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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Tupi or not Tupi. Esta não é questão.


Tupi or not Tupi. Esta não é questão.

Recentemente voltou a cena o Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira, de Ivan Carlos Regina, pela mão de Tibor Moritz, que levantou a bola, e deixou o pessoal fazer algumas embaixadas. Porém a bola caiu no chão e pingou, pingou e Bráulio Tavares deu outro chute levantando um novamente a bola, que nos pés de Roberto Causo e do próprio Moritz voltou a pingar no meio do fandom.

Eu estou vendo a bola vir em minha direção e resolvi arriscar um chute ou uma cabeçada e não espero atingir o gol, pois péssimo jogador de futebol, nem sei onde ele está. Aliás, parece que ainda ninguém sabe, mas o importante é que a bola continue no ar a espera de que alguém saiba onde está o gol ou construa um.

Para iniciar a minha reflexão sobre o assunto antes de colocar a bola novamente em campo partiu dos textos já citados, dos Manifesto da Poesia Pau Brasil e Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, do Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto, de minhas leituras de FC & F e outros gêneros de todos os cantos do mundo e da Opera Madame Butterfly sob a ótica de Katsuhiro Otomo, no curta Magnetic Rose presente do DVD Memories.

Alguém poderia estar perguntando, por que Madame Butterfly? Afinal não estamos falando de literatura brasileira de Ficção Científica?

Eu pergunto: quando pensa em madame Butterfly, qual o primeiro país que aflora a mente? Japão!  Só que ela é uma opera italiana (escrita por Puccini) que se apropria de alguns elementos culturais japoneses e de um momento histórico, onde ocorria justamente a dominação econômica e cultural americana nas terras nipônicas.


E o que fez Katsuhiro Otomo? Criou uma história onde uma nave especial com uma tripulação multinacional (não há um japonês sequer) segue um sinal de SOS que é justamente uma ária de Madame Butterfly. O destino é um grupo de asteróides com um perigoso campo magnético, Sargasso, nome de um mar onde na ficção é palco de naufrágios misteriosos.

Mesmo sem ver o filme, só por esta sinopse percebe-se que o local é uma armadilha. A atração magnética, a atração física por uma mulher, a atração por uma cultura diferente, a busca do lucro fácil e a ilusão de que se pode viver através das memórias compõe o quadro dramático do curta.

Apesar de todas as referencias não serem japonesas, sentimos que estamos diante de uma obra genuinamente japonesa. Por quê? Talvez pela forma? O tipo de narrativa? Ou o aprendizado de mais de um século que tivemos de ver Madame Butterfly como uma referência ao Japão?

Já em o Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto coloca um personagem patético que tenta sozinho salvar o país através de três projetos: um linguístico, um econômico e um político.

Nos interessa o linguístico, já que estamos envolvidos no uso da linguagem como forma de expressão. Quaresma é menosprezado primeiro por querer estudar violão, depois por estudar sem ter formação acadêmica e, por fim querer adotar uma visão nacionalista extrema, ao propor o uso do tupi como língua oficial.

Este é o perigo que temos que evitar. Até onde deve ir nossa busca do nacionalismo? Enfiar um índio numa história de FC fará meu texto ser mais brasileiro?

Eu particularmente penso que somos estrangeiros nesta terra. Nossas origens são européias e se queremos colocar elementos indígenas em nossas histórias temos que fazer um mergulho em suas tradições e crenças, criar uma boa história (um bom exemplo é o herói Tajarê, de Roberto Causo) e... lidar com uma possível rejeição do publico leitor.

Agora, vamos ao texto base, o Manifesto Antropofágico de Ficção Científica Brasileira:

“Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas.

A ficção científica brasileira não existe.

A cópia do modelo estrangeiro cria crianças de olhos arregalados, velhinhos tarados por livros, escritores sem leitores, homens neuróticos, literaturas escapistas, absurdos livros que se resumem as capas e pobreza mental, colônias intelectuais, que procuram, num grotesco imitar, recriar o modus vivendi dos paises tecnologicamente desenvolvidos.”

O que seria este deglutir? Me vem a imagem de sandálias de dedo feitas a partir de garrafas pet. O Cacique Raoni de óculos e beiço de botocudo. Ou o Visconde de Sabugosa, com um laboratório de faz-de-conta. Alias Monteiro Lobato, apesar de não ter aderido ao movimento, é mestre nisto: seus livros infantis têm Saci e Peter Pan, Cuca e Gato Felix, onça e Tom Mix (caubói do cinema mudo). O sítio não vai ao universo, o universo vem ao sítio.

Me vem novamente a imagem de Madame Butterfly, mastigada e cuspida por Katsuhiro Otomo em forma de destroços.

Temos celulares de ultima geração, mas eles nos são roubados nos ônibus apertados. O saci fuma uma pedra de crack em seu cachimbo, acendendo-a com um isqueiro Zipo. A pesquisa é interrompida porque a verba foi desviada pra fazer um jardim na casa do ministro. É esta realidade que não é retratada, segundo Ivan Carlos Regina.

Por fim o próprio texto de Oswald de Andrade nos dá um tema pra uma boa obra de ficção especulativa, se alguém se dispuser a escrevê-la:

“Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.”

Infelizmente o que restou dos Caraíbas está prestes a ser inundado pela usina de Belo Monte.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A Fábrica de Robôs - Karel Tchápek

A Fábrica de Robôs
Autor: Karel Tchápek
Título original (tcheco): R.U.R.:  Rossumovi universálni roboti
Tradução: Vera Machac (direto do tcheco)
Editora: Hedra
Ano: 2010
146 páginas

Sinopse: Peça em três atos, escrita em 1920, que narra o drama da fabricação de entidades humanóides com fins de realizarem o trabalho braçal, e de sua revolta contra seu estado de escravidão.

A Fábrica de Robôs foi o primeiro livro que tratou da fabricação em série de entidades artificiais com a intenção de substituir trabalhadores. Apesar do nome “robô” estar associado atualmente a máquinas, na peça são entidade humanóides de origem biológica.

Karel Tchápek é conhecido por sua visão agudamente crítica e seu humor ácido quando trata de problemas sociais e políticos, como vimos em A Fabrica de Absoluto. Socialista, não poupa nem o socialismo em seu posicionamento às vezes cínico. Por exemplo, um dos personagens explica que os robôs absorvem qualquer conhecimento, mas não tem nenhuma criatividade e, portanto dariam  “bons professores universitários”.

Atenção contém spoiler

A peça começa com um diálogo entre Helena e Domin, gerente da fábrica, e seus sócios. Helena veio com o propósito de tentar libertar os robôs. Ela é confrontada com o fato de que eles eram insensíveis a seu estado, pois eram desprovidos de sentimentos.

Os robôs foram criados pelo Sr. Rossum com o propósito de provar que Deus era inútil e tentava fazê-los o mais perfeito possíveis, apesar de ter um parco conhecimento de anatomia. Seu filho toma a frente do projeto, pois vê uma utilidade prática para os robôs, eliminando tudo que era inútil, no seu ponto de vista: criatividade, sentimentos, sexualidade, paladar e olfato, por exemplo. E melhorando algumas características, como força física e capacidade de aprendizado.

Domin vê a criação do robô com uma forma de libertar a humanidade, reduzindo o custo de produção a quase zero, permitindo aos humanos não mais trabalhar (esta é a visão romântica do progresso). Todavia, ao longo da peça, percebe-se que o que resta aos humanos é o consumo puro e simples, confirmando os temores de Alquist, um dos sócios, que vê nas necessidade do cotidiano a oportunidade do homem evoluir. Alquist em momento de crise faz trabalhos de pedreiro, para manter as mãos ocupadas (isso faz com que os robôs durante a revolta o vejam como um igual).

O robos são construídos aos milhares e logo estão no mundo todo. São usados em diversa funções e como soldados em guerras, já que não têm medo.

Helena não deixa a fábrica e fica por lá, casando-se com Domin (fato bastante improvável, mas tratado com muito humor). Sua motivação oculta é tornar os robos mais humanos, dando-lhe sentimentos com a ajuda de um dos engenheiros. Todavia, quando um dos robôs manifesta um sentimento é ódio que aparece.




A revolta ocorre  e, embora esperada, pega o pessoal da fábrica desprevenido (todos os envolvidos recusam-se a ver o óbvio). A humanidade é destruída com exceção de Alquist, que é obrigado a manter a fábrica em funcionamento, porém é incapaz de fazer robôs vivos. Com a impossibilidade de fazer novas unidades, o robôs também perecerão. Todavia há uma esperança: um casal de robôs manifesta rudimentos de amor e desejo um pelo outro o que faz Alquist rejubilar-se.



A parte menos inspirada da peça é o discurso pseudo religioso do final. Mas mesmo aí vemos a ironia de Tchápek. O homem querendo ser Deus, cria seu sucessor.


O livro é importantíssimo para quem gosta de boa ficção científica e esta interessado em mergulhar em suas raizes.

Algumas críticas presentes:
  • Quando a crise principia, Helena tenta convencer Domin a parar a produção. Domin retruca que deverão produzir robôs nacionalizados em vez de robôs universais. Dando diversidade a eles, passariam a odiar uns aos outros e deixariam os humanos em paz.
  • Helena luta pelos direitos iguais, contra a exploração dos robô, mas tem uma governanta, Nana, a quem pede inclusive para abotoar o vestido.
  • Nana tem um preconceito forte contra os robôs e vê as ações de fabricá-los como afronta a Deus. Representa a religiosidade intolerante.
  • O gerente financeiro, no meio da crise pensa apenas nos dividendos. Quando descobre que tem 500 milhões em caixa, tenta subornar o líder dos robôs, porém aos robôs o dinheiro não faz o menor sentido.
  •  Apesar da crise instalada, não percebem que os robôs em volta deles são uma ameaça, pois são igualmente explorados e podem aderir à rebelião.
  •  Quando um dos robôs se manifesta sobre seu desejo, diz que quer ter escravos humanos trabalhando para ele
  • Os robôs, querendo ser humanos, os imitam no que tem de pior (como diz o próprio Alquist: você já são humanos. Aprenderam a fazer guerra.)
O livro é importantíssimo para quem gosta de boa Ficção Científica e esta interessado em mergulhar em suas raízes. A peça ainda valeria pena ser encenada hoje em dia.

Nerd Shop: 


A Fábrica de Robôs. Karel Tchápek. Livraria Cultura.




domingo, 30 de outubro de 2011

Auxiliares para escritores


Todos que um dia tentaram escrever sentiram falta em algum momento de algo mais formal e organizado para auxiliá-lo na sua escrita que não fossem as velhas aulas de redação da escola.

Alguns escritores costumam dar dicas, de forma organizada ou não, sobre o seu jeito de escrever. E alguns escreveram livros.

Começarei com os livros de Silvia Adela Kohan, recentemente lançados pela editora Gutemberg. Comentarei dois deles, Como Narrar uma História e Como Escrever Diálogos. Ambos são bem didáticos e bastante aconselháveis para quem quer por a mão na massa, tem uma boa ideia, mas não sabe por onde começar. Isso não invalida sua leitura por quem já escreve há algum tempo e quer melhorar sua escrita. Às vezes é muito bom ver dentro de uma estrutura mais organizado aquilo que a gente já sabe empiricamente. Isso é proveitoso até para quem escreve muito bem.


Um outro livro que eu li com bastante interesse foi A Arte da Ficção, de David Lodge, da LP&M pocket (título original The Art of Fiction, tradução de Guilherme da Silva Braga). O livro é uma coletânea de artigos que saíram semanalmente em dois jornais americanos, o Washington Post e o Independent on Sunday. Ele se propõe a mostra vários elementos que compõe o romance, literalmente do começo ao fim: o primeiro artigo é O Começo e o último, obviamente, O Fim.

Em cada capítulo é feito com base em algumas citações de autores ingleses e americanos, e a partir delas, constrói seu texto. A maioria dos livros é bem conhecida do público em geral, mas não é fundamental conhecer a obra citada, pois David Lodge quase sempre contextualiza o texto para o leitor.

São 50 capítulos, abrangendo a estrutura do romance, alguns de seus elementos, como a ambientação, o diálogo, a construção dos nomes de personagens, o título; recursos narrativos, como o suspense, o mistério, o estranhamento; estilos literários como o surrealismo, o realismo mágico, o simbolismo; tipos de romance, como o experimental, o cômico, a metaficção; e a linguagem, como o uso da gíria, a diferenças de linguagens de acordo com o personagem.

Vale ressaltar que o autor dá a devida importância a Ficção Cientítica, dedicando-lhe o capítulo O Futuro Imaginado (usou 1984 como exemplo) e à Literatura Fantástica (usou Edgar Allan Poe como exemplo), dedicando-lhe o capitulo O estranho. Ele usou também como exemplo A LaranjaMecânica, quando falou sobre romances de ideias. Uma observação interessante: quando ele falou sobre 1984, mostrou um detalhe que lança o leitor da época em que foi escrito quase que imediatamente ao futuro, na primeira frase do romance: “Era um dia claro e frio em abril, e os relógios soavam 13 horas.”

Em 1948 (ano da publicação do livro) não existiam relógios digitais. Marcar 13 horas em todos os relógios só poderia estar acontecendo em algum momento do futuro. Uma sutileza de mestre!

Para o pessoal do Steampunk

Quem escreve gêneros onde a história ganha relevância, sabe da importância de uma boa pesquisa. E que nem só de Wikipédia vive o escritor. Existem bons livros de história que abrangem o período onde normalmente os escritores steampunks situam suas narrativas.

O primeiro deles que eu recomendo é História da Vida Privada, volume 4, Da Revolução Francesa à PrimeiraGuerra. Editado pela Companhia das Letras, tem duas versões, uma em capa dura e outra, de bolso. As informações são bastante interessantes e ajudam muito para termos uma ideia bem precisa do período retratado, centradas não nos episódios grandiosos, mas no dia a dia das diversas camadas da sociedade.

Com o mesmo teor há Históriada Vida Privada no Brasil, volume 2, a corte e a modernidade nacional, também da Companhia das Letras, e História da Vida Privada em Portugal à épocaContemporânea, da editora Temas e Debates, ambos somente em capa dura.

Pegando o teor mais político, temos as obras de EricHobsbawn: A Era das Revoluções 1789-1848, A Era do Capital 1848-1875, A Era dos Impérios  1875-1914, todos da Editora Paz e Terra e, abrangendo um período mais longo, Bandidos, onde analisa o chamado “banditismo social”.

Epílogo

Além da leitura formal, é bom ter uma gama variada de leituras, começando pelos seus “colegas de classe”: outros escritores brasileiros e estrangeiros que estão produzindo o mesmo gênero que você.

Além deles é bom ter uma leitura bem variada, abrangendo diversos gêneros, diversas nacionalidades e diversas épocas, não só os de sua preferência. E não se esqueça dos Clássicos!

domingo, 9 de outubro de 2011

Deus ex machina – Anjos e Demônios na era do vapor


Deus ex machina – Anjos e Demônios na era do vapor.
Organizadores: Candido Ruiz, Tatiana Ruiz, M. D. Amado
Autores: Alex Nery, Alliah, Carlos Machado, Daniel I. Dutra, Davi M. Gonzales, Georgette Silen, Leonilson Lopes, Norberto Silva, O. S. Berquó, Paulo Fodra, Rebeca Bacin, Yuri W. Cortez 
Editora: Estronho
Ano: 2011
208 páginas


Sinopse: A expressão latina Deus ex machina pode ser interpretada como Deus é a causa e é usada em literatura quando uma situação insolúvel é resolvida com um elemento inesperado e fora do contexto, uma “forçada” de mão do autor que é o Deus da história. No caso aqui os organizadores resolveram dar o sentido que o senso comum dá à expressão: Deus é a  máquina, já que reúne Deus e máquina na mesma frase e é justamente isto que a coletânea se propõe. Uma mistura de gêneros terror com anjos e demônios e steampunk.

Um dos riscos quando se mistura gêneros é a falta de equilíbrio entre eles, acabando por um deles prevalecer e outro ficar forçado, apenas para cumprir tabela. Neste quesito, os organizadores conseguiram harmonizar o conjunto, com um bom resultado.

A capa esta boa, como tem sido as capas da Estronho, e as ilustrações do interior também, onde a editora continua buscando originalidade. Cada conto é precedido por uma ilustração em uma apresentação do autor e está numa “caldeira”, numerada com o número da página de início e o autor identificado como seu operador.

Há um senão: a combinação do papel sem tratamento (atualmente sendo chamado de “ecologicamente correto”) e desenhos e letras escuras acabou prejudicando a leitura da apresentação dos autores e, em alguns casos, até do nome do conto.

A Diabólica Comédia  - A Conquista dos Mares
Operador: Romeu Martins

O título é uma paráfrase de a Divina Comédia. Um submarino, comandado por um demônio enfrenta hordas de anjos em máquinas voadoras. Emocionante. Em alguns momentos chegamos a torcer pelo demônio.

Alerta de Spoiler!
O que está em jogo? O domínio dos mares, já que o inferno é de Lúcifer e o céu de Deus. Uma boa sacada.

A Seita do Ferrabraz
Operador: Paulo Fodra

Um bom conto de horror com anjos e demônios.  Tem como positivo de abordar um fato pouco explorado da história brasileira a revolta dos muckers, ocorrida no sul do país. O autor merece elogios por ter feito uma pesquisa e colocar os fatos principais em seu enredo de maneira consistente com o elemento sobrenatural.  O elemento steam está apenas en passant. E poderia muito bem ser substituído por qualquer outro elemento mágico ou tecnológico, que não faria diferença para o enredo. Porém isso é uma questão para os puristas do gênero, pois o que importa é que o conto é bom.


Anhanguera
Operador: Norberto Silva

Um padre perde seu rebanho, porém aos poucos os fieis retornam por que tudo o que pedem em suas orações é atendido. Nesta cidade onde todos estão felizes, surge um investigador que acha isso estranho. Outro bom conto onde o elemento steam está en passant. O final é bastante interessante (dizer mais é da spoiler).

O dia do grande Uirá
Operador:  Davi M. Gonzales

O conto divide-se em duas partes, uma contada por um indígena, que tenta encaixar o que aconteceu dentro de seus mitos e outro, de um militar português, num relato oficial. Os dois trechos estão muito bem escritos, com elementos de cada linguagem e cada visão de mundo muito bem colocados.

Neflin
Operador: Carlos Machado

Escavações de uma empresa mineradora topam com esqueletos do que pode ter siso restos de uma grande batalha. Junto às ossadas encontram estruturas metálicas que lembram asas. O autor vai buscar num passado remoto o desenvolvimento de uma tecnologia steam, que poderia ter dado origem àqueles mecanismos. A idéia é boa, mas o vai e vem no tempo dificulta um pouco acompanhar o enredo. Um pequeno spoiler:  A sacada maior do autor é usar um personagem histórico real que fez pequenas máquinas a vapor na antiguidade clássica.

Zeitgeist – Brigada anti incêndio
Operador: Yuri Wittlich Cortez

Patrocinado por um bispo, um inventor tenta construir uma máquina voadora que, segundo ele, subiria até os portões do céu. Contudo ele é perturbado constantemente por um brigadista anti-incêndio que volta e meia faz nova exigências de segurança. Um conto onde predomina o humor, com uma cena emocionante no final e uma piada que fecha a história com chave de ouro.

O Sheol de Abaddon
Operador: Alliah

Outro conto com traços de humor. Uma união aparentemente impossível de um anjo e um demônio é estabelecida para derrotar um inimigo comum. Boa descrição de batalhas.

Avatar de anjo
Operador: Georgete Silen

Um anjo desce ao inferno para enfrentar um inimigo. O começo do conto é muito bem elaborado,aguçando a curiosidade do leitor. Um enredo bem conduzido e um final bem pensado.  

A Obscura história da Sterling Railways
Operador: O. S. Berquó

Um estudante encontra dentro de um  livro uma carta que o conduz a uma investigação sobre o abandono da construção de uma ferrovia  após o desparecimento de alguns trabalhadores e de um engenheiro. 

O pai da mentira
Operador: Lenilson Lopes

Uma bem descrita batalha entre anjos e demônios.

A máquina dos sonhos
Operador: Daniel  I. Dutra

Um pintor frustrado, mas um engenheiro brilhante, resolve seu problema de falta de talento criando uma máquina que lê os as mentes das pessoas, captando suas imagens. Porém a máquina capta mais do que isto. Um bom conto, com um bom ponto de partida.

Os relógios pensantes de sua Majestade
Operador: Alex Nery

Na Índia, um inglês luta ao lado dos revoltosos hindus. Ele tem uma forte motivação para isto. Um conto que tem como pano de fundo a ética da ciência e da tecnologia. Excelente.

Cálico: entre o céu e o inferno
Operador: Rebeca Bacin

Uma mulher é procurada por um anjo para desarmar uma bomba. O plot simples conduz a uma boa e emocionante aventura.

No geral a coletânea é boa, com alguns contos excelentes. Mesmo os contos que tem poucos elementos do steampunk têm algo a acrescentar e principalmente, divertem o leitor.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Dia da Leitura


 
Menino Maluquinho, personagem de Millor Fernandes, obtido na Internet,

A Literatura Fantástica, em especial a brasileira, tem feito parte deste blog desde seu lançamento. E a literatura não sobrevive sem leitores e é para eles que os autores escrevem. Portanto, no Dia Nacional da Leitura, 12 de Outubro, leia um livro de literatura fantástica de autor lusófono (português, brasileiro, angolano, moçambicano, açoriano, etc..).

E boa diversão!

(P.S.: Ouvi dizer que os mitos e lendas açorianos são muito interessantes e têm um pé em Santa Catarina).


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Time Out – Os viajantes do tempo

Time Out – Os viajantes do tempo
Autores: Ademir Pascale (org), Roberto de Sousa Causo, Miguel Carqueija, Luciana Fátima, Álvaro Domingues, Estevan Lutz, Allan Pitz, Mariana Albuquerque. Apresentação: André Carneiro. Ensaio: Edgar Indanlecio Smaniotto. Orelha: Jorge Luiz Calife.
Editora: Estronho
Ano: 2011
120 páginas

Sinopse: Oito contos que têm por base a viagem no tempo. Os, autores, convidados por Ademir Pascale, tiveram total liberdade para criar, tendo como único parâmetro o tema. O resultado foram histórias que abrem um bom leque de visões sobre o assunto.

Déja-vù: O Forte Roberto de Sousa Causo
Uma mulher com uma doença terminal busca em uma viagem, um pouco de realização pessoal antes de morrer. Ao visitar um antigo forte, se vê transportada para uma batalha, século atrás, onde é um dos soldados em luta. A descrição ação e dos pensamentos da personagem ao ser surpreendida no passado, como suas dúvidas e angústias no presente estão muito bem realizados. Há uma ligeira referência a uma possível vida passada, à qual a personagem se transporta, mas isso não é fundamental para o enredo. A preocupação de Causo é uma reflexão sobre a vida, o sofrimento e a morte. Profundo.

A Velha Canção do Marinheiro – Ademir Pascale
O ponto de partida de Pascale são as experiências feitas no navio Eldridge, durante a Segunda Guerra, para torná-lo invisível, que segundo alguns, tiveram resultados inusitados e dramáticos, com parte da tripulação desaparecida. O fato é bastante explorado na literatura especulativa de não-ficção, com algumas teorias mirabolantes. O conto é narrado em primeira pessoa e centra-se no drama pessoal de um destes marinheiros que a cada 72 horas é transportado para outra época. O que mantém sua sanidade é a esperança de um dia numa destas viagens reencontrar-se com sua noiva. Angustiante. Nota dez para referência ao poema “A Balada do Velho Marinheiro”, de  Coleridge.

A Difícil Arte de Lidar com Patrulheiros do Tempo – Miguel Carqueija
Um cientista é visitado por um patrulheiro do tempo, que tem como missão matá-lo, pra evitar um desastre futuro. O conto é centrado na tentativa do cientista em convencer o patrulheiro a não matá-lo. O humor da situação dá o tom.

Pelas Badaladas do Tempo – Luciana Fátima
A autora opta por descrever a viagem no tempo como se fossem devaneios, conduzidas pelo badalar de sinos diferentes em diferentes épocas. Para ser um poema, falta apenas a rima e a métrica. Nostálgico.

Modelo do Ano – Álvaro Domingues
Dois nerds, que especulam sobre viagens no tempo, ao terminar a faculdade se separam e, dez anos depois, se reencontram. Este conto é de minha autoria. Apenas vou dizer que foi muito divertido escrevê-lo, já que é um conto com muito humor. Espero que os leitores se divirtam tanto quanto eu.

A Máquina da Insanidade – Estevan Lutz
Este pode ser considerado o que tem o maior apelo científico dos contos deste volume. O autor especula sobre o determinismo do Universo de uma maneira muito inteligente.

O Último Trem para Plêiades – Allan Pittz
Alienígenas levam um homem comum para ver um planeta similar à Terra onde pode observar o futuro do que poderia nos acontecer. Dizer mais do eu isto vai gerar spoilers desnecessários. Outro conto que tem uma boa dose de humor, sobretudo no desfecho, mas nos faz pensar.

Contra o apagar das Luzes – Mariana Albuquerque
Poderemos lutar contra o inevitável? Uma constatação amarga aguarda temponautas que tentam evitar um desastre de grandes proporções. Para reflexão. Excelente texto. 

Fechando o livro a há o ensaio Viagem no Tempo na Ficção Científica Brasileira: de Observadores a Viajantes do Tempo, de Edgar Indanlecio Smaniotto. O ensaio lança luz sobre esta vertente da FC, escrita no Brasil, desde as primeiras narrativas, onde o futuro ou o passado era observado por meio de algum aparelho tecnológico (por exemplo o poriviroscópio de Monteiro Lobado) ou mágico (O Copo de Cristal,  de Jeronymo Monteiro) até as incursões da Intempol. Muito bom.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Fantástica Literatura Queer – Volume Laranja





Organizadores: Rober Pinheiro, Cristina Lasaitis
Autores: Osíris Reis, Cláudio Parreira, Eric Novell, Renato A. Azevedo, Cindy Dalfovo, Daniel Machado, Kyran, Rober Pinheiro. Prefácio: Luiz Mott.
Editora: Tarja Editorial
Ano: 2011
176 páginas

Sinopse: Segundo volume da coletânea de contos tendo por diretriz a diversidade tanto de estilos, gêneros (fantasia, horror e ficção científica) e sexualidade.

Seguindo a mesma linha da Fantástica Literatura Queer – Volume Vermelho, este livro reúne mais oito contos dentro das temáticas Ficção Científica, Fantasia e Horror, voltados pra a a diversidade sexual.

Neste volume, percebe-se ainda o cuidado na seleção e a qualidade literária dos contos.

Queda – Osíris Reis
Uma narrativa com contornos épicos, como se fosse um recorte de uma imensa batalha de dois anjos contra um grupo de guerreiros dispostos a destruir divindades femininas. A condução do texto é bem emocionante e lembra narrativas mitológicas. Nota dez para o uso preciso e ao mesmo tempo poético da linguagem. Emoção pura.

A Presença Cláudio Parreira
Atenção! Spoiller!
Um conto sobre um homem insatisfeito com seu casamento que passa sentir a presença de um ser que o seduz. Bem escrito, mas com um defeito:  o conto lembra um pouco um dos maneirismos de Wood Allen: criar uma mulher detestável para justificar o adultério. Isso minimiza o conflito. É fácil para o marido insatisfeito se jogar nos braços de outrem (mulher, homem ou espectro), se a esposa não se importa com ele e até o despreza.  Isso torna o conto previsível, ainda que esteja bem escrito. Um conto apenas competente e o mais fraco da coletânea.

Sonhos e Refúgios – Eric Novello
Um mago exorcista, num congresso de magia, faz uma palestra onde conta dois sonhos seus, recorrentes, relacionados com sua sexualidade, que acabam atrapalhando sua profissão. História bem movimentada, com uma leve referência à literatura policial, mas com um pé firme no fantástico.

A Lista: Letras da Igualdade – Renato A. Azevedo
Atenção! Spoiller!
Uma lista de discussões na internet, por algum fenômeno desconhecido, mistura vários universos paralelos, vários Brasis, onde os análogos podem trocar mensagens. Duas destas realidades acabam influenciando uma a outra. Em uma delas vive-se um momento de opressão violenta à diversidade sexual, com perseguição às minorias, na outra a situação é a extrema oposta, com uma ditadura das minorias (manipuladas por políticos inescrupulosos), escudadas em leis de “afirmação positiva”. Em ambos os mundos o que tem em comum é a intolerância, a corrupção dos políticos e a hipocrisia da sociedade.  Faz pensar. O melhor deste volume.

O Beijo de Alice – Cindy Dalfovo
O conto pode ser lido como uma resposta à pergunta: “quanto tempo será necessário para que os seres humanos percebam que amor é apenas Amor?” Basicamente fala, de uma forma muito poética, da mudança de conceitos, da rejeição completa à aceitação plena do amor, ainda que fora dos parâmetros considerados adequados pela sociedade.

A primeira vez de Silvânia – Daniel Machado
Uma transexual, Silvânia, é seguida por um ser sobrenatural em seu trottoir. A personagem é concedida como reunisse em si todas as rejeições preconceituosas: etnia, gênero, orientação sexual e prostituição. Cada aspecto desta personagem é desnudado através dos olhos do ser que a segue, que o leitor acompanha ao longo da narrativa. Muito bom.

Awaken – Kyran
Um padre faz uma cerimônia de exorcismo em um rapaz. O duelo do padre com as criaturas é o centro deste conto. As motivações do padre são questionadas pelos demônios e a pergunta principal é “o motivo da queda de um demônio não poderia ser simplesmente o amor?” Emocionante em vários aspectos.

Eu era um Lobisomem Juvenil – Rober Pinheiro
Nas ruas de São Paulo, um homem trata de seus negócios. Parece ser um simples traficante, mas é mais do que isso. Está em busca de alguém, como um caçador.  Narrado em primeira pessoa, vamos tomando conhecimento da personalidade e das intenções do narrador aos poucos.  A surpresa final fica por conta do letreiro em neón.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Planeta dos Macacos: A Origem

Planeta dos Macacos: A Origem  
Título Original: Rise of the Planet of the Apes
Direção: Rupert Wyatt                
Roteiro:  Rick Jaffa e Amanda Silver , baseado no romance: La planète des singes de Pierre Boulle
Elenco: James Franco, Freida Pinto, John Lithgow, Brian Cox, Tom Felton, David Oyelowo        

Sinopse: Will Rodam é um cientista que busca a cura para o mal de Alzheimer e faz testes em chimpanzés. A droga, baseada em um retro vírus, provoca alterações no cérebro dos macacos. Um deles, Cesar, é criado pelo cientista em sua casa após as pesquisas terem sido suspensas. Tudo vai bem, até que Cesar ataca um dos vizinhos de Will, em defesa ao pai do cientista. Cesar é confinado e após ter sofrido muito nas mãos de humanos, Cesar se rebela e liberta todos os macacos que consegue.

Confesso que estava temeroso a respeito deste filme, pois em tese, era uma refilmagem do quarto filme da série clássica, que era bem ruim. Felizmente, os roteiristas só aproveitaram praticamente o título e nome do macaco.

O roteiro é suficientemente bem elaborado para dar uma explicação plausível para O Planeta dos Macacos, mas não fica só nisso, colocando uma forte motivação ao cientista para prosseguir com as pesquisas (ele tem o pai com Alzheimer), um apego a Cesar e o comportamento instintivo do animal superando seu verniz civilizatório ao ser defrontado com situações limites (seu primeiro contato com a natureza, a agressão do vizinho ao pai de Will e o confinamento forçado com outros macacos e, por fim, os mal tratos sofridos).

O enredo é auto contido e pode ser visto mesmo para quem nunca viu nenhum dos filmes da série clássica ou o filme de Tim Burton. Ou para quem viu e não gostou.

Um destaque especial aos efeitos especiais. Os macacos foram criados em computação gráfica mas não se nota em nenhum momento soluções continuidade nos movimentos e expressões faciais. Houve a preocupação de criar cada macaco individualmente, dando-lhes aparência, expressões corporais e faciais e até personalidades diferenciadas.

Atenção! Spoiler

A cena final ocorre depois de alguns créditos, onde uma doença que só afeta humanos oriunda de um erro de manipulação do retro vírus é propagada por um piloto de avião de carreira, lembrando um pouco o final de Os 12 Macacos.

O filme é muito bom, porém cabe ressaltar um defeito: a forma de ser mostrado como o ocorre a propagação, com um dos personagens lançando perdigotos sangrentos é muito exagerada, como se menosprezasse a capacidade do público perceber isso de uma forma mais sutil. Parece que o diretor esqueceu que o público é o mesmo que conseguiu se sensibilizar com as expressões faciais de Cesar (que, se fosse real, ganharia o Oscar de melhor ator) e dos outros macacos.

Em suma um bom filme que merece ser visto mesmo para quem nunca viu nenhum dos filme da série.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A Fantástica Literatura Queer – Volume Vermelho



Fantástica Literatura Queer – Volume Vermelho
Organizadores: Rober Pinheiro, Cristina Lasaitis
Autores: Alliah, Camila Fernandes, Cesar Sinicio Marques, Rogério Paulo Vieira, Mônica Malheiros, Laura Valença Guerra, Cristina Lasaitis. Prefácio: Luiz Mott.
Ano: 2011
176 páginas


Sinopse: Coletânea de contos tendo por diretriz a diversidade tanto de estilos, gêneros (fantasia, horror e ficção científica) e sexualidade.

Rober Pinheiro e Cristina Lasaitis quando se lançaram nesta empreitada propuseram um trabalho sério, onde o quesito principal deveria ser a qualidade dos textos.  Limitaram um contorno onde a diversidade sexual deveria estar em pauta, como tema ou pelo menos cenário. Não restringiram a participação dos autores ao meio LGTB, mas colocaram limitantes no sentido de excluir qualquer texto com manifestação de homofobia ou de sexismo.

O resultado tanto da quantidade de textos participantes (que demandou uma maratona de leitura dos organizadores), que acabou gerando dois volumes (este, vermelho e outro, laranja) como da qualidade (que pude observar neste volume) foram surpreendentes.

Tanto a capa (fotografia de Katrina Brown) como o projeto gráfico (de Richard Diegues) foram primorosos.

Cada um dos contos é finalizado com um comentário do autor ou de um dos organizadores onde se contam suas motivações na feitura do texto. Isso dá algumas informações extras que permitem ao leitor sentir um pouco quem é aquela pessoa que escreveu aquele conto.

Fechando o volume há uma pequena biografia de cada um.

Uma grande sacada a é a ausência de índice.

Morgana Menphis contra a Irmandade Gravibramânica - Alliah

De longe o texto mais divertido da coletânea. Morgana Mephis é uma cantora pop que entra numa batalha contra uma tentativa de genocídio de uma raça alienígena que optou por adquirir de forma artificial sua sexualidade, inexistente no seu planeta de origem. A autora optou por levar tudo ao extremo, tanto a diversidade sexual como as reações homofóbicas em especial as pautadas em convicções religiosas ou políticas. Isso torna o conto extremamente movimentado e, em alguns momentos, carregados de um humor cáustico. Tanto Morgana como sua companheira Amadahy são duas heroínas excelentes. O conto da vontade de ler mais coisas da autora, em especial se tiverem pelo menos uma das duas em ação.

É foda existir – Camila Fernandes

Num texto belíssimo, uma pessoa conta seu amor por outra. Tanto o gênero como a orientação sexual delas vão surgindo lentamente e o desenrolar do final também. Esta forma poética de narrar é o grande destaque do conto.

Eu tenho um disco voador na garagem – Cesar Sinício Marques

Este é um conto que trata da descoberta da homossexualidade por dois jovens, que tem que lidar com as próprias incertezas. Tão imponderáveis quanto à possibilidade da existência ou não de vida em outro planeta. Perfeito, desde o título.

Alternativa A – Rogério Paulo Vieira

Diante de um desastre, a comandante de uma nave tem que tomar uma decisão. Optará por uma decisão racional esquecendo seus sentimentos? O que é uma decisão “racional”? O conto discute a racionalização do ato de esconder a orientação sexual em função da sociedade.

Distúrbia – Monica Malheiros

Um jogador perde algo muito importante em um jogo. Um conto que mistura horror com erotismo e coloca a questão das relações onde há submissão. Quem realmente está no controle?

Eros – Laura Valência Guerra

Um jovem às voltas com sua orientação sexual recebe a visita de um anjo. O conto procura deslindar os meandros da mente em dúvida do jovem, o anjo simbolizando a sua redenção diante de si mesmo. Muito bom!

Sal e Fogo – Cristina Lasaitis

A relação tumultuda de amor e ódio entre duas irmãs. O conflito entre as duas tem como panorama um conflito maior entre o Deus e a Deusa. Entre o socialmente aceito e o comportamento incestuoso das duas. E finalmente, entre o sagrado e o profano, em uma falsa dicotomia. Prosa poética de primeira, mesmo quando a protagonista-narradora despeja seu ódio verborragicamente.



domingo, 7 de agosto de 2011

Capitão América – O Primeiro Vingador

Título Original: Captain America: The First Avenger (2011)
Diretor: Joe Johnston
Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely
Baseado nos Quadrinos de Joe Simon e Jack Kirby
Produção: EUA
Elenco: Chris Evans, Hayley Atwell, Sebastian Stan, Tommy Lee Jones, Hugo Weaving, Dominic Cooper , Richard Armitage, Stanley Tucci, Samuel L. Jackson, Toby Jones

Sinopse: Durante a segunda guerra, o jovem Steve Rogers deseja se alistar, porém é fisicamente incapaz. Um cientista envolvido com um programa de desenvolvimento de uma raça de supersoldados, vê uma oportunidade de testar sua droga. Rogers seria o primeiro de uma série, porém o cientista é assassinado, o programa é abortado e Rogers é colocado em segundo plano. As coisas mudam quando seu pelotão de origem é aprisionado. Rogers assume então a identidade do Capitão América.

Esse basicamente é o mesmo enredo recontado inúmeras vezes nas HQs da Marvel desde o surgimento do herói em 1941, como parte do esforço de guerra Norte Americano. Há algumas coisas a se observar: o discurso da raça de supersoldados emula o discurso nazista. O Capitão América segue o modelo do herói americano típico, com algumas de suas características amplificadas devido ao conflito: patriotismo exagerado e cego e resolve tudo praticamente sozinho (se bem que neste filme ele monta uma equipe de comandos "politicamente correta" onde inclui um negro e até um improvável japonês, dado o contexto da guerra). Para poder curtir o filme, estes fatos tem que ser ignorados, pelo menos até o final dos créditos.

Quando eu lia as HQs da Marvel nos anos 60, eu não gostava muito do Capitão América justamente pelos pontos apresentados. Eu o chamava de Capitão Reacionário. Continuo achando isso, embora tenha gostado do filme.

O enredo é o esperado, já que o filme foi feito para não desapontar os fãs. O ator que interpreta Rogers/Capitão América o faz de forma caricata, tornando bastante divertidas as situações do jovem soldado Rogers e as inseguranças pessoais do Capitão América.

Um ponto a observar é a estética retrofuturista, que poderia colocar o filme como “dieselpunk”, com artefatos desenvolvidos pelos nazistas que agregam muito mais tecnologia do que realmente existia na época. Às vezes tem-se a impressão que estamos assistindo uma longa propaganda de brinquedos, que certamente serão disponibilizados para compra em breve.

O título por outro lado remete ao próximo filme: Os Vingadores. O objetivo foi apenas contextualizar o Capitão América dentro da realidade dos Vingadores.

Em resumo: se você gosta um do Capitão América, vá ver o filme. Se gosta de HQs em especial da Marvel, também. Mas é bom estar atento para dar algum "desconto" para as patriotadas e estereótipos. Um filme mediano.



quarta-feira, 6 de julho de 2011

Os Mistérios do Mundo Negro

Os Mistérios do Mundo Negro
Autor: Miguel Carqueija e Gabriel Coelho
Editora: Hiperespaço (amadora)
Ano: 2011
40 páginas

Sinopse: A esposa de Bucler Elizondo está tendo pesadelos com um cão negro e busca Alice Chantecler para que a ajude. Alice é uma vidente e percebe que há algo mais que um sonho atormentando aquela mulher.

Miguel e Gabriel retomam a personagem que já havia sido heroína em “As Luzes de Alice” e mais uma vez enfrentará as forças do mal, na mesma estação espacial onde ocorreram os acontecimentos narrados na primeira noveleta.

O enredo é típico de mistério, descoberta e enfrentamento, que tanto agrada Carqueija. O texto é trabalhado misturando o sobrenatural com o tecnológico. Apesar o enredo se passar numa estação espacial, os antagonistas são vistos como algo sobrenatural e não se busca nenhuma explicação científica para os fatos. Isso é aceito por todos, mesmo aqueles que menosprezam o trabalho da vidente Alice, primeiro porque não há tempo hábil para pesquisar coisa alguma e, segundo, porque a administração da estação quer se livrar dos problemas sem que se investigue muito. Há algo sendo escondido, o que dá o tom pra manter o interesse na leitura e para continuações. Por outro lado, Alice se contenta em enfrentar o mal sem se preocupar com explicações outras, apenas baseada no que sente através de sua vidência.

Um outro aspecto a se ressaltar é que o horror coexiste com o humor, que costuma aparecer em alguns dos textos de Carqueija.

Carqueija e Gabriel continuam a ser amarrados pelo tamanho do da narrativa. O enredo proposto pedia um pouco mais de desenvolvimento, ainda que dirigido ao público mais jovem. Isso frusta um pouco o leitor ávido por leitura.

Sugiro aos autores: se houver uma boa resposta, pensem em ampliar um pouco mais o enredo, nas próximas continuações, se houver. Trabalhem o ambiente, dêem mais profundidade aos personagens e desenvolvam mais a trama. Afinal, uma estação colocada no espaço, com algum segredo oculto, que flerta com mas forças do mal é uma ideia muito boa, que com certeza dá pano pra muita manga.

O texto continua fluído e agradável de ler, mas nota-se que é mais rápido e mais próximo de uma HQ. Essa aceleração talvez se deva à presença de Gabriel Coelho, pois foi no ritmo que notei a principal diferença entre os dois textos. 

Para obter o livro, clique aqui.