soft quando na hard.


Às 6h00, "A Outra Metade" nos leva novamente ao fantástico, num bem construído conto sobre almas gêmeas.


Às 7h00, "Viagem Além do Absoluto", mostra uma outra faceta da FC, a cosmogonia, um conto que tem como pano de fundo o cosmos em seus últimos instantes. O nome do conto poderia ser "Enquanto houver Aurora", uma frase que aparece algumas vezes no texto, o que seria muito mais poético.


Às 8h00, em "De Onde Viemos, para Onde Vamos", velhos intelectuais fracassados se reúnem num café, discutindo filosofia diante de um ouvinte privilegiado. Um conto de FC que toca o fantástico, onde a ciência é a Filosofia.


Às 9h00, "Irmãos Siameses", um texto que também resvala no fantástico, nos conta a vida de dois irmãos que não podem se separar. As ciências que servem de apoio são a medicina e a psicologia. Uma boa história dramática, que certamente pode arrancar algumas lágrimas dos mais sensíveis.


Às 10h00, "Caçadores de Anjos", nos remete à Idade Média e à Inquisição, onde nem os anjos eram poupados da fogueira.


Às 11h00, "Os Parênteses da Eternidade", onde um correio entre épocas permite uma conversa de alguém do presente com que ainda não nasceu. A dra. Mansilha é citada mais uma vez, mas apenas para ligar esta história com "Assassinando o Tempo". O lado humano da ficção hard.


E, finalmente, à meia noite, fechando o volume, o conto "Meia Noite", onde o tema internet, é retomado no mesmo universo do primeiro conto, fechando o que ali foi aberto.


No geral, Fábulas do Tempo e da Eternidade é um livro excelente, mostrando versatilidade da autora, que não deixa de ser brasileira para ser universal.