Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Reino das Névoas – contos de fadas para adultos


Reino das Névoas – contos de fadas para adultos
Autor: Camila Fernandes
Ilustrações e capa: Mila F (Camila Fernandes)
Editora: Tarja
Ano: 2011
168 páginas

Sinopse:  O livro reúne contos de fadas, recriados ou criados procurando resgatar  a forma como este tipo de narrativa era feito no passado.

O conceito de infância que temos hoje só surgiu após o estabelecimento da filosofia racionalista do século XVIII, tendo como marco a publicação de O Emílio, de Rosseau. Antes as crianças só se diferenciavam dos adultos pelo tamanho e habilidades. As narrativas, sobretudo de tradição oral, não tinham contornos para evitar ou atenuar passagens mais cruentas e cruéis ou que envolvessem sexualidade. Os Irmãos Grimm, que compilaram a maioria dos contos que conhecemos hoje fizeram o primeiro filtro, já dentro da visão de que existe uma infância a ser preservada e já influenciados pela ética protestante. Mesmo assim, alguns contos sofreram ainda mais uma censura deles mesmos na segunda edição. Ao longo do tempo mais e mais atenuações foram introduzidas.

Há ainda outros fatores históricos que mudaram a teor da narrativa. Por exemplo, na Idade Média, o perigo de um ataque de um lobo era real e palpável. Então o chapeuzinho vermelho devia temer mesmo um lobo, sem nenhuma metáfora. Com o passar do tempo, o perigo é um adulto manipulador, que pode ser representado por um lobo.

Contudo o livro não se propõe a um resgate histórico, nem criticar a forma como os contos são contados hoje para as crianças, mas apenas de trazer de volta alguns elementos ausentes para criar uma atmosfera fantástica que abranja alguns fatores importantes do universo adulto.

Ao pegar o livro, primeira coisa que se nota é que houve um cuidado na edição de emular um livro de contos de fadas de criança, desde a capa, passando pelas ilustrações internas, o papel, a tipologia dos títulos e do texto e uso de capitulares.

O texto também guarda similaridade com o dos Irmãos Grimm, mas de uma forma mais fluída e poética, mesmo nas passagens onde há crueldade explícita, e evitando sempre que possível o uso de lugares comuns (inclusive o “Era uma vez...” e o “...viveram felizes para sempre”), o maniqueísmo clássico e o final fechado.

O Chifre Negro

Uma princesa necessita pegar um chifre de unicórnio para salvar o pai. Essa busca a leva a uma série de situações perigosas, cruéis e amargas que a marcam de forma indelével e a levam ao amadurecimento como pessoa. Angustiante.

O Lenhador e a Sombra

Esta talvez seja a mais poética das histórias. Um lenhador solitário encontra uma companhia na floresta. A questão do desapego norteia a condução do conto. Belíssimo.

A Outra Margem do Rio

Duas cidades separadas por um rio e pelo preconceito. Um pai e leva o filho para um casamento com uma noiva do outro lado. Acontecimentos trágicos marcam esta travessia. A questão do que é realmente importante dá o tom.

A Torre onde ela dorme

Uma princesa tem muitas habilidades e só aceita casar-se com um homem que a vença. Por inveja de seus pretendentes é condenada a dormir um sono eterno, até que seja vencida por um homem. Esta é uma versão da história da bela adormecida, com um príncipe nem um pouco nobre. Surpreendente.

A Filha do Fidalgo

Uma jovem fantasia que um sapo que encontra em seu quarto, se beijado se tornaria um príncipe. Será?

A Espera

Uma metáfora para a busca da felicidade a partir de esperanças vãs, que na realidade impedem de ver que ela está ao alcance de sua mão.

Reino de Névoas

Uma Branca de Neve não tão pura e não tão indefesa. O conto mais longo e também o mais movimentado. O melhor da coletânea.

O resultado geral é muito bom, atingindo plenamente os objetivos da autora.

domingo, 9 de outubro de 2011

Deus ex machina – Anjos e Demônios na era do vapor


Deus ex machina – Anjos e Demônios na era do vapor.
Organizadores: Candido Ruiz, Tatiana Ruiz, M. D. Amado
Autores: Alex Nery, Alliah, Carlos Machado, Daniel I. Dutra, Davi M. Gonzales, Georgette Silen, Leonilson Lopes, Norberto Silva, O. S. Berquó, Paulo Fodra, Rebeca Bacin, Yuri W. Cortez 
Editora: Estronho
Ano: 2011
208 páginas


Sinopse: A expressão latina Deus ex machina pode ser interpretada como Deus é a causa e é usada em literatura quando uma situação insolúvel é resolvida com um elemento inesperado e fora do contexto, uma “forçada” de mão do autor que é o Deus da história. No caso aqui os organizadores resolveram dar o sentido que o senso comum dá à expressão: Deus é a  máquina, já que reúne Deus e máquina na mesma frase e é justamente isto que a coletânea se propõe. Uma mistura de gêneros terror com anjos e demônios e steampunk.

Um dos riscos quando se mistura gêneros é a falta de equilíbrio entre eles, acabando por um deles prevalecer e outro ficar forçado, apenas para cumprir tabela. Neste quesito, os organizadores conseguiram harmonizar o conjunto, com um bom resultado.

A capa esta boa, como tem sido as capas da Estronho, e as ilustrações do interior também, onde a editora continua buscando originalidade. Cada conto é precedido por uma ilustração em uma apresentação do autor e está numa “caldeira”, numerada com o número da página de início e o autor identificado como seu operador.

Há um senão: a combinação do papel sem tratamento (atualmente sendo chamado de “ecologicamente correto”) e desenhos e letras escuras acabou prejudicando a leitura da apresentação dos autores e, em alguns casos, até do nome do conto.

A Diabólica Comédia  - A Conquista dos Mares
Operador: Romeu Martins

O título é uma paráfrase de a Divina Comédia. Um submarino, comandado por um demônio enfrenta hordas de anjos em máquinas voadoras. Emocionante. Em alguns momentos chegamos a torcer pelo demônio.

Alerta de Spoiler!
O que está em jogo? O domínio dos mares, já que o inferno é de Lúcifer e o céu de Deus. Uma boa sacada.

A Seita do Ferrabraz
Operador: Paulo Fodra

Um bom conto de horror com anjos e demônios.  Tem como positivo de abordar um fato pouco explorado da história brasileira a revolta dos muckers, ocorrida no sul do país. O autor merece elogios por ter feito uma pesquisa e colocar os fatos principais em seu enredo de maneira consistente com o elemento sobrenatural.  O elemento steam está apenas en passant. E poderia muito bem ser substituído por qualquer outro elemento mágico ou tecnológico, que não faria diferença para o enredo. Porém isso é uma questão para os puristas do gênero, pois o que importa é que o conto é bom.


Anhanguera
Operador: Norberto Silva

Um padre perde seu rebanho, porém aos poucos os fieis retornam por que tudo o que pedem em suas orações é atendido. Nesta cidade onde todos estão felizes, surge um investigador que acha isso estranho. Outro bom conto onde o elemento steam está en passant. O final é bastante interessante (dizer mais é da spoiler).

O dia do grande Uirá
Operador:  Davi M. Gonzales

O conto divide-se em duas partes, uma contada por um indígena, que tenta encaixar o que aconteceu dentro de seus mitos e outro, de um militar português, num relato oficial. Os dois trechos estão muito bem escritos, com elementos de cada linguagem e cada visão de mundo muito bem colocados.

Neflin
Operador: Carlos Machado

Escavações de uma empresa mineradora topam com esqueletos do que pode ter siso restos de uma grande batalha. Junto às ossadas encontram estruturas metálicas que lembram asas. O autor vai buscar num passado remoto o desenvolvimento de uma tecnologia steam, que poderia ter dado origem àqueles mecanismos. A idéia é boa, mas o vai e vem no tempo dificulta um pouco acompanhar o enredo. Um pequeno spoiler:  A sacada maior do autor é usar um personagem histórico real que fez pequenas máquinas a vapor na antiguidade clássica.

Zeitgeist – Brigada anti incêndio
Operador: Yuri Wittlich Cortez

Patrocinado por um bispo, um inventor tenta construir uma máquina voadora que, segundo ele, subiria até os portões do céu. Contudo ele é perturbado constantemente por um brigadista anti-incêndio que volta e meia faz nova exigências de segurança. Um conto onde predomina o humor, com uma cena emocionante no final e uma piada que fecha a história com chave de ouro.

O Sheol de Abaddon
Operador: Alliah

Outro conto com traços de humor. Uma união aparentemente impossível de um anjo e um demônio é estabelecida para derrotar um inimigo comum. Boa descrição de batalhas.

Avatar de anjo
Operador: Georgete Silen

Um anjo desce ao inferno para enfrentar um inimigo. O começo do conto é muito bem elaborado,aguçando a curiosidade do leitor. Um enredo bem conduzido e um final bem pensado.  

A Obscura história da Sterling Railways
Operador: O. S. Berquó

Um estudante encontra dentro de um  livro uma carta que o conduz a uma investigação sobre o abandono da construção de uma ferrovia  após o desparecimento de alguns trabalhadores e de um engenheiro. 

O pai da mentira
Operador: Lenilson Lopes

Uma bem descrita batalha entre anjos e demônios.

A máquina dos sonhos
Operador: Daniel  I. Dutra

Um pintor frustrado, mas um engenheiro brilhante, resolve seu problema de falta de talento criando uma máquina que lê os as mentes das pessoas, captando suas imagens. Porém a máquina capta mais do que isto. Um bom conto, com um bom ponto de partida.

Os relógios pensantes de sua Majestade
Operador: Alex Nery

Na Índia, um inglês luta ao lado dos revoltosos hindus. Ele tem uma forte motivação para isto. Um conto que tem como pano de fundo a ética da ciência e da tecnologia. Excelente.

Cálico: entre o céu e o inferno
Operador: Rebeca Bacin

Uma mulher é procurada por um anjo para desarmar uma bomba. O plot simples conduz a uma boa e emocionante aventura.

No geral a coletânea é boa, com alguns contos excelentes. Mesmo os contos que tem poucos elementos do steampunk têm algo a acrescentar e principalmente, divertem o leitor.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Dia da Leitura


 
Menino Maluquinho, personagem de Millor Fernandes, obtido na Internet,

A Literatura Fantástica, em especial a brasileira, tem feito parte deste blog desde seu lançamento. E a literatura não sobrevive sem leitores e é para eles que os autores escrevem. Portanto, no Dia Nacional da Leitura, 12 de Outubro, leia um livro de literatura fantástica de autor lusófono (português, brasileiro, angolano, moçambicano, açoriano, etc..).

E boa diversão!

(P.S.: Ouvi dizer que os mitos e lendas açorianos são muito interessantes e têm um pé em Santa Catarina).


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Time Out – Os viajantes do tempo

Time Out – Os viajantes do tempo
Autores: Ademir Pascale (org), Roberto de Sousa Causo, Miguel Carqueija, Luciana Fátima, Álvaro Domingues, Estevan Lutz, Allan Pitz, Mariana Albuquerque. Apresentação: André Carneiro. Ensaio: Edgar Indanlecio Smaniotto. Orelha: Jorge Luiz Calife.
Editora: Estronho
Ano: 2011
120 páginas

Sinopse: Oito contos que têm por base a viagem no tempo. Os, autores, convidados por Ademir Pascale, tiveram total liberdade para criar, tendo como único parâmetro o tema. O resultado foram histórias que abrem um bom leque de visões sobre o assunto.

Déja-vù: O Forte Roberto de Sousa Causo
Uma mulher com uma doença terminal busca em uma viagem, um pouco de realização pessoal antes de morrer. Ao visitar um antigo forte, se vê transportada para uma batalha, século atrás, onde é um dos soldados em luta. A descrição ação e dos pensamentos da personagem ao ser surpreendida no passado, como suas dúvidas e angústias no presente estão muito bem realizados. Há uma ligeira referência a uma possível vida passada, à qual a personagem se transporta, mas isso não é fundamental para o enredo. A preocupação de Causo é uma reflexão sobre a vida, o sofrimento e a morte. Profundo.

A Velha Canção do Marinheiro – Ademir Pascale
O ponto de partida de Pascale são as experiências feitas no navio Eldridge, durante a Segunda Guerra, para torná-lo invisível, que segundo alguns, tiveram resultados inusitados e dramáticos, com parte da tripulação desaparecida. O fato é bastante explorado na literatura especulativa de não-ficção, com algumas teorias mirabolantes. O conto é narrado em primeira pessoa e centra-se no drama pessoal de um destes marinheiros que a cada 72 horas é transportado para outra época. O que mantém sua sanidade é a esperança de um dia numa destas viagens reencontrar-se com sua noiva. Angustiante. Nota dez para referência ao poema “A Balada do Velho Marinheiro”, de  Coleridge.

A Difícil Arte de Lidar com Patrulheiros do Tempo – Miguel Carqueija
Um cientista é visitado por um patrulheiro do tempo, que tem como missão matá-lo, pra evitar um desastre futuro. O conto é centrado na tentativa do cientista em convencer o patrulheiro a não matá-lo. O humor da situação dá o tom.

Pelas Badaladas do Tempo – Luciana Fátima
A autora opta por descrever a viagem no tempo como se fossem devaneios, conduzidas pelo badalar de sinos diferentes em diferentes épocas. Para ser um poema, falta apenas a rima e a métrica. Nostálgico.

Modelo do Ano – Álvaro Domingues
Dois nerds, que especulam sobre viagens no tempo, ao terminar a faculdade se separam e, dez anos depois, se reencontram. Este conto é de minha autoria. Apenas vou dizer que foi muito divertido escrevê-lo, já que é um conto com muito humor. Espero que os leitores se divirtam tanto quanto eu.

A Máquina da Insanidade – Estevan Lutz
Este pode ser considerado o que tem o maior apelo científico dos contos deste volume. O autor especula sobre o determinismo do Universo de uma maneira muito inteligente.

O Último Trem para Plêiades – Allan Pittz
Alienígenas levam um homem comum para ver um planeta similar à Terra onde pode observar o futuro do que poderia nos acontecer. Dizer mais do eu isto vai gerar spoilers desnecessários. Outro conto que tem uma boa dose de humor, sobretudo no desfecho, mas nos faz pensar.

Contra o apagar das Luzes – Mariana Albuquerque
Poderemos lutar contra o inevitável? Uma constatação amarga aguarda temponautas que tentam evitar um desastre de grandes proporções. Para reflexão. Excelente texto. 

Fechando o livro a há o ensaio Viagem no Tempo na Ficção Científica Brasileira: de Observadores a Viajantes do Tempo, de Edgar Indanlecio Smaniotto. O ensaio lança luz sobre esta vertente da FC, escrita no Brasil, desde as primeiras narrativas, onde o futuro ou o passado era observado por meio de algum aparelho tecnológico (por exemplo o poriviroscópio de Monteiro Lobado) ou mágico (O Copo de Cristal,  de Jeronymo Monteiro) até as incursões da Intempol. Muito bom.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Fantástica Literatura Queer – Volume Laranja





Organizadores: Rober Pinheiro, Cristina Lasaitis
Autores: Osíris Reis, Cláudio Parreira, Eric Novell, Renato A. Azevedo, Cindy Dalfovo, Daniel Machado, Kyran, Rober Pinheiro. Prefácio: Luiz Mott.
Editora: Tarja Editorial
Ano: 2011
176 páginas

Sinopse: Segundo volume da coletânea de contos tendo por diretriz a diversidade tanto de estilos, gêneros (fantasia, horror e ficção científica) e sexualidade.

Seguindo a mesma linha da Fantástica Literatura Queer – Volume Vermelho, este livro reúne mais oito contos dentro das temáticas Ficção Científica, Fantasia e Horror, voltados pra a a diversidade sexual.

Neste volume, percebe-se ainda o cuidado na seleção e a qualidade literária dos contos.

Queda – Osíris Reis
Uma narrativa com contornos épicos, como se fosse um recorte de uma imensa batalha de dois anjos contra um grupo de guerreiros dispostos a destruir divindades femininas. A condução do texto é bem emocionante e lembra narrativas mitológicas. Nota dez para o uso preciso e ao mesmo tempo poético da linguagem. Emoção pura.

A Presença Cláudio Parreira
Atenção! Spoiller!
Um conto sobre um homem insatisfeito com seu casamento que passa sentir a presença de um ser que o seduz. Bem escrito, mas com um defeito:  o conto lembra um pouco um dos maneirismos de Wood Allen: criar uma mulher detestável para justificar o adultério. Isso minimiza o conflito. É fácil para o marido insatisfeito se jogar nos braços de outrem (mulher, homem ou espectro), se a esposa não se importa com ele e até o despreza.  Isso torna o conto previsível, ainda que esteja bem escrito. Um conto apenas competente e o mais fraco da coletânea.

Sonhos e Refúgios – Eric Novello
Um mago exorcista, num congresso de magia, faz uma palestra onde conta dois sonhos seus, recorrentes, relacionados com sua sexualidade, que acabam atrapalhando sua profissão. História bem movimentada, com uma leve referência à literatura policial, mas com um pé firme no fantástico.

A Lista: Letras da Igualdade – Renato A. Azevedo
Atenção! Spoiller!
Uma lista de discussões na internet, por algum fenômeno desconhecido, mistura vários universos paralelos, vários Brasis, onde os análogos podem trocar mensagens. Duas destas realidades acabam influenciando uma a outra. Em uma delas vive-se um momento de opressão violenta à diversidade sexual, com perseguição às minorias, na outra a situação é a extrema oposta, com uma ditadura das minorias (manipuladas por políticos inescrupulosos), escudadas em leis de “afirmação positiva”. Em ambos os mundos o que tem em comum é a intolerância, a corrupção dos políticos e a hipocrisia da sociedade.  Faz pensar. O melhor deste volume.

O Beijo de Alice – Cindy Dalfovo
O conto pode ser lido como uma resposta à pergunta: “quanto tempo será necessário para que os seres humanos percebam que amor é apenas Amor?” Basicamente fala, de uma forma muito poética, da mudança de conceitos, da rejeição completa à aceitação plena do amor, ainda que fora dos parâmetros considerados adequados pela sociedade.

A primeira vez de Silvânia – Daniel Machado
Uma transexual, Silvânia, é seguida por um ser sobrenatural em seu trottoir. A personagem é concedida como reunisse em si todas as rejeições preconceituosas: etnia, gênero, orientação sexual e prostituição. Cada aspecto desta personagem é desnudado através dos olhos do ser que a segue, que o leitor acompanha ao longo da narrativa. Muito bom.

Awaken – Kyran
Um padre faz uma cerimônia de exorcismo em um rapaz. O duelo do padre com as criaturas é o centro deste conto. As motivações do padre são questionadas pelos demônios e a pergunta principal é “o motivo da queda de um demônio não poderia ser simplesmente o amor?” Emocionante em vários aspectos.

Eu era um Lobisomem Juvenil – Rober Pinheiro
Nas ruas de São Paulo, um homem trata de seus negócios. Parece ser um simples traficante, mas é mais do que isso. Está em busca de alguém, como um caçador.  Narrado em primeira pessoa, vamos tomando conhecimento da personalidade e das intenções do narrador aos poucos.  A surpresa final fica por conta do letreiro em neón.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Adorável Noite - Um divertido livro de terror


Autor: Adriano Siqueira
Editora: Estronho
Ano: 2011
148 páginas

Sinopse: Coletânea com 66 contos de terror, a maioria sobre vampiros.

Adriano Siqueira é muito conhecido entre escritores, fãs e editores do gênero fantástico, por sua presença amigável e constante na maioria dos eventos e pelo seu esforço pessoal na divulgação do gênero, fotografando, entrevistando autores e publicando textos no seu fanzine Adorável Noite.

Quando ele me contou que lançaria um livro fiquei contente e na expectativa. Conhecia o seu texto dos fanzines e da sua página na internet, mas o livro impresso é sempre diferente.

E a primeira coisa que se nota no livro é que Adriano Siqueira escreve para internet. Seus contos são curtos e vapt-vupt, sem rodeios. A maioria dos textos tem uma dose de humor e alguma surpresa ao leitor. E percebemos que ele se divertiu muito ao fazê-lo. A sensação que se tem é que Adriano Siqueira é um moleque escondido atrás do sofá, esperando alguém abrir a porta para dar-lhe um susto.  E com certeza, quem dá o susto se diverte mais do que quem leva.

Adriano quer ir logo ao que interessa e, a partir de uma boa ideia, já coloca o leitor no centro da ação e logo faz o desfecho. Isso funciona muito bem na internet, mas perde um pouco do glamour quando lemos o livro impresso, um conto após o outro. É o mesmo que ler uma coletânea de tirinhas de quadrinhos. Com o tempo começamos a antecipar a piada (e no caso de Adriano, o susto).

As idéias que norteiam os contos são muito boas. Tão boas que muitas vezes temos a sensação de que faltou algo, pois mereciam um desenvolvimento um pouco maior.

Outra coisa que se nota em alguns contos é a não preocupação com a consistência lógica que às vezes nos faz voltar o parágrafo para ver se entendemos direito. Por exemplo, pessoas comuns aceitam a existência dos vampiros sem questionar. Ou, como ocorre num dos contos (Os Visitantes): a personagem corre incontinenti (“Denise não pensou duas vezes”), mas tem tempo de desenvolver um dialogo relativamente longo com a outra vítima.

Isso muda um pouco na sequencia de contos que mostra um relacionamento complicado entre o vampiro Andário e a fada Alami. Nestes textos, há uma preocupação em dar profundidade aos dois personagens e considero os melhores da coletânea.

Nos contos de terror fora da temática vampiro, o melhor deles é “O Fotografo”, onde Adriano coloca o terror no ambiente virtual de maneira bastante inteligente.

No todo é um livro bom, mesmo com as ressalvas que coloquei. Para evitar o efeito “eu já sei o que vai acontecer”, recomendo intercalar a leitura do livro com outro ou dar um tempo entre um conto e outro

Um destaque especial para a capa que lembra muito as revistas antigas de terror.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A Fantástica Literatura Queer – Volume Vermelho



Fantástica Literatura Queer – Volume Vermelho
Organizadores: Rober Pinheiro, Cristina Lasaitis
Autores: Alliah, Camila Fernandes, Cesar Sinicio Marques, Rogério Paulo Vieira, Mônica Malheiros, Laura Valença Guerra, Cristina Lasaitis. Prefácio: Luiz Mott.
Ano: 2011
176 páginas


Sinopse: Coletânea de contos tendo por diretriz a diversidade tanto de estilos, gêneros (fantasia, horror e ficção científica) e sexualidade.

Rober Pinheiro e Cristina Lasaitis quando se lançaram nesta empreitada propuseram um trabalho sério, onde o quesito principal deveria ser a qualidade dos textos.  Limitaram um contorno onde a diversidade sexual deveria estar em pauta, como tema ou pelo menos cenário. Não restringiram a participação dos autores ao meio LGTB, mas colocaram limitantes no sentido de excluir qualquer texto com manifestação de homofobia ou de sexismo.

O resultado tanto da quantidade de textos participantes (que demandou uma maratona de leitura dos organizadores), que acabou gerando dois volumes (este, vermelho e outro, laranja) como da qualidade (que pude observar neste volume) foram surpreendentes.

Tanto a capa (fotografia de Katrina Brown) como o projeto gráfico (de Richard Diegues) foram primorosos.

Cada um dos contos é finalizado com um comentário do autor ou de um dos organizadores onde se contam suas motivações na feitura do texto. Isso dá algumas informações extras que permitem ao leitor sentir um pouco quem é aquela pessoa que escreveu aquele conto.

Fechando o volume há uma pequena biografia de cada um.

Uma grande sacada a é a ausência de índice.

Morgana Menphis contra a Irmandade Gravibramânica - Alliah

De longe o texto mais divertido da coletânea. Morgana Mephis é uma cantora pop que entra numa batalha contra uma tentativa de genocídio de uma raça alienígena que optou por adquirir de forma artificial sua sexualidade, inexistente no seu planeta de origem. A autora optou por levar tudo ao extremo, tanto a diversidade sexual como as reações homofóbicas em especial as pautadas em convicções religiosas ou políticas. Isso torna o conto extremamente movimentado e, em alguns momentos, carregados de um humor cáustico. Tanto Morgana como sua companheira Amadahy são duas heroínas excelentes. O conto da vontade de ler mais coisas da autora, em especial se tiverem pelo menos uma das duas em ação.

É foda existir – Camila Fernandes

Num texto belíssimo, uma pessoa conta seu amor por outra. Tanto o gênero como a orientação sexual delas vão surgindo lentamente e o desenrolar do final também. Esta forma poética de narrar é o grande destaque do conto.

Eu tenho um disco voador na garagem – Cesar Sinício Marques

Este é um conto que trata da descoberta da homossexualidade por dois jovens, que tem que lidar com as próprias incertezas. Tão imponderáveis quanto à possibilidade da existência ou não de vida em outro planeta. Perfeito, desde o título.

Alternativa A – Rogério Paulo Vieira

Diante de um desastre, a comandante de uma nave tem que tomar uma decisão. Optará por uma decisão racional esquecendo seus sentimentos? O que é uma decisão “racional”? O conto discute a racionalização do ato de esconder a orientação sexual em função da sociedade.

Distúrbia – Monica Malheiros

Um jogador perde algo muito importante em um jogo. Um conto que mistura horror com erotismo e coloca a questão das relações onde há submissão. Quem realmente está no controle?

Eros – Laura Valência Guerra

Um jovem às voltas com sua orientação sexual recebe a visita de um anjo. O conto procura deslindar os meandros da mente em dúvida do jovem, o anjo simbolizando a sua redenção diante de si mesmo. Muito bom!

Sal e Fogo – Cristina Lasaitis

A relação tumultuda de amor e ódio entre duas irmãs. O conflito entre as duas tem como panorama um conflito maior entre o Deus e a Deusa. Entre o socialmente aceito e o comportamento incestuoso das duas. E finalmente, entre o sagrado e o profano, em uma falsa dicotomia. Prosa poética de primeira, mesmo quando a protagonista-narradora despeja seu ódio verborragicamente.



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Cursed City - Horror e mistério numa cidade do Velho Oeste

Cursed City
Onde as almas não têm valor
Autores: M. D. Amado (org.), Alfer Medeiros, Ghad Arddhu, Carolina Mancini, Cirilo S. Lemos, André Bozzetto Jr., Alliah, Georgette Silen, Verônica Freitas, Tânia Souza, Romeu Martins, Valentina Silva Ferreira, Jota Marques, Ana Cristina Rodrigues, Chico Pascoal, Davi M. Gonzales, Yvis Tomazini, Lucas Rocha,  Zenon. Prefácio: Adriano Siqueira.  
Editora: Estronho
Ano: 2011
236 páginas

Sinopse: A partir de um cenário previamente escolhido e de uma temática que mistura western com terror e horror, vários autores atenderam ao desafio proposto por M. D. Amado. Cursed City, a outrora próspera Golden Valley, é uma cidade onde até o mais valente dos pistoleiros teme sair a noite, pois enfrentará a morte certa e cruel. São sugeridos alguns personagens, como Billy Monstrengo, o dono do Saloon e o apache Hodoken e fixado um período: entre 1845 e 1870.

Impressão geral:

Por reunir autores em vários momentos de suas carreiras, alguns iniciantes outros bem experientes, o resultado é um pouco irregular. Todavia alguns autores iniciantes tiveram boas sacadas e souberam desenvolver bem suas ideias.

Merece destaque a capa (furada “à bala”) e os cartazes de “procura-se” que identificam os autores.

Vamos dar uma olhada em cada um dos contos, procurando ser sincero sem desestimular os autores novatos, já que todos têm o mérito de aceitar um desafio desta monta e se posicionaram na rua principal ao entardecer para um duelo com a crítica.

O gigante, a curandeira e a lutadora de Kung-Fu - Alfer Medeiros

O pensamento que parece ter norteado Alfer Medeiros foi: “já que é pra misturar, então que se misture!” E até que a salada mista fluiu bem!

Oricvolver - Ghad Arddhu

Por outro lado, este conto tem alguns problemas de fluidez. O texto parece truncado e fragmentado. Alguns trechos podem melhorar se for dada a devida atenção à pontuação. Outros precisam de uma revisão mais refinada. Sugiro a Ghad Arddu uma releitura tentando se por no lugar do leitor. Ou talvez pedir a um leitor beta, com sinceridade suficiente para apontar falhas de forma objetiva.

Número 37 - Carolina Mancini

Uma mulher caçadora de recompensas chega à cidade. Enfrentará mais do que algum fora da lei.  Uma personagem feminina num universo masculino que chama a atenção dos homens de Cursed City, habituados a vê-las como prostitutas ou vítimas. Uma supresa os aguardará... e também aos leitores

Por um punhado de almas - Cirilo S. Lemos

Este conto retrata muito bem o espírito que norteou a coletânea. Uma boa mistura dos gêneros, desde o título. Excelente!

A balada do coyote - André Bozzetto Jr.

Um pistoleiro famoso é contratado para enfrentar um bando. Quando ele chega mais parece um músico covarde que alguém capaz de fazer mal a uma mosca. O que destaca o conto são suas referencias anacrônicas a músicas dos anos 70, cantadas pelo pretenso pistoleiro.

Just like Jesse James – Alliah

Outra mulher enfrentando um mundo masculino. Final digno de uma boa história de terror.

A mão esquerda da morte - Georgette Silen

Este conto parte de uma boa ideia, porém não totalmente aproveitada. A autora optou por trazer elementos do steampunk, entre eles uma arma poderosa, que acaba ofuscando justamente a mão esquerda da morte, que, no fundo, revela ter um poder pífio. A mão esquerda da morte deveria ser a estrela e não coadjuvante. Apesar deste defeito, o conto tem um bom desenvolvimento e diverte.

Deixe-me entrar - Verônica Freitas

Uma moça abandonada à própria sorte busca sua vingança. Uma boa história de terror.

Demônios da escuridão - Tânia Souza

Outra bem construída história de vingança.

Domingo, sangrento domingo - Romeu Martins

Uma criatura aprisionada busca seu caçador.  O autor busca contar isto de forma original, revertendo algumas expectativas.

Nem sempre a fé te salvará - M. D. Amado

“Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece”. Um bom enredo.

Sally - Valentina Silva Ferreira

A autora é portuguesa e seu texto ás vezes causa a impressão de que é formal demais, sobretudo nos diálogos. O conto tem uma boa premissa e se desenvolve bem.

As desventuras do pequeno Roy - Jota Marques

Roy é um menino que sonha ser um pistoleiro, com o intuito de minimizar o trabalho de sua mãe no saloon. Mas algo está prestes a acontecer. A história tem um bom desenvolvimento e, principalmente um bom final.

Aquele que vendia vidas - Ana Cristina Rodrigues

Um mercador de escravos chega a Cursed City e é passado para trás por um rancheiro. Buscará vingança. Um texto bem escrito.

Duas lendas - Chico Pascoal

Um juiz enforcador chega a Cursed City. É preciso arrumar um “culpado” para que haja pelo menos um enforcamento. A história está bem escrita, mas com um pequeno deslize do autor. Ele nomeia um dos personagens como “o homem mais rico da cidade” e repete este epíteto toda vez que este personagem aparece, sublinhando em itálico. Seria mais interessante dar um nome, ou um cargo ou ambos e ir alternando. Temos um estereótipo (um dos vilões é o homem mais rico da cidade) e não precisamos sublinhar isso. O texto merecia um revisão para contornar este deslize, caso o conto venha a ser publicado novamente.

Ainda dói? - Davi M. Gonzales

Um homem com dor de dentes encontra alguém que se dispõe a arrancá-lo. O dentista improvisado conta histórias macabras para distrair o “cliente” enquanto prossegue com o “tratamento” dentário.

Spoiler:
A história é boa, mas convém levantar um ponto. O enredo está baseado em alienígenas. Tudo bem, porém os envolvidos, supostamente cowboys iletrados, usam o termo alienígena e tratam do tema como se isso fosse parte pelo menos do seu contexto imaginário, o que quebra verossimilhança (H. G. Wells colocará os alienígenas na imaginação popular apenas em 1898). E o autor perde a chance de tornar a história mais interessante: os cowboys não sabem o que são alienígenas, mas o leitor sabe. Em vez de usar a palavra alienígenas, por que não usar descrições toscas que levem o leitor a deduzir isto?

Só o dinheiro dos mortos - Yvis Tomazini

Um roubo a um banco. Normal, não fosse em Cursed City. Bom texto com algumas ideias interessantes. O final é um pouco atropelado. Poderia ser um pouquinho mais fluido.

O fantasma de Fraklin Stuart - Lucas Rocha

Um fantasma atormenta seu algoz. Bem escrita.

Descanse em paz - Zenon

Um homem desmemoriado chega a Cursed City. Coisas extraordinárias estão em seu passado. Uma bem conduzida história de mistério. O final surpresa valoriza o texto.

Sombras - Marcel Breton

Encerrando a coletânea, este conto se propõe a, justamente, dar um final para o livro, se bem que aberto. O apache Hodoken, em sua velhice, conta um episódio que dá uma explicação para pelo menos alguns dos fenômenos que ocorreram na cidade amaldiçoada.

Um bom texto para fechar a coletânea. Serviu também para dar mais profundidade a  Hodoken, arredondando o personagem.

O conto está em primeira pessoa, e dito de forma a denunciar a pouca familiaridade do índio com o idioma, porém está bem escrito demais para alguém nestas condições. Esta é a única falha, que poderia ser contornada com o índio falando com alguém que reproduz suas palavras de forma mais organizada ou o índio se revelando como alguém mais letrado do que fazia as pessoas suporem.




quarta-feira, 20 de julho de 2011

Fruto Proibido: Degustação de Sombras e Sonhos

Lilith - imagem medieval
Fruto Proibido

Tenho diante de mim uma maçã. Vermelha e cheirosa. Apetitosa.
Neste preciso momento eu tenho que decidir se a mordo ou não. Grande bosta, você dirá. 

Talvez se eu lhe contar a história do porquê de minhas dúvidas, você me questione menos ou resolva me virar as costas de vez.
Antes que você me julgue, confesso que sou ateu, ou era até uma semana atrás, quando meu avô morreu.

Não. Não! Não é o medo da morte ou a emoção da ida de um ente querido que me fez mudar minhas convicções. Foi por algo que aconteceu dois dias antes de ele morrer e tem a ver com esta maçã...

Fui o dia em que Angélica, a garota por quem estou apaixonado, foi estudar matemática comigo, lá em casa. Ser o cara que mais entende de matemática no terceiro ano tem lá suas vantagens.

Mas naquele dia meu "estudo" foi interrompido. Minha mãe chamou-me discretamente e pediu para eu dispensá-la. Meu avô estava mal. As crises morre-não-morre do velho estavam me enchendo o saco. Porém era sempre a mim que ele chamava, no momento em que sentia a presença da Morte.

Mais uma vez o caminho da sedução da moça dos cabelos ruivos havia sido interrompido por um velho que devia ter ido em paz há muito.

Mas ele gostava de mim, e eu dele, de certa forma. E já estava começando a ficar habituado com este morre-não-morre do velho. Mas aquele dia estava fadado a ser diferente e não foi porque ele acabou morrendo de vez alguns dias depois. Começou pela maneira como ele me recebeu.

Mal eu entrei no seu quarto e fechei a porta, ele levantou-se da cama de um salto como nunca estivesse estado doente. E a pergunta que ele me fez logo em seguida foi mais atordoante:
— E então? Aposto que você ainda não conseguiu transar com a garota, não é?

Gaguejei, mais pelo inusitado da pergunta do que pelo embaraço:

— N-n-não.

— Ah! Como eu já sabia. Você e Angélica são ingênuos. Demais. Como seus ancestrais de cinco mil anos! Ela é bonita, atraente e não se dá conta disso. E você fica todo cheio de melindres pra se aproximar dela.

— ?

— E tem mais outra garota que desperta seu interesse, Lilian. Ela é um arraso. Muito bonita e senhora de sua beleza. Sedutora. Se veste provocantemente e parece se divertir em plantar esperanças na cabeça de todos os rapazes sem nunca lhes realizar as fantasias.

— Como você sabe disso tudo?

— A palavra é essa. Tudo. Eu sei de tudo. Sei por exemplo que você ontem cabulou aula para ir ao cinema. E você tinha razão: o filme era bom e as aulas eram péssimas.

Ele contou outros fatos de minha vida em detalhes, desde minha infância, cobrindo pequenos delitos que julgava serem só de meu conhecimento. Mas não foram só fatos. Foram também pensamentos íntimos, dúvidas, certezas, fantasias. Olhei para ele com uma cara que denunciava um misto de admiração, espanto e dúvida, e antes que eu lhe perguntasse qualquer coisa, ele me respondeu:

— Eu sou Deus.

Gargalhei.

— Deus?

— Me esqueci. Minha forma humana tem limitações. Velhos são esquecidos. Esqueci que você é ateu. Então, quer que eu prove? O que você quer que eu faça? Algo do nada?

Com um gesto de mão fez surgir diante de mim uma maçã. Esta maçã. Ela 
ficou flutuando no ar diante de mim, girando. Eu olhava incrédulo.

— Pegue-a.

Com alguma hesitação, peguei. Sólida.

— Ainda não acredita? Faz parte. Só Adão não manifestou descrença, por que ele não tinha com que me comparar, mas depois dele, todos os homens, até os com muita fé, até Buda, Krishina e Cristo, em algum momento duvidaram de mim.

Continuava incrédulo e perguntei:

— Por que então você escolheu este velho que aqui está?

— Seria melhor um moço? Uma mulher? Um quarentão? Uma criança?
Diante de mim passou por todas as transformações, voltando por fim a ser meu avô.

Deus ou não, ele era um ser extraordinário. E talvez perigoso. Mil hipóteses passaram pela minha mente: alienígena, demônio, mago, um simples hipnotizador, eu ter enlouquecido ou até ele ser mesmo Deus. Como se estivesse lendo meus pensamentos ele os interrompeu:

— Não sou um demônio, nem isto tudo é um truque. Sou mesmo Deus. Você terá agora que fazer um salto de fé e não farei mais nenhuma demonstração. Não espero que acredite em mim de pronto. A fé sem questionamentos gera intolerância e disto estou farto.

Gostei destas palavras, mas ainda duvidava (e duvido) de ser ele mesmo Deus. E, mesmo que ele fosse, ainda havia mais uma pergunta a ser feita:

— Por que eu?

Meu avô (Deus?) sorriu:

— Você é um novo Adão.

— Novo Adão?

A Criação de Adão - Michelangelo

— Esperei cinco mil anos até que este momento chegasse para corrigir um erro.

— Mas Deus não erra...

— Sim... e não. Eu escolhi o caminho do erro para evoluir. Criei a incerteza. Um lugar escuro onde jogo meus dados e não vejo o resultado. Dentro desta incerteza, criei o Homem. E eu esperava que Adão realmente comesse aquele fruto. Me desobedecendo mesmo. Mas as coisas não saíram como eu queria (e isso foi bom, pois foi fruto da Incerteza). Lilith, a mulher que criei antes de Adão e Eva, tinha como missão seduzir Adão e precipitou tudo, fazendo que Adão comesse o fruto verde.

— Por que esperava que ele desobedecesse?

— Na desobediência, o Homem descobriria seu caminho.

— Explique melhor este história do fruto verde e Lilith.

— Criei Lilith para seduzir Adão, e Eva para ser sua companheira. Lilith veio antes dos dois, feita de barro como Adão. Uma Mulher belíssima. Confiei-lhe os segredos de meus planos e dei-lhe a missão. Só que eu errei a mão na paixão ao criá-la.
Paraíso Perdido - Salvador Dali
"Lilith apaixonou-se por Adão e queria tomar o lugar de Eva. Não aceitou que eu criasse um homem só para ela.
"Em Adão e Eva errei a mão na malícia. Eles eram inocentes demais. Lilith percebeu isso, tentou Eva e fê-la tentar Adão. O fruto ainda estava verde. O Conhecimento do homem nasceu imperfeito. Arte, religião e ciência ficaram unidos apenas por tênues vínculos.
"E agora tenho que corrigir isso. Aqui está diante de você o fruto da ciência do bem e do mal. Dentro de 15 dias estará maduro e você poderá comê-lo. Ou não. Pode comê-lo agora, nunca comê-lo, comê-lo podre, ou na hora certa. Cada uma destas ações trará um benefício e um malefício para a Humanidade. Minha ordem é comê-lo maduro."

Olhei atônito para a maçã, pensando em tudo que ele me disse. Após alguns segundos perguntei:

— Por acaso Angélica é a Eva destes tempos? E Lilian é Lilith, não é?

— Perfeita dedução, meu caro Adão (creio que posso chamá-lo assim). Creio que você já sabe tudo o que precisa saber. Assumirei o papel de avô doente e morrerei daqui a dois dias.

De fato isto aconteceu, e eu estou aqui ainda com o Fruto da Ciência, do Bem e do Mal, verde (a aparência de fruta madura é apenas uma ilusão), com a possibilidade de executar qualquer uma das ações. E com a questão da desobediência na minha cabeça. Preciso de um conselho seu. Depois de tudo o que você ouviu, que devo fazer, Lilian?

Este conto faz parte do livro Sombras e Sonhos, publicado pela Balão Editorial.